quarta-feira, 29 de maio de 2013

O INFINITO E UM INSTANTE

        Dividindo por zero a unidade, Bhaskara obtinha o imperceptível infinito. Também lograra calcular o instante em que os deuses consentiriam as núpcias da filha, destinada ao celibato segundo previsões astrológicas. À queda da última gota do vaso superior da clepsidra deveria suceder o «sim» de Lilavati. Mas uma pérola desprendera-se-lhe do colar, indo impedir a passagem da água derradeira. O desejado instante copiara o infinito: surgira sem o dizer, durara sem se mostrar, partira sem ser notado.

domingo, 26 de maio de 2013

AVERSÃO

       Sempre depois de fornecer os dados para as facturas, murmurava: «Odeio expor-me!» Não raro, em diálogos e monólogos, dizia: «Detesto converter-me em palavras!» Muitas vezes, no seu facebook, declarava: «Irrita-me que me obriguem a transformar-me em assunto!» A t-shirt que vestia com frequência mostrava ao mundo a seguinte mensagem: «Abomino revelar-me!» Deixou uma carta de suicídio junto a um diário que mantinha há anos. Nela podia ler-se que a repugnância em falar de si se tornara insustentável.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

VERIFICAÇÕES

       Quando era o último a sair de casa, retrocedia sempre a fim de confirmar se nenhuma luz ficara acesa. O exercício, em média repetido três vezes, complicou-se mais ao surgir-lhe uma ideia desconcertante: «para ver se as lâmpadas se encontram apagadas, sobretudo em compartimentos sombrios, há a necessidade lógica de as acender». Ultrapassou este contratempo fazendo-se acompanhar de uma lanterna. Após cada utilização, retirava-lhe as pilhas: não tinha (assim reflectia ele) qualquer interesse em duplicar o drama.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

SUPERSTIÇÕES

        As almas supersticiosas não se limitam a subscrever manifestações consagradas de pensamento mágico: inventam as suas próprias fórmulas, intermináveis. Fazendo-o, nutrem a cisão interior: de um lado, a entidade que impõe a lei; do outro, a que lhe provará os alegados frutos. Tal cisão opõe, de modo radical, o pé direito – teimosamente o primeiro a transpor a porta, em direcção à rua – ao esquerdo – que, nessa altura, consegue ser o último a deixar o rasto em casa.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

GAVETAS EXIGENTES

        Escrevia para a gaveta – isto é, para uma das várias lá de casa. Porém, aquela atitude acabaria por atear nas restantes o ciúme típico dos compartimentos fechados. Apercebendo-se do mal-estar geral, optou por escrever para todas as gavetas. Nem assim contentou a maior parte, ressentida com a mediocridade dos textos. Decidiu então deixar de escrever para as gavetas. Ainda pensou fazê-lo para baús, frigoríficos, fornos e tulhas. Mas nada disso valia a pena. Já chegava de aborrecimentos.

sábado, 18 de maio de 2013

TRINDADE E FUTEBOL

         Baseando-se em Gregório de Nissa, Karen Armstrong salienta, em Uma História de Deus, que no século IV as pessoas discutiam questões teológicas, sobretudo as ligadas à Trindade, com um entusiasmo igual àquele com que hoje se discute futebol. Convém, todavia, sublinhar que a qualidade do entusiasmo é inseparável da natureza da argumentação: no caso da Trindade, as discussões, em geral sérias, terminam facilmente no vazio; no caso do futebol, as discussões, amiúde vazias, culminam facilmente no ridículo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O VENDEDOR DE METÁFORAS

        Vendia metáforas. O pregão esconjurava lugares-comuns: «Metáfora fresquinha!» Cada caixa encerrava, em papel, um exemplo daquela figura de estilo. Certo dia, já fraco o negócio, um cliente, poeta medíocre em busca de fama, recebera uma caixa sem nada dentro. Insatisfeito, voltou-se para o vendedor, erguendo o objecto à altura dos olhos: «Não vejo aqui metáfora nenhuma!» O outro, que o conhecia bem, retorquiu: «Isso não me surpreende.» E, após essa data, optou pela venda exclusiva de ironias.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O LUGAR DAS DÚVIDAS

        Era acérrimo seguidor do cepticismo de Pírron. De nada estava certo, nem sequer disso mesmo. Esse esquema intelectual conduzia-o a intoleráveis regressões ao infinito. As suas dúvidas tinham adquirido vida própria e adejavam em seu redor como abutres em torno de um cadáver. Dispunha, no entanto, de uma «verdade póstuma», que escolheu para epitáfio: «Aqui descansam as minhas dúvidas.» Enganara-se. Após a morte, elas rumaram aos espaços vazios. Nenhuma dúvida, por natureza, conhece a plenitude do repouso.

domingo, 12 de maio de 2013

GOSTAR DE LER

       «Gosta de ler?» A resposta, se afirmativa, culmina frequentemente na aceitação do estéril pasquim, da revista paupérrima, do livro que pede clemência pelo simples facto de existir. Pior é se a isto se junta a obrigação social da leitura. Ora «gostar de ler» não equivale a «gostar de ler tudo». Se ambas as partes tiverem em conta este genuíno preceito relativamente ao exemplar em causa, talvez lhe adiem o ingresso no contentor – ou noutras filiais do esquecimento.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

DECLÍNIO

         Políticas lamentáveis haviam conduzido aquele país a um generalizado declínio. Em certa rua, outrora exclusivamente destinada ao comércio, todas as lojas tinham encerrado portas. As montras surgiam agora forradas a páginas esquecidas de jornal. Tal rua convertera-se num espaço onde se passaram a criar grupos espontâneos que discutiam assuntos irrelevantes ou forjavam silêncios duradouros. Psicólogos e sociólogos explicavam estes comportamentos dizendo que uma das formas de ainda nos sentirmos vivos é mantermo-nos de pé entre notícias mortas.

terça-feira, 7 de maio de 2013

«NO MAN’S LAND» E «NOWHERE MAN»

Garante Bertrand Russell que a filosofia, zona intermédia relativamente à teologia e à ciência, é uma «Terra de Ninguém». Poderá ver-se aí o pólo oposto do «Homem de Lugar Nenhum», que os Beatles concederam à posteridade. Mas «lugar» é sempre mais pessoal que «terra». Por conseguinte, a «Terra de Ninguém» jamais exclui o «Homem de Lugar Nenhum», antes lhe oferece o espaço necessário à invenção do seu «lugar» e do «alguém» que nessa «terra» ele procura ser.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

PARA AUTORES POTENCIAIS DE LIVROS DE AUTO-AJUDA

         Quem tencione escrever um livro de auto-ajuda deve basear-se nos ditames «Pensa positivo!» e «Agarra o instante!», banir de todo a análise crítica e adoptar um discurso convencional, onde não faltem «energias» e «visualizações». Para redigir um segundo livro de auto-ajuda, importa suprimir a tentação de inovar relativamente ao primeiro. Leitores fiéis de literatura do género chegam mesmo a temer irrupções inquietantes de originalidade eventual. Em vez de tal coisa, esperam só que a «ajuda» se repita.

sábado, 4 de maio de 2013

A GARGALHADA

          Em certa publicidade, a senhora dona Florinda apresenta o seu testemunho: «No meu tempo era uma tristeza. Não havia nada. Agora há tudo. Comíamos pouco, trabalhávamos muito.» A estas palavras segue-se uma gargalhada aparentemente inoportuna. Numa altura em que o Governo anuncia novas medidas de austeridade, no que se afigura o projecto de uma austeridade sem medida, aquela gargalhada sugere-nos menos satisfação do que ironia, menos a crença num cenário próspero que um vaticínio de índole nefasta.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

RUMO AO SILÊNCIO

           Em poucos anos, aquele país conheceu três acordos ortográficos: no primeiro eliminaram-se as «consoantes mudas»; no segundo, as «não mudas» (apesar do sentido alternativo da expressão, a mudança revelou-se pacífica); no terceiro aboliram-se as vogais. Hoje, comunica-se essencialmente através dos liames do pensamento. Publicam-se livros que se reduzem a capas, sem indicação visível de autor, título ou editora, unidas por lombadas de tamanho variável. A leitura, dizem os especialistas em silêncio, nunca foi tão solene e criativa.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

TRANQUILIDADE E DIFERENÇA

        Se ouvirmos um canalha, no âmbito de uma óbvia canalhice, afirmar que está de consciência tranquila, tendemos a supor que ele mente ou, então, não sabe do que fala. Abandonemos a inocência desta disjunção. Pode suceder que tal canalha saiba exactamente do que fala e, pior que isso, esteja mesmo tranquilíssimo de consciência. Se adoptamos o princípio da diferença para respeitar os direitos do outro, adoptemo-lo igualmente para afastar ilusões quando o outro decide desrespeitar os nossos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A CONCRETUDE DA ABSTRACÇÃO

        Procurar saber o momento certo para arralentar milho constitui uma preocupação formalmente diversa da de buscar esclarecer as relações entre «essência» e «existência». Tolerando alguma inexactidão, daquele problema se diz ser «concreto»; deste, «abstracto». Convém, todavia, lembrar que os efeitos corporais – do cérebro ao fígado, do mendinho ao artelho – são, para ambos os casos, igualmente concretos. Daí se conclui que, em termos simultaneamente biológicos e estatísticos, ninguém se afasta do «mundo concreto» ao entregar-se à digressão abstracta.