domingo, 29 de setembro de 2019

Mitigação verbal

Se for possível, em termos verbais, mitigar as consequências, mais ou menos funestas, resultantes de uma escorregadela, por exemplo, em casca de banana, aqui fica um contributo nesse sentido: em rigor, não é o indivíduo quem escorrega no referido invólucro; é a casca de banana que, esmagada entre o calçado e o chão, sofre a inevitabilidade de escorregar em si mesma.

sábado, 28 de setembro de 2019

Epígrafe discutível

Eugénio de Andrade inicia o livro “Matéria Solar” com a seguinte epígrafe, da autoria de Vladimir Holan: «Ser não é fácil… fácil, só a merda.» A primeira parte da tese parece refutável: ser é facílimo; difícil é o «dever ser», que põe o ser em conflito consigo mesmo. No tocante à parte excrementícia, talvez Vladimir e Eugénio tenham olvidado essa chatice pouco poética chamada prisão de ventre.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Sala de espera

Eis uma pergunta insensata: quantas salas de espera existirão no Universo? Eis outra, basicamente estranha: não será o próprio Universo uma sala de espera? Mas espera por quê ou por quem? Por coisa nenhuma. Nem sequer por Godot. Uma espera desprovida de objecto. Absurda. Incondicionada. Inefável. Pascal sentia-se aterrorizado pela eterna mudez dos espaços infinitos. Talvez isso o deixasse, até, no limiar do desespero. Talvez, inutilmente, ele aguardasse ouvir alguma voz na grande sala de espera do silêncio.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Nada

Luís XVI escreve no diário, em 14 de Julho de 1789, apenas isto: «Nada.» Nesse dia ocorreu a Tomada da Bastilha. «Não é nada», terá dito e repetido, no limiar da morte e da Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Fernando da Áustria, em 28 de Junho de 1914, após baleado por Gavrilo Princip. Sartre achava que o nada reside «no próprio seio do ser, no seu coração, como um verme». Consta até que o mundo foi criado a partir do nada. Ou terá sido destruído? O nada é um verme altamente misterioso.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A mosca

Hoje é o Dia Mundial do Sonho. E uma expectável mosca pousa, sem cerimónia, sobre o ecrã do Surface. Resvala involuntariamente ao longo da página em branco do Word. Esfrega as patinhas dianteiras, enquanto persiste em derrapar com as outras. Volta à situação anterior. Inicia agora um movimento normal, como se quisesse fazer de conta que vive acima de qualquer deslize. Não tarda, talvez entediada, irá levantar voo. E o texto chega ao fim. 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Leilão do eu

«Fiz leilão de mim», escrevia Artur Ribeiro e muitos o cantaram. A hasta correu mal: ninguém quis saber do lote em causa. «Diz-me a pouca sorte / que para castigo / até vir a morte / vou ficar comigo», desabafa o sujeito poético. Certo, no entanto, é que a pessoa que seja capaz de «ficar consigo até à morte» – ou de coabitar com a sua persistente e inevitável sombra –, sem conflitos internos que a dilacerem nem discórdias auto-punitivas que a torturem, jamais terá necessidade de fazer leilão de si mesma. Ou de arrematar outro eu.

"Fiz Leilão de Mim" (Tony de Matos): aqui

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A omnipresença da vaidade

«Eu, que disse mal das Vaidades, vim a cair na de ser Autor», escreve Matias Aires no prólogo do seu livro mais proeminente. O problema é que a extinção da vaidade ocorre se, e apenas se, ocorrer a extinção do eu – ou da ilusão que o eu constitui. Significa isto, portanto, que não existe a vaidade de não ter um eu – embora a tentativa de se despojar dele, a fim de abolir a vaidade própria, resulte, com frequência, de um impulso da própria vaidade.

domingo, 22 de setembro de 2019

Promessas

Se a beleza, como diria Stendhal, «é a promessa da felicidade», resta saber se o é da felicidade eterna, se da provisória. Felicidade eterna é promessa de tédio. Felicidade provisória é promessa de angústia. Há algo de saudável em desconfiar das promessas.

sábado, 21 de setembro de 2019

A pedra

É célebre o poema de Carlos Drummond de Andrade que se inicia com o verso «No meio do caminho tinha uma pedra» e se conclui com o verso «No meio do caminho tinha uma pedra». As duas estrofes, aliás breves, nada acrescentam sobre a origem de tal pedra e são omissas quanto ao destino desse pedaço de matéria. Há poesias assim: tropeçamos nelas como na vida. «No meio do caminho tinha uma pedra.» Outra no meio do poema.

"No meio do caminho" (em vários idiomas): aqui

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Os despertos

É tentação comum a vários seres humanos, que, nesse âmbito, adoptam, com frequência, rótulos de cariz religioso, filosófico, científico, artístico, gastronómico ou de outro teor: achar que grande parte dos semelhantes dorme, sendo que só eles se encontram despertos e com missão de acordar tais infelizes. Mas a realidade tem o costume atroz de se revelar sempre um pouco mais complexa. Sono e vigília não se opõem: complementam-se. E são muitos os níveis em que se desperta, diversos os planos em que se adormece – e totalmente legítimos os motivos que levam alguém a desejar voltar a adormecer, mesmo logo depois de despertar.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Simultaneidade

A frase, da autoria de Woody Allen ou de outro filósofo, diz que «o tempo é a forma que a natureza encontrou para evitar que tudo aconteça em simultâneo». Mas já a Teoria da Relatividade – se não quisermos recuar dois milénios e meio, até Parménides – obriga a reescrever tal axioma, à luz da perturbadora concomitância de passado, presente e futuro numa espécie de eterno agora: «O tempo é a ilusão que a consciência produziu para evitar confrontar-se com o terrível facto de tudo existir em simultâneo.»