sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Livros de memórias e de esquecimentos

Muitos se lembram de redigir um livro de memórias. A ninguém ocorre escrever um livro de esquecimentos. A maior parte dos livros de memórias cai no esquecimento. Talvez a maior parte dos livros de esquecimentos ficasse na memória. Não consta, porém, que o destino seja tão equilibrado no exercício das suas ironias.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Esse obsessivo escultor





Chamaram-lhe «esse grande escultor». Sim, o tempo esculpe – e não há troço de matéria nem fragmento de espírito que lhe não sinta o cinzelar paciente, exercido sem peremptório desígnio nem categórica absurdidade. Mas existe outro predicado, menos óbvio, desse artista tão universal. Ele é, acima de tudo, um irrecuperável perfeccionista: desde o distante momento do «Fiat lux» (e até inclusive antes de a luz surgir com a estranha missão de rasgar as trevas primitivas), não consta que o tempo, esse obsessivo escultor, tenha já dado por concluída alguma das suas obras.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Corpo e alma

Em carta a José Bento de Araújo Assis, Camilo Castelo Branco escreve, como premissa a apoiar uma conclusão estranha (em que alude ao «pó organizado que a Providência desata com dores»), que a sua «alma não foi previamente consultada sobre se lhe convinha ter corpo». Talvez o argumento mantivesse a mesma força se o autor de Amor de Perdição dissesse que o seu corpo não foi previamente consultado sobre se lhe convinha ter alma. Aliás, o suposto ser que efectuasse a prévia consulta ver-se-ia, provavelmente, em dificuldades para descobrir o ponto exacto onde a alma termina e o corpo começa, ou onde o corpo finda e a alma desabrocha. De resto, desde que Eva e Adão (primeiro as senhoras) foram expulsos do Éden, corpo e alma têm existido misturados, confusos, esquivos à hermenêutica. Aproveitando tal condição, substituem-se, muitas vezes, um ao outro, mormente se isso for de interesse mútuo. Compreende-se, pois, a relutância que ambos nutrem ante a hipótese de regressarem, um dia, ao Paraíso. 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Perspectivas

Somente vistas e imaginadas a partir de fora podem as humanas vidas ser consideradas interessantes, sobretudo se beneficiarem de narrativas que as mitifiquem ou de representações que as elevem ao estatuto de arquétipos.  Se observadas e sentidas a partir de dentro, apenas um optimismo alienígena, uma fantasia tenebrosa ou outra condição patológica é capaz de impedir que tais vidas sejam experienciadas como um conjunto (em proporções diversas) de perdas explícitas, fracassos anunciados, sonhos quebradiços, rotinas sem mérito, actos sem espessura e vitórias sem consolo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Meditar

Meditar não consiste em suprimir conteúdos mentais, antes em mantê-los a confortável distância, deixando-os fluir, num cenário em que nada se fortifica e tudo se observa: palavras soltas, imagens quebradas, desejos fracturados, memórias diluídas, expectativas lassas, desassossegos frouxos. Claro que nada disto se consegue sem o esforço inerente à prática do não-esforço ou da letargia sublime do pensamento. Torna-se, pois, necessário transcender o hemisfério cerebral direito e o hemisfério cerebral esquerdo, como quem vence, em termos ideológicos, a ilusão da esquerda, o desacerto da direita e a incapacidade de distinguir ambos os equívocos. A inteireza começa onde os partidos acabam.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

As portas

René Magritte, A Vitória, 1939.

É amplamente sabido que o termo porta tanto designa uma abertura rectangular (chamemos-lhe porta 1) como a peça, também rectangular, que fecha tal abertura (chamemos-lhe porta 2). Nesse sentido, a porta 1 – achando-se, por natureza, sempre aberta – é condição necessária para que se fale em abertura da porta 2, a qual – estando, por essência, sempre fechada – é condição necessária para que se fale em fechamento da porta 1. Por conseguinte, as expressões “porta aberta” e “porta fechada” ou são, de certo modo, redundantes – se, respectivamente, se referirem à porta 1 e à porta 2 –, ou são, em parte, duvidosas e, em parte, contraditórias – se aludirem, respectivamente, à porta 2 e à porta 1. Claro que um texto assim começa a ficar pouco arejado. Será melhor abrir uma janela. E sair, a voar, através dela. (A rima foi aqui mera sequela.)

sábado, 25 de janeiro de 2020

Alvo modesto

A ideia segundo a qual todo o ser humano anda em busca da felicidade – tenha esta a forma que tiver – afigura-se uma evidência quase a roçar a tautologia. Ela carece, no entanto, de sustentação empírica. Além disso, uma séria escavação nos domínios do inconsciente permite apontar num sentido bem mais modesto, a saber: é possível que qualquer indivíduo, mesmo rotulando o alvo da sua existência com a palavra «felicidade», tente apenas extinguir ou eliminar infelicidades – nascidas e alimentadas entre os limites que o corpo ignora ter e as ilusões que a mente ousa criar.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Respiração de um verso

«Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas», escreveu Herberto Helder. Claro que nem tudo o que se ouve dizer se deve levar a sério. Mas neste caso justifica-se, vivamente, a confiança. E não será necessário matutar longamente em redor do verso e daquelas «luzes transformadas», prejudicando, com tal atitude, o legítimo sono. Basta pensar que os mortos têm, muitas vezes, comportamentos estranhos. Sobretudo quando respiram.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Virtudes do trabalho

Embora tal facto o não isente de responsabilidades no que a alguns processos de aviltamento se refere, evidentemente que o trabalho dignifica. O problema é que ele anda tão ocupado que até já se habituou (nem sempre com êxito) a confiar ao ócio tão nobre tarefa.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Gurus

Há apenas um guru realmente confiável: aquele que se aninha dentro da própria consciência do eventual discípulo ou seguidor. Mas no âmago de tal guru outro se encontra, mais confiável do que ele, sendo que no íntimo deste último um outro se achará, ainda mais confiável. A busca só termina no infinito. O derradeiro guru será, esse sim, absolutamente confiável. Todavia, nos lugares infinitos dispensam-se os gurus. Nos lugares finitos também.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Reunião sem acta

Convocados por não se sabe quem, a fim de discutirem não se sabe o quê, reuniram-se, em dia e lugar incertos, estes sete seres: Sua Magnificência, Sua Santidade, Sua Eminência, Sua Majestade, Sua Reverência, Sua Alteza e Sua Vulgaridade. Do encontro, conforme expectável, nada de frutífero resultou. Cada um ficou na Sua.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Circunstâncias

Quem de conforto térmico desfrute dar-se-á ao luxo de contar ao mundo que o frio é só mania psicológica. Quem de dinheiro nunca sentiu falta dar-se-á ao luxo de exprimir ao orbe o lado enganador dos bens terrenos. Quem de saúde não se vê privado dar-se-á ao luxo de explicar ao outros ser a doença uma invenção mental. Expressamo-nos sempre desde o núcleo de uma determinada circunstância: a nossa, claro, a nossa, obviamente, mesmo se ela exigir metamorfoses. Mudo – e alheio a toda a conjuntura , o Infinito, se falar pudesse, provavelmente não diria nada.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Duas crenças

Trata-se de duas crenças de certo modo paralelas. A primeira crença mostra-se útil para alimentar pequenas desculpas. É a dos indivíduos que, independentemente de qualquer gravidez, juram trazer dentro de si uma criança. Como se eles próprios ainda não tivessem nascido. A segunda crença revela-se útil para nutrir grandes vaidades. É a dos indivíduos que, independentemente da idade cronológica, gostam de anunciar ao mundo que são pessoas vividas. Como se eles próprios já estivessem mortos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Desejos

Qualquer que seja a influência que sobre tal fenómeno o pensamento mágico possa exercer, costumam verificar-se, por esta altura, no tocante à conjugação da linha temporal com as aspirações individuais, duas atitudes: a generalista e a minimalista. A primeira é a dos que desejam (aparentemente aos outros e categoricamente a si mesmos) um «bom ano», ou algo similar; a segunda é a dos que preferem concentrar-se no imponderável instante que faz a ponte entre o ano que emerge e o que se extingue, havendo, neste caso, duas tendências a ter em conta: a dos minimalistas proactivos, que desejam «boas entradas», e a dos minimalistas retroactivos, que desejam «boas saídas».

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Notícias

Após o confronto com muitas daquelas notícias cujos títulos, sedentos de cliques, se referem a factos que «prometem correr mundo», a coisas que estão «a dar que falar» ou a algo que «já se tornou viral», e depois de se haver constatado que, no fundo, nem as promessas se cumpriram, nem as falas se excederam, nem os vírus se propagaram, concluímos que tudo isso é uma consagração do fútil, um tributo à irrelevância, uma homenagem à vacuidade.

sábado, 21 de dezembro de 2019

A chuva sobre as ovelhas


Enquanto flechas de chuva lhes ferem o lanígero envoltório, as ovelhas parecem adquirir uma espécie de imobilidade meditativa, como se apenas aguardassem o dilúvio definitivo ou o solene ingresso na Unidade primordial, onde se apagam as disparidades e se diluem as semelhanças, onde o ser e o nada trocam amigavelmente de lugar, onde os balidos se não diferenciam dos silêncios. O rio cresce, engole as margens. E, observando o espectáculo por entre carvalhos nus, aqueles animais, sentindo já na pele a ferocidade líquida, assumem essa postura quase enigmática, tolhidos de espanto, moldados de quietude.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Aparência e essência

O principal defeito da aparência é o facto de insistir em manifestar-se. O principal defeito da essência é o facto de insistir em esconder-se. Entre uma e outra existimos nós, cheios de lacunas, falhas, erros, frequentemente a tentar achar o equilíbrio entre a essência e a aparência, ou até a sonhar com um ponto ideal, situado para lá das duas, um ponto que nem se oculte nem se exiba, mas consiga ser a negação simultânea de ambos os processos – qualquer coisa assim como coisa nenhuma.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Solução intermédia

«Nada te perturbe. Nada te espante», recomendava Teresa de Ávila. A imperturbabilidade constitui, de facto, um princípio de sabedoria – ou até o fim de certas ilusões. Mas a ausência total de espanto, sobretudo para quem não costuma ter experiências místicas, atira-nos para um limbo rigorosamente insípido. A solução do problema (se algum houve) é de natureza intermédia e reside no espanto imperturbável – essa tranquila homenagem ao Universo indiferente.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Expulso ao intervalo

No recente jogo entre o Palmeiras e o Flamengo – disputado em casa da equipa de São Paulo –, um sexagenário, adepto do Palmeiras, foi expulso do estádio, ao intervalo, por outros torcedores do mesmo time, em virtude de ter passado a primeira parte do encontro a ler um livro sobre Karl Marx, numa espécie de protesto devido aos maus resultados do seu clube. Em vez de aderir à chinfrineira, o homem optou pelas vias da mais compenetrada mudez. Não há incompatibilidade existencial em ser-se adepto de futebol, de Karl Marx, da leitura e do silêncio. Mas convém não exibir, em simultâneo, a defesa de tantas causas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Estremecer

Há muita cabeça que, à semelhança da de Herberto Helder, «estremece com todo o esquecimento». Há muita cabeça que, similarmente à de qualquer cidadão, estremece com toda a memória. Consta haver também uma ou outra que, graças a técnicas de meditação aprofundada, julga que encontrou o equilíbrio perfeito entre a recordação e o olvido, a ponto de já não mais estremecer. Tal significa viver sem cisma nem sismo. É sempre bom ter isto na memória, se não for preferível esquecê-lo.