sábado, 30 de novembro de 2013

O PERMANENTE

       Filósofos de diferentes culturas decidiram, um dia, rumar ao desconhecido, buscando «Aquilo que permanece». Venceram montes, desceram ribas, calcorrearam desertos, suportaram tempestades – até que o descobriram. Em seguida, procuraram dar-lhe nome. Surgiram várias propostas, nenhuma consensual: Infinito, Uno, Deus, Espírito, Eternidade, Nirvana, Totalidade, Ser, Essência, Verdade, Substância, Absoluto, Universo, Consciência, Tao, Ain Soph, Brahman. Após longas horas, alguém se lembrou de lhe chamar «Nada». Registou-se um acordo pleno. E todos, em uníssono, soltaram este aforismo: «Nada permanece.»

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

PRIMAZIA CRONOLÓGICA

       Um não foi autorizado. Perguntara: «Posso fumar enquanto rezo?» Outro recebeu licença. Questionara: «Posso rezar enquanto fumo?» Diferencia os dois casos uma distinta precedência cronológica das acções – ou das intenções subjacentes. Conta-o Fernando Blázquez: achando no portal onde costumava ir «desbeber», além da cruz (desenhada na véspera), o axioma «Onde se põem cruzes, não se mija», o poeta Quevedo acrescentou: «Onde se mija, não se põem cruzes.» Frequentava o espaço há mais tempo. E voltou a urinar.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ENTRE O SER E O NÃO-SER

     O objecto foi ideado por George Lichtenberg: uma faca sem lâmina, à qual falta o cabo. Representá-lo exige quatro momentos: primeiro surge a faca; de seguida, esvai-se a lâmina; depois, dissolve-se o cabo; por fim, usando-se o próprio objecto, efectua-se um corte que separa a «faca ainda presente» da «já ausência de faca». Trata-se, portanto, de um objecto que origina intervalos mentais: um alívio para os pensadores; uma bênção para os torturados; uma inutilidade para os idiotas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

DUAS PERGUNTAS

       A questão encontra-se no poema Domingo de Manuel da Fonseca: «Que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre como se fosse uma festa?...» Acrescente-se-lhe outra, igualmente encomendada à esfera dos enigmas, colhida em Stevenson, n’A Ilha do Tesouro: «Se jamais se viu um espírito com sombra, como haverá um que faça eco?» Mora aqui a resposta à sinuosa angústia anterior: «Aos domingos, se te faltar inclinação gregária, torna-te espírito: não deixes eco nem emanes sombra.»

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O ANEL E A INVISIBILIDADE

      Conta-o Platão: Giges, pastor ao serviço do soberano, achou um anel de ouro. Voltando o engaste para a parte interna da mão, tornava-se invisível; rodando-o para fora, tornava-se visível. Que fez? Seduziu a rainha, matou o rei e tomou o poder. Perante o cenário, ter-se-á de admitir que a causa da invisibilidade é plural: está presente no anel, mas também no dedo e no acto giratório. Só desta forma se assegura a conveniente invisibilidade do próprio anel.

sábado, 23 de novembro de 2013

MEMÓRIAS

      Não desejava partilhar as suas memórias, embora quisesse libertar-se da sombra delas. Decidiu então redigi-las em pleno ar, à altura dos olhos. Num amplo terreno, onde se erguiam duas árvores, passava dias a agitar o indicador direito, enchendo o espaço de parágrafos invisíveis. Volvido um tempo, os raios de sol, persistindo nas copas das árvores, deixaram de tocar aquele chão. Densas de desespero, as lembranças escritas teciam uma nuvem incorpórea que a luz era incapaz de atravessar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

SONO APLICADO

       O volume que, em geral, inseria debaixo do travesseiro onde dava descanso ao cérebro acolhia a Constituição. Outros, no entanto, igualmente de pendor jurídico, tinham ali lugar em noites próprias. Estudante de Direito, acreditava que, dormindo com os livros sob a cabeça, receberia por osmose inconsciente o saber aí expresso. Se alguém lhe perguntava a razão daquela atitude, justificava-se de um modo que o defendia da acusação de preguiçoso: «Enquanto sonho, gosto de estar acima da lei.»

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MUDAR DE IDEIAS

      O pensamento filosófico de Friedrich Schelling terá passado por mais fases que a própria Lua: cinco ao todo, rezam os especialistas. Face ao desaforo, perguntar-se-á com legítima apreensão: como levar a sério este indivíduo tão intelectualmente volúvel? A culpa, todavia, é da realidade material: consta que, pelo menos a nível subatómico, ela jamais soube estar quieta. Objectar-se-á dizendo-se que tal pormenor não explica tudo. Certo. Mas, se tal pormenor explicasse tudo, nunca os filósofos mudariam de ideias.

sábado, 16 de novembro de 2013

O TÚNEL

      Sugere-o Rousseau: a instituição da propriedade privada – e dos estragos inerentes – deu-se com aquele espertalhão que, tendo cercado um terreno, disse: «Isto é meu!» Alguns ingénuos acreditaram nele. O resto é conhecido. No entanto, a origem do problema deve ser muito anterior. Certo australopiteco passou por uma experiência de quase-morte. Obviamente viajou ao longo de um túnel pessoal e intransmissível. Ao regressar do transe, exclamou: «Esta caverna é minha!» Referia-se ao túnel. Mas todos entenderam outra coisa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

INFINITUDE

     Nicolau de Cusa defendeu algumas teses sobre o infinito – onde coincidem os opostos – usando argumentos bastante persuasivos. Sem esforço, ele demonstra, por exemplo, que num círculo infinitamente grande a circunferência equivale à tangente: «curvo» e «recto» não se distinguem. Ora o infinito fica longe: deve ser exorbitante o preço do bilhete. Daí que o pensamento, para não abandonar a finitude, aceite facilmente o que lhe dizem acerca desse algo indefinido que, mudo e remoto, nunca deixou pistas. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CORRESPONDÊNCIAS

        Inspirados no interseccionismo pessoano, podemos elaborar ousadas correspondências, até que a realidade se desvende. Hobbes caracteriza a vida humana, no estado de natureza, como «solitária, pobre, sórdida, brutal e curta». Antes dele, Maquiavel disse que os homens são «ingratos, volúveis, dissimulados, esquivos ao perigo e cúpidos de lucro». Talvez as más qualidades apontadas n’O Príncipe traduzam o resultado, inconsciente, das péssimas circunstâncias sugeridas em Leviatã. Contamos cinco nos dois casos: a mão que escreve nunca foi isenta.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

EXPLICAÇÕES

      Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Obedeci ao conselho: parei na terceira página. Mas estou, finalmente, decidido a ler uma obra de Lobo Antunes: Explicação dos Pássaros. Adquiri-a em edição primeira. Lá dentro, marcador suspeito, achava-se uma embalagem de dez comprimidos para dormir: seis ainda resistiam. Estranharia menos se descobrisse a liga da duquesa no breviário do capelão. O clínico detalhe convida-me à leitura. A mente funciona por enigmas. As aves são mais fáceis de entender.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O OLVIDO DO OVINO

      Martin Heidegger produziu três ideias acerca do «ser» que desaguam numa conclusão perturbadora. Primeira: «O ser foi esquecido.» Segunda: «A linguagem é a casa do ser.» Terceira: «O homem é o pastor do ser.» Então o que é o «ser», se reunirmos numa só estas loucas perspectivas? É um ovino que passa a noite no curral da linguagem e que o homem apascenta durante o dia, embora sem consciência de o fazer – porque olvidou esse animal obscuro.

domingo, 10 de novembro de 2013

IMPOSSIBILIDADE

      Num lote de livros que adquiri – na altura não o explorei de forma exaustiva –, descubro um volume escrito pela catalã Cecilia A. Mantua, editado entre nós pela Figueirinhas. Metade deste exemplar encontra-se por abrir, reclamando espátula, faca ou xis-acto; a outra metade aparece irremediavelmente desfeita, com centenas de papelinhos amontoados, fruto do labor de ratos minuciosos. Em síntese: uma parte está fechada, outra parte está perdida. Só falta mesmo referir o título: O Nosso Amor é Impossível

sábado, 9 de novembro de 2013

ERGUER O BRAÇO

       Difícil na elaboração do texto é escolher as palavras de abertura, as de fecho e as que fazem a ligação entre umas e outras. Apesar da contrariedade, aproveitemos esta pergunta de Wittgenstein: «O que resta se eu subtrair o facto de o meu braço se erguer ao facto de eu erguer o meu braço?» Resta a intenção – ou nada. Mas o que geralmente conta é a intenção. Satisfeito com a resposta, Ludwig? Então pode baixar o braço.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A BAGAGEM

      Embora ao afirmá-lo ninguém tenha entrado ainda na barca de Caronte, poucos evitam fornecer conteúdo à expressão «O que se leva desta vida». Seria, claro, excessivo sustentar que dela «nada se leva»: pelo menos alguns átomos integram a bagagem. Mas acrescentar a isso a feijoada, a cerveja, o festim, as leituras, as viagens, as meditações, etc., constitui um mero exercício de auto-justificação. Sabendo-o, os deuses eventuais não nos censuram: eles apreciam o lado humorístico das nossas existências.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O ABSURDO

     Há cem anos, Albert Camus entrou num mundo «privado de ilusões e de luzes». Estrangeiro de alma, acabaria por reconhecer que a vida é absurda. Tal conclusão mostra-se promissora: livra-nos da maçada de perguntar pelo sentido último e pelas causas primeiras. Ironicamente, no interior da lúcida revolta, não caminhamos sós: «Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre.» Se preferirmos, até que a morte os separe. Ou os una em definitivo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

EXORTAÇÃO

      Inserta em aforística ode, a exortação de Ricardo Reis «Põe quanto és no mínimo que fazes» interessa, sobretudo, a artistas, filósofos e místicos: de alma inteira e corpo integral, achar-se-á a interior grandeza. Tal axioma, contudo, para ser aplicável a tarefas braçais, reclama acrescentos: «Põe quanto és no mínimo que fazes, mas só se estiveres a fazer o mínimo. De contrário, toma cuidado: não vale a pena obedecer à máxima e vir depois a padecer das costas.»

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CICLO EXISTENCIAL

      Vem n’A Náusea e gera tédio: «Todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso.» Poderia dizer-se o contrário e nem assim se perderia eficácia: «Todo o existente nasce com motivo, prolonga-se por vigor e morre por decreto.» À nudez do absurdo persistente opor-se-ia a capa do destino irrevogável. Embora fecundo e enfático, o axioma de Sartre presta homenagem ao desencanto: nasceu sem ilusões, prolonga-se por teimosia e morrerá por excesso de evidência.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

TRÊS POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS

      Se a teoria do caos fizer sentido, então qualquer acto se pode traduzir em uma de três consequências: a irremissível destruição do Universo, o seu melhoramento apoteótico ou a mudança mais ou menos trivial. Até agora, nenhuma das duas primeiras possibilidades foi concretizada. Claro que as borboletas continuam a bater as infatigáveis asas e a desencadear terramotos ou a aprimorar savanas. Mas a vibração que elas emitem ainda não teve tempo de dar a volta ao Universo.

domingo, 3 de novembro de 2013

DISPERSÃO

     Passou (creio) por uma depressão. Tentou suicidar-se. Mas o termo que usa para designar a antiga doença não parece o clinicamente correcto. Em lugar de «depressão», fala em «dispersão». Com razoável desconforto, evoco imediatamente, sem os verbalizar, alguns versos de Sá-Carneiro: «Perdi-me dentro de mim…» Digo-lhe que é a outra a palavra certa. Da próxima vez, porém, repetirá a «dispersão». Insistirei. Sem sucesso. Há palavras, mesmo equívocas, que se tornam coisas – quando as coisas se tornam labirinto.

sábado, 2 de novembro de 2013

LUGAR DESCONHECIDO

      Periandro de Corinto pediu a dois homens que se encontrassem, algures, com um terceiro e o matassem e enterrassem; ordenou a quatro que assassinassem e sepultassem os anteriores, e requisitou um bando para fazer o mesmo àqueles quatro. Periandro – que era o terceiro – deixou assim desconhecida a sua derradeira morada. Como se, por natureza, ela o não fosse já. «Assear as campas» personaliza o que a estatística despreza; mas não torna menos incógnito o lugar da morte.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

«ESQUINADO»

      Ela diz que o marido, morto por iniciativa própria, era mau quando lúcido, sofrível quando bêbado, execrável quando esquinado. Em seu entender, «homem esquinado» equivale a «ébrio extremo», vítima da ingestão excessiva de duas bebidas alcoólicas diferentes (ou mais). Também a esquina é ponto de fusão de duas ruas. Ignoro se exponho a mensagem exacta, se estou apenas a interpretá-la. De qualquer modo, a interpretação é o encontro de duas visões do mundo – exercício «esquinado» por natureza.