segunda-feira, 18 de março de 2013

CONFUSÕES

        Há alturas em que decidimos ver a alegada grandeza de um desafio na quantidade de tempo que perdemos a antecipá-lo. Depois de ultrapassada a experiência, de revogados os escolhos, e se a sensatez ainda fizer parte do que somos, percebemos que, afinal, não existia «grandeza» alguma e que na circunstância a que chamávamos «desafio» projectáramos unicamente o medo do desconhecido ou o desejo de extinguir o tédio que nos invadira o corpo em momentos de nula exaltação.

ESTE BLOGUE ENTRA HOJE NUM PERÍODO DE REPOUSO, DE TREVA E DE SILÊNCIO. ATÉ UM DIA DESTES.

domingo, 17 de março de 2013

DA TOSSE

       Escreve Alexandre O'Neill, em lúgubre soneto: «Se não fui eu quem veio no jornal, foi uma tosse a menos na cidade.» (1) Frequentemente, pode banir-se a tosse mediante a aplicação de técnicas de controlo respiratório. Após exercícios do género, não só impeço a maçada de tossir como alimento a crença de ter absoluto domínio sobre o corpo. Em simultâneo, granjeio a ilusão de ser possível livrar a morte do fiel incómodo de suprimir, um dia, a minha tosse.

(1) Alexandre O’Neill (2000), Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, p. 162.

sábado, 16 de março de 2013

O SENTIDO

        Declarou Vergílio Ferreira: «O ponto mais alto da sabedoria é ver que nada no Universo faz sentido. E que esse não-sentido tem o sentido de o não ter como se o tivesse…» (1) A afirmação, rebuscada, abre a porta à crítica e a janela ao devaneio: «O ponto mais alto da sabedoria é ver que tudo no Universo faz sentido. E que tal sentido não tem o sentido de o ter, e até seria irrelevante se o tivesse…»

(1) Vergílio Ferreira (1993), Pensar, 4ª ed., Lisboa, Bertrand Editora, p. 52.

sexta-feira, 15 de março de 2013

OS VEÍCULOS DO PARNASO

          Condutores que apreciassem versos podiam alugar «veículos do Parnaso». Tratava-se de carros que seguiam à frente e cuja retaguarda exibia um ecrã onde surgiam estrofes ajustadas à preferência de quem solicitara o serviço. Em tal circunstância, a velocidade máxima permitida era menor que a expressa na lei geral, pelo que o exercício ajudava a reduzir os índices de sinistralidade. Verificavam-se excepções quando o leitor, ao volante, confundindo o literal e o metafórico, resolvia entrar dentro do poema.

quinta-feira, 14 de março de 2013

NECESSIDADE E CONTINGÊNCIA

        Quem redija movido por força oculta, dessas que empurram a mente e dirigem a mão, pode esperar transmitir coisas belas, certas, relevantes, mais do que se contasse apenas consigo próprio. Do primeiro exercício brota aquilo a que chamaremos «a escrita necessária». Do segundo, «a escrita contingente». Se bem mo elucida a intuição, este texto é exemplo rematado de escrita contingente. Por isso, não sobrará grande espanto se resultar duvidoso o que aí se diz da escrita necessária.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O BOLSO

Era uma vez um bolso que se limitava a existir. Nunca pertencera a qualquer peça de vestuário e jamais sentira necessidade de se considerar uma. Contivera já inúmeros objectos e ideias fecundas, mas preferia que o deixassem vazio e em paz. Reduzia ao mínimo os seus gestos intencionais, acreditando que o vento e outras forças o guiariam sempre com acerto. Quando lhe perguntavam se algum dia albergara o segredo da vida, respondia apenas: «Eu sou um bolso.» 

terça-feira, 12 de março de 2013

PRIVILÉGIOS

        Atingir uma verdade pela qual se justifique viver continuamente entusiasmado, imune ao tédio e a outras perversões, é um privilégio concedido a poucos. Verosímil se afigura que tais seres, no pico do seu existencial arrebatamento, desfrutem de instantes de felicidade tão altos e preciosos que sintam ganas de abraçar, uma a uma, as suas próprias células. Dir-se-á que, tarde ou cedo, ilusórios se hão-de revelar os frutos. Mas a essa nefasta conclusão só chega o amargurado pensamento.

segunda-feira, 11 de março de 2013

ULTRA-SECRETO

        Por bons intérpretes que sejamos dos sonhos, ou por muito que o julguemos ser outrem, chega sempre o dia em que achamos as alegadas imagens do inconsciente um desconchavo absoluto para o que pensamos das nossas vidas. Mas é então que aceitamos existir, além dos níveis sucessivos do eu – do público ao privado, do íntimo ao clandestino –, uma dimensão ultra-secreta, inacessível, capaz de transformar as palavras que nos procuram dar a conhecer num digno amontoado de falácias. 

domingo, 10 de março de 2013

TÉDIO E PECADO

        O tédio não faz parte da tábua dos pecados mortais. É fácil, todavia, associá-lo à soberba – visto ele reflectir um certo desencanto perante as maravilhas da Criação – e à preguiça – da qual não raras vezes se origina. Mas, por outro lado, a sensação de tédio deve aproximar-se daquilo que o eventual ser divino experimenta face ao carácter repetitivo das coisas e ao esgotamento do possível. E assim se expurga um núcleo de pecado, com tal afinidade redentora.

sábado, 9 de março de 2013

PRAZERES E NÚMEROS

        Epicuro valorizava os «prazeres estáticos», não os «prazeres cinéticos». Os primeiros identificam-se com a ausência de dor e de perturbação; os segundos expõem-nos à possibilidade de elas se manifestarem. Apliquemos-lhes a matemática: os «prazeres cinéticos» e o sofrimento equivalerão ao conjunto dos números reais, exceptuando o zero – o qual, portanto, corresponderá aos «prazeres estáticos». Aqueles têm o seu simétrico, positivo ou negativo. Estes, como o zero, são simétricos de si mesmos – sem hiato, nem sombra, nem distância.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O ESQUECIMENTO

         Em vez de referir, na folha de teste, que «o esquecimento é a incapacidade de recordar», o aluno escreveu que «o esquecimento é a capacidade de não recordar». Tendo em conta o que pressupõem quanto ao nosso lado intencional, as definições são bem distintas: em termos psicológicos, aceitamos como válida a primeira; em termos metafísicos, não podemos excluir a segunda. Peço depois ao aluno que me clarifique a segunda: garante que no teste se «esquecera» da primeira.

quinta-feira, 7 de março de 2013

FORMAS-PENSAMENTO

Segundo teósofos como Charles Leadbeater, cada pensamento cria uma determinada forma: uma forma-pensamento. Fantasia ou não, o produto afigura-se bastante insólito: entidade híbrida, possui o carácter intencional de uma consciência e, em simultâneo, a natureza opaca de uma coisa. Ora, ao encerrarem atributos assim tão contrastantes, as formas-pensamento parecem ser, em si mesmas, núcleos de conflito, existências embaraçadas, anseios inúteis. Se adejam por aí, talvez o façam tolhidas de desamparo, talvez dupliquem o absurdo usual dos dias.   

quarta-feira, 6 de março de 2013

DA CURTEZA DOS DIAS

Pesquisas esotéricas asseguram que, em virtude do «aumento da frequência vibratória do planeta», os dias – note-se que os relógios se vão adaptando à novidade – são cada vez mais curtos, e facilmente o percebemos. Mas, se «vibra» a Terra, tudo na Terra «vibra»: clepsidras, gestos, suspiros, tarefas, sonhos, embirrações, não havendo um termo comparativo susceptível de nos permitir dar conta da mudança. A situação permanecerá obscura se admitirmos que, para lá do orbe, o ardor «vibratório» é semelhante.

terça-feira, 5 de março de 2013

JÚBILO FORÇADO

Há livros de auto-ajuda que obrigam a pessoa a imaginar-se em puro regozijo a cada instante, sem direito a intervalo para suaves melancolias. Não está aqui em causa a validade da «lei da atracção» nem a pertinência do ditame que manda, conservando a sensatez, «fingir até que seja verdade». Acontece é que, se tais regras forem certas, a ditadura do júbilo forçado e contrafeito poderá não «atrair» outra coisa além da obsessão, da neurose ou da megalomania. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

PRIMEIRA AVALIAÇÃO

         Consta ser regra: num primeiro encontro, as mulheres avaliam outrem de baixo para cima, começando pelos pés e terminando na cabeça; os homens realizam-no em sentido inverso. Se assim for, as primeiras impressões, além de duradouras, terão, para as mulheres, uma estrutura ascendente, elevando-se da terra ao céu; para os homens, uma estrutura descendente, baixando do céu à terra. Verificam-se excepções se a pessoa a conhecer surgir em posição oblíqua, na horizontal ou a fazer o pino. 

domingo, 3 de março de 2013

FILOSOFIAS DA SALVAÇÃO

As principais filosofias da salvação – incluamos aí, por exemplo, o estoicismo, o gnosticismo, o budismo e formas alternativas de abrandar o pessimismo – não pretendem gerar no discípulo a ideia segundo a qual ele perderá tudo e em si mesmo é nada, mas sim a consciência de que ele nunca teve realmente nada e de que o acto de proceder em sintonia com isso o fará sentir-se tudo – ou, pelo menos, contente por acordar e satisfeito por adormecer.

sábado, 2 de março de 2013

TALENTOS

Quem redija textos poeticamente cansativos e intelectualmente nulos, tendo em simultâneo a consciência de ir engendrando uma obra-prima, é detentor de especial talento: o talento para silenciar a autocrítica e para se colocar na pele de um outro que a imaginação lhe oferece em retratos duvidosos. Mais tarde, quando esse talento o abandonar e o percurso lhe exibir ilusões desfeitas, ele há-de ver naqueles instantes criativos do passado só o frívolo desejo de uma insensata redenção mundana.

sexta-feira, 1 de março de 2013

QUESTÕES DE TESTE

         «Podemos trocar a ordem das perguntas?», «Pode chegar aqui?», «Posso tirar uma folha?», «Posso pedir uma caneta?», «Pode-me dizer quanto tempo falta?», «O enunciado fica para nós?» – eis as questões-tipo a que um professor é submetido, enquanto o aluno é submetido a outro tipo de questões. Por vezes, surgem interrogações insólitas: «Stôr, nós temos de fazer o teste como se o stôr não soubesse nada, certo?» «Talvez... Mas pelo menos partam do princípio de que sei ler