terça-feira, 19 de março de 2019
Exigências do olfacto
Parece que Shumukh, o mais caro perfume do mundo, lançado no Dubai a semana passada, custa para cima de 1 milhão de euros. Algo não cheira bem nesta informação. Será possível que uma fragrância, tão subjectiva como o arroto de um panda, atinja tal preço? Rigorosamente falando, o exagero encontra-se na garrafa – composta de diamantes, ouro, prata, etc. –, no interior da qual há três litros da odorosa mistura. Claro que nisto como em tudo, hoje como na Idade Média, o que interessa é, sem margem para qualquer dúvida, a essência. Mas o pacote e o recipiente podem ajudar bastante na consolidação desse interesse.
segunda-feira, 18 de março de 2019
Uma condição chata
As sociedades secretas são mundos à parte. Os cemitérios também. Todavia, enquanto nas sociedades secretas há iniciados, nos cemitérios só há concluídos. Fora de uns e de outras vivem indivíduos – aliás, em grande número – que estão obrigados a suportar o íntimo paradoxo de um dia virem a ser concluídos sem nunca terem sido iniciados. Claro que isso não lhes serve de nada. Mas devia, pelo menos, garantir-lhes alguns benefícios fiscais.
domingo, 17 de março de 2019
Método terapêutico (gratuito)
Passeando pelos mercados, o filósofo Sócrates tinha o costume de proferir isto: «Quantas coisas de que não preciso!» Eis uma fórmula interessante, suceptível de integrar um método terapêutico orientado para a cura da oneomania, a doença do consumo compulsivo. Na prática, deverá o paciente entrar num shopping, parar junto à montra de cada loja e dizer em voz alta, sem medo do ridículo: «Quantas coisas de que não preciso!» Ao fim de alguns dias de exercício, o indivíduo poderá ser preso e até acusado de desprezar os deuses do consumo e corromper ardentes seguidores. Mas em compensação já estará livre.
sábado, 16 de março de 2019
A nuvem
Ouvir de forma reiterada, tanto do exterior quanto do interior, em tons múltiplos e situações diversas, o imperativo «Sai da minha nuvem!», como expresso pelos Rolling Stones, pode conduzir o indivíduo a um estado em que se sinta idêntico ao «homem de nenhum lugar», da canção dos Beatles, esse homem que faz para ninguém «todos os seus planos de lugar nenhum». Daí a tornar-se tal criatura um filósofo céptico, desencantado e derrelicto é só um passo. Na etapa mais avançada da doença, o sujeito notará crescer em seu redor a nuvem resultante do acumular da sensação de não pertencer a qualquer nuvem, até que seja ele a dizer a quem lhe invada o espaço existencial: «Sai da minha nuvem!» Ou, numa variante possível: «Vai ver se chove em mim fora da minha nuvem.»
sexta-feira, 15 de março de 2019
Frustrações
Florbela Espanca termina um dos seus sonetos com a seguinte questão: «Quem nos deu olhos para ver os astros / - Sem nos dar braços para os alcançar?!...» Talvez a resposta se encontre no «Poema de los dones», de Jorge Luis Borges, em que o autor alude à ironia com que Deus lhe deu «a la vez los libros y la noche», deixando-lhe assim os livros ao alcance dos braços e uns «ojos sin luz», impedidos de os ler. Se a frustração é a principal substância da vida, não constitui surpresa que ela seja a matéria lírica basilar. Surpresa, sim, é o facto de a Lili dos versos de Drummond, embora não amasse ninguém, ter casado «com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história». Continuam juntos, ao que parece.
quinta-feira, 14 de março de 2019
Conexão e desconexão
Dizem os especialistas que o hemisfério esquerdo do cérebro humano é lógico, temporal, analítico, ao passo que o direito é intuitivo, atemporal, sintético. Implica isto que um colapso no esquerdo, mantendo-se o direito aceso, deve levar o indivíduo a sentir-se fortemente conectado com tudo e todos, enquanto um apagão no direito, conservando-se o esquerdo activo, pode conduzir o sujeito a achar-se intensamente desligado de todos e de tudo. Um místico exagerado propende a estimar a primeira situação; um anarquista irreflectido tende a apreciar a segunda. Porém, o melhor mesmo é ter o cérebro em boas condições.
quarta-feira, 13 de março de 2019
Resumir
Alguém que, trabalhando directamente sobre o ficheiro do original, tenha por tarefa resumir um livro e se comprometa a eliminar, quotidianamente, um determinado número de palavras encontra-se na situação oposta à do escritor que necessita de redigir uma certa soma diária de vocábulos, a fim de responder a exigências editoriais ou, simplesmente, para se sentir bem da pinha. Não sendo o processo apenas de natureza quantitativa, os verbos «limar», «polir», «tosquiar» ou «desbastar» adequam-se à função desse buscador do parágrafo essencial e da frase despojada. Diminuir lombadas sem suprimir ideias é uma discreta homenagem que se presta ao espaço e uma secreta vénia que se faz ao tempo.
terça-feira, 12 de março de 2019
Grandeza e pensamento
Santo Anselmo apoiou-se na ideia de Deus como «algo maior do que o qual nada pode ser pensado» para assim provar a existência do Altíssimo. Ou, em rigor, do Grandessíssimo. Deixemos, porém, o argumento e as objecções contra ele dirigidas, e centremo-nos no interesse prático dessa espantosa representação de «algo maior do que o qual nada pode ser pensado». Trata-se da abstracção preferível para ter na cabeça quando se pretende adormecer, visto que preenche todo o espaço mental e impede o surgir de quaisquer outros pensamentos, incómodos ou inúteis. Mas ela constitui também o melhor conceito para acender no cérebro depois de acordar, porque é bom que se comece o dia com uma grande ideia.
segunda-feira, 11 de março de 2019
Equilíbrio
Aquele que, tendo a reforma longe e a necessidade perto, sinta que «está a mais» numa qualquer profissão poderá, igualmente, sentir que «está a menos» noutra profissão qualquer. É essa, a nível laboral, uma forma de repor o equilíbrio no «modo de sentir», de pacificar a mente inquieta, de superar o medo e a esperança, de transcender o desejo e a aversão, de aceder ao ponto em que os contrários se anulam, de atingir a neutralidade da ataraxia, de fruir o rigor da paz divina, de se tornar rival dos olímpicos deuses, de se conectar com o restante Universo e seus eventuais subúrbios... Quem não precisa de trabalhar alcança o mesmo resultado.
domingo, 10 de março de 2019
Sabedoria de ocasião
Di-lo a anedota: certo indivíduo, que se aproximara – de modo particularmente excessivo – da mulher do seu melhor amigo, viu-se obrigado a ocultar-se dentro do roupeiro da alcova, interrompendo o acto indecoroso. Ao dirigir-se aí para guardar o casaco, o marido atraiçoado deparou-se com o amigo nu e perguntou-lhe: «Que estás aqui a fazer?». A resposta foi a seguinte: «Toda a gente tem de estar em algum lugar.» Embora não se ajuste à questão, essa resposta parece bem pensada, ao pressupor o razoável pensamento de que ninguém existe apenas como sujeito pensante, e deve ter deixado o outro pensativo, talvez a ponto de se julgar diante de um pensador. Aliás, a sabedoria – sob a forma de grandes máximas ou de gestos mínimos – é também para ser aplicada quando menos se espera.
sábado, 9 de março de 2019
Repetição
Quem abra um exemplar de certa edição brasileira da obra Invisible Helpers, escrita pelo teósofo C. W. Leadbeater e traduzida com o expectável título de Auxiliares Invisíveis, poderá constatar que às 128 páginas do livro se acrescentaram mais 16, rigorosamente coincidentes com as 16 iniciais. Talvez essa duplicação, escusada na aparência, seja trabalho de «auxiliares invisíveis», empenhados em deixar a relevante mensagem de que o fim de um ciclo de vida traz consigo o começo de outro. Mas não havia necessidade de que este fosse tão absurdamente repetitivo.
sexta-feira, 8 de março de 2019
A lista do esquecimento
A Uber divulgou uma lista de artigos esquecidos nas viaturas em 2019. Além dos expectáveis, foram deixados, no interior dos carros, objectos e seres tão estranhos como um cão de raça Chihuahua “de oito semanas (cor de café)”, “seis tiras de frango”, um “conjunto completo de dentes de ouro”, um “nó de cabelo e pincel castanho em forma de um pé”, uma “bomba tira-leite”, um “Kit de ADN”, um “pássaro”, “dois pacotes de salsicha italiana e um presunto”, um “bandolim de estilo japonês”, “chifres de veado”, “um capacete de soldagem” – e até uma “cabeça de salmão”. Surrealistas e freudianos devem delirar perante isto. Talvez os veículos representem, por exemplo, uma extensão do inconsciente dos utilizadores, que neles se olvidam de coisas associadas a experiências traumáticas, penosas ou só ligeiramente angustiantes. Vividas, é claro, por eles. Ou por algum salmão decapitado.
quinta-feira, 7 de março de 2019
Livros à prova de fogo
David Hume encerra a sua Investigação sobre o Entendimento Humano – obra na qual defende, por exemplo, o carácter infundado da ideia de conexão necessária entre a causa e o efeito – com um apelo de bibliocasta que em nada o dignifica: o de que se lançassem às chamas os volumes de teologia e de metafísica escolástica, portadores apenas, a seu ver, de «sofisma e ilusão». Consta que nos Estados Unidos uma igreja foi, recentemente, devastada por impiedoso incêndio. As bíblias, no entanto, resistiram. Talvez David Hume visse aí uma prova ardente de que entre a causa «fogo» e o efeito «queimar» não há, na verdade, uma conexão necessária. Mas o facto obrigá-lo-ia, também, a propor métodos mais eficazes para a destruição de livros. Sobretudo daqueles que só contêm «sofisma e ilusão». E que, por isso, até o lume enganam.
quarta-feira, 6 de março de 2019
Gatos paradoxais
O bichano da experiência mental do Gato de Schrödinger pode encontrar-se, simultaneamente, vivo e morto, privilégio raro, mas possivelmente não exclusivo. Lewis Carroll, por sua vez, pôs Alice em contacto com o Gato de Cheshire, que possuía a faculdade de aparecer e desaparecer, de repente ou devagarinho. Noutra história, ao regressar a casa, o pateta Gohâ ouviu a mulher dizer que o gato roubara e comera o quilo de carne que ele tinha comprado. Colocando-o numa balança, o homem constatou que o mamífero pesava um rigoroso quilo. Duas questões lhe surgiram: «Se tu és o meu gato, onde está a carne? Se tu és a carne, onde está o meu gato?» Ali havia gato. Ou antes, não havia. Melhor ainda: havia e não havia gato. Um gato a aparecer e a desaparecer. Como o Gato de Cheshire. Ou talvez vivo e morto. Como o Gato de Schrödinger.
terça-feira, 5 de março de 2019
Ideias e narizes
Se, em vez do «Penso, logo existo», tivesse afirmado «Algo pensa, logo esse algo existe» (em sintonia, aliás, com a prudência que o caracterizava), Descartes chegaria a conclusões idênticas àquelas a que chegou, exceptuando as referentes à natureza de um hipotético e duvidoso «eu». Aplicando o enunciado à prática, o filósofo viveria em «terceira pessoa», atribuindo as suas reflexões e experiências a esse «algo» sem nome, sem rosto, indefinido. «Se o nariz de Cleópatra fosse mais curto», escreveu Pascal, «toda a face do mundo teria mudado». Analogamente, se Descartes houvesse intuído e realizado o acima exposto, a história posterior seria bem distinta do que foi. De resto, aquilo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, é uma fonte de implicações quase infinitas, num campo onde a verdade se confunde com a mentira e os narizes possuem a elasticidade das ideias.
segunda-feira, 4 de março de 2019
Tédio
As últimas palavras de Winston Churchill terão sido: «Eu estou entediado com tudo.» Já Richard Feynman, após ter dito que odiaria morrer duas vezes, acrescentou: «É tão chato.» Numa interpretação possível, revela-se-nos aqui um duplo tédio. E tanto o do primeiro quanto o do segundo podem sugerir que o momento crítico foi, afinal, um instante de tranquilidade exagerada, tão exagerada que se tornou aborrecida. Mas, tediosas ou não, ambas as situações transportam um recado subliminar para ouvidos atentos: nem o fim da vida é interessante nem o início da morte é especial. Quase apetece bocejar.
domingo, 3 de março de 2019
Classificar os prazeres
Stuart Mill diferenciava «prazeres superiores» de «prazeres inferiores». Epicuro distinguia «prazeres em repouso» de «prazeres em movimento». Mas Fernando Pessoa aludiu a um tipo de prazer, rebelde e anómalo, que não se encaixa, com rigor, em nenhuma de tais classificações: o de «não cumprir um dever». Trata-se, frequentemente, de um prazer intermédio, nem espiritual nem corporal – e que se move em direcção ao repouso.
sábado, 2 de março de 2019
As irrevogáveis falhas
Só quem publica em suporte de papel se encontra em condições de experimentar o suplício resultante da consciência do erro – moral, científico, ideológico, estético, gramatical, etc. – que certa conjugação de caracteres irrevogavelmente fixou. Remédio indefectível para tal flagelo seria um dispositivo que apenas o autor (ou algum cúmplice) tivesse permissão de accionar, à distância, e que fosse capaz de corrigir os exemplares com as falhas detectadas, assim como eventuais fotocópias dos excertos em causa e, claro, as memórias individuais que os retiveram, sem esquecer os seus efeitos práticos. Mas estaríamos diante de um poder – mais que humano e até mais que divino – susceptível de alterar o passado, de trazer desarranjos às leis da natureza e de conduzir, em breve, ao apocalipse. Então talvez seja preferível lidar com os lapsos, fazer terapia ocasional e frequentar as aulas dessas criaturas raras e especiais que são os Mestres Infalíveis.
sexta-feira, 1 de março de 2019
Velar um ângulo
Os ângulos agudo, recto, obtuso, raso, côncavo, giro e nulo encontraram-se no velório do ângulo morto. «Era um ângulo íntegro», disse o recto. «E perspicaz», acrescentou o agudo. O raso destacou-lhe a modéstia: «Parece que ele exigiu ser sepultado em campa rasa.» O côncavo também quis falar: «O que lhe aconteceu podia ter acontecido…» «A qualquer um de nós», completou o ângulo giro. O nulo manteve-se em silêncio. O obtuso concordou com tudo o que ouviu.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
«Mente de macaco»
A expressão «mente de macaco» é usada, em contexto budista e fora dele, na caracterização da tendência da mente humana para saltar de pensamento em pensamento, de forma desregrada, leviana, infrene, obsessiva, num processo susceptível de causar ao indivíduo algumas agruras de natureza psíquica. Há técnicas de meditação para aquietar esse terrível caos. Elas tornar-se-iam, contudo, dispensáveis se cada macaco soubesse estar no respectivo galho. Mas o problema é que a «mente de macaco» também existe na «mente do macaco». Nunca deve esperar facilidades quem enfrente esta grande macacada.
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