sábado, 31 de agosto de 2013

PALAVRAS

        Tomás de Aquino deixou mais de oito milhões de palavras. Imaginemos uma tradução d’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e multipliquemo-la por vinte e quatro. Extenuante cordilheira! Perto do fim, o santo terá tido uma visão que o levou a afirmar que tudo quanto escrevera lhe parecia palha. Dolorosa ironia! Há filósofos que necessitam de forjar muita prosa – e ainda de visões sobrenaturais – para extrair uma conclusão que um aluno medíocre do secundário atinge sem qualquer esforço.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

1817 OU MAIS

     Ante a afirmação de Boswell de que era impossível refutar a doutrina imaterialista de Berkeley, Samuel Johnson bateu com o pé fortemente numa pedra e disse: «Refuto-a assim.» Conta Eça em Civilização que, na vasta biblioteca, Jacinto reunira mil oitocentos e dezassete sistemas filosóficos – apenas «os que irreconciliavelmente se contradizem». Talvez nem haja tantos. Há, sim, teses e antíteses que se contradizem através de mil oitocentos e dezassete argumentos. Ou mais – quando se filosofa com os pés. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

FOJO DO LOBO



Fojo do Lobo (Samardã)

       Uma hora de passos ágeis leva-me ao fojo do lobo, onde Camilo «granizou» uma fera entretida com tinhosa rês. Emoldura-o o negrume de fogos recentes. Coroando uma fraga, a lápide que ali perdura – já mutilada – é também memorial indirecto de ligeiro fiasco: Camilo pouco incomodou o lobo. Talvez isso, nos «únicos felizes anos» da sua mocidade, pressagiasse malogros mais sérios, em fojos menos tangíveis, culminando no revólver de Seide. Um corvo, ao longe, fere a manhã clara.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

UM MUNDO SEM HUMOR

        Imaginemos um mundo onde, graças a rigorosas causas transcendentes, se torna impossível qualquer momento de humor. Aí, a linguagem, não apenas a verbal, terá uma objectividade esmagadora. Os movimentos dos corpos nunca excederão certos padrões eternos, embora desconhecidos. Nem o destino inventará ironias nem os genes forjarão os músculos do riso. Não havendo razões para piadas que libertem, não as haverá também para reveses que descompensem. Eis, portanto, o mundo ideal – e uma anedota muito mal contada.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

OS LUGARES DE SETEMBRO

       «Em Setembro, onde estarei?» Tal pergunta, nesta altura, colocam-na milhares de professores (entre eles me incluo). «Numa qualquer escola do rectângulo – se nalguma», eis a genérica resposta. «Um dia de cada vez!», recomendam os sábios. Afinal, o Ministério da Educação apenas almeja fomentar nos docentes a vivência absoluta do eterno hoje – e o espírito indomável de aventura. Pessoalmente, dispenso a gentileza. Volto à questão: «Em Setembro, onde estarei?» «“Setembro”, agora, é com inicial minúscula», corrigem-me os entendidos.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O ALÍVIO QUE VEM DEPOIS

Contaram-mo. Certo adolescente, descobrindo maneira de infligir pequenos choques eléctricos em si mesmo, decidiu fazê-lo com regularidade. Doloroso? «Sim», confessava o moço, «mas depois é cá um alívio!» Os psicólogos chamam «reforço negativo» ao desaparecimento do estímulo adverso. Ignoro como designam esse impulso de buscar a dor só para fruir o bálsamo da sua extinção. Porém, a níveis diversos, de modo mais ou menos voluntário, todos os humanos são incorrigíveis adolescentes a brincar com a corrente eléctrica.

domingo, 25 de agosto de 2013

CLONAR JOHN LENNON

        Um dentista pretende clonar John Lennon a partir do ADN de um dente que possui do célebre músico. Subjazem a este tipo de fantasias a crença feroz no determinismo genético e o inaceitável menosprezo da noção de «identidade pessoal». A circunstância vivida pelo clone será irremediavelmente outra; outra será também a criatura lançada a viver a nova circunstância. Com base em sugestão antroponímica, diremos que talvez seja possível clonar o John; mas é impossível clonar o Lennon.

sábado, 24 de agosto de 2013

O AVANÇADO INSTANTE

      O país era carrancudo. Mas ele descobrira dentro de si um pensamento que invariavelmente lhe punha alegria no espírito e euforia na alma. Tratava-se do seguinte: «Este instante é o mais avançado da nossa história.» Durante anos fixou-se em tal asserção, repetindo-a centenas de vezes, ao longo dos dias, em jeito de mantra. Daí resultou tornar-se uma criatura esfuziante: cantava entre sisudos, ria entre infelizes. Desiludidos, muitos comentavam: «Este indivíduo é o mais atrasado da sua geração.»

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

OS DOIS DIAS

       Porventura desejoso de exibir ataraxia estóica, alguém afirmará que o dia da sua morte «será igual aos outros, apenas mais curto», esquecendo de referir o do nascimento (ou o da concepção, se buscamos rigor), frequentemente ainda mais curto que o da morte. Aquele que cessou de recear a Ceifeira mencionará os dias primeiro e último com imparcialidade. Talvez sejam ambos absurdos – e os restantes os imitem. Contudo, até nisso verá mero detalhe quem ascendeu a imperturbáveis cumes.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

AS DUAS MANHÃS

       Escreve-o Bernardo Soares: «A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete.» Deve, por conseguinte, haver algures entre o campo e a cidade um ponto de fusão das duas manhãs. Será o lugar adequado aos que apreciam sínteses e convergências. Pode, no entanto, haver igualmente um ponto de omissão, um ponto onde a manhã do campo não «existe» e a manhã da cidade não «promete». Será esse o espaço ideal dos que preferem margens e silêncios.  

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

TÉCNICA RADICAL

      Para os pensamentos que julgava «inadequados», e que os livros de auto-ajuda qualificavam de «negativos», descobrira, finalmente, o auspicioso antídoto. Ao farejar-lhes a indesejada proximidade, imaginava-se vítima de decapitação rápida. Isso traduzia-se, em termos biológicos, no corte providencial dos canais percorridos pelos fluxos menos sensatos com que a alma atazana o corpo. Mas aquela representação mental – que, apesar de mórbida, ele achava «amplamente adequada» – acabaria, graças à sua força e persistência, por torná-lo vítima de decapitação efectiva.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

RELIGIÃO E INTELIGÊNCIA

          Anunciam-no recentes estudos: os espíritos religiosos mostram-se menos inteligentes que os incréus. As religiões, claro, são múltiplas; os tipos de inteligência também. Mas os estudos não o sonegaram e definiram operacionalmente ambos os conceitos: de um lado, o pensamento analítico, abstracto; do outro, algumas práticas concretas. Existe, pois, muito a investigar. De qualquer modo, admitindo a fiabilidade dos resultados, fica-se com a dolorosa sensação de que o tipo de inteligência em causa terá escasso fulgor no Paraíso.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

OS ESCARAVELHOS COMUNS

       Wittgenstein propôs a imagem: cada um dispõe da sua caixa e só vê o interior dela. Todos usam a palavra «escaravelho» para designar o conteúdo. E todos, minimamente, se entendem. Mas pode não existir qualquer escaravelho. Leibniz considerava ser cada alma uma das infinitas mónadas do Universo. Nenhuma possui janelas. Ainda assim, todas falam do interior – e do exterior – da sua «caixa». E todas, minimamente, se entendem. Somos mónadas a conversar sobre escaravelhos que talvez não existam.

domingo, 18 de agosto de 2013

POEMAS DO OUTRO LADO

        Leio o Parnaso de Além-Túmulo, colectânea de poemas que o médium Chico Xavier psicografou de espíritos de cinquenta e seis vates, incluindo o de Antero de Quental. Chego à conclusão, porventura errónea, de que a alegada existência após a morte, embora preserve algum talento dos poetas, uniformiza estilos, dilui inquietações, impõe clichés. Talvez o «nosso mundo» seja fútil, sombrio, ilusório e tolo. Mas – até prova em contrário – só mesmo «deste lado» é que Antero «interroga o infinito».

ANEXO

Para uma eventual comparação, seguem-se dois sonetos. O primeiro foi escrito por Antero de Quental, naturalmente quando ainda estava vivo. O segundo foi supostamente ditado pelo espírito de Antero (já liberto do cárcere terreno) ao médium Francisco Cândido Xavier, fazendo parte de um conjunto de 19 composições, de igual estrutura, integradas na referida colectânea:


Evolução

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pacigo...

Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental


Depois da morte

Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,

Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!

E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,

Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas.

Francisco Cândido Xavier

sábado, 17 de agosto de 2013

SILÊNCIO

        Pergunto-lhes se têm «ódio ao silêncio». Um dos alunos esclarece que, para silêncio, bastará quando estiverem «debaixo dos torrões, na companhia dos mudos». O enunciado é violento. Tornar-se-ia, contudo, mais suportável se o moço optasse por expressões como «sob o solo», «junto aos incapazes de grito ou asserção». Preferiu, no entanto, os «torrões» pesados e a «mudez» contrafeita. Entendo a aparente escolha. O medo irreflectido do silêncio, inseparável do terror da morte, não permite eleger palavras brandas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

«DUAS COISAS»

       Se alguém, sobretudo em debates, afirma que só quer «dizer duas coisas», justifica-se a apreensão: talvez tenhamos prosa fatigante. Se, em vez de duas, anunciar que pretende «dizer apenas uma», justifica-se o suspiro de alívio: talvez tenhamos prosa abreviada. Neste contexto, a diferença entre «uma» e «duas» não é matematicamente exacta: é a diferença, inconsciente, entre dar um passo com que o eu vai directo ao assunto e dar infindáveis passos entre o assunto e o eu.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

DIVISÕES E SEPARAÇÕES

       Escoto Erígena dividia a natureza em quatro partes. Duas são a «natureza criadora e incriada», que é Deus, e a «natureza não criadora e incriada», que o é também. (Deixemos as sobrantes.) Ora o exercício de cindir o divino aguça o humor que permite suportar o humano. Durante um jantar, alguém questionara o filósofo acerca do que separava um Escoto («Scot») de um bêbado («sot»). Sentado do outro lado da mesa, Escoto terá respondido: «Apenas esta mesa.»