terça-feira, 15 de maio de 2012

PRÉDICA DAS ÁGUAS

Caspar David Friedrich, Recife Rochoso na Praia, c. 1824. 


Diz-se que à noite, o corpo estendido na cama e as sombras a estenderem-se pelo corpo, se faz enorme a probabilidade de inúmeros pensamentos afluírem à zona da consciência, mormente os indesejados, nutrindo angústias e cevando medos. Mas é possível – a não ser em casos de fixação extrema – vê-los apenas de soslaio, sem os guiar com o sopro que os impele, deixando-os existir como fantasmas em busca de um divã.
Diz-se que no princípio o Espírito de Deus se movia «sobre a superfície das águas» (Gn 1, 2). Nessa altura, talvez as próprias águas, privadas de coisas mortas, desabitadas de formas vivas, ainda não guardassem elementos perturbadores. Desde então, é sabido, os tempos mudaram muito.
Diz-se «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça» (Mc 4, 9) – excepto se o assunto carecer de interesse. De igual modo, quem tem a faculdade de discorrer e reflectir, que a use – excepto se, por íntimo desígnio, for preferível adejar incólume sobre essas águas turvas, proibidas, que a mente encerra e a escuridão agita.