segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PACÍFICA TRANSIÇÃO (77)


Compreender literalmente o ditame que impõe entrar com o pé direito no novo ano é sujeitar-se a um tremendo equívoco. Isto porque tal regra confunde tempo e espaço, podendo levar o referido pé, nos momentos da transição, a agitar-se inutilmente, movido por ilusória geometria. Este e análogos absurdos acabam por esvaecer se a passagem se cumprir em inefável sono, longe de rituais supersticiosos, deixando que os pés entrem como entenderem e o ano surja como achar melhor.

domingo, 30 de dezembro de 2012

SAUDADES DO (IM)POSSÍVEL (77)


Engendrar saudades por algo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, deve ser um exercício ingrato. Gastar a categoria da possibilidade a forjar passados alternativos nada tem de especialmente vantajoso, e tornar-se nostálgico de tempos que nunca foram constitui uma estratégia inútil de fugir aos tempos que aí estão. A saudade exige, decerto, alguma percentagem do que poderia ter acontecido. Isso, aparentemente, não é o mesmo que transformar o que poderia ter acontecido em objecto de saudade.

sábado, 29 de dezembro de 2012

DOIS DIAS (77)


Talvez a ideia de Nietzsche acerca do eterno retorno se possa traduzir na imagem de dois dias, vésperas e subprodutos um do outro, renovando-se indefinidamente, sem obedecer a leis exteriores ou, pelo menos, a uma ordem que alguém conceba. Perante este cenário, devemos acrescentar um dia na resposta à questão «O que é o amanhã?», colocada no filme A Eternidade e um Dia: o amanhã é a eternidade e dois dias – dois dias que resumem a eternidade.  

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

OBSERVANDO (77)


Dedicar algum tempo a observar os transeuntes, imaginando-lhes as vidas e os ideais, no interior de uma viatura aparcada em ponto susceptível de o garantir, constitui um exercício ludicamente agradável, embora existencialmente perturbador. Os passos diversos desenham um emaranhado invisível e absurdo de linhas que, dentro da ordem, arremeda o caos. Se perguntássemos «Porque seguem estes seres anónimos em direcções distintas?», poderia responder-nos Nasreddin Hodja: «Porque se seguissem todos na mesma direcção o mundo perderia o equilíbrio.»

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

DO FALAR E DO OUVIR (77)


Enquanto penso que um primeiro exemplar de De Revolutionibus foi recebido por Copérnico (segundo a lenda) no leito de morte, ouço: «Se há pessoas que estão no Inferno pela língua que têm, uma é ela…» Provavelmente, aí também entrarão os que – mesmo sem esforço – escutam o interdito. Talvez fiquemos em presença da obra principal da nossa vida um pouco antes do último suspiro, desde que não percamos tempo a falar sem recato nem a ouvir sem critério.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

INSTANTE (77)


Este preciso ou impreciso instante, emancipado do que nele se evoque, livre do que dele se espere, coincide, por um lado, com isso que acaba de passar. Por outro, consumação de algo estruturalmente frágil, ele é o ponto de chegada absoluto e negação do Absoluto como ponto de chegada. Johann Fichte gostava de pensar que o eu é tudo. Mas convém evitar tão ampla dispersão se o objectivo é dar a entender que estamos sempre exactamente aí.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

SEM TÍTULO (77)


A antecipação, seja ela de conteúdo doce, amargo ou sofrível, é produto que a mente resolve engendrar com o objectivo de se sentir menos desacompanhada ao voltar-se para os dias hipotéticos. A memória fornece-lhe a matéria, servindo também idêntica finalidade. Trata-se, nos dois casos, de recobrir uma espécie de nudez primordial, que uns julgam ser a fonte da inefável plenitude, outros, a origem do implacável tédio. Talvez estes tenham razão e aqueles não deixem de estar certos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

APEGO OU DESAPEGO (77)


Deambulando por mercados transbordantes de artigos naturalmente vendíveis, Sócrates exclamava: «Tanta coisa de que não preciso!» Talvez ali perto, um homem dispunha de um barril vazio. Encheu-o de algo e acabou por o tornar mais leve. De que o terá enchido? Obviamente, de buracos. Ambas as historietas sugerem uma estratégia para avaliar graus de apego ou desapego: o primeiro caso, na forma como nos relacionamos com os objectos; o segundo, na maneira como os relacionamos entre si.

domingo, 23 de dezembro de 2012

INCOERÊNCIAS (77)


         Leio à entrada do parque de estacionamento de um centro comercial: «Já estávamos com saudades suas.» É bom saber que há pessoas atentas. À saída, lê-se: «Obrigado e até amanhã.» Ora, a menos que o sujeito da recepção se distinga do da despedida – tanto que ele é plural no primeiro caso e singular no segundo – ou que, mantendo-se inalterável, padeça da síndrome da nostalgia inaudita, deduzo que nem todos os centros comerciais se mostram coerentes na etiqueta.

sábado, 22 de dezembro de 2012

SEGREDAR (77)


Ser pouco dado a revelar segredos não atrai menos o segredo alheio. No entanto, ainda não se definiu a lei que estabelece a relação entre o prazer de ouvir e a confidência. Em todo o caso, há muito a recolher da forma como a sábia natureza equilibra, afinal, ambas as forças. Note-se o vento a confessar-se às folhas. Fá-lo às vezes de um modo tão excessivo, que elas fogem das árvores, exaustas. Consta, inclusive, que jamais regressam.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O UNIVERSO, A ESTUPIDEZ E O FIM (77)


Afirma Albert Einstein haver duas coisas infinitas, o Universo e a estupidez humana, acrescentando não dispor de certeza absoluta no tocante à infinitude do primeiro. Com base na suposta profecia maia, juram peritos que o apocalipse é chegado – a exterminação do ímpio, quiçá do justo, porventura uma dramática, global metamorfose. Ora, independentemente do desfecho, é possível que a estupidez (humana ou de outra natureza), dotada de incrível resistência a cataclismos e transmutações, permaneça ainda por inumeráveis séculos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ALGURES SOB AS ESTRELAS (77)


Defendia Maquiavel que um príncipe necessita «de ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para amedrontar os lobos» (1). Por sua vez, Kant sentia duas coisas a nutri-lo de respeito e admiração crescentes: «O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim.» (2) Resta saber se alguém que, simultaneamente, se mantenha leão e raposa dispõe de tempo que lhe permita apreciar os astros e achar em si imperativos éticos – ou se apenas vê nuvens e aleijões.

(1) Maquiavel (1994), O Príncipe, 5ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, p. 84.
(2) Kant (1989), Crítica da Razão Prática, Lisboa, Edições 70, p. 183.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

FALHAR (77)


«Falhei em tudo», queixa-se o autor do poema Tabacaria. A menos que se tenha o pensamento centrado na eventual dissolução última do sonho e da obra feita, estamos diante de um artifício literário ou de uma estrutural contradição. Ninguém pode falhar em tudo, tanto mais que, a suceder tal, consumar-se-ia aí uma inefável proeza. A fórmula inversa, porém, reduziria os estragos emocionais: «Tudo falhou em mim.» Eis um modo sereno de conceder ao mundo o nosso fracasso.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O COMENTADOR NO LIMBO (77)


Dante colocou Averróis no Limbo, lugar por excelência da reflexão filosófica, embora a perspectiva da duração eterna possa aí condicionar tal exercício, típico de seres que se sabem mortais e efémeros. Comentador de Aristóteles, em quem notava a expressão máxima da inteligência humana, Averróis teria agora a possibilidade de dialogar indefinidamente com o grego, até esgotarem a força dos conceitos. O Limbo é um sítio onde as ideias ganham esplendor e a realidade nunca solta o véu.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

FRANQUEZA DE ELEIÇÃO (77)


Em carta a Abelardo, e já depois de confessar que, durante as solenidades da missa, imagens obscenas lhe atormentavam a alma, prevalecendo sobre orações de imaculado teor, Heloísa escreve: «Longe de chorar pelas faltas que cometi, suspiro pelas que não posso mais cometer.» (1) Se todos os humanos sempre se compreendessem com tanta lisura e sempre se exprimissem com este grau de franqueza, talvez Freud nunca tivesse inventado a psicanálise  e o inconsciente fosse uma esfera menos conturbada.

(1) Laura Vasconcellos (2003), As Cartas de Abelardo e Heloísa, Lisboa, Guimarães Editores, p. 191.

domingo, 16 de dezembro de 2012

UNIVERSO E HUMOR (77)


«Terá sentido o Universo?» constitui uma interrogação ociosa, possivelmente sem sentido. Maior pertinência reside em procurar saber se o Universo tem ou não sentido de humor, pelo menos segundo critérios de mortais inquietos, já que os imortais não devem sequer abordar o tema. A eventual resposta pressuporia haver no Cosmos uma intencionalidade sem limites concebíveis, propensa à ironia generalizada ou à inexorável sisudez. Até prova em contrário, todavia, só conhecemos o humor que se adapta à finitude.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O SACO (77)


No contexto da perseguição aos mártires cristãos, inventou-se uma técnica de tortura e morte que, basicamente, consistia em fechar o condenado num saco, em companhia de um galo, de um macaco, de um cão e de uma víbora. Depois, lançava-se o conjunto às águas profundas. Eis um quadro de malvadez que não apenas revelava a imaginação mórbida daquele que seleccionou o saco e o que meter lá dentro, como levaria a exercitá-la os que ficavam cá fora.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O INFERNO E A ESPERANÇA (77)


«Deixai toda a esperança, vós que entrais», lê-se por cima da porta do Inferno, segundo Dante. Eis uma exortação ao abandono da própria faculdade de forjar a esperança, a mesma que habilita a sentir o desespero. Talvez daí se deduza ser o Inferno um lugar neutro, com vivências permutáveis, ou a imitação do esquecimento, na qual o drama é estruturalmente inconcebível. «Deixai quase toda a esperança» era porventura mais conforme ao cenário. Mas ali manda a hipérbole.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

"HELLO DARKNESS, MY OLD FRIEND" (77)

          É precedido o adormecer pelo eclodir na mente de mensagens desprovidas de intencionalidade, oriundas de vozes sem sujeito: palavras soltas, frases desatadas, locuções errantes. Também no fim será o verbo, todavia menos dado à coerência, menos disposto à sintaxe, menos propenso a razões. Segue-se a treva mais densa, porventura igual à que os místicos dizem luminosa e alguns não-místicos, abençoada. O eu dilui-se em nocturnos fragmentos, até acordar e reassumir idêntica dispersão, que só a linguagem atenua.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

DESPRENDER-SE (77)


Dizer que a folha se desprende da árvore mantém-nos reféns de pressupostos outonais. Já o dizer que a árvore se desprende da folha coíbe o pensamento de tombar de imediato no repisado chão da sua lógica. De qualquer modo, podemos, em alternativa, dizer que se desprendem uma da outra. Escreve Espinosa que «toda a coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser» (1), excepto se, nessa tácita dualidade entretanto aberta, acontecer um mútuo abandono.

(1) Bento de Espinosa (1992), Ética, Lisboa, Relógio D’ Água, p. 275.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FACTOS E MISTÉRIOS (77)


A doutrina da predestinação, tal como formulada por Calvino, enfrenta o problema de saber que razões levam Deus a eleger uns para a glória eterna e os demais para a eterna ruína. Não só o desconhecemos (dirá o defensor da crença), como o facto é um sinal do mistério de Deus. Dificuldade suplementar reside em perceber por que motivo o Altíssimo achou melhor não divulgar as listas. Talvez o facto seja um sinal do mistério dos homens.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CAMBIANTES DO DESEJO (77)

        Associando o desejo sexual à tentativa de o indivíduo se assenhorear da consciência alheia, mediante apropriação total do alheio corpo, escreve Sartre: «Por cada carícia, sinto a minha própria carne e a carne do outro através da minha própria carne e tenho consciência de que esta carne que sinto e da qual me aproprio pela minha carne é carne-sentida-pelo-outro.» (1) Notícia recente: na Suécia, uma mulher começou a ser julgada por alegadamente ter mantido relações sexuais com esqueletos. 

(1) Jean-Paul Sartre (1995), L’ Être et le Néant, Paris, Éditions Gallimard, p. 436.

domingo, 9 de dezembro de 2012

ORGULHO PRECOCE (77)

          Certo dia, ouvi a um miúdo de cinco ou seis anos, enquanto ele mantinha conversa ligeira com gente adulta, uma frase que apenas gerou risos passageiros e complacentes, mas que, se foi ponderadamente engendrada e fosse devidamente discutida, poderia abrir assinaláveis brechas na teoria de Piaget acerca do desenvolvimento cognitivo e sugerir profícuas abordagens aos analistas do pensamento e da reflexão. Sem mais preâmbulo e em jeito de epílogo, eis a sentença: «Tenho orgulho de ser meu.»

sábado, 8 de dezembro de 2012

DATAS FINAIS (77)


Provavelmente o que se encontra na base da crença de que o mundo, ou a espécie humana, acabará num dia preestabelecido, anunciado por impolutas criaturas, é a necessidade de sentir o aumento gradual da excitação, qualquer que seja a sua natureza, até que tal dia chegue e revele o seu aniquilante esplendor. Assim se ocultam parcelas do irremissível tédio. Se, à semelhança deste, o mundo teimar em persistir, outra data se lhe arranja, novo ciclo se inaugura.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

IGNORÂNCIA E IMPREVISIBILIDADE (77)


            Se uma borboleta bater as asas junto a uma couve-troncha, ajudará talvez a que se desencadeiem (ou minimizem) temporais nos antípodas da horta. Eis uma possibilidade que já não é elegante contestar. No entanto, quem afirme que esse facto, cuja pressuposição alimenta a chamada teoria do caos, é suficiente para anular a ideia do determinismo eventual do Universo parece confundir a natureza aflitiva da ignorância que nos tolhe com o carácter imprevisível do mundo que nos cerca.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"É MENOS DIFÍCIL DO QUE PENSAS" (77)


              Eis duas faces habituais da comunicação: palavra necessária, silêncio conveniente. Mais invulgar é aquela em que, graças à ironia, se transforma o silêncio conveniente em palavra necessária. Nasreddin Hodja, pouco disposto a emprestar a corda de secar roupa ao vizinho, e querendo ocultar-lhe (silêncio conveniente) essa genuína recusa, disse-lhe (palavra necessária) que precisava dela para secar farinha. «Como podes secar a farinha numa corda?» Respondeu-lhe Nasreddin: «É menos difícil do que pensas, quando não se deseja emprestá-la.» (1)

(1) Cf. AAVV (1981), Sociedades Secretas, vol. VI, Lisboa, Círculo de Leitores, pp. 76 e 80.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

LINHA SEPARADORA (77)


Henri Bergson distingue a fixidez da matéria, com anseio buscada pela inteligência, da duração real, apreendida só pela intuição. Emmanuel Levinas diferencia a totalidade, avidamente adorada nos grandes sistemas filosóficos, do infinito, amavelmente anunciado no rosto de outrem. Apesar de adoptarem categorias e dualidades que se não confundem, embora se aproximem, ambos os pensadores parecem tomar como referência obrigatória a mesma linha: aquela que separa o eventual tédio de haver mundo da velha nostalgia de o sonhar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

CAIXA LIMPA (77)


Manter a caixa de correio electrónico minimamente expurgada pode constituir factor de redenção. Esse espaço virtual é, em simultâneo, um lugar mental que se deseja arejado no aspecto, eficaz na resposta, selectivo na abordagem. A este nível, porém, a lei da atracção dos semelhantes não tem cabimento: o lixo da Internet polui sem critério. Mas é bom saber que os responsáveis pelo serviço aplaudem o asseio dos usuários: «Parabéns! A sua pasta A Receber está muito limpa!»

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

"A MÃO DO DIABO" (77)


Há dias, no espaço de cerca de hora e meia, rumei a três pontos de venda de livros e, em todos, o primeiro vocábulo que li ao entrar foi, vibrando em letras de fogo, a palavra Diabo. Só no último local me abeirei do produto que a exibia, descobrindo tratar-se de um romance de José Rodrigues dos Santos. Embora já saiba onde costumo pousar os olhos, o Tentador ainda finge, por vezes, desconhecer as minhas preferências literárias.

domingo, 2 de dezembro de 2012

SOBREVIVER À BUROCRACIA (77)


Cada vez mais se exige do professor que tenha alma de burocrata e a saiba unir ao corpo da acta. Por hábito, canalizo o esforço implícito na obrigação em causa para o cultivo da frase breve, da escanhoada sinopse. Quando se trata de lidar com papéis supérfluos, imagino um mundo de ilusões em desfile. Os gestos podem agora acontecer entre a síntese e a ironia. O espírito, esse, finjo-o a resvalar para o infinito, lugar estranhamente devoluto. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

77 PALAVRAS - PRÓLOGO (1)


Trata-se de opção técnica, apesar de eventuais ressonâncias simbólicas. Decidi escrever alguns posts cujas palavras não excedam, em número, as setenta e sete nem fiquem, por desleixo, abaixo desse limite. Os tempos não exigem lentos, ondulantes raciocínios. Pedem o aforismo exacto, a síntese desprendida. O ritmo do mundo escapa à dialéctica vagarosa. Encolha-se pois o discurso, e que das pausas de silêncio ampliadas surjam novas formas de intuir o ponto invisível que ocupamos, decerto visitados pela bruma. 

(1) Títulos não contam. Notas de rodapé também ficam de fora. Os posts serão identificados com o número 77.