sábado, 30 de junho de 2012

O "EU SOU"

Arnold Friberg, Moses and the Burning Bush

«Eu sou Aquele que sou» (Ex 3, 14), disse alegadamente Deus a Moisés, em resposta à pergunta que o então pastor lhe colocara acerca do seu verdadeiro nome. Já muita prosa se gastou em redor desta espécie de tautologia teofânica. Operando a transição do individual para o impessoal, do particular para o universal, há quem traduza Ehyeh asher ehyeh por «Eu sou Aquele que é». Trata-se de um modo indirecto de sublinhar que Deus é, ou existe, por essência. Todavia, tal congeminação metafísica era estranha à mundividência hebraica. Refira-se ainda que, de acordo com o texto bíblico, o Altíssimo se chama a si mesmo “Eu Sou”, fazendo da ligação do sujeito e do predicado uma sublime e excelsa realidade.
O mais provável, no entanto, como assinala Karen Armstrong (1), é que estejamos perante uma frase idiomática de que Deus se serve para sugerir ao profeta que ele se meta na sua vida: «Não tens nada a ver com isso, Moisés!» De qualquer maneira, a réplica da Divindade estaria destinada a um futuro próspero, sobretudo junto de agremiações de índole esotérica. O Eu Sou designa aí uma entidade indefinida, nem sempre identificável com Deus, embora costume andar por perto. É vulgar também acharmos a expressão aplicada em profundas orações e auspiciosos mantras.
Se “Eu sou” constitui uma simples afirmação de existência, já o Eu Sou é um núcleo de misticismo que herdámos do esplendor da sarça invencível, ardente, luminosa. Mas seria interessante indagar em que pensa a criatura racional quando representa mentalmente o Eu Sou. Talvez não pense em nada. Talvez o objectivo seja exactamente esse  e pressuponha (uma vez alcançado) o melhor ou o pior: no primeiro caso, porque o intelecto superou os seus próprios conceitos; no segundo, porque foi impedido de os usar.    

(1) Karen Armstrong (1999), Uma História de Deus, 2ª ed., Lisboa, Temas e Debates, p. 44.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

SENTIR E SER O CORPO

Salvador Dalí, Cabeça Rafaelesca Rebentada, 1951.

Na obra O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu e Outros Contos Clínicos, Oliver Sacks relata-nos o caso de uma jovem mulher que – e não se tratou de paralisia – deixou de sentir o próprio corpo, uma vez que perdera uma capacidade chamada propriocepção. Com o tempo, ajudada pelo exercício dos olhos, ela readquiriu uma vida quase normal, mas sofrendo a permanente e incómoda sensação de se achar «incorpórea».
Para lá do enquadramento neurológico, um sério problema filosófico emerge de tudo isto: o da relação da pessoa com o corpo. Na circunstância em análise, a percepção que a jovem tem do corpo desde o primeiro dia da doença talvez não difira da que teria de um tronco de árvore ou de um discreto bandolim. Todavia, embora não sinta o corpo, ela controla-o mediante a visão e sente que já o sentiu, ou sente-o à maneira de o não sentir.
Se, contestando a sabedoria platónica, admitirmos que somos de algum modo o corpo, e que o corpo é, de algum modo, o ambiente em redor, e que o ambiente em redor é, de algum modo, o Universo, então é legítimo inferir que somos, de algum modo, o Universo. Claro que a validade de semelhante argumento depende de que seja o mesmo e se conserve rigorosamente inalterável, em cada um dos três momentos, o que se esconde atrás da expressão de algum modo.
Ora, aparentemente, o raciocínio não se aplica ao caso referido. No entanto, aquela mulher também é, de algum modo, o seu corpo, se pressupusermos que esse de algum modo se diferencia do anterior, pois o corpo é agora conduzido e experimentado como entidade alheia, sombra errante, presença fantasmagórica. 
Tal condição de existir permite, inclusive, pensar em que medida podemos ser as várias coisas exteriores à nossa pele: elas encontram-se aí como partes de um imenso corpo – e nós vivenciamo-las de formas mais ou menos intensas, mais ou menos subtis.

terça-feira, 26 de junho de 2012

FRAQUEZAS DE UM COMPUTADOR


Por qualquer motivo obscuro, sem evidenciar espírito crítico nem fornecer justificações adicionais, e seguramente não por influência que sobre ele eu tenha exercido, decidiu o meu computador, há cerca de dois meses, aderir ao novo Acordo Ortográfico. A partir de então, nunca mais deixou de colocar aquele minúsculo ondulado vermelho por baixo de alguns termos que sempre considerei escritos de forma correcta, como acabou de fazer agora mesmo.
Eu entendo o meu computador, aceito a sua legítima opção, e tudo lhe perdoo, incluindo a interferência negativa nas minhas tarefas de redigir textos e aplicar emendas. Ele desconhece a relação entre a frase e o pensamento. Separa o mundo dos modos de o dizer. Atribui às palavras um valor meramente instrumental. Ignora a emoção no poema e o rigor no conceito. Não sabe que a própria experiência humana – é H.-G. Gadamer quem o lembra – ocorre na linguagem. Esquece que a defesa da ideia achada útil depende, muitas vezes, da letra tomada por supérflua. Julga normal brincar às consoantes consoante o desejo de brincar.

domingo, 24 de junho de 2012

FALHANÇOS

Edward Hopper, Autómato, 1927.

Em que circunstâncias se torna legítimo afirmar que a vida individual – encarada, obviamente, como um todo – foi ou promete ser um rotundo falhanço? Falhanço, também rotundo, é o que sobra da minha tentativa de achar uma resposta para semelhante questão.
Se se deita sem expectativas e se levanta sem convicções, acaba uma pessoa por mostrar alguma coerência em relação a ambos os intervalos que separam esses momentos: o intervalo composto de (des)ilusões diurnas, que a convidam a manter-se prudente na altura de forjar esperanças, e o intervalo urdido de noctívagos sonhos, que a incitam à suspeita na ocasião de tecer firmezas.
A ausência quase absoluta de convicções e de expectativas parece indício de um grande insucesso existencial, já sem remédio. Ou sinal de um categórico malogro a desenhar-se no horizonte. Acontece, no entanto, que há vantagens em conservar-se despojado de certezas fixas e de amanhãs seguros. Trata-se de um estado de alma pouco fatigante e razoavelmente libertador.
Por outro lado, o que pensar do sujeito que ama os seus próprios fracassos? Não é uma atitude sensata, dirá talvez a sazonada voz, acrescentando judiciosamente que só é capaz de amar os seus próprios fracassos aquele que procura atenuar o fracasso de não ser capaz de amar.
Mas isso é mero jogo de palavras – e os jogos de palavras, em geral, são a antecâmara fiel da dúvida.

(Interessantes e proveitosas reflexões sobre falhar ou não falhar a vida, ou acerca da síndrome do final d' Os Maias, podem ser achadas aquiaqui e aqui.)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A (IN)CONSISTÊNCIA DA MATÉRIA DOS SONHOS

Marc Chagall, O Sonho, 1939.

Reflictamos sobre aquilo que, em teosofia e noutras áreas esotéricas igualmente prodigiosas, se chama Plano Astral. Examinemos um sonho lúcido – situação em que a pessoa sabe que se encontra a sonhar –, clarificando as relações aí estabelecidas entre a mente e os seus conteúdos.
Sonho que avanço por uma estrada conhecida, e é noite. Peço (a ninguém em particular): «Ilumine-se a estrada à medida da minha vontade!» E os candeeiros passam então a verter luz intensa, propícios e obedientes. Ordeno depois, de modo idêntico ao que se segue, embora menos elaborado: «Neguem-se ao asfalto a textura e a consistência.» E eis que se abrem poços adaptados à injunção. Intimo as sombras daí a nada: «Regressemos ao estado anterior.» E os pequenos abismos fecham-se, devolvendo-me à superfície.
O que do cenário descrito parece legítimo concluir-se é que a disposição da matéria onírica procede integralmente do nosso querer, da livre decisão com que abordamos semelhante matériaDuas consequências se podem extrair daqui: a primeira é a forte probabilidade de a zona do Plano Astral onde sonhamos resultar de pura invenção da mente; a segunda é a escassa credibilidade da afirmação de que o inconsciente existe como instância autónoma ou como estrutura separada da consciência.
O que nos leva a pensar haver mundos dotados de realidade independente a fornecerem aos sonhos a substância de que eles são feitos é, afinal, o facto de não entendermos todas as variáveis ligadas à produção das imagens que nos assaltam enquanto dormimos.
Dirão, porém, os mestres do oculto que, a um nível mais profundo, o Plano Astral não é fictício nem ilusório: permanece no seu devido lugar, transcendendo os nocturnos devaneios e sendo regulado por leis próprias. Além disso, os sonhos lúcidos escondem virtualidades que o arrazoado acima por inteiro ignora.
Admito que a minha análise revele penúria e ligeireza. Mas prefiro acolher os ditames de uma experiência restrita do que aceitar, com ingenuidade, eventuais delírios de um perito em mistérios côncavos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O BINÓCULO DE DEUS




Trata-se de uma bela passagem de ErnestinaRentes de Carvalho alude aí ao binóculo de Deus: «O sol acabava de nascer e tive a suspeita de que Deus também se sente assim, vagamente decepcionado, quando lá do alto aponta o seu binóculo para o mundo e para nossa casa, e tudo lhe aparece pequeno, quase desconhecido no longe.» (1)
O excerto suscitou-me uma reflexão em torno do atributo da omnividência divina e, sobretudo, das formas específicas de relação do Excelso com o mundo e o ser humano, para uma das quais o “binóculo de Deus” serve de metáfora. Eis os enunciados do problema: a existir, será Deus pessoal ou impessoal? Imita-nos ele em alguns pontos ou ignora-nos em todos? Dispõe de faculdades análogas às nossas ou conserva-se imune a exercícios restritos? Intui e compreende o interior do indivíduo ou persiste em jeito de força universal que enche a montanha e penetra o átomo, indiferente às aflições da alma e aos anseios do espírito? Ora, o binóculo é uma extensão do íntimo e da subjectividade: ele aproxima, escolhe, delimita.
Se, portanto, precisa de binóculo e lhe dá uso, Deus vê cada coisa a seu tempo; se vê cada coisa a seu tempo, centra-se numas e em outras não, consoante a hora e porventura o clima. Assim procedendo, Deus é nitidamente pessoal. Se, ao invés – conseguindo que nem o mínimo recanto lhe escape , de binóculo não precisa nem de objectos semelhantes, talvez Deus veja tudo em simultâneo; se em simultâneo tudo vê, nada o atrai em particular; se nada em particular o atrai, Deus é seguramente impessoal.
Poderá refutar-se o exposto com a ideia de que Deus é pessoal se o mesmo lhe interessa e impessoal se isso lhe convém. Mas uma perspectiva do género conduz-nos demasiado longe. E o risco de por inteiro nos perdermos é grande, mormente se connosco não levarmos maquinetas propensas ao resgate – ou se nos não cingir e vigiar o eterno binóculo de Deus.

(1) J. Rentes de Carvalho (2009), Ernestina, 3ª ed., Lisboa, Quetzal Editores, pp. 214-215.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

ZONA INTERMÉDIA

M. C. Escher, Répteis, 1943.

Mandam, respectivamente, a prudência e a originalidade que se não habite de todo fora nem por inteiro dentro do lugar-comum. De facto, o lugar-comum tanto é capaz de impedir o naufrágio do pensamento como de anular os voos do intelecto. O ideal consiste em optar pela zona intermédia, aí onde se reconheça o vigor da tradição sem se comprometer o esplendor da criatividade. E isso equivale a explorar as virtudes funcionais do cliché.
O afirmar-se, por exemplo, que «as palavras são como as cerejas», só na medida em que umas arrastam outras, tornou-se um desses chavões que adquiriram estatuto de verdade incontroversa. Mas seria preferível avaliá-lo – à semelhança do que faria um discípulo do pragmatismo de Charles Peirce ou de William James – pelos seus efeitos práticos, mais do que pela sua fixidez sentencial. A vantagem da asserção descobre-se ao percebermos o que leva uma cereja a convocar a seguinte e, sobretudo, o que obriga uma palavra a suscitar a frase.
À parte o âmbito utilitário, e se nos cingirmos apenas à sua dimensão teórica, a analogia em questão revela-se pobre de interesse e vazia de substância: pobre de interesse, porque pressupõe que as palavras se puxam entre si mediante critérios idênticos àqueles com que se atraem as cerejas; vazia de substância, porque se funda no movimento incerto das cerejas, mais que no justo encanto das palavras.

sábado, 16 de junho de 2012

"É ASSIM A VIDA!"


Picasso, A Vida, 1903.

Em obra intitulada Sobre o Não-Ser ou Sobre a Natureza, Górgias apresentou e defendeu três teses merecedoras de atenção, e que chegaram até nós num longo fragmento conservado por Sexto Empírico. Eis essas teses, expostas numa estrutura de concessão dupla: nada existe; se o ser existe, então é incognoscível; se é cognoscível, então este conhecimento do ser é incomunicável a outrem (1).
Não nos vamos ocupar dos argumentos usados pelo sofista – os quais alguns autores consideram lamentavelmente falaciosos. Certo é que Górgias procurou refutar aí as conclusões da filosofia de Parménides, mais do que franquear as portadas ao niilismo céptico. Embora todas as teses pareçam incongruentes, apoiar-nos-emos na terceira para entender o que vem a seguir.
«É assim a vida!» constitui um daqueles enunciados que servem para sintetizar o discurso e rematar a conversa. Será preferível, no entanto, dizer: «É assim a descrição que eu faço da vida – ou melhor, de parte dela!» Com tal reparo, cria-se um intervalo – salutar, se a intenção foi narrar desgraças – entre a vida e as palavras. Em simultâneo, admite-se como inevitável aquilo que não pode ser dito, seja por se achar inacessível ao ofício silábico, seja por – apesar de caber em jogos de linguagem (na feliz expressão de Wittgenstein) – manter sempre a aura do intraduzível e o sabor do inesgotável.
Ao salientar que o conhecimento do ser é incomunicável a outrem, Górgias comunica a outrem um breve conhecimento do ser. Mas a inconsistência torna-se compreensível, similarmente ao que sucede com a aplicação do termo inefável ao inefável, que supera o termo. 
O real eclode em inumeráveis linguagens. A de carácter verbal funciona como espelho de si mesma, inventando hiatos e fissuras não só entre a frase e ela própria, como entre a frase e a experiência. E isso é importante sobretudo se o revés emergiu – ou se o queixume tenta usurpar a nossa frágil voz.

(1) Cf. G. Romeyer-Dherbey (1986),Os Sofistas, Lisboa, Ed. 70, p. 39.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

RUMO À IMPERTURBABILIDADE

Edvard Munch, O Grito, 1893.

Se começarmos por apreciar todos os factos e coisas sob o ângulo da fragilidade, e acolhermos, sem reserva intelectual, a tese budista de que tudo é impermanente e fugaz como uma entidade a despedir-se de si mesma a cada instante, então teremos achado em teoria as condições que possibilitam viver sem dores que aflijam e sem paixões que incomodem. O que descobrimos é a base da chamada ataraxia – ou imperturbabilidade –, conceito a cuja elucidação em particular se devotaram, no tempo antigo, Epicuro, Epicteto, Pírron e Arcesilau.
Procuremos explicar em detalhe esta experiência mental. Se admitirmos que tudo é impermanente, o mais correcto, afinal, será julgar que tudo é impermanência, fluir absoluto. Se tal processo for efectivo, nada se detém. Se nada se detém, aquilo que sentimos e captamos está aí, mas sempre como se não estivesse. Excluindo talvez a percepção visual – que nos engana com maior grau de estabilidade ao nível dos objectos que oferece –, os vários mecanismos que nos garantem a relação com o mundo (ou que nos permitem construir o mundo com que nos relacionamos) podem ser suspensos, desligados, postos fora de jogo, sem que se anestesie ou negue o curso do agir, restando apenas saber de que maneira isso é feito.
Assim, a dor, a paixão e as situações análogas não passariam de um eco ou de uma sombra, algo que só se encontra presente se o consentirmos, e que resvala para a sua ausência, se a nossa decisão se inclinar para esse vazio abençoado. Eis o esboço imperfeito do nirvana, suposta realidade imperecível, com ilusões dançantes em redor. 

domingo, 10 de junho de 2012

NÚCLEO INEVITÁVEL

Paul Klee, Composição Cósmica, 1919.

Talvez se trate de necessidade do espírito, ou talvez se reduza a mera distracção do corpo, o apreço que, em geral, o ser humano revela em declarar de que lado se coloca no que respeita à existência de Deus. Pode, então, afirmar-se ateu militante, crente incontroverso, teísta esclarecido, agnóstico reservado, panteísta satisfeito ou seguidor convicto de alguma invenção teórica do divino menos usual na praça. O que daqui parece ressaltar é que a noção de Deus, qualquer que seja afinal o seu recheio, constitui uma espécie de ideia reguladora, um ponto medianamente sólido no espaço da mente, um núcleo que suaviza ao pensamento a sensação de errância.
Tal núcleo será, consoante os casos mencionados, uma realidade negada, um âmago afectivo, uma inteira Providência, uma hipótese diferida, um quadro unificador. Refutar-se-á o carácter inevitável do núcleo em análise com a perspectiva de que ele é puro resultado contingente da época e dos temperamentos individuais. O problema é obter dados fiáveis que o asseverem, tanto mais que um núcleo assim abrange, virtualmente, quase tudo. 
Haverá ainda quem esteja disposto a vestir t-shirts com dizeres estampados, alusivos ao seu grau de abertura à transcendência: «Eu sou indiferente», «Ecléctico me assumo», «Careço de certezas fortes». Ora esses manifestos não deixam de representar curiosos modos de traduzir ao semelhante a tendência metafísica inscrita na nossa condição.
Augusto Comte, o positivista, rejeitaria o corolário anterior. No entanto, ao criar a Religião da Humanidade, acabou por substituir (ou por preencher) o “buraco” das ausências místicas, teológicas e afins pelo, digno de culto, “Grande Ser” – uma entidade vasta e colectiva onde se aninham todos os abismos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O LUGAR DA MENTE

Salvador Dalí, Natureza-Morta Viva, 1956.

Qual será o lugar da mente? Ou, formulando a pergunta de um modo diverso, que espaço afinal a mente ocupa, se é correcto falar em “ocupação de espaço” por parte de uma realidade tida por inextensa? Afirmam uns que a mente habita os domínios do cérebro; outros, a inteireza do corpo; outros ainda, a amplidão do mundo.
George Berkeley, recordado sobretudo pelo axioma «esse est percipi» – «ser é ser percepcionado» –, não andaria longe da última perspectiva mencionada, se bem que, no seu caso, em vez de se dizer que a mente – ou o espírito – reside no vasto mundo, seja mais adequado dizer que o vasto mundo reside na mente. Convém, no entanto, distinguir a mente de acordo com a sua natureza.
A matéria (defende o filósofo irlandês) não existe, e os objectos ou coisas não passam de ideias. Mas importa notar que Berkeley não nega haver ideias fora da mente individual finita, o mesmo já não se verificando no tocante à mente eterna e infinita (Deus), que produz todas as ideias e assegura a sua persistência nos intervalos da nossa percepção.
De qualquer forma, se «ser é ser percepcionado», aquilo a que acedemos por via dos sentidos não parece diferir, embora Berkeley talvez discordasse, do conteúdo de um incerto sonho – ou de uma tácita ilusão universal – que a mente infinita causa e suporta e as mentes finitas colhem e perdem. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

DESAJUSTES HABITUAIS

René Magritte, Afinidades Electivas, 1933.

Gastamos os dias a medir a distância que nos separa do ideal, e o que daí sobra são, essencialmente, os papéis inúteis onde arquivámos a existência, pondo títulos, assinaturas e outros artifícios.
Sentimos a pressão anómala do inconsciente, moldamos o anel do porta-chaves a qualquer dedo, fingindo compromissos com o mistério das coisas, e não achamos barómetro adequado para isto.
Escolhemos fórmulas luminosas adaptadas à hora infausta, confiamos na justeza das datas, nos espíritos puros, talvez num líder carismático, e nem assim tornamos menos sombria a ameaça do caos.
Receamos converter-nos num espelho imprestável, não queremos entregar a face ao hábito do desespero; mas o desencanto é um exercício corrente quando interpretamos os mapas disponíveis do mundo. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

TENDÊNCIA PARA O CAOS

Edward Hopper, Quarto de Hotel, 1931.

Imaginemos um quarto de hotel, em determinado momento da história. Já muitos seres por lá passaram, de todos os feitios, idades e ocupações, com distintos modos de avaliarem o mundo e de nele projectarem o respectivo quociente de angústia. Admitamos (esotérica sugestão) que tudo o que acontece, por irrelevante que seja, deixa marcas no espaço – ainda que discretas –, tanto quanto vestígios no tempo. Suponhamos, pois, que aquilo a que chamamos matéria, quando associado ao que designamos por vida, imprime rastos e solta indícios, duplicando-se na atmosfera invisível. Partamos do princípio de que também os pensamentos, os desejos e as emoções permanecem, de alguma obscura forma, no lugar em que sobrevieram.
Perante hipóteses do género, o quarto de hotel terá cada vez mais elementos a povoarem o seu ambiente oculto, apenas acessível a quem possua o dom da percepção extra-sensorial: ideias profundas e ligeiras, dores de alma e achaques do corpo, acesas esperanças e tácitos malogros, movimentos amatórios e rituais de protesto, pesadelos e êxtases, silêncios e suspiros. Dada a eventual escassez de lógica e de nexos que unam de maneira inteligível tais ingredientes, o conteúdo escondido do quarto de hotel dispõe-se a evoluir para um estado de confusão sem nome. O mesmo se verificará, talvez, com o quarto de hotel enquanto estrutura física, inevitavelmente ligada ao seu transfísico recheio, do qual recebe influências e impulsos.
Se aplicarmos a reflexão sobre o que ali sucede ao planeta que habitamos e, em seguida, ao Cosmos, chegaremos a inferir que a tendência para a absoluta desordem começou durante o arranjo inicial das coisas, nos primeiros instantes da criação. Teria sido, assim, por essa altura que surgiram os reinos paralelos – nem por isso isolados entre si. Eles são, neste quadro conjectural, vazadouros e espelhos uns dos outros: trocam fantasmas, hábitos, loucuras; rumam ao caos que os há-de nivelar.

sábado, 2 de junho de 2012

"MENSAGENS PARA SUPERAR O TÉDIO"

Edward Hopper, Domingo, 1926.

Comecemos por distinguir dois tipos de tédio: o tédio particular e o tédio universal. A diferença não se baseia no critério do número de elementos a experimentarem um e outro, mas no da causa que os origina. O primeiro resulta de situações concretas e traduz-se na vulgar “seca”. Trata-se de um aborrecimento desencadeado por determinada conjuntura, e que se poderá reduzir ou derrotar através de mecanismos de distracção grátis ou disponíveis a módico preço. O segundo provém do simples facto de se “estar no mundo”, de se existir lançado aí, entre a ilusão e a fragilidade, sem recursos nem garantias, mergulhado em derrelicção e numa certa angústia metafísica. Aludirei abaixo às hipóteses de o subjugar. 
Vem isto a propósito de cinco palavras-chave (ou quatro, ou apenas três) que franquearam a um leitor as portas deste blogue: “mensagens para superar o tédio”. Obscuras são as vias da Internet, insondáveis os seus desígnios. No entanto, custa-me a acreditar que haja aqui mensagens capazes de abater o enfado, sob qualquer das formas referidas. Embora nunca fosse meu intento contribuir para incrementar o fastio e promover o cansaço, acho inclusive bastante provável que ambas as espécies de tédio saiam robustecidas com uma leitura imprudente dos posts que até à data engendrei. Se isso aparecer como inevitável para o tédio particular, mais ainda o será para o universal, em virtude do meu hábito de trazer à colação o nada, o ser, a morte, a vida, o absurdo, o sentido, o destino, a Divindade, o silêncio e as ruínas.
Em todo o caso, não julgo que o tédio universal seja vencível. A menos que, um dia, vejamos a Verdade face a face e, depois de lhe contemplar de muitos modos a excelsa nudez, consigamos domar a monotonia e reter o bocejo.