sábado, 23 de novembro de 2019

"As portas da percepção"

Por vezes é inevitável: o transeunte pousa os olhos na salamandra esmagada sobre o asfalto, junto à folha de bétula que o vento para ali trouxe. Ao invés do que supunha William Blake, mesmo que «as portas da percepção» estejam limpas, o infinito não se mostrará: tudo o que aparece à consciência surge circunscrito, limitado, definido. Mas talvez do lado de lá da salamandra desfeita, da folha tombada, do vento inquieto e do transeunte ocasional exista uma espécie de lugar negativo, habitado pela não-salamandra, pela não-folha, pelo não-vento, pelo não-transeunte, pelo não-tudo. Aí, o infinito manter-se-á oculto. Mas «as portas da percepção», logo que se abram para esse espaço, devem ficar inteiramente limpas.

2 comentários:

  1. Fiquei feliz ao constatar que o consciente ocupa apenas 5% do cérebro humano. Os outros 95% são ocupados pelo inconsciente. Que alívio!!!!!

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    1. Quando está em causa o inconsciente, talvez as percentagens sejam sempre falíveis :)

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