quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

OS FILÓSOFOS E OS HOSPITAIS

         Os hospitais não são os lugares favoritos dos filósofos que elaboram sistemas capazes de transformar a realidade num hino à geometria: quando vistos de perto, a doença e o sofrimento abrem fissuras irreparáveis no desenho abstracto do mundo. Os filósofos não sistemáticos, embora sensíveis, como Miguel de Unamuno, ao «homem de carne e osso», também costumam afastar os hospitais do seu leque de preferências. Porquê? Todos o sabemos. Só a filosofia teima em não encontrar cabal resposta.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O INTERESSE DA APOSTA

         Pesando ganhos e perdas, Pascal concluiu ser mais vantajoso para a criatura apostar na existência de Deus que na sua inexistência. Acusaram-no de interesseiro. Como se a matéria em análise, indissociável da fé, não fosse ponderada sempre, lá no fundo, sob influência do interesse: creio, se tal se revelar oportuno; descreio, se isso me convier; evito pronunciar-me, se aí residir o benefício. As diversas provas e refutações, essas, são meros rendilhados do santo calculismo que nos move.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

PARA LÁ DOS MODELOS

            Ao criarem o modelo de ser humano que as legitima, e que os seus membros aprovarão como sinal de que há rumos seguros e destinos exemplares, as diversas comunidades tendem a gerir a «sociabilidade insociável», enunciada por Kant, de tal modo que o valor implícito no primeiro elemento da expressão se conserve imune aos eflúvios perversos denotados pelo segundo. Um destes é a solidão intransferível que nos torna errantes; outro, a rebeldia metafísica que nos torna únicos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

NEVOEIRO

De longe, diz uma delas: «Com este nevoeiro, a gente nem se vê!» «Hã?», pergunta a segunda mulher. «Com este nevoeiro, a gente nem se vê!», repete a primeira. «Ora, vê lá tu!», exclama a outra. Também faria sentido declarar: «Com este nevoeiro, a gente nem se ouve!» E aqui é obrigatória a evocação do último poema da Mensagem, adaptado ao presente. Hoje, mais que nunca, Portugal é nevoeiro; mas gastaram-se de todo os sinais do Desejado.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

LIVROS E ESTANTES

         Se cresce o número de livros nas estantes, aumenta a consciência de que a maior parte ficará por ler, agudizando-se em simultâneo a omnipresente certeza da finitude. Se o número de livros diminui nas estantes, enfraquece o impulso que nos fazia ver neles o lugar de uma pequena redenção. Daí os leitores notarem, se minimamente compulsivos, que as relações entre os livros e as estantes são mais de insólito e geral conflito do que de beatífica irmandade.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

REVISÃO ANTES DO SONO

Consta que se dormirá bem, para lá de esotéricas vantagens, se se revir mentalmente o ocorrido ao longo do dia, desde o fim até ao início. Mas evocar acontecimentos na ordem inversa obriga a lembrar a sucessão normal de cada um, e isso contradiz o exercício. Parece, então, preferível colocar o dia entre parêntesis, fingindo depois que tal conteúdo "não tem sentido", do que lançar a mente numa espécie de marcha atrás, sujeita a indecisões e solavancos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

EXPLICAR O VAZIO

Dirá o materialista que a sensação de fome constitui a modalidade primordial do vazio interior e que a impressão da falta de sentido do existir é mero efeito da carência de trigo, feijão e couve-lombarda. Sendo assim, por que motivo tal impressão surge igualmente no espírito logo após o almoço? Porque, responderá o materialista, aquilo a que chamamos espírito se reduz a um aglomerado de sinapses indecisas e de neurónios vagabundos que chegam sempre atrasados às refeições.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

IMAGENS QUE SE QUEBRAM

Um miúdo pisa com violência, enquanto corre, o brinquedo abandonado no chão de ladrilhos hexagonais. Instintivamente, suspende o ímpeto daquela espécie de fuga e retrocede a fim de avaliar os danos e, ao mesmo tempo, recolher alguma peça que ainda se ajuste à ideia de se divertir. Também estas imagens são quebradiças, como a ilusão da originalidade, que é sempre a penúltima coisa a perder. E ela perde-se quando se descobre que nada resta já para salvar.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

PRAZER EM CONHECER

A expressão «prazer do conhecimento» parece referir-se, no mínimo, a uma de duas coisas: à emoção estética obtida dos conteúdos teóricos ou ao antegozo ardente dos resultados práticos. Fora de tais benefícios, restará a «dor do saber» de que fala o Eclesiastes. Mas o antigo pessimista não indicou a percentagem dessa dor inevitável – se acaso admitiu a existência de algum prazer contrastante. É igualmente improvável que o faça de modo certo quem opte pelas vias da ignorância.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

FLUIR E REFLECTIR

O incansável fluir da realidade nada parece dever ao insistente “voltar atrás” do pensamento reflexivo. Também este, contudo, integra o fluir incansável, com seus regressos, pausas, hesitações. Enquanto assim medito, reparo na silhueta de um pelourinho desenhada numa das portas de certa viatura. Tento relacionar a imagem que chega com a ideia que surge. O exercício revela-se fatigante. O carro há-de partir, levando a memória do pelourinho. A realidade passa bem sem os breves suplícios do intelecto. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A INSISTENTE ALTERIDADE

«O que eu pretendo que os outros pensem de mim» constitui uma estrutura mental difícil (até impossível) de satisfazer. Por dois motivos: primeiro, porque esse outro é plural; segundo, porque essa estrutura não é racional. Muitos tentam livrar-se dela rumando a desertos físicos ou a metafísicos ermos. O problema reside no facto de não conseguirem abandonar o outro enquanto renovada medida que lhes faz sombra – ou de insistirem em imaginá-lo enquanto invisível presença que lhes traz luz.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

MINIMIZAR O ESFORÇO

         Estratégia relevante quando, não se podendo minimizar o trabalho, se procura minimizar o esforço consiste em supor uma dissociação interna entre certa ou alegada entidade imaterial, que permanece em descanso, e a restante engrenagem do eu, na qual se insere o sujeito que labora, física ou intelectualmente. Depois, um indivíduo finge – até se tornar verdade – ser apenas a primeira, observando em repouso o trabalho da segunda. Mas obviamente, para aí chegar, outro tipo de esforço é exigido.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

MERA HIPÓTESE

Trata-se de uma hipótese a aguardar cuidada investigação, embora se me afigure bastante plausível: qualquer pessoa com uma das características a seguir indicadas tem, inevitavelmente, as restantes duas. Ei-las: ser rigorosamente pontual, sintético no uso da palavra e avesso a sujeitar o semelhante à visualização das eventuais fotografias tiradas durante as últimas férias. Acrescente-se que o detentor de tais qualidades não se limita a respeitar o tempo do outro: sabe honrar a natureza do seu próprio tempo. 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

PAUSA REFLEXIVA

         No centro comercial, as escadas rolantes devem constituir o lugar móvel das pausas filosóficas. Talvez perguntem os que sobem: «De onde vimos?» Talvez, os que descem: «Para onde vamos?» Talvez, ao passarem uns pelos outros, se interroguem: «Quem somos?» Ainda que não formuladas mentalmente, as questões parecem implícitas atrás desses rostos, cuja melancolia é de alto preço. Mas esta acabará por se esbater quando os olhos pousarem, ao fim da escada, na montra que anuncia preços baixos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O NÚMERO

           Um preso recente, intrigado com o facto de os outros se rirem sempre que um deles gritava um número, foi informado de que esses números correspondiam a anedotas, que assim escusavam de ser repetidas por palavras. Quando, porém, ele gritou «63», ninguém se riu. Disseram-lhe que tudo depende da maneira como a anedota é contada. (1) Tal maneira ou se ajusta ao humor do objecto ou traduz uma inépcia que, por vezes, nem sequer é objecto de humor.

(1) John Allen Paulos (s/d), Penso, Logo Rio, Lisboa, Editorial Inquérito, p. 52.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O BREVE INTERVALO

Se a mente, no instante imediato ao acordar, revisita de súbito algum episódio da véspera, tende a intuir nele uma realidade desconexa e espectral. Mas ela recompõe-se logo a seguir – e o mundo volta a ganhar os liames que lhe conferem espessura e significado. É como se houvesse uma ilusão de sentido que nos mantém despertos, uma vocação para o absurdo que nos permite adormecer e um breve intervalo para mostrar a convergência de ambas as coisas.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

SERÁ QUE A GENTE SE ENTENDE?

        Eis a alegadamente última frase de Hegel: «Houve só um que me entendeu e nem sequer esse me entendeu.» (1) Se os conceitos representam o lado íntimo das palavras, aqueles que povoam a mente alheia são inapreensíveis. Constitui, pois, verdadeiro milagre o mútuo entendimento – ou a ilusão disso. Ignorando se me fiz entender, creio que o melhor é aceitar a paródia à referida sentença hegeliana: «Houve só um que me entendeu e a esse não o entendi eu…» (2)

(1) Cf. Pedro González Calero (2009), A Filosofia Com Humor, Lisboa, Planeta Manuscrito, p. 125.
(2) Idem.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

BUSCAR O PARADOXO

Leio na capa de um livro recém-publicado: contém documentos inéditos. Mudemos de assunto. Um afirma que «acredita em Deus», outro que «não acredita», um terceiro dirá que lhe tem «ouvido silêncios impecáveis e isso basta». Só o último percebe que o que está em jogo – o que melhor se ajusta à humana condição – dificilmente será o acto de nutrir ideais redentores ou invectivas ateias, antes o de buscar paradoxos, sem cair na frágil tentação de os resolver. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O PRISIONEIRO

«O prisioneiro», esclarece Henry Miller, «não é aquele que cometeu um crime, mas sim o que se agarra ao seu crime e não deixa de o reviver». Falta-nos, contudo, a garantia de que alguém hábil a desprender-se «do seu crime» não continue a revivê-lo a um nível inconsciente. Técnicas de meditação ou estratégias de divertimento podem permitir-lhe abrir asas e soltar-se dos cumes do remorso. Estes, todavia, são simulacros de algo mais aflitivo que também levanta voo.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

DIZER NÃO

Saber dizer não, quando naturalmente o não se impõe, é uma virtude. Saber dizer não, quando naturalmente o não se impõe, e evitar quaisquer desculpas movidas pelas exigências do alheio melindre, ou pelo receio do que o semelhante possa vir a pensar, é uma virtude extraordinária. Compreender e aceitar os modos possíveis com que o outro exprime a recusa e manifesta o não, sem perder serenidade nem ganhar ressentimento, constitui um dos princípios de uma vida santa.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O GRANDE EQUÍVOCO

A «astúcia da razão», pressuposta por Hegel, e a «mão invisível», postulada por Adam Smith, têm por base a lei hedónica da busca do benefício pessoal. Quem na realidade sai favorecido é o todo, com o seu alegado interesse comum. Porém, se as partes se ignoram ao serviço do todo e se este só se reconhece na autoconsciência das partes, deduz-se que, em ambas as leituras, o todo é unicamente um profundo auto-engano à espera de solução.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O ESCRIBA SEM ASSUNTO

Redigir textos soltos por obrigação diária – eventualmente auto-infligida – poderá conduzir à tentação de preencher a escassez de conteúdos pelo recurso a estratégias metatextuais: «Hoje, as palavras não ascenderam às águas-furtadas do meu talento.» Assim, ao leitor menos avisado parecerá que o escriba, longe de se achar desprovido de matéria literária, vai sobrevoando incólume, tolhido de alto desencanto, as vãs e frágeis criações das letras. Só resta examinar que imagem lembra o acto de escrever sobre este assunto.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

VOLTAR ATRÁS

   Motivo de análise psicológica é a afirmação que seguríssimas pessoas tecem segundo a qual, se voltassem atrás, fariam exactamente as mesmas coisas que até à data terão feito. Sendo, ainda por cima, claro que aquele que atrás voltasse regressaria aí diferente daquele que pela primeira vez agiu, concluiu-se que a personalidade de quem assim fala, se não for dada a ludibriar-nos ou a ludibriar-se, se caracteriza por três aspectos essenciais: nulo arrependimento, rigor matemático e sólida monotonia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

RUMO DEFINIDO

         Lembram peritos, imitando Séneca: o vento nunca é favorável àquele que não sabe para onde vai. Esquecem que é justamente «quem não sabe para onde vai» que está mais disponível para aproveitar a direcção do vento. Em todo o caso, admitindo a sentença como verdade irrecusável, teremos sempre de clarificar o que significa «saber para onde se vai» – sobretudo quando não nos referimos aos projectos que formam a vida, antes à vida enquanto forma de um projecto.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

SUPRIMIR O TEMPO

Georgia O' Keeffe, Era Azul e Verde, 1960.

Se formos capazes de suspender o pensamento, seja nas suas modalidades concretas, seja nas abstractas, colocando-o fora de jogo ou deixando que dele subsista só um vestígio inoperante, e lograrmos, em seguida, fixar por inteiro a consciência nas sensações, até realizar uma absoluta sinestesia, ficando assim os sentidos, como diz Almeida Garrett, «todos num confundidos», teremos aniquilado o tempo e alcançado uma unidade sem distância nem conflito. Resta naturalmente esclarecer que tipo de consolo isso nos traz.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

BOTAS DE AUTORIDADE E FOCINHOS DE PORCO

         Do filme Platoon retive uma imagem em que certo soldado pontapeia o focinho de um porco (1). Recordei-a enquanto assistia ao vídeo que mostra um agente da GNR, na A1, a desferir um golpe similar. Concluí existirem botas que desejam, por vezes, sentir viva a autoridade que transportam. Focinhos de porco ajustam-se, com vantagem, a tal desiderato, porquanto a contestação do suíno será breve: nem o queixume irá além de um guincho nem o protesto excederá um ronco.  

(1) O momento exacto pode ser visto aqui, após o minuto 46 (mais propriamente aos 46 minutos e 15 segundos).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

"O SONO DAS MAÇÃS"


Se alguém quiser, como García Lorca, «dormir o sono das maçãs» (1), de que modo exprimirá o resultado? O problema não diz só respeito à natureza dos qualia, ou qualidades sentidas das experiências, mas também ao reconhecimento de que se passou por tal sono. Trata-se de, permanecendo humano, entrar no fruto em causa, imergir na sua inconsciência – e sabê-lo, depois, ao despertar. «Dormir o sono das maçãs» seria aceder, por inteiro e sem distância, ao lugar do inefável.

(1) Federico García Lorca (s/d), Divã do Tamarit, Lisboa, Vega, p. 47. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

FECHAR A CONVERSA

Quando em conversa telefónica, há quem deseje, consciente ou inconscientemente, ser o autor das palavras que fecham o diálogo, repetindo então a fórmula de despedida as vezes necessárias a que isso possa acontecer. O problema surge se o interlocutor seguir idêntico padrão comunicacional. Em circunstâncias do género, é provável que o natural embaraço acabe por se resolver se ambos insistirem num adeus que se renova, mas gradualmente diminuindo o tom, até que este se extinga no silêncio.