domingo, 4 de março de 2012

"VIDAS DE SUCESSO"

David Seymour, Sem título, c. 1948.


         O que será uma vida de sucesso? Isso depende, é claro. Subjectivos critérios, diferentemente conjugados, presidem à eventual resposta, indo da robustez da conta a prazo à solidez gregária do prestígio, de façanhas de erótico furor a posses que a inveja alheia atiçam, do ser-se de altruísmo nobre exemplo à conquista profunda de si mesmo, do exercer de respeitáveis cargos à saúde inteiriça e imaculada, do ter-se viajado pelo mundo ao achar-se amoroso complemento, de realizações em artes várias ao chegar a sorrir para os bisnetos.
Por conseguinte, a decisão de considerar a existência, própria ou de outrem, um matagal de êxito, uma espessura de fiasco ou um bosque intermédio é íntima, contestável e, à semelhança do conhecimento científico, revisível por natureza. Mas a sociedade, como se sabe, gosta de sugerir e impor os seus digníssimos protótipos, substituindo a angústia individual no que à livre adopção de parâmetros se refere. Aliás, se assim não fosse, haveria fortes razões para duvidarmos da pertinência das colectividades.
Acontece, no entanto, que a experiência do sucesso ou do fracasso vai muito para além dos usos e dos cânones. Em última análise, fracasso e sucesso resultam do encontro de uma determinada disposição dos átomos em nosso redor com uma certa maneira geral, mais ou menos cinzenta ou radiosa, de avaliarmos esse arranjo da matéria e o nosso lugar no meio dela, o que remete com frequência para dimensões incorpóreas e até espirituais. É óbvio que tal avaliação – de acordo com uma leitura mecanicista – se poderá reduzir, também, a um louco jogo de átomos. De qualquer modo, o tema do sucesso e a trama do fracasso escapam à alçada das verdades definitivas. Excepto nas revistas cor-de-rosa.

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