segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

FRASE ANÓNIMA

       Citar uma frase anónima constitui obscura homenagem aos talentos ignorados. A homenagem perde valor se o conteúdo da frase nos sugerir que todos, ou quase, teriam condições existenciais para formular tal máxima com esforço mínimo. Ela readquire, no entanto, o valor perdido, ganhando até uma pertinência complementar, se o pensamento aí expresso for uma exortação sapiencial que se autocontradiz mediante a ironia cúmplice. Eis uma sentença desse género: «Pensa sempre que és único, exactamente como qualquer outro.»

domingo, 1 de dezembro de 2013

O QUERER DO EU

       Reconhecia-o Lily Tomlin: «Sempre quis ser alguém. Agora vejo que devia ter sido mais específica.» Sublinhou, todavia, Kierkegaard que o eu desespera quando não quer ser ele próprio; se o quiser ser, acontece-lhe o mesmo. Trata-se de um modo original de conjugar o verbo «querer»: eu quero, tu queres, ele quer, nós desesperamos… Buda conseguira já uma fórmula para erradicar a doença: o eu não existe. Desde há 2500 anos que tentamos, em vão, ser mais específicos.

sábado, 30 de novembro de 2013

O PERMANENTE

       Filósofos de diferentes culturas decidiram, um dia, rumar ao desconhecido, buscando «Aquilo que permanece». Venceram montes, desceram ribas, calcorrearam desertos, suportaram tempestades – até que o descobriram. Em seguida, procuraram dar-lhe nome. Surgiram várias propostas, nenhuma consensual: Infinito, Uno, Deus, Espírito, Eternidade, Nirvana, Totalidade, Ser, Essência, Verdade, Substância, Absoluto, Universo, Consciência, Tao, Ain Soph, Brahman. Após longas horas, alguém se lembrou de lhe chamar «Nada». Registou-se um acordo pleno. E todos, em uníssono, soltaram este aforismo: «Nada permanece.»

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

PRIMAZIA CRONOLÓGICA

       Um não foi autorizado. Perguntara: «Posso fumar enquanto rezo?» Outro recebeu licença. Questionara: «Posso rezar enquanto fumo?» Diferencia os dois casos uma distinta precedência cronológica das acções – ou das intenções subjacentes. Conta-o Fernando Blázquez: achando no portal onde costumava ir «desbeber», além da cruz (desenhada na véspera), o axioma «Onde se põem cruzes, não se mija», o poeta Quevedo acrescentou: «Onde se mija, não se põem cruzes.» Frequentava o espaço há mais tempo. E voltou a urinar.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ENTRE O SER E O NÃO-SER

     O objecto foi ideado por George Lichtenberg: uma faca sem lâmina, à qual falta o cabo. Representá-lo exige quatro momentos: primeiro surge a faca; de seguida, esvai-se a lâmina; depois, dissolve-se o cabo; por fim, usando-se o próprio objecto, efectua-se um corte que separa a «faca ainda presente» da «já ausência de faca». Trata-se, portanto, de um objecto que origina intervalos mentais: um alívio para os pensadores; uma bênção para os torturados; uma inutilidade para os idiotas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

DUAS PERGUNTAS

       A questão encontra-se no poema Domingo de Manuel da Fonseca: «Que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre como se fosse uma festa?...» Acrescente-se-lhe outra, igualmente encomendada à esfera dos enigmas, colhida em Stevenson, n’A Ilha do Tesouro: «Se jamais se viu um espírito com sombra, como haverá um que faça eco?» Mora aqui a resposta à sinuosa angústia anterior: «Aos domingos, se te faltar inclinação gregária, torna-te espírito: não deixes eco nem emanes sombra.»

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O ANEL E A INVISIBILIDADE

      Conta-o Platão: Giges, pastor ao serviço do soberano, achou um anel de ouro. Voltando o engaste para a parte interna da mão, tornava-se invisível; rodando-o para fora, tornava-se visível. Que fez? Seduziu a rainha, matou o rei e tomou o poder. Perante o cenário, ter-se-á de admitir que a causa da invisibilidade é plural: está presente no anel, mas também no dedo e no acto giratório. Só desta forma se assegura a conveniente invisibilidade do próprio anel.

sábado, 23 de novembro de 2013

MEMÓRIAS

      Não desejava partilhar as suas memórias, embora quisesse libertar-se da sombra delas. Decidiu então redigi-las em pleno ar, à altura dos olhos. Num amplo terreno, onde se erguiam duas árvores, passava dias a agitar o indicador direito, enchendo o espaço de parágrafos invisíveis. Volvido um tempo, os raios de sol, persistindo nas copas das árvores, deixaram de tocar aquele chão. Densas de desespero, as lembranças escritas teciam uma nuvem incorpórea que a luz era incapaz de atravessar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

SONO APLICADO

       O volume que, em geral, inseria debaixo do travesseiro onde dava descanso ao cérebro acolhia a Constituição. Outros, no entanto, igualmente de pendor jurídico, tinham ali lugar em noites próprias. Estudante de Direito, acreditava que, dormindo com os livros sob a cabeça, receberia por osmose inconsciente o saber aí expresso. Se alguém lhe perguntava a razão daquela atitude, justificava-se de um modo que o defendia da acusação de preguiçoso: «Enquanto sonho, gosto de estar acima da lei.»

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MUDAR DE IDEIAS

      O pensamento filosófico de Friedrich Schelling terá passado por mais fases que a própria Lua: cinco ao todo, rezam os especialistas. Face ao desaforo, perguntar-se-á com legítima apreensão: como levar a sério este indivíduo tão intelectualmente volúvel? A culpa, todavia, é da realidade material: consta que, pelo menos a nível subatómico, ela jamais soube estar quieta. Objectar-se-á dizendo-se que tal pormenor não explica tudo. Certo. Mas, se tal pormenor explicasse tudo, nunca os filósofos mudariam de ideias.

sábado, 16 de novembro de 2013

O TÚNEL

      Sugere-o Rousseau: a instituição da propriedade privada – e dos estragos inerentes – deu-se com aquele espertalhão que, tendo cercado um terreno, disse: «Isto é meu!» Alguns ingénuos acreditaram nele. O resto é conhecido. No entanto, a origem do problema deve ser muito anterior. Certo australopiteco passou por uma experiência de quase-morte. Obviamente viajou ao longo de um túnel pessoal e intransmissível. Ao regressar do transe, exclamou: «Esta caverna é minha!» Referia-se ao túnel. Mas todos entenderam outra coisa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

INFINITUDE

     Nicolau de Cusa defendeu algumas teses sobre o infinito – onde coincidem os opostos – usando argumentos bastante persuasivos. Sem esforço, ele demonstra, por exemplo, que num círculo infinitamente grande a circunferência equivale à tangente: «curvo» e «recto» não se distinguem. Ora o infinito fica longe: deve ser exorbitante o preço do bilhete. Daí que o pensamento, para não abandonar a finitude, aceite facilmente o que lhe dizem acerca desse algo indefinido que, mudo e remoto, nunca deixou pistas. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CORRESPONDÊNCIAS

        Inspirados no interseccionismo pessoano, podemos elaborar ousadas correspondências, até que a realidade se desvende. Hobbes caracteriza a vida humana, no estado de natureza, como «solitária, pobre, sórdida, brutal e curta». Antes dele, Maquiavel disse que os homens são «ingratos, volúveis, dissimulados, esquivos ao perigo e cúpidos de lucro». Talvez as más qualidades apontadas n’O Príncipe traduzam o resultado, inconsciente, das péssimas circunstâncias sugeridas em Leviatã. Contamos cinco nos dois casos: a mão que escreve nunca foi isenta.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

EXPLICAÇÕES

      Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Obedeci ao conselho: parei na terceira página. Mas estou, finalmente, decidido a ler uma obra de Lobo Antunes: Explicação dos Pássaros. Adquiri-a em edição primeira. Lá dentro, marcador suspeito, achava-se uma embalagem de dez comprimidos para dormir: seis ainda resistiam. Estranharia menos se descobrisse a liga da duquesa no breviário do capelão. O clínico detalhe convida-me à leitura. A mente funciona por enigmas. As aves são mais fáceis de entender.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O OLVIDO DO OVINO

      Martin Heidegger produziu três ideias acerca do «ser» que desaguam numa conclusão perturbadora. Primeira: «O ser foi esquecido.» Segunda: «A linguagem é a casa do ser.» Terceira: «O homem é o pastor do ser.» Então o que é o «ser», se reunirmos numa só estas loucas perspectivas? É um ovino que passa a noite no curral da linguagem e que o homem apascenta durante o dia, embora sem consciência de o fazer – porque olvidou esse animal obscuro.

domingo, 10 de novembro de 2013

IMPOSSIBILIDADE

      Num lote de livros que adquiri – na altura não o explorei de forma exaustiva –, descubro um volume escrito pela catalã Cecilia A. Mantua, editado entre nós pela Figueirinhas. Metade deste exemplar encontra-se por abrir, reclamando espátula, faca ou xis-acto; a outra metade aparece irremediavelmente desfeita, com centenas de papelinhos amontoados, fruto do labor de ratos minuciosos. Em síntese: uma parte está fechada, outra parte está perdida. Só falta mesmo referir o título: O Nosso Amor é Impossível

sábado, 9 de novembro de 2013

ERGUER O BRAÇO

       Difícil na elaboração do texto é escolher as palavras de abertura, as de fecho e as que fazem a ligação entre umas e outras. Apesar da contrariedade, aproveitemos esta pergunta de Wittgenstein: «O que resta se eu subtrair o facto de o meu braço se erguer ao facto de eu erguer o meu braço?» Resta a intenção – ou nada. Mas o que geralmente conta é a intenção. Satisfeito com a resposta, Ludwig? Então pode baixar o braço.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A BAGAGEM

      Embora ao afirmá-lo ninguém tenha entrado ainda na barca de Caronte, poucos evitam fornecer conteúdo à expressão «O que se leva desta vida». Seria, claro, excessivo sustentar que dela «nada se leva»: pelo menos alguns átomos integram a bagagem. Mas acrescentar a isso a feijoada, a cerveja, o festim, as leituras, as viagens, as meditações, etc., constitui um mero exercício de auto-justificação. Sabendo-o, os deuses eventuais não nos censuram: eles apreciam o lado humorístico das nossas existências.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O ABSURDO

     Há cem anos, Albert Camus entrou num mundo «privado de ilusões e de luzes». Estrangeiro de alma, acabaria por reconhecer que a vida é absurda. Tal conclusão mostra-se promissora: livra-nos da maçada de perguntar pelo sentido último e pelas causas primeiras. Ironicamente, no interior da lúcida revolta, não caminhamos sós: «Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre.» Se preferirmos, até que a morte os separe. Ou os una em definitivo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

EXORTAÇÃO

      Inserta em aforística ode, a exortação de Ricardo Reis «Põe quanto és no mínimo que fazes» interessa, sobretudo, a artistas, filósofos e místicos: de alma inteira e corpo integral, achar-se-á a interior grandeza. Tal axioma, contudo, para ser aplicável a tarefas braçais, reclama acrescentos: «Põe quanto és no mínimo que fazes, mas só se estiveres a fazer o mínimo. De contrário, toma cuidado: não vale a pena obedecer à máxima e vir depois a padecer das costas.»

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CICLO EXISTENCIAL

      Vem n’A Náusea e gera tédio: «Todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso.» Poderia dizer-se o contrário e nem assim se perderia eficácia: «Todo o existente nasce com motivo, prolonga-se por vigor e morre por decreto.» À nudez do absurdo persistente opor-se-ia a capa do destino irrevogável. Embora fecundo e enfático, o axioma de Sartre presta homenagem ao desencanto: nasceu sem ilusões, prolonga-se por teimosia e morrerá por excesso de evidência.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

TRÊS POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS

      Se a teoria do caos fizer sentido, então qualquer acto se pode traduzir em uma de três consequências: a irremissível destruição do Universo, o seu melhoramento apoteótico ou a mudança mais ou menos trivial. Até agora, nenhuma das duas primeiras possibilidades foi concretizada. Claro que as borboletas continuam a bater as infatigáveis asas e a desencadear terramotos ou a aprimorar savanas. Mas a vibração que elas emitem ainda não teve tempo de dar a volta ao Universo.

domingo, 3 de novembro de 2013

DISPERSÃO

     Passou (creio) por uma depressão. Tentou suicidar-se. Mas o termo que usa para designar a antiga doença não parece o clinicamente correcto. Em lugar de «depressão», fala em «dispersão». Com razoável desconforto, evoco imediatamente, sem os verbalizar, alguns versos de Sá-Carneiro: «Perdi-me dentro de mim…» Digo-lhe que é a outra a palavra certa. Da próxima vez, porém, repetirá a «dispersão». Insistirei. Sem sucesso. Há palavras, mesmo equívocas, que se tornam coisas – quando as coisas se tornam labirinto.

sábado, 2 de novembro de 2013

LUGAR DESCONHECIDO

      Periandro de Corinto pediu a dois homens que se encontrassem, algures, com um terceiro e o matassem e enterrassem; ordenou a quatro que assassinassem e sepultassem os anteriores, e requisitou um bando para fazer o mesmo àqueles quatro. Periandro – que era o terceiro – deixou assim desconhecida a sua derradeira morada. Como se, por natureza, ela o não fosse já. «Assear as campas» personaliza o que a estatística despreza; mas não torna menos incógnito o lugar da morte.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

«ESQUINADO»

      Ela diz que o marido, morto por iniciativa própria, era mau quando lúcido, sofrível quando bêbado, execrável quando esquinado. Em seu entender, «homem esquinado» equivale a «ébrio extremo», vítima da ingestão excessiva de duas bebidas alcoólicas diferentes (ou mais). Também a esquina é ponto de fusão de duas ruas. Ignoro se exponho a mensagem exacta, se estou apenas a interpretá-la. De qualquer modo, a interpretação é o encontro de duas visões do mundo – exercício «esquinado» por natureza.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O HOMÚNCULO

      Embora mãe há vários anos, acredita que os filhos vieram inteiros do marido, passaram uma temporada a crescer dentro dela e abordaram a luz na altura certa. Trata-se de uma versão da antiga conjectura de que existia um homúnculo no interior do espermatozóide. Tento apresentar-lhe uma explicação alinhada com a ciência. A tarefa revela-se penosa. Nunca será sem choque angustiante que se desiste da ideia de que os machos são demiurgos por natureza e homicidas por distracção.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

UM ESPECTRO NA MADRUGADA

     O entrelaçado de negrume suja a madrugada. Mas o céu atenua a injúria: verte sobre árvores e veredas um luar doseado por nuvens movediças. A suspeita advém então ao caminhante. Pode suceder que a mancha indecisa que através do chão o acompanha seja tudo, afinal, menos a sua sombra: ela resulta de um jogo de luz emprestada e confunde-se com restos de treva. Quem inaugura o dia como um espectro há-de ver só fantasmas sob o sol.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

EXCEPÇÕES

     Segundo Gottlob Frege, uma «afirmação de existência» reduz-se à «negação do número zero». Nesse caso, o número zero fica desprovido de existência. Se há, todavia, excepções a atazanar a regra, outras há susceptíveis de pacificar o autor. Entre as memórias que expõe, ela insere esta sentença disjuntiva: «Ou hei-de estar calada ou a contar misérias.» Dizendo-o, nem cumpre requisitos de mudez nem narra exemplos óbvios de infortúnio. Eis, portanto, uma regra libertadora – excepção involuntária de si mesma.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

TRUQUES

     Santo Agostinho sublinhou-o: saberia responder à pergunta «o que é o tempo?», se ninguém lha fizesse; não saberia, se lha fizesse alguém. Baudelaire sugeriu-o: o mais belo truque do Diabo é o de nos convencer da sua inexistência. O tempo, divino paradoxo, afigura-se o oposto do Demo: o seu mais belo truque é o de nos convencer da sua existência. Alguns santos ficam obviamente perplexos: a astúcia do tempo supera o ardil de Satã. Sempre assim foi.

domingo, 20 de outubro de 2013

PORMENORES

     Conclui um membro de certa tribo que «2 + 2 = 5»: dá dois nós numa corda, dois noutra e junta-as mediante um quinto nó. O sinal «+» foi também adicionado. Bernard Shaw subverteu assim a regra de ouro: «Não faças aos outros o que gostarias que eles te fizessem: eles podem ter um gosto diferente.» Seria injusto ignorar os caprichos alheios. Nem a matemática falha nem a ética baralha – se todos os pormenores entrarem nas contas.

sábado, 19 de outubro de 2013

«MEDITATIO MORTIS»

     Recomendarão os sábios que se medite na transitoriedade da existência, focando o pensamento em sepulturas anónimas, lápides quebradas, memórias desfeitas, galáxias implodidas. Isso, todavia, cansa: vai-se demasiado longe e o horizonte repete-se. Há um processo mais eficaz e que envolve menos gasto energético. Bastará permanecer quieto como a urze e matutar: «Eu sou este exacto instante. Acabou.» Claro: ainda resta o instante seguinte. Mas esse é unicamente a sombra do anterior: nunca se espera dele grande coisa.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O SOM E O AGOIRO

      Foco a atenção no grasnar madrugador de um corvo e não detecto aí razões que justifiquem para esse animal o estatuto de «ave agoirenta». Ouço o «Ah!» com que se expressa admiração, o «A» com que desponta o alfabeto e o «Há» com que se afirma a existência. Os sinais da morte exterminadora parecem ausentes deste auroral crocitar. A menos que nos estejamos a referir à «morte» num sentido esotérico ou iniciático. «Não é assim, corvo?» «Ah!»

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

FINGIMENTOS

      Procurou conhecer e experimentar por dentro todos os movimentos esotéricos e religiosos. Mas o seu grande projecto era o de alcançar um perfeito estado de desencanto e de cepticismo. Tal desiderato lançava-lhe sobre as vivências espirituais doses de fingimento de que nunca viria a libertar-se. Antevendo o fim, apressou-se a abandonar dogmas, crenças, técnicas, rituais. A tarefa revelou-se impraticável. Conseguiu apenas supor-se desencantado e céptico. Também a sua morte, por afinidade, não passou de um completo fingimento.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

ACORDO À ESQUERDA

      Decidi recentemente cultivar – doidice ocasional – a técnica de redigir com a mão esquerda. Embora ainda distante, em esmero e eficácia, da destra, ela já seria capaz, neste momento, de escrever uma carta de amor suficientemente ridícula. Entretanto (torna-se difícil saber de onde e como surgem ideias tais), mantendo a direita fiel à norma antiga, tenciono reservar para a esquerda o privilégio da adopção do novo Acordo Ortográfico. Sendo neófita em matéria linguística, ela suportará melhor o disparate.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A METAPIADA

       Diz: «Não fumo nem bebo, mas gosto de contar piadas.» Comento: «Acabou de contar uma.» Admitindo, porém, ter havido ironia na primeira parte, ele contou, em rigor, duas: uma piada e uma metapiada – alusão a piadas que «mete piada». O humor desencadeado pela mera piada exige subir um único degrau. O suscitado pela metapiada exige subir dois, devendo, em teoria, demorar o dobro do tempo a manifestar-se – excepto se, na prática, mantivermos um pé em cada degrau. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

AS VIAS DA PACIÊNCIA

      Vivia impaciente. Mas, descobrira-o, a impaciência era uma característica alterável, embora teimosa, dos pensamentos que a governavam. Procurou curar-se mediante uma caminhada diária, à mesma hora, seguindo um percurso fixo. Notou então que os conteúdos mentais, apesar de rebeldes, aderiam a pontos específicos do itinerário. Volvido um tempo razoável, decidiu efectuar o trajecto com o espírito vazio e receptivo. Nessa altura, apercebeu-se do regresso dos pensamentos exteriorizados. Vinham tranquilos e obedientes. Tinham-se habituado a esperar por ela.

domingo, 13 de outubro de 2013

INSUPORTÁVEIS EXTREMOS

      Os Monty Python criaram um sketch sobre uma anedota letal: ninguém poderia ouvi-la e, entendendo-a, continuar vivo. A causa da morte seria, portanto, o superlativo humor, com as reacções orgânicas inerentes. Segundo a tradição bíblica, ninguém pode ver Deus e continuar vivo, embora parece ter havido excepções. Aqui, talvez a causa da morte seja a infinita seriedade. Sem o equilíbrio dos dois extremos de seriedade e humor, não restariam pois condições para a existência de vida sublunar.

sábado, 12 de outubro de 2013

EXERCÍCIOS

     O aluno mantém as costas direitas, a cabeça um pouco descaída para a frente, as pálpebras semicerradas, os olhos fixos num ponto que talvez seja o umbigo do mundo, o centro da galáxia, o âmago da Divindade. Parece mostrar competências avançadas de meditação. Na verdade, executa apenas uma técnica banal de copianço. Alojou a cábula no telemóvel, pousado algures, extensão pós-moderna do corpo e da memória. Surpreendo sete deles entregues a este exercício acanalhado. Até mete dó.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

CRÍTICA DA RAZÃO OBSCURA

       Árida em estilo, fecunda em ideias, a Crítica da Razão Pura suscitou, recentemente, um episódio insólito: na Rússia, dois indivíduos envolveram-se numa troca de murros, tendo inclusive um baleado o outro – felizmente sem trágico desfecho –, enquanto argumentavam sobre a famigerada obra. Kant escreveu aí: «Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas.» Talvez o incidente resultasse de uma situação filosófica anómala: aquela em que a cegueira sobe ao pensamento e o vazio desce à intuição.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

DESREGRADO CEPTICISMO

       Os especialistas diferenciam «saber-que» de «saber-fazer» e de «conhecimento por contacto». Embora pedagógica, a distinção é artificial. Efectivamente, todo o conhecimento pressupõe algum «contacto» do sujeito com o objecto. Mas também esta última distinção se revela postiça: não há sujeito puro nem objecto claro, antes uma continuidade inefável, sem rupturas intrínsecas nem «contactos» eventuais. O que acaba de se expor traduz um conhecimento? Sim: um conhecimento ilusório de um objecto irreal – por parte de um sujeito inexistente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O LUGAR DA SORTE

      Entra no café. Vende cautelas. Entoa um pregão rápido, minimalista. Transporta uma bolsa a tiracolo e enverga um colete de duas cores: azul-escuro em baixo, amarelo evidente em cima. Nas costas, destacada do fundo amarelo, pode ler-se a expressão «casa da sorte». No entanto, a palavra «sorte» não se revela de forma ostensiva: adivinhamo-la ou deduzimo-la. A tira da bolsa passa ali, ocultando-lhe ora umas, ora outras letras. A contingência do mundo revê-se na ironia dos detalhes.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

INFORMAÇÕES INICIAIS

       Aporta um professor a nova escola. Informam-no de que vai receber uma turma complicada, mas que se trata de um desafio. Preferindo que o deixem em paz, desconhecedor ainda das práticas pedagógicas que fazem ver em cada aluno um diamante a facetar, o docente responde que dispensa semelhantes desafios. Não lhe fica bem. Confrontado com a realidade, descobre que «turma complicada» exprimia um eufemismo e que o tal «desafio» dizia respeito à sua capacidade de sobrevivência psíquica.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A ENCOMENDA

       «Caso não seja entregue, agradecemos a devolução, indicando a razão com um X.» Imagino o que aconteceria se o destinatário da encomenda fosse a Divindade e os filósofos se tornassem os responsáveis por desenhar a «cruz da não entrega». Aristóteles colocá-la-ia em «Ausente»; Epicuro, em «Recusado»; Kant, em «Desconhecido»; Hume, em «Encerrado»; Feuerbach, em «Mudou-se»; Nietzsche, em «Falecido»; Wittgenstein, em «Endereço insuficiente»; Sartre, em «Não reclamado». Já os panteístas, como Espinosa, ficariam legitimamente de posse da encomenda.

domingo, 6 de outubro de 2013

INCÓMODOS

     Tornou-se axioma: «Pensar incomoda como andar à chuva.» Tal regra de Caeiro admite, ainda assim, inúmeras excepções: os conceitos variam em peso e agressividade; as pingas, em volume e frequência. Mas é possível neutralizar ambos os incómodos elegendo intervalos: os que distanciam as gotas e os que separam conteúdos mentais. Dos dois exercícios, todavia, só o segundo parece exequível. Trata-se aliás de excelente opção para quem anda à chuva – e quer evitar o incómodo de pensar nisso.

sábado, 5 de outubro de 2013

NADA DE NOVO

     Aparentemente, Descartes caiu num círculo: por um lado, tinha a ideia clara e distinta de Deus, com que provou a sua existência; por outro, necessitava que Deus existisse para garantir a verdade da ideia clara e distinta que tinha dele. O problema reside no facto de, neste caso, os pensamentos deslizarem sobre palavras como dedos sobre o ecrã de um tablet: afastam-se e aproximam-se, ampliam e reduzem, arrastam e esperam, mas nada de novo acrescentam ao texto.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

NASCIDOS ENTRE VELHARIAS

      Entro numa loja de velharias e noto que há cinco gatos recém-nascidos, de pêlo escuro, a vaguear por ali. Não tardam a aproximar-se. Talvez me conheçam de vidas anteriores, passadas algures na Pérsia ou no Egipto. Um deles tenta acomodar-se sobre um dos meus sapatos, como se o mundo não lhe inspirasse qualquer mistério ou inquietação. Estes animais viram a luz entre múltiplos objectos que insistem em lembrar o fim. Não admira, portanto, que ignorem certos princípios.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A OUTRA LÓGICA

      Ele supunha ser a vida a conclusão de um argumento cujas premissas se desconhecem. Ela julgava-a um conjunto de premissas que não levam a qualquer conclusão. Através de inflamada lógica, juntou-os o destino. Mas cada um só via no outro o que ele próprio achava da vida. Volvido quase um ano, disse o homem: «É preferível concluirmos.» Ela retorquiu: «Claro. Também não me faltam premissas.» Fora aquele o único argumento válido após uma série intensa de falácias.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

É O COSTUME

      Segundo David Hume, é ilegítimo supor entre a chamada «causa» e o designado «efeito» qualquer «conexão necessária». Há apenas fenómenos que sucedem outros. O costume de os ver associados leva-nos a inferir que, interiormente, eles se «conectam». Pura falácia. Talvez seja o mesmo hábito que nos impele a dividir o tempo em passado – a causa que foi embora –, futuro – o efeito que nunca está – e presente – a ligação obstinada dessas duas ausências. Enfim, os aborrecimentos do costume.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

LIÇÕES DA ÍNDIA

      Recebo por e-mail um anónimo texto circulante. Lê-se aí que, na Índia, ensinam «quatro leis da espiritualidade»: «A pessoa que vem é a pessoa certa.» «Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido.» «Toda a vez que iniciares algo é o momento certo.» «Quando algo termina, termina.» E há um voto: «Sejamos fortes nesta caminhada rumo ao progresso espiritual.» Pergunto: ante pessoas oportuníssimas, rigorosas inevitabilidades, começos perfeitos e desenlaces categóricos, como é que o espírito afinal progride?

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A INTERVENÇÃO SECRETA DE ARIADNE

      Almejava esquecer um passado atroz. Decidiu convertê-lo em narrativa. Ocultou-a num ficheiro com palavra-passe. Criou outro. Guardou aí essa palavra-passe. Num terceiro, alojou a do segundo. E assim sucessivamente, rumo ao olvido. Chegado ao milionésimo sétimo, logrou esquecer os dolorosos tempos. Mas também o sentido daquele exercício. Clicou então – gesto fortuito – em «Colar». O vocábulo «fio» adveio à página, garantindo-lhe acesso ao ficheiro anterior. Reentrara no labirinto. Sem o saber, foi avançando em busca de si próprio.

domingo, 29 de setembro de 2013

O ELEITOR DE ARQUÉTIPOS

       Amigo de dois políticos que eram adversários e se iam submeter ao escrutínio popular, a ambos prometeu, secretamente, o voto. Não lhes mentiu. Sendo platónico, acreditava na existência de Formas matemáticas eternas. No boletim, colocou metade da cruz num quadrado e a metade complementar no outro, esperando a união das duas no Quadrado absoluto, em pleno mundo inteligível. Talvez o desejo se tenha cumprido: nenhum dos dois candidatos venceu. Havia um terceiro – que atraía gente menos idealista.

sábado, 28 de setembro de 2013

DIA DE REFLEXÃO

       Diz-se que num acto de reflexão o pensamento se dobra sobre si mesmo. Hoje, consta, é «dia de reflexão». Talvez a manhã se dobre sobre a tarde e vice-versa. Talvez a atmosfera se encha de questões filosóficas: «Quem somos?», «Donde vimos?», «Para onde vamos?» – e outras de análogo teor antropológico. Talvez os cidadãos menos introspectivos sejam por elas arrastados para exercícios que os colocam entre a vertigem e o abismo. Mas amanhã já terão esquecido o susto.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

FUSÃO

        Anos de meditação tornaram-no capaz de se fundir na Unidade, como açúcar mascavado em chá de alecrim. Se pressentia aborrecimentos ou pequenas catástrofes, pumba, fundia-se na Unidade. Mas uma percentagem de si permanecia imune à fusão: o indicador direito. Este mantinha-o ligado à pluralidade, apontando-lhe os caminhos de ida e volta. Certo dia, ficando o nariz a substitui-lo, também tal dedo foi conhecer a Unidade. Regressou transbordante de ideais: passou a apontar caminhos a toda a gente.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

ACERCA DA MATÉRIA

        Escreve António Gedeão que «o Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma». Garante Ernest Rutherford que «o átomo é sobretudo espaço vazio». Deste modo, a matéria revela-se uma profunda escassez. Deveria, pois, ser fácil alcançar o nirvana – e outros vácuos igualmente gratificantes. Deveria também constituir autêntico milagre o facto de sabermos onde estão os objectos. Todavia, pelo contrário, a chamada «realidade empírica» mostra-se frequentemente excessiva. Ou então ela é um excessivo milagre que nos passa, afinal, despercebido.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

ESPELHOS

      Um poeta da Geração d’Orpheu entrou numa casa de banho pública, onde existia um espelho capaz de fixar imagens e palavras. Retirou do bolso um espelho mais pequeno e fez aquele jogo de reflexos que anula simetrias. Proferiu, em simultâneo, um verso: «Eu não sou eu nem sou o outro.» O espelho maior assimilou tudo. Desde então, se alguém, mirando-se a ele, perguntasse «Quem sou eu?», obtinha esta resposta: «És dois espelhos – ou “qualquer coisa de intermédio”.»

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O TERCEIRO ANIMAL

      Isaiah Berlin destacou o aforismo de Arquíloco: «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.» A frase parece inventada pelos ouriços – para poder ser citada pelas raposas. Acrescente-se um terceiro animal: o caracol. Este molusco sabe poucas coisas, mas duas muito importantes. Sabe que é um dos bichos mais lentos: todos o constatam. Sabe também que é um dos bichos mais rápidos: já chegou ao destino e ainda mal saiu de casa.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O SER

             Segundo Parménides, o Ser – que não se reduz a entidades vivas, ideias gastas ou pipocas estaladiças, antes engloba a totalidade do que existe – encontra-se imóvel. Movimento e pluralidade constituem ilusões dos sentidos. Movo-me de carro enquanto reflicto sobre tais ilusões. Concluo que nunca o Imóvel – que é igualmente o Uno – conseguiria gerá-las se não se movesse também. Paro entretanto: um indivíduo parece querer atravessar a passadeira. Parece, mas nem sequer se move. Eis o Ser de Parménides.

domingo, 22 de setembro de 2013

OS DOIS PONTOS

        Num mundo de sombras cúmplices e renovada inquietude, há dois pontos que incitam, sem trégua, a exercícios filosóficos. Um deles é, naturalmente, o ponto de interrogação; o outro é, obviamente, o ponto de embraiagem. O primeiro situa-se entre a ignorância espessa e a sabedoria cristalina; o segundo, entre a imobilidade total e o fluir ininterrupto. Mas importa usá-los com parcimónia. Quem abusa do segundo pode danificar a viatura. Quem abusa do primeiro arrisca-se a estragar a convivência. 

sábado, 21 de setembro de 2013

A NÊSPERA E O UNIVERSO

      Livros de auto-ajuda de cósmica abrangência exortam o leitor a «sintonizar-se» com o Universo, parecendo glorificar a atitude da nêspera do conto de Mário-Henrique Leiria: a de ficar «a ver o que acontece». Porém, «sintonizado» ou não, o indivíduo é já parte do Universo, tornando-se directamente responsável, enquanto fica «a ver o que acontece», pelo que lhe possa vir a acontecer. «Olha uma nêspera!», diz a velha recém-chegada. E come-a. O Universo é tão promissor quanto auto-punitivo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

«ALTURAS» E OUTRAS AMBIGUIDADES

             É por alturas que arrumo os livros: há alturas em que tento arrumá-los de uma forma; alturas há em que tento arrumá-los de outra. O critério actual vai destilando ambiguidade: arrumo-os, justamente, por alturas. Aprecio o arranjo externo que os irmana, intuindo o contraste que isso faz com a divergência interna que os separa. Um segundo critério poderá ser o da espessura da lombada. «Frequentemente», dirão os compêndios de matemática, «para achar um volume a régua basta.»

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

OS OBJECTOS INEFÁVEIS

      Naquela feira vendiam-se apenas objectos inefáveis. Em rigor, não se tratava de objectos completamente inefáveis: deles se dizia que eram «inefáveis» e que eram «objectos». De resto, como de Deus para os místicos, de tais objectos só se falava mediante negações: não tinham cheiro, cor, som, peso, volume, forma, nada. Quem os adquiria, geralmente a preços indizíveis, espalhava-os pela casa ou por caminhos habituais. Constituía mesmo um sagrado imperativo tropeçar em objectos inefáveis – para alcançar indescritíveis quedas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A REALIDADE BRUTA

        Achava que a escrita devia exprimir apenas «o real nu e cru». Decidiu mesmo aprender estenografia, para que nenhum pormenor lhe escapasse nem tivesse tempo de reflectir. Em esplanadas, confiava ao papel «a existência bruta». Uma tarde, a caneta esbarrou com excremento de pomba. A matéria fecal interrompeu-lhe uma frase em que, transgredindo a norma abstracta, opinava sobre gestos concretos. Pensou: «Se a realidade pune desta forma um delito menor, ela deve ser implacável com os dissidentes.»

terça-feira, 17 de setembro de 2013

«TWO KINDS OF PEOPLE»

       Diz a anedota que, relativamente à matemática, há três tipos de pessoas: as que sabem fazer contas e as que não. Em termos gerais, a regra consiste em haver só dois. A ideia, que invadiu o cinema, radica na eterna luta de contrários, conhecida pelo menos desde a expulsão do Éden. Para extinguir tal cliché, dever-se-á criar um paradoxo. Só há dois tipos de pessoas: as que não se enquadram nisso e as que ficaram de fora.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

NADA GARANTE QUE NÃO SEJA VENENO

           Numa disposição de pontos que faça lembrar um triângulo, a maioria percepciona, efectivamente, um triângulo: une os pontos com linhas imaginárias. Ninguém jurará não haver qualquer figura, embora o acto de suprimir mentalmente os pontos adquira, por comparação, igual legitimidade. Na base da resposta encontra-se a tendência para o «enchimento», também implícita na cansativa história do copo: o optimista vê-o meio cheio; o pessimista, meio vazio. Mas o que importa é saber de que bebida se trata.

domingo, 15 de setembro de 2013

A MÁQUINA DAS EXPERIÊNCIAS

        Robert Nozick propôs que imaginássemos certa máquina capaz de nos fornecer qualquer experiência – se a ela nos ligássemos. Todos os desejos seriam satisfeitos, embora – sem o saber – flutuássemos num tanque, o cérebro estimulado por eléctrodos. Nozick acreditava que a maior parte das pessoas recusaria ligar-se, dispensando essa vivência exclusiva de prazeres ilimitados. Mas o aparelho também traria dor – se a desejássemos. Podemos inclusive presumir que, metafisicamente falando, estamos ligados a máquinas idênticas – porém anómalas, por uso impróprio. 

sábado, 14 de setembro de 2013

INTROSPECÇÃO

        Auguste Comte negava-lhe valor científico: na introspecção, o sujeito observador coincide com o objecto observado. E «ninguém pode estar à janela para se ver passar na rua». Tese plausível, frágil argumento: embora coincida com o objecto, o sujeito não coincide consigo próprio. Se a introspecção carece de rigor, é justamente pelo facto de, na vida mental, ser possível estar à janela e ver-se passar na rua – ou passar na rua e ver que se está à janela.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

FIM DE TARDE

        A tarde declina. Chego ao centro de uma aldeia que desconheço. Aproximam-se indivíduos avançados em idade. Entabula-se conversa. Um deles discursa. Quase nenhuma das frases lhe sai sem palavrões. Sente azedume: aquela terra perdeu o estatuto de freguesia. O velho mostra-se categórico: «Os novos deviam ir todos para o caralho!» Uma anciã leva o indicador à cabeça, gesto cúmplice. O homem, todavia, conclui a arenga ao estilo pessoano: «A aldeia é grande, mas a alma é pequena.»

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

LUCIDEZ

       Refere Saramago que os seus livros deveriam exibir, na capa, uma fita onde se lesse: «Atenção, este livro leva uma pessoa dentro.» Eis entretanto as últimas palavras de Marx: «Vá lá, sai daqui! Últimas palavras são para tolos que não disseram o suficiente!» Também isto porventura «leva uma pessoa dentro». O mau uso histórico da doutrina marxista gera a sensação de que o filósofo não disse o «suficiente». Mas, pelo menos, manteve-se lúcido até à derradeira sílaba.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A MAÇADA DAS UTOPIAS

          Os habitantes da utópica cidade solar, descrita por Tommaso Campanella e governada pelo Metafísico, «têm em comum as casas, os dormitórios, os leitos, todas as coisas necessárias». Se a mente fosse despojada do princípio segundo o qual uma realidade é idêntica a si própria e distinta das demais, viveríamos o êxtase da fusão e do intercâmbio, concretizando a fórmula mística do «tudo em tudo». Eis duas soluções pouco agradáveis para quem gosta que o deixem em paz.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O MONÓLITO

       Chama-se Maxime Qavtaradze. Lembrando antigos estilitas, o monge vive há vinte anos no topo de um monólito: longe dos semelhantes, que todavia o alimentam; mais perto de Deus, apesar da divina omnipresença. Mas permanecer ali, rodeado de abismo e monotonia, pode também ser o convite ao exercício de «simplesmente existir»: sem memórias cruéis nem expectativas inúteis, para lá de um céu de promessas e de uma terra de desilusões. Todos deviam ter direito a uma pedra assim.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

REPETIÇÃO E CONTRADIÇÃO

       Para evitar contradizerem-se, muitos gostarão de academicamente o repetir: «Quem não se repete contradiz-se.» Por sua vez, Cardoso Pires entende que o maior pânico do escritor, à medida que avança na idade e no trabalho, «é desconfiar que já leu aquilo em qualquer lado – dele». Portanto, ou o escritor demanda subterraneamente a contradição ou há modalidades de «não repetição» que nada encerram de contraditório. Eis o jogo entre o «mesmo» e o «diverso», cujas regras convém desconhecer.

domingo, 8 de setembro de 2013

DISTINÇÃO

        Afonso XIII condecorou-o com a Grã-Cruz de Afonso XII. Miguel de Unamuno declarou, pois, ser uma honra receber semelhante distinção – altamente merecida. Surpreso, disse-lhe o rei que ele era o primeiro a expressar-se assim. Sempre os anteriores homenageados haviam referido que a não mereciam. Retorquiu o filósofo: «E provavelmente com toda a razão.» A franca arrogância gera, por vezes, um humor mais corrosivo que o da ironia. Já a modéstia, quando falsa, é somente ironia sem humor.

sábado, 7 de setembro de 2013

FALHAS

       Passo de um manual de lógica para o Livro Tibetano dos Mortos. O primeiro tenta definir, com exactidão, as formas válidas de pensar a vida. O segundo procura descrever, com ênfase, o que iremos achar após a morte. Mas ambos terão falhas. Cada morto representa um caso. Cada vivo inaugura um paradoxo. Deve, pois, existir algo que as «quatro figuras do silogismo» não abarcam e as «quatro nobres verdades» do budismo não contemplam: um caos rigorosamente impartilhável.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

MOMENTOS LÍRICOS

       Um candidato a poeta dá a ler uma composição sua a sazonado diplomata. Embora não aprecie os versos, o auxiliador de talentos esforça-se – talvez inconscientemente – por captar momentos líricos bem conseguidos. Depois dirá ao principiante vate: «Achei sobretudo belíssima a expressão x.» A «expressão x» serviu-lhe de refúgio: cumpriu nela a expectativa estética, não contentável no geral do poema. O aforismo de Lavoisier ganha, neste contexto, outra figura: muito se cria, tudo se perde, nada se transforma.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A IMAGINAÇÃO EM EXERCÍCIO

      Duas anedotas. No desenho há vaca e erva. A erva não está – comeu-a a vaca. A vaca não consta – comeu a erva e foi-se. Frequentemente, caminhava em redor de um monte. Sempre numa direcção invariável. Anos depois, descobriria que uma das pernas encurtara. Decidiu-se pelo sentido oposto, até as igualar. A quem duvidava disso respondia: «Veja: as minhas pernas têm o mesmo comprimento!» A imaginação cria factos e elimina-os com hipóteses; cria hipóteses e ilumina-as com factos. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

TÉCNICAS

        Uma técnica defensiva relativamente a «incómodos pensamentos dolorosos» consiste em negá-los à consciência, evitando traduzi-los em imagens e palavras. O exercício, porém, revela-se falível: os pensamentos vagueiam por perto, fantasmas sedentos de epifania. Outra técnica passa por considerar tudo ilusório e oco: volvidas décadas, não excederemos pó e esquecimento. A intenção é fecunda; o resultado, oco e ilusório. Há uma terceira técnica, mas imponderada: além de pressupor a colaboração do adversário, só pode ser usada uma vez.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

SETAS

      Tanto o computador nos habitua a uma setinha azul, curva de aspecto, capaz de «anular a introdução», que instintivamente a procuramos para «anular» também o que de asneira «introduzimos» no quotidiano exterior ao Word. Em vão, no entanto, se demandará aí tal dispositivo de reversibilidade. A linha do tempo desconhece as setas curvas e azuis que neutralizam o sentido indesejado. Ela assemelha-se mais, enquanto flecha inexorável, às setas brancas sobre fundo azul – que indicam o sentido obrigatório.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

LER AO CONTRÁRIO

      Com perturbação neurológica designada «fenómeno de orientação espacial», a sérvia Bojana Danilovic lê e escreve ao contrário. Recordo facto passado. Uma jovem da aldeia não sabia ler. Namorava um instruído moço da cidade. Certo dia, tomou o comboio para se encontrar com ele. Sentou-se e abriu o jornal sobre as pernas cruzadas. Disse-lhe um cavalheiro: «Desculpe, menina, está a ler o jornal ao contrário!» Desconhecendo Bojana, ela replicou: «Às direitas qualquer um é capaz de o fazer.»

domingo, 1 de setembro de 2013

FRASES

       Naquele país, os cidadãos – graças a um sistema informático de controlo mental – recebiam à nascença as frases que iriam dizer, e podiam livremente repetir, durante a vida. O conteúdo e o número variavam entre indivíduos, consoante os pátrios interesses. Estar ligado ao «sistema» (todos os sentiam) era tão instintivo como respirar. Não havia asserções melancólicas, embaraçosas ou contestatárias. De modo obviamente consensual, assim se definia «ser humano»: um amontoado bípede de frases implumes, com umbigo e narinas.

sábado, 31 de agosto de 2013

PALAVRAS

        Tomás de Aquino deixou mais de oito milhões de palavras. Imaginemos uma tradução d’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e multipliquemo-la por vinte e quatro. Extenuante cordilheira! Perto do fim, o santo terá tido uma visão que o levou a afirmar que tudo quanto escrevera lhe parecia palha. Dolorosa ironia! Há filósofos que necessitam de forjar muita prosa – e ainda de visões sobrenaturais – para extrair uma conclusão que um aluno medíocre do secundário atinge sem qualquer esforço.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

1817 OU MAIS

     Ante a afirmação de Boswell de que era impossível refutar a doutrina imaterialista de Berkeley, Samuel Johnson bateu com o pé fortemente numa pedra e disse: «Refuto-a assim.» Conta Eça em Civilização que, na vasta biblioteca, Jacinto reunira mil oitocentos e dezassete sistemas filosóficos – apenas «os que irreconciliavelmente se contradizem». Talvez nem haja tantos. Há, sim, teses e antíteses que se contradizem através de mil oitocentos e dezassete argumentos. Ou mais – quando se filosofa com os pés. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

FOJO DO LOBO



Fojo do Lobo (Samardã)

       Uma hora de passos ágeis leva-me ao fojo do lobo, onde Camilo «granizou» uma fera entretida com tinhosa rês. Emoldura-o o negrume de fogos recentes. Coroando uma fraga, a lápide que ali perdura – já mutilada – é também memorial indirecto de ligeiro fiasco: Camilo pouco incomodou o lobo. Talvez isso, nos «únicos felizes anos» da sua mocidade, pressagiasse malogros mais sérios, em fojos menos tangíveis, culminando no revólver de Seide. Um corvo, ao longe, fere a manhã clara.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

UM MUNDO SEM HUMOR

        Imaginemos um mundo onde, graças a rigorosas causas transcendentes, se torna impossível qualquer momento de humor. Aí, a linguagem, não apenas a verbal, terá uma objectividade esmagadora. Os movimentos dos corpos nunca excederão certos padrões eternos, embora desconhecidos. Nem o destino inventará ironias nem os genes forjarão os músculos do riso. Não havendo razões para piadas que libertem, não as haverá também para reveses que descompensem. Eis, portanto, o mundo ideal – e uma anedota muito mal contada.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

OS LUGARES DE SETEMBRO

       «Em Setembro, onde estarei?» Tal pergunta, nesta altura, colocam-na milhares de professores (entre eles me incluo). «Numa qualquer escola do rectângulo – se nalguma», eis a genérica resposta. «Um dia de cada vez!», recomendam os sábios. Afinal, o Ministério da Educação apenas almeja fomentar nos docentes a vivência absoluta do eterno hoje – e o espírito indomável de aventura. Pessoalmente, dispenso a gentileza. Volto à questão: «Em Setembro, onde estarei?» «“Setembro”, agora, é com inicial minúscula», corrigem-me os entendidos.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O ALÍVIO QUE VEM DEPOIS

Contaram-mo. Certo adolescente, descobrindo maneira de infligir pequenos choques eléctricos em si mesmo, decidiu fazê-lo com regularidade. Doloroso? «Sim», confessava o moço, «mas depois é cá um alívio!» Os psicólogos chamam «reforço negativo» ao desaparecimento do estímulo adverso. Ignoro como designam esse impulso de buscar a dor só para fruir o bálsamo da sua extinção. Porém, a níveis diversos, de modo mais ou menos voluntário, todos os humanos são incorrigíveis adolescentes a brincar com a corrente eléctrica.

domingo, 25 de agosto de 2013

CLONAR JOHN LENNON

        Um dentista pretende clonar John Lennon a partir do ADN de um dente que possui do célebre músico. Subjazem a este tipo de fantasias a crença feroz no determinismo genético e o inaceitável menosprezo da noção de «identidade pessoal». A circunstância vivida pelo clone será irremediavelmente outra; outra será também a criatura lançada a viver a nova circunstância. Com base em sugestão antroponímica, diremos que talvez seja possível clonar o John; mas é impossível clonar o Lennon.

sábado, 24 de agosto de 2013

O AVANÇADO INSTANTE

      O país era carrancudo. Mas ele descobrira dentro de si um pensamento que invariavelmente lhe punha alegria no espírito e euforia na alma. Tratava-se do seguinte: «Este instante é o mais avançado da nossa história.» Durante anos fixou-se em tal asserção, repetindo-a centenas de vezes, ao longo dos dias, em jeito de mantra. Daí resultou tornar-se uma criatura esfuziante: cantava entre sisudos, ria entre infelizes. Desiludidos, muitos comentavam: «Este indivíduo é o mais atrasado da sua geração.»

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

OS DOIS DIAS

       Porventura desejoso de exibir ataraxia estóica, alguém afirmará que o dia da sua morte «será igual aos outros, apenas mais curto», esquecendo de referir o do nascimento (ou o da concepção, se buscamos rigor), frequentemente ainda mais curto que o da morte. Aquele que cessou de recear a Ceifeira mencionará os dias primeiro e último com imparcialidade. Talvez sejam ambos absurdos – e os restantes os imitem. Contudo, até nisso verá mero detalhe quem ascendeu a imperturbáveis cumes.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

AS DUAS MANHÃS

       Escreve-o Bernardo Soares: «A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete.» Deve, por conseguinte, haver algures entre o campo e a cidade um ponto de fusão das duas manhãs. Será o lugar adequado aos que apreciam sínteses e convergências. Pode, no entanto, haver igualmente um ponto de omissão, um ponto onde a manhã do campo não «existe» e a manhã da cidade não «promete». Será esse o espaço ideal dos que preferem margens e silêncios.  

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

TÉCNICA RADICAL

      Para os pensamentos que julgava «inadequados», e que os livros de auto-ajuda qualificavam de «negativos», descobrira, finalmente, o auspicioso antídoto. Ao farejar-lhes a indesejada proximidade, imaginava-se vítima de decapitação rápida. Isso traduzia-se, em termos biológicos, no corte providencial dos canais percorridos pelos fluxos menos sensatos com que a alma atazana o corpo. Mas aquela representação mental – que, apesar de mórbida, ele achava «amplamente adequada» – acabaria, graças à sua força e persistência, por torná-lo vítima de decapitação efectiva.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

RELIGIÃO E INTELIGÊNCIA

          Anunciam-no recentes estudos: os espíritos religiosos mostram-se menos inteligentes que os incréus. As religiões, claro, são múltiplas; os tipos de inteligência também. Mas os estudos não o sonegaram e definiram operacionalmente ambos os conceitos: de um lado, o pensamento analítico, abstracto; do outro, algumas práticas concretas. Existe, pois, muito a investigar. De qualquer modo, admitindo a fiabilidade dos resultados, fica-se com a dolorosa sensação de que o tipo de inteligência em causa terá escasso fulgor no Paraíso.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

OS ESCARAVELHOS COMUNS

       Wittgenstein propôs a imagem: cada um dispõe da sua caixa e só vê o interior dela. Todos usam a palavra «escaravelho» para designar o conteúdo. E todos, minimamente, se entendem. Mas pode não existir qualquer escaravelho. Leibniz considerava ser cada alma uma das infinitas mónadas do Universo. Nenhuma possui janelas. Ainda assim, todas falam do interior – e do exterior – da sua «caixa». E todas, minimamente, se entendem. Somos mónadas a conversar sobre escaravelhos que talvez não existam.

domingo, 18 de agosto de 2013

POEMAS DO OUTRO LADO

        Leio o Parnaso de Além-Túmulo, colectânea de poemas que o médium Chico Xavier psicografou de espíritos de cinquenta e seis vates, incluindo o de Antero de Quental. Chego à conclusão, porventura errónea, de que a alegada existência após a morte, embora preserve algum talento dos poetas, uniformiza estilos, dilui inquietações, impõe clichés. Talvez o «nosso mundo» seja fútil, sombrio, ilusório e tolo. Mas – até prova em contrário – só mesmo «deste lado» é que Antero «interroga o infinito».

ANEXO

Para uma eventual comparação, seguem-se dois sonetos. O primeiro foi escrito por Antero de Quental, naturalmente quando ainda estava vivo. O segundo foi supostamente ditado pelo espírito de Antero (já liberto do cárcere terreno) ao médium Francisco Cândido Xavier, fazendo parte de um conjunto de 19 composições, de igual estrutura, integradas na referida colectânea:


Evolução

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pacigo...

Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental


Depois da morte

Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,

Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!

E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,

Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas.

Francisco Cândido Xavier

sábado, 17 de agosto de 2013

SILÊNCIO

        Pergunto-lhes se têm «ódio ao silêncio». Um dos alunos esclarece que, para silêncio, bastará quando estiverem «debaixo dos torrões, na companhia dos mudos». O enunciado é violento. Tornar-se-ia, contudo, mais suportável se o moço optasse por expressões como «sob o solo», «junto aos incapazes de grito ou asserção». Preferiu, no entanto, os «torrões» pesados e a «mudez» contrafeita. Entendo a aparente escolha. O medo irreflectido do silêncio, inseparável do terror da morte, não permite eleger palavras brandas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

«DUAS COISAS»

       Se alguém, sobretudo em debates, afirma que só quer «dizer duas coisas», justifica-se a apreensão: talvez tenhamos prosa fatigante. Se, em vez de duas, anunciar que pretende «dizer apenas uma», justifica-se o suspiro de alívio: talvez tenhamos prosa abreviada. Neste contexto, a diferença entre «uma» e «duas» não é matematicamente exacta: é a diferença, inconsciente, entre dar um passo com que o eu vai directo ao assunto e dar infindáveis passos entre o assunto e o eu.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

DIVISÕES E SEPARAÇÕES

       Escoto Erígena dividia a natureza em quatro partes. Duas são a «natureza criadora e incriada», que é Deus, e a «natureza não criadora e incriada», que o é também. (Deixemos as sobrantes.) Ora o exercício de cindir o divino aguça o humor que permite suportar o humano. Durante um jantar, alguém questionara o filósofo acerca do que separava um Escoto («Scot») de um bêbado («sot»). Sentado do outro lado da mesa, Escoto terá respondido: «Apenas esta mesa.»

quarta-feira, 31 de julho de 2013

CONCLUSÕES

        Subindo o escarpado monte, reflectia metafisicamente: «O caminho é único; o ponto de chegada, absoluto.» Atingido o topo, e observando outras possibilidades ascensionais, concluiu: «Os caminhos são diversos; o ponto de chegada, único.» Ao descer, contemplando os múltiplos lugares do sopé, mudou de perspectiva: «Os caminhos são inumeráveis. Os pontos de chegada também.» A certa altura desequilibrou-se, caiu e foi a rebolar desamparado. Surgiu-lhe então esta ideia: «Os caminhos são circulares e não levam a lado nenhum.» 

Este blogue completa hoje dois anos. Agora recomenda-se uma pausa. Valeu!

terça-feira, 30 de julho de 2013

DIÁLOGO

       «Se acaso estiver com ele, diga-lhe que eu nunca mando recados por ninguém.» «Fá-lo-ei. Prometo.» «E que sou directo, frontal e não admito rodeios.» «O homem ficará totalmente esclarecido.» «Já agora, diga-lhe também que eu o considero imbecil.» «Hum… Mas será que ele vai compreender?» «Qualquer imbecil é capaz de compreender isso.» «De facto, pensando melhor, até eu compreendo bem. Quer que lhe entregue mais algum recado?» «Não é necessário. Agradeço. O resto posso enviá-lo por e-mail.»

segunda-feira, 29 de julho de 2013

«COMO ESTÁ?»

       Sucessivamente interrogado se era um deus, um anjo ou um santo, Buda disse que não a todas as questões. «Então o que és?» Ele respondeu: «Estou desperto.» Talvez na filosofia oriental, ao invés do que sucede na ocidental, o «estar» ganhe primazia relativamente ao «ser». Mas o cumprimento quotidiano assenta, afinal, nesse mesmo padrão. «Como está?» Eis uma pergunta frequente que escassas vezes pede uma resposta. «Estou desperto.» Eis uma resposta invulgar que raramente exige uma pergunta.

domingo, 28 de julho de 2013

SOBRE O «AGORA»

       Nem sempre os especialistas no tema – como Eckhart Tolle – distinguem com rigor o «agora» enquanto ponto em que eternamente se está do «agora» enquanto ponto em que é desejável que se esteja. No primeiro caso, o conceito é de origem factual; no segundo, é de natureza valorativa. Pretende-se, claro, que «ser» e «dever ser» coincidam. Mas há quem acredite «viver no eterno agora onde tudo está bem» e sinta repugnância ao notar que pisou bosta de vaca.

sábado, 27 de julho de 2013

UM VIOLENTO «CASO ACONTECIDO»

        Vinha do monte, com lenha às costas. Uma mulher acusou-o de lha ter roubado. Ele chamou pelo pai, que modelava louça na roda. Ela chamou pelo filho, que estava na cama, adoentado, junto de suposta amante. Discutiram. O oleiro recebeu do enfermo uma sacholada que lhe abriria a cabeça. Tentaram curá-lo pondo-lhe açúcar na irremediável ferida. «Eu hei-de matar aquele ladrão!» – foram as suas últimas palavras, três vezes ditas. O «ladrão» morreu na cadeia, um mês depois.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ACERCA DO ESSENCIAL

       Devemos a máxima a Saint-Exupéry: «O essencial é invisível para os olhos.» Acontece, porém, haver coisas «visíveis para os olhos» manifestamente essenciais. Pelo menos se desejamos manter-nos vivos. A sentença corre também o risco de sugerir que o «invisível para os olhos» é sempre essencial. Sabemos, contudo, que existe imenso lixo a poluir o «mundo interior». Dir-se-á que Saint-Exupéry não se refere ao «aparentemente essencial», antes ao «verdadeiramente essencial». Essa, no entanto, afigura-se uma ideia «altamente supérflua».

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O MELHOR E O PIOR

      Apoiando-se nos supremos atributos do Criador, Leibniz achava que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Ao invés, baseando-se na ideia de que, se fosse ligeiramente pior, o mundo deixaria de existir, Schopenhauer pensava que vivemos no pior dos possíveis mundos. No entanto, talvez nunca o melhor dos mundos originasse um Schopenhauer que visse nele o pior, nem o pior gerasse um Leibniz que visse nele o melhor. Há teses que parecem ter nascido para mutuamente se anularem.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O ESTATÍSTICO E O MORALISTA

        Conta-se que certo estatístico, viajante frequente de avião, se sentia apreensivo ao fazê-lo, por causa das ameaças de bomba. Mas concluiu que a probabilidade de haver uma a bordo era escassa e a de haver duas era mínima. Passou então a levar uma consigo. Também certo moralista se sentia prisioneiro do remorso desencadeado pelo único erro grave que cometera. Pensou melhor e concluiu que seria libertador poder transitar entre dois remorsos. Decidiu então cometer outro erro grave.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

ESTÁTUAS SINGULARES

       Naquele país, as estátuas dos humanos não possuíam cabeça, faltava-lhes o tronco e dos membros pouco era visível. O pedestal exibia a inscrição e, no topo, um baixo-relevo. Ao atingirem a idade adulta, todos os habitantes recebiam o convite para que tirassem o «Eterno Rasto», o documento onde se registava a configuração do pé. Quem pela celebridade o merecesse teria, após a morte, a pegada sobre a peanha. Dizia-se: «O rasto é tudo, o resto é nada.»

domingo, 21 de julho de 2013

O INTELECTO, A IMAGINAÇÃO E O UNIVERSO

        Se for infinito, o Universo não se adequa ao intelecto; se for finito, não se adequa à imaginação. Ora o Universo ou é finito ou é infinito. Logo, ele é inadequável à imaginação ou ao intelecto. Pouco preocupados com isso, garantem vários redactores de livros de auto-ajuda que «o Universo conspira a favor do indivíduo». Eis uma tese cuja defesa, para ser minimamente honesta, exigirá sempre um esforço violento do intelecto e um empenho tremendo da imaginação.