terça-feira, 13 de março de 2012

TECLADO INSPIRADOR


A minúscula esfera, a superfície em branco e os dedos concentrados aguardam as ordens do impulso criativo. Eis os indícios de que o bardo se conserva na expectativa de sentir as musas a atiçarem-lhe o estro.
O computador veio substituir este esquema, cuja matriz é o Parnaso ardente. Isto porque no teclado se encontram já, de modo potencial, a palavra, a ideia, o ritmo. Olhamos para as letras ali presentes, como se fitássemos uma paisagem túrgida de segredos. E pode acontecer que, a certa altura, elas decidam inaugurar a ode genial.
Dir-se-á que o acto de contemplar um teclado tem pouco de lírica paixão. Mas o poeta é menos um ébrio de natura agreste do que um artífice da infinitude silábica. E isso comporta riscos estéticos. É por tal motivo que às vezes, hipnotizados por nervuras brandas, achamos mais beleza numa folha de couve do que nos versos de um poeta decadente.

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