sábado, 31 de março de 2012

DISPERSÃO E REGRESSO

M. C. Escher, Senda da Vida II, 1958.


Embora racionalmente discutível, costuma ser poeticamente estimulante a ideia segundo a qual o Universo é o ar que Deus respira, expandindo-se – como dizem os cientistas – e regressando – como os místicos asseveram – aos pulmões do Altíssimo, de acordo com ritmos que este decreta e que a maioria de nós ignora. Autores atentos e informados declaram que o ano de 2012 representa o ponto médio entre a expiração e a inspiração de Deus, «proporcionando uma abertura para a emergência de algo incompreensível» (1). Estamos, pois, a principiar a jornada de retorno.
Lê-se na Servidão Humana: «Um garotinho vagueava desconsoladamente dando pontapés ao cascalho enquanto andava.» (2) Também com a ajuda de tal imagem podemos tentar esclarecer a dinâmica do Cosmos. Após o estouro inicial ou o ímpeto primeiro, começámos a deambulação pelos espaços sombrios e infinitos. Por causas de natureza obscura, experimentamos com frequência alguns anseios de recolher ao Uno – o que não implica forçosamente a dissolução da individualidade – e desejos de voltar ao coeso agregado de pedrinhas que uma criança mítica dispersou um dia, amargurada, alegre ou indiferente.
Quaisquer que sejam os trilhos por onde caminhemos, talvez importe respirar bem e deixar as pedras do chão em paz. O acaso e a necessidade farão o resto.

(1) Joshua David Stone (2007), Manual Completo de Ascensão, São Paulo, Editora Pensamento, p. 205.

(2) W. Somerset Maugham (s/d), Servidão Humana, 11ª ed., Lisboa, Edição Livros do Brasil, p. 34. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

ACERCA DO ESPALHAFATO

Salvador Dalí, O Homem Invisível, 1929.


Ser espalhafatoso ao nível do gesto e do som consiste em mostrar elevado número de movimentos e de ruídos sequiosos de originalidade, lançados em todas as direcções concebíveis por um ser humano que habite o espaço e o tempo. Daí que o tipo de espalhafato referido surja ou como tentativa de o sujeito provar a existência de si mesmo ou, se for reiterado, como a expressão de que se duvida da eficácia de semelhante prova. Em qualquer caso, estamos perante um conjunto de práticas que procuram minimizar a constante ameaça do anti-solipsismo, isto é, da perspectiva segundo a qual os outros existem, só eu é que não.
Todavia, no estrito plano do adorno, o espalhafato pode representar uma forma de demonstração da existência das coisas exteriores, pelo menos das que se relacionam com o exercício de chamar a atenção para a imagem. E assim até será possível obter uma leitura oposta à anterior. Talvez o eu espaventoso, em termos exclusivamente ornamentais, pretenda apenas extinguir-se, enquanto confere aos objectos que o enfeitam uma extrema visibilidade.
Há, no entanto, modalidades de auto-afirmação e de auto-anulação mais tranquilas e discretas – e, sobretudo, virtualmente menos incómodas para aqueles que tiverem de assistir.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A ANSIADA LUZ

René Magritte, O Princípio do Prazer
(Retrato de Edward James)
, 1937.


Converter em mantra a afirmação «Eu sou luz» e repeti-la indefinidas vezes, em horas de ócio ou de actividade que exija pouco desvelo, dificilmente conduz alguém à iluminação. Também é improvável que da prática resultem divinos archotes susceptíveis de guiar os passos alheios.
O exercício pode, decerto, levar a um estado alterado de consciência, fruto do esvaimento do significado das palavras proferidas – efeito aliás reconhecível após o uso análogo de qualquer outra asserção ou mera sílaba –, mas o que dele se há-de obter em claridade será, se tanto, apenas o frouxo reflexo de um sol de raios tímidos e escassa nitidez.
Além disso, a identificação do eu com a luz adquire a natureza de um desejo religioso e não o valor de um enunciado científico. Aspirando a sê-lo, o sujeito procura convencer-se a si mesmo de que é já uma entidade estruturalmente irradiante, embora ele próprio desconfie, por sombria rotina, que a esse nível não possui sequer a virtual e pura incandescência da mais vulgar das lâmpadas eléctricas.

quarta-feira, 28 de março de 2012

DIFICULDADES DO PENSAMENTO ABSTRACTO

René Magritte, Golconda, 1953.


No interior da multidão, o pensamento suficientemente abstracto costuma exercer-se com uma lentidão muito concreta. Há duas hipóteses explicativas do estranho fenómeno: ou os conceitos e juízos encontram obstáculos de vária ordem, talvez gerados pela sufocante presença de um vasto número de almas que habitam corpos, ou – no caso de admitirmos que as ideias deambulam pelos espaços e descem às estruturas cerebrais, que elegem como bem entendem – tais juízos e conceitos são pulverizados por efeito de forças trituradoras, ligadas à sobreposição e aos embates excessivos das mentes, e entram sem critério nos intelectos individuais, cabendo a cada um somente exíguas e flutuantes sombras.
Se rumarmos ao interior da multidão e for nosso desejo conservarmo-nos filosoficamente vigilantes, levemos na memória, por exemplo, um argumento de Kant, um paradoxo de Zenão, um koan de algum mestre zen, um aforismo de La Rochefoucauld. E, claro, mantenhamo-nos atentos para não deixarmos que o tópico adormeça, se imobilize, se apague, se dilua, se perca ou nos seja deploravelmente arrebatado. O interior da multidão nunca foi o lugar mais propício a indagações de carácter racional.

terça-feira, 27 de março de 2012

ATITUDES COMPLEMENTARES

Pierre-Auguste Renoir, Na Conversa com o Jardineiro, c. 1875.

Sim, é excelente escutar as aves, recolher fragrâncias, contemplar os ramos, acariciar a pétala na manhã clara, fruir o lume em rigorosa noite. Esses exercícios atenuam, frequentemente com vantagem, a mania de enquadrar o real em conceitos esquisitos.
Mas a mente, sobretudo a de labor mais abstracto – por vício atroz ou por virtude branda –, tem necessidade da questão incisiva, aprecia a força do argumento, a via das oposições, o mistério do ser, a angústia da errância, os labirintos do Cosmos.
De um lado, assenta uma percepção tendencialmente despojada; do outro, uma reflexão voluntariamente complexa. Como ideais a polarizarem ambas as operações – embora a primeira se afigure, justamente, a negação de qualquer ideal –, acharemos a intuição do Todo, a compreensão do Absoluto, a fusão com a Unidade, a visão de Deus face a face, o regresso ao nada infinito ou as diversas modalidades de apoteose dos sentidos e do intelecto.
Talvez o preferível seja, no entanto, oscilar entre as duas atitudes, substituindo com a pertinência de uma o eventual tédio que da outra emerge e acreditando que, neste jogo, não existem galardões à nossa espera.

segunda-feira, 26 de março de 2012

PROMESSAS

Edgar Degas, O Absinto, c. 1875.


         Nas conversas de café, de restaurante e não só, duas frases costumam despontar em jeito de aparente desafio, embora cheias de modéstia, corporizando vivas promessas de abertura ontológica ou de descida da criatura racional aos abismos de si mesma. Uma é declarativa, outra interrogativa. Eis os elementos que as estruturam: «Eu não sou ninguém para…», «Quem sou eu para…?!». Exemplos: «Eu não sou ninguém para te dar conselhos», «Quem sou eu para te ensinar?!».
Se, no primeiro caso, o sujeito falante põe em dúvida uma fracção da sua própria realidade, no segundo – apesar de as perguntas de tal género não exigirem resposta –, coloca parte da sua identidade em questão. Ora, o surgimento concreto de ambos os modelos de frases é mais facilmente explicável se se pensar na virtude do hábito do que no hábito da virtude de pensar.
Elas são tecidas de palavras que, em geral, o uso converte em fórmula, sem que a reflexão se lhes aplique. Simulam a profundidade, mas é à superfície que flutuam. Anunciam meditação e silêncio, mas perdem-se em distracção e ruído. Fingem anseios de auto-análise, mas esvaem-se entre goles de cerveja ou entre duas garfadas de massa com feijão.

domingo, 25 de março de 2012

RUMO À SINGULARIDADE DO UNO

Wassily Kandinsky, Azul Celeste, 1940.

Admitamos que todos os seres e coisas, dos humanos aos bichos, das plantas aos calhaus, dos anjos às bactérias, são manifestações originais do Divino. Cada ente finito é já o infinito Deus. Se a esta leitura juntarmos a perspectiva de que há evolução espiritual, inferimos que as variações detectadas expressam o grau de consciência individualmente atingido e os efeitos práticos que daí derivam.
Claro que as duas teses se revelam, em parte, conflituantes: o ser ainda em trânsito para a irrecusável plenitude é Deus lá no fundo, conquanto em nada se afigure sê-lo à superfície. Procuremos, no entanto, superar as falácias, as obscuridades e as contradições, pedindo ajuda ao fulgor da intuição, mais do que à lógica do raciocínio. Em semelhante cenário, quem somos, afinal? Somos uma pluralidade errática em demanda da singularidade majestática.
O que motiva, em última instância, o conjunto dos nossos actos, mesmo se disso não nos apercebermos, é justamente o desejo de sermos o ponto universal para onde convergem as inumeráveis experiências da multidão dos existentes. Aí, embora se acentue de modo cruciante o problema da identidade e da diferença, não deve emergir o apetite de retorno à condição que abandonámos. E o avançar rumo a tal estado constitui o único projecto com valor. O que talvez nunca chegaremos a saber é qual é, de facto, o valor desse projecto.

sábado, 24 de março de 2012

NEGAÇÃO E ASPIRAÇÃO


Durante o caminhar paralelo a um extenso gradeamento, com os raios de sol a estenderem-se já pela terra, abro os olhos ou fecho-os por instantes e percebo nas íris as pulsações de luz e as de sombra. Reconheço numas a ausência das outras, e no conjunto um rendilhado incerto.
Faço incidir o exercício da mente sobre a arquitectura do chamado mundo material: o facto de as coisas serem o que vão sendo só é compreensível por inteiro se pensarmos em tudo o que elas não são. Chegaremos a entender a árvore se despertarmos para o que a árvore não é – e isso constitui, naturalmente, uma vastidão que leva demoradas horas a percorrer.
Faço depois incidir o exercício da mente sobre a própria mente, apesar da dificuldade de esta ser objecto para si mesma. Se aprofundarmos a sua ligação à suposta realidade exterior, veremos nela ou um desejo de ordem que emergiu do caos ou um pequeno caos no interior da ordem. Em ambas as situações, a mente nutre a vontade, mais ou menos subtil, de conseguir algum tipo de metamorfose. 
Cada existente é, em suma, a negação finita do resto ou um resto de aspiração infinita.

sexta-feira, 23 de março de 2012

TEMPO E ETERNIDADE

Wassily Kandinsky, À Volta do Círculo, 1940.


Assevera Platão, no diálogo Timeu, que o tempo é a «imagem móvel da eternidade» (1). Afigura-se, todavia, que só as entidades que vivem mergulhadas no tempo – como a alma no corpo encarcerada – poderão experimentar os objectos mutáveis, sombras artificiais das regiões de luz pura, memórias incertas da realidade superior, destroços de sonhos, prenúncios de decadência.
Porém, se observado do ponto de vista da eternidade, talvez este mundo não encontre escapatória. Surgirá à maneira de um estático panorama, como se transformado em pedra por artes de Medusa. Nessa altura, revelar-se-á difícil admitir diferenças entre o tempo e a eternidade. Deixará inclusive de fazer sentido o intervalo que separa as Ideias das coisas, ou o único original das múltiplas cópias, e nem sequer se notará existir movimento das cópias em demanda do original.
Se assim for, o tempo não é mero simulacro: é uma escusada duplicação. Parecerá mais sensato afirmar que ele é a própria eternidade: um Todo quieto, formado de inquietas partes. Mas isto nada acrescenta à sua moldura indefinida. Se cada acto explicativo, por estar sujeito a uma determinada duração, já o pressupõe, então o tempo é inexplicável em si mesmo. Não esperemos que a eternidade seja menos obscura. Ou esperemos, se tivermos tempo.  

(1) Platão (s/d), Diálogos IV, Mem Martins, Publicações Europa-América, p. 266.

quinta-feira, 22 de março de 2012

AUTOCITAR-SE

M. C. Escher, Desenhando-se, 1948. 

São citáveis todos os entes que alguma vez já compuseram ou pronunciaram frases. Se ninguém se der à tarefa de os citar, podem fazê-lo eles próprios, referindo, por exemplo, em jeito de introdução: «Eu costumo dizer que…»
Autocitar-se é, em simultâneo, um exercício de esperança e de melancolia: a esperança de que o eu de agora seja o mesmo que escreveu ou usualmente profere a máxima, e a melancolia de descobrir a esse nível uma evolução intelectual mínima.
«Eu costumo dizer que…» funciona como bilhete de identidade mental. E um aforismo, ou pouco mais, ajuda então a condensar a sabedoria efectiva ou simplesmente desejada.
Autocitar-se é implorar coerência e exigir linhas exactas para um rosto impossível de fixar. 

quarta-feira, 21 de março de 2012

MANIPULAÇÕES

René Magritte, O Mês da Vindima, 1959.

Um dia, em finais do passado século, dois membros de certa empresa tentaram impingir-me um cartão proporcionador de fantásticos descontos em serviços diversos. A adesão ao dito foi-me proposta num ponto do Universo exterior ao doméstico sossego. Apesar de eu não ter demonstrado o mínimo interesse pelo objecto, asseguraram-me de que, se estivesse disposto a aceitar a oferta no momento, o custo seria praticamente metade do que aconteceria se fosse pensar para casa. É óbvio que fui pensar para casa, embora em assuntos relevantes e não em cartões inúteis.
Ao colocarem as coisas naqueles termos, os cavalheiros deixavam implícita a ideia de que o ir pensar para casa constituía um significativo passo em direcção à recusa. Ou eles não tinham ainda tomado consciência disso, ou julgaram-me suficientemente bronco para que eu não o fizesse. Sendo tal julgamento o mais provável, não pude evitar sentir um ligeiro vexame.
Ir pensar para casa, ou para algum lugar menos recolhido, é um direito inalienável. Hoje, porém, já nem mesmo em casa nos querem permitir o acto de pensar. Toca o telefone, fixo ou móvel, e do outro lado, com uma frequência extenuante, chegam propagandas, campanhas, promoções, recompensas, prémios, juramentos, tudo não raro simpaticamente misturado a omissões, engodos, mentiras, burlas, intrujices, uma lista imensa de manipulações do raciocínio e de graves insultos à inteligência.
Claro que há remédios eficazes contra isto. Mas é sem dúvida incómodo e de muito mau presságio tanto desejo instituído de cercear o exercício autónomo da reflexão crítica – ou de neutralizar o último reduto da liberdade humana.

terça-feira, 20 de março de 2012

GRANDES FINALIDADES


Giorgio de Chirico, Interior Metafísico, 1925.

Admitindo como verdadeira a hipótese da reencarnação, qual será a finalidade de tal processo? A vantagem de abrir O Livro dos Espíritos é, justamente, a de podermos achar resposta a esta e muitas inquietantes perguntas, sem necessidade de nos afundarmos em excessos de raciocínio. Deus impõe a descida ao corpo com o objectivo último de tornar o espírito perfeito. Além disso, procura o Ser Supremo colocá-lo «em condições de enfrentar a sua parte na obra da criação» (1).
Ante o esclarecimento, é legítimo inferir que o mundo se encontra francamente inacabado, precisando da acção dos espíritos para ascender à sagrada completude, e que os espíritos nascem estruturalmente grosseiros, carecendo da ligação ao mundo para alcançarem o divino primor.
Deus assiste ao espectáculo, interferindo se o deseja, talvez adiando o desfecho, talvez acelerando o desenlace, talvez pensando se fará sentido começar, depois deste, um outro jogo.

(1) Allan Kardec (1992), O Livro dos Espíritos, Lisboa, Centro Espírita «Perdão e Caridade», p. 162.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A VERDADE ÚLTIMA

René Magritte, As Férias de Hegel, 1958.

Admitamos que há uma verdade definitiva, absoluta, categórica, terminante, e que ela é susceptível de ser expressa mediante as palavras de um idioma terreno.
Ora, sendo tal verdade, por natureza, rigorosamente desarmante, o texto que a expusesse não exigiria teimosas alíneas nem prolixas explicações. Um parágrafo seria suficiente. Uma frase, aliás, condensaria tudo. Se quisermos avançar para sínteses maiores, diremos que bastariam um mero sujeito e um genuíno predicado, porquanto a verdade última nunca necessita de complementos. Poderíamos inclusive ir mais longe, mas fiquemo-nos por aqui.
Folheando o dicionário da referida língua, talvez – após firme demanda – acabássemos por deparar com a maravilhosa dupla sujeito-predicado que nos elucidaria a respeito dos grandes segredos do Cosmos.
Prevê-se, no entanto, uma objecção. Descontando a ousadia de imaginar que a verdade derradeira cabe na linguagem verbal, nada nos assegura existir evidência no pressuposto de que ela seja desarmante. De resto, o partir de um qualquer pressuposto é, desde logo, dar a entender que já detemos uma parcela, ou um esboço, da mencionada verdade.
Porém, se dispensássemos os pressupostos, além de não reconhecermos a verdade como desarmante, ver-nos-íamos por inteiro desarmados. Teríamos, pois, de permitir – mesmo se com a tortura da impaciência – que a iniciativa despontasse do outro lado e que fosse a verdade absoluta a vir ao nosso encontro. Todavia, é muito improvável que uma verdade desse género se sinta atraída por almas inquietas.

domingo, 18 de março de 2012

ACERCA DA VIDA, COMO SEMPRE

Edvard Munch, A Dança da Vida, 1899-1900.

Embora a vida seja uma sucessão de acontecimentos e uma incessante mudança, tendemos a considerar que só há mudanças na vida por efeito de algum marcante acontecimento.
Essas alturas, é certo, fornecem outra matéria ao espírito, novos tópicos à ponderação, diferentes pólos à expectativa, distintas exigências ao desejo. Mas a vida ocorre sem que lhe descubramos origem fixa, paragem temporária ou direcção inegável.
Insistimos ainda em conferir-lhe um rosto exacto, fazendo-a também objecto de posse. Dizemos «a minha vida», como se, apesar da proximidade e até da fusão, quiséssemos estabelecer um intervalo seguro, ou como se apenas chamássemos «vida» a uma parte de nós próprios.
Esquecemo-nos que ela consegue ser, em simultâneo, anterior a todas as roturas, posterior a todas junções e espelho que a si mesmo se reflecte.

sábado, 17 de março de 2012

VOTOS DE SILÊNCIO

Geertgen Tot Sint Jans, S. João Baptista no Ermo, c. 1485-1490.

Um voto de silêncio, em simultâneo de carácter oral e escrito, deve ter pouco de libertador, se admitirmos que as palavras não ditas, nem de outra maneira expressas, insistirão em acotovelar-se no pensamento – doravante com maior intensidade por não acharem escapatória –, formando tropéis de frases em busca de um texto capaz de lhes conferir arrumo e coerência.
Poderá sustentar-se, todavia, que um voto de silêncio consiste numa dupla negação: a dos sons externos e a dos ruídos de dentro. Se assim for, para onde se escoam as sílabas que na mente rodopiam? Ou será que elas nem chegam a nascer, por causa do aniquilamento (ou da mera atenuação) da exigência habitual de prosa?
Talvez um voto de silêncio nos reponha na matriz do inefável. Talvez ele nos permita abandonar este cortejo de invenções sintácticas. Talvez, lá no fundo, sejamos um lugar que o discurso, mormente o banal, polui de sombras ou devolve ao esquecimento.
Mas é preferível chegarmos aí sem nos comprometermos com qualquer tipo de voto. Desse modo, concluiremos provavelmente que sempre estivemos em tal ponto e que as palavras, à semelhança das imagens, são só distracções que no Espírito existem – se não forem antes ilusões que nos levam a crer na existência do Espírito.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O PASSADO EM PRESENÇA

M. C. Escher, Escada Acima e Escada Abaixo, 1960.

Se os nossos impulsos e maneiras de andar são, em geral, para a frente, ganha sentido o dizermos que o passado ficou para trás. Fossem habitualmente outros o estilo adoptado e a direcção escolhida pelos pés, e talvez o pretérito se inscrevesse num ponto diferente da rosa-dos-ventos da existência.
Nessa altura, como aliás agora, poderíamos questionar se haveria alguma bússola adequada ao anúncio de tal dimensão do tempo, que teima em avolumar-se e finge ocupar um dilatado espaço. A resposta prevê-se negativa.
É melhor, por isso, admitir que o passado, mais do que um nada ou uma realidade que se ausentou, constitui uma presença a ensaiar formas diversas, repetindo-se, refazendo-se, retractando-se.
Deste modo, tornamo-nos disponíveis para aceitar que o tempo seja uma fonte de promessas da qual – assim o manda a sabedoria – nunca devemos esperar grande coisa. 

quinta-feira, 15 de março de 2012

ENTRE O CISNE E A MEMÓRIA

Salvador Dalí, Cisnes Reflectindo Elefantes, 1937.


O cisne mergulha a cabeça na água, forçando a idêntico movimento o pescoço inevitável. O corpo restante converte-se num inverosímil montículo de neve a deslizar em vítrea superfície. A memória pode afiançar que o cisne, de facto, não se perdeu, porque ela é também uma faculdade lacustre e espelhada, apesar de turva, que se mistura a antecipações, receios e expectativas, originando com tais elementos uma espécie de fantasmas  alguns dos quais bastante úteis  que se colocam entre as sensações e as coisas. 
Esses fantasmas, tecidos de matéria subtil, são pouco nítidos, embora muito persistentes, mantendo-se algures entre quem somos e o que não somos (ou supomos não ser). Se afastássemos grande parte deles, deixando só os necessários à organização do real exterior, é possível que tivéssemos acesso a um mundo surpreendente.
Se, porém, os varrêssemos de todo, o que é que nos chegaria através dos sentidos? Talvez um amontoado avulso de moléculas irregulares. Talvez um abismo de luzes e de sombras, um vórtice de cores e negrume, que tentariam absorver sem dó o arrojado fulgor da consciência. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

DEUS E AS LÍNGUAS

Pieter Bruegel, o Velho, A Torre de Babel, 1563. 

Em princípio, os espíritos superiores colocam-se por inteiro ao serviço dos outros – excepto eventualmente quando as tarefas envolvem aspectos de carácter obsceno, belicoso ou deletério. (Em certas ocasiões, a recusa e a desobediência constituem as virtudes mais sublimes.) 
À nobreza moral vem juntar-se a destreza linguística. Sabemos que as entidades elevadas, mormente as que povoam celestes dimensões, ouvem com frequência as súplicas dos vivos, os quais – mergulhados em assombro, aflição ou contingência – fazem uso do léxico assimilado, se tencionam formular rogos ou tecer louvores. Isso pressupõe, da parte daqueles espíritos, um domínio razoável – pelo menos uma boa compreensão – de todas, ou quase todas, as línguas em vigor no mundo, quiçá também das obsoletas.
Como se torna possível tão excelsa qualidade? Se não for o processo de reencarnação a explicá-la, acharemos sempre em Deus uma alternativa teórica inabalável. O Altíssimo não é mero poliglota. É omnilingue: conhece de modo exaustivo os idiomas que existem ou alguma vez terão existido, sem esquecer dialectos e códigos individuais. Se o quiser, ele põe-nos a pensar, a discutir e a escrever em qualquer língua. Digam-no os apóstolos e, claro, os construtores da Torre de Babel.
Por conseguinte, é natural que o Criador respeite evoluções fonéticas, morfológicas, sintácticas e semânticas. Crê-se, no entanto, que ele experimenta um óbvio desconforto perante acordos ortográficos dúbios, imponderados, caprichosos.

terça-feira, 13 de março de 2012

TECLADO INSPIRADOR


A minúscula esfera, a superfície em branco e os dedos concentrados aguardam as ordens do impulso criativo. Eis os indícios de que o bardo se conserva na expectativa de sentir as musas a atiçarem-lhe o estro.
O computador veio substituir este esquema, cuja matriz é o Parnaso ardente. Isto porque no teclado se encontram já, de modo potencial, a palavra, a ideia, o ritmo. Olhamos para as letras ali presentes, como se fitássemos uma paisagem túrgida de segredos. E pode acontecer que, a certa altura, elas decidam inaugurar a ode genial.
Dir-se-á que o acto de contemplar um teclado tem pouco de lírica paixão. Mas o poeta é menos um ébrio de natura agreste do que um artífice da infinitude silábica. E isso comporta riscos estéticos. É por tal motivo que às vezes, hipnotizados por nervuras brandas, achamos mais beleza numa folha de couve do que nos versos de um poeta decadente.

segunda-feira, 12 de março de 2012

FRUTO PROIBIDO E FOLHAS OCULTANTES

Miguel Ângelo, O Pecado Original, Adão e Eva no Paraíso, 1509-1510.

São poucos os dados de que dispomos relativos à identidade do fruto que, mordido por Adão e Eva, inaugurou as desgraças da humanidade. Considera-se, geralmente, que se tratou da maçã, embora não se possam excluir o abacate, a pêra e o diospiro.
Depois de o comerem, Adão e Eva, apercebendo-se de que estavam nus, aproveitaram o que tinham à mão para esconderem as pudibundas partes, e fizeram-no com folhas de figueira. Daí alguns autores deduzirem que foi o figo o interdito fruto.
A conclusão é aceitável, o raciocínio é discutível. Parece-me existir maior grau de pertinência na ideia de que a mesma árvore de onde se colheu o fruto revelador da nudez teria em si a obrigação moral de proporcionar folhas capazes de ocultá-la.
Mas o olhar de Deus, para o qual tudo é translúcido, atravessa o verde das folhas e as suas nervuras, percorrendo, num ápice, a totalidade da história, do início edénico ao desastroso ou apoteótico fim. Resta saber se ele também perde tempo com detalhes opacos e sombrios.

domingo, 11 de março de 2012

"COISAS SIMPLES DA VIDA"

Caspar David Friedrich, Homem e Mulher Contemplando a Lua, c. 1824.

O que serão as coisas simples da vida? Quem usa a expressão refere-se, em geral, ao sorriso admirável das crianças, ao selecto perfume de uma flor, às carícias trocadas entre amantes, ao Sol descendo numa tarde amena.
Resta saber se também são coisas simples da vida a carranca de um cão pleno de fúria, o cheiro que se eleva dos esgotos, um ébrio vomitando na alameda, o motor que enferruja na sucata.
À falta de um critério inabalável, é tentador estabelecer que tudo o acima exposto se enquadra no âmbito das coisas simples da vida – as quais passam assim a incluir elementos potencialmente repulsivos, talvez interditos para a expressão em causa , desde que, evitando qualquer mistura, não encaremos os citados exemplos com o pensamento mergulhado em outras possibilidades. 
A que possibilidades aludimos? Às que resultam, por exemplo, do imperativo do útil, dos apelos do desejo, da exigência do dever, da urdidura dos conceitos, dos modelos de decência, dos ideais de beleza.
Objectar-se-á com a perspectiva – sem dúvida a ter em conta – de que, aplicando tais categorias, nada fica de fora que possa ser considerado simples. 
Certo. Mas nessa altura o melhor é não complicar.

sábado, 10 de março de 2012

SALVAR A MULTIPLICIDADE

Van Gogh, A Noite Estrelada (Ciprestes e Aldeia), 1889.
Suponhamos que cada um dos seres que fazem parte de um todo é, ao mesmo tempo, ele próprio, na sua individualidade exclusiva, e o todo de que faz parte – ou seja, é também os restantes seres. A hipótese, embora pareça delirante, surge como forma de salvar a multiplicidade no interior da unidade, evitando que esta se torne uma papa de elementos rigorosamente indiscerníveis.
Vejamos isto traduzido na prática, recorrendo às letras do alfabeto. Admitamos que cada entidade é uma letra. Assim, A é A e, em simultâneo, B, C, D, E, etc.; B é B e, em simultâneo, A, C, D, E, etc.; C é C e, em simultâneo, A, B, D, E, etc. Em suma, as diversas letras transformam-se em conjuntos de letras, apesar de conservarem a sua originalidade estrutural.
Se, por um lado, existem várias filosofias e místicas que aplicam um esquema semelhante à realidade humana e aos seus apetites divinos, por outro, existem aquelas que afirmam a completa homogeneidade do Todo, sem lugar para a mínima diferença. Há quem prefira iogurtes com pedaços. Há quem os prefira sem pedaços. Ao fim e ao cabo, é tudo uma questão de paladar.


sexta-feira, 9 de março de 2012

A ORDEM POSSÍVEL

M. C. Escher, Ordem e Caos, 1950.

Perto do fim de The Waste Land, de T. S. Eliot, encontra-se um verso que resolvi adoptar em jeito de mantra para as ocasiões cinzentas e até para as vagamente radiosas: «Porei ao menos as minhas terras em ordem?» (1) Trata-se de uma pergunta na qual, independentemente do contexto do poema em causa, subentendo um catálogo de interrogações diversas. Por exemplo: Estarei um dia condições de não sentir restos de aspiração pelo que poderia ter sido? Chegará o tempo em que, sem abandonar o espírito crítico, aceitarei integralmente as coisas por que passei ou que por mim passaram? Alguma vez verei na morte que algures me espera um instante de irrelevância máxima e de perturbação mínima? Virá a hora em que a crença em suplementos de vida no Além se há-de revelar vazia perante as lições do desapego? Conseguirei fazer do ponto em que me acho agora a morada geométrica do que sou, sem que me distraiam apelos de ilusórias promessas? Mostrar-me-ei à altura de pensar mediante os recursos de que disponho, de não vestir de tédio o desacerto e de me corrigir sem inúteis comiserações?
As terras, se o desejarmos, simbolizam quase tudo. Eu vejo aí a imagem da existência humana e do que nela acontece. Pôr as terras em ordem significará, assim, arrumar segundo critérios nossos – mais ou menos universalizáveis – os ingredientes do caos que nos aflige. Ou inclusive abraçar parcelas do mesmo caos, se em tal houver justeza e coerência. Claro que nada disso garante a fertilidade do solo futuro nem o valor da colheita presente. Mas não descubro outra forma de conciliar a dor e o espanto.

(1) T. S. Eliot, A Terra Sem Vida, 2ª ed., Lisboa, Edições Ática, p. 61. No original: «Shall I at least set my lands in order?»


quinta-feira, 8 de março de 2012

AS VOZES DO EU

Costa Pinheiro. Fernando Pessoa e os heterónimos. 1978.
Costa Pinheiro, Fernando Pessoa e os Heterónimos, 1978.

            Por vezes, a mente distrai-se a cantar. Não lhe pedimos que o faça, não necessitamos de melodia, nem sequer de inefável trinado, e uma voz eleva-se de entre as células cerebrais e entoa o verso, o dístico incessante, o refrão cansativo.
Pode então acontecer que, se nos dedicarmos a escutar, outra voz surja de dentro daquele que escuta, e deseje saber quem rasga o silêncio e garante espectáculo sem nada exigir em troca, e uma terceira voz emirja e pergunte pelo ser da segunda, e assim sucessivamente, num processo regressivo ou num quadro de inquietações paralelas.
            Ficamos, pois, diante de três possibilidades: ou admitimos que o mesmo eu se exprime por vozes diversas; ou consideramos cada voz originária de um eu específico; ou assumimos existir um não-eu – inclusive um Eu universal – de onde dimanam, por obscuras vias, as vozes que julgamos serem nossas.
De qualquer modo, é provável que a mente humana seja um palco de múltiplos cenários, no qual actores sem nome nem rosto interpretam papéis que desconhecem.       

quarta-feira, 7 de março de 2012

MOVIMENTOS E ILUSÕES

René Magritte, O Modelo Vermelho, 1937.

As pegadas que se deixam no mundo sugerem que houve algum tipo de movimento. O movimento, por sua vez, remete sempre para algum tipo de ilusão. Mas também existiram sábios, como Parménides, para os quais o próprio movimento é ilusório. Se observarmos um caracol, demoraremos mais tempo a reconhecer essa alegada evidência.
Em geral, aquele que tenha exíguos pés ou ande pouco agride menos a cansada epiderme da terra do que aquele que os tenha enormes ou aprecie longas caminhadas. No entanto, convém atender a factores diversos, desde o estilo da locomoção à presença ou ausência de saltos expressivos.
Numa perspectiva abstracta, reduzir o arsenal das fantasias ajuda a diminuir o dos correlativos desenganos, tal como o uso de tacão alto implica menor probabilidade de esmagar caracóis e outros seres indefesos cuja fragilidade nos comove.

terça-feira, 6 de março de 2012

UM BOM PRINCÍPIO

Salvador Dalí, Galateia das Esferas, 1952.

Referindo-se ao sistema de Espinosa, do qual todavia rejeitou por inteiro a visão metafísica, Bertrand Russell sublinhava a utilidade do princípio de discorrer sobre o Todo ou, no mínimo, sobre temas que excedem o âmbito da nossa aflição. Espinosa, além de apreciar lutas entre as aranhas, demorava-se muitas vezes a meditar em torno da abrangente Natureza, colhendo do exercício aquele júbilo a que chamava «o amor intelectual de Deus» (1). «Há mesmo alturas», escreve Russell, «em que é reconfortante pensar que a vida humana, com tudo o que contém de mal e sofrimento, é uma parte infinitesimal da vida do universo» (2), e é desse modo que o autor da Ética nos ajuda a conservar a sanidade num mundo doloroso, oferecendo-nos o «antídoto à paralisia do completo desespero» (3).
No entanto, ao considerarmos o Todo, colocamo-nos frequentemente fora dele, se não por virtude da realidade, ao menos pela ilusão dos conceitos. E quem se põe fora do Todo corre sempre o risco de aumentar o seu quinhão de angústia e desalento. Reflectir sobre o Todo – incluindo aí Deus e os restantes pólos de deslumbramento e maravilha – poderá, sem dúvida, pacificar as almas desamparadas, desde que elas não ousem voar, ou fingir que voam, para o exterior de tão Grande Casa, privada de alicerces, de chaminés e de outras escusadas aberturas.    

(1) Bento de Espinosa (1992), Ética, Lisboa, Relógio D’Água, p. 471.
(2) Bertrand Russell (2010), History of Western Philosophy, London, Routledge Classics, p. 530. 
(3) Idem.  

segunda-feira, 5 de março de 2012

DOIS ATRIBUTOS

M. C. Escher, Predestinação, 1951.

O ser humano procura garantir o seu espaço de entidade original mediante a recusa mais ou menos diplomática – ou tentando harmonizá-los, de modo mais ou menos coerente, com a sua suposta autonomia – de dois atributos esmagadores: a presciência de Deus e a omnipotência da natureza. Afinal, se Deus tudo sabe do futuro, a liberdade parece fictícia; se a natureza tudo pode no presente, a liberdade parece ilusória.
Muito do que intencionalmente fazemos, envolva prática declarada ou omissão subentendida, tem como objectivo, em última instância, realizar a face inédita do que somos, ainda que achemos haver um inflexível determinismo a governar cada gesto ou que precisemos de desculpas quando o desfecho não é do nosso inteiro agrado.
Significa isto que, como escrevia Sartre, «o homem está condenado a ser livre»? Não. Significa que o homem está condenado a querer ser livre, mesmo se esse querer for apenas um grande auto-engano da matéria ou um secreto ardil da Divindade.

domingo, 4 de março de 2012

"VIDAS DE SUCESSO"

David Seymour, Sem título, c. 1948.


         O que será uma vida de sucesso? Isso depende, é claro. Subjectivos critérios, diferentemente conjugados, presidem à eventual resposta, indo da robustez da conta a prazo à solidez gregária do prestígio, de façanhas de erótico furor a posses que a inveja alheia atiçam, do ser-se de altruísmo nobre exemplo à conquista profunda de si mesmo, do exercer de respeitáveis cargos à saúde inteiriça e imaculada, do ter-se viajado pelo mundo ao achar-se amoroso complemento, de realizações em artes várias ao chegar a sorrir para os bisnetos.
Por conseguinte, a decisão de considerar a existência, própria ou de outrem, um matagal de êxito, uma espessura de fiasco ou um bosque intermédio é íntima, contestável e, à semelhança do conhecimento científico, revisível por natureza. Mas a sociedade, como se sabe, gosta de sugerir e impor os seus digníssimos protótipos, substituindo a angústia individual no que à livre adopção de parâmetros se refere. Aliás, se assim não fosse, haveria fortes razões para duvidarmos da pertinência das colectividades.
Acontece, no entanto, que a experiência do sucesso ou do fracasso vai muito para além dos usos e dos cânones. Em última análise, fracasso e sucesso resultam do encontro de uma determinada disposição dos átomos em nosso redor com uma certa maneira geral, mais ou menos cinzenta ou radiosa, de avaliarmos esse arranjo da matéria e o nosso lugar no meio dela, o que remete com frequência para dimensões incorpóreas e até espirituais. É óbvio que tal avaliação – de acordo com uma leitura mecanicista – se poderá reduzir, também, a um louco jogo de átomos. De qualquer modo, o tema do sucesso e a trama do fracasso escapam à alçada das verdades definitivas. Excepto nas revistas cor-de-rosa.

sábado, 3 de março de 2012

A INACESSIBILIDADE DO OUTRO

Fernand Khnopff, Eu Fecho a Porta sobre Mim Própria, 1891.


Partilhamos vocábulos, esperanças e sinais que julgamos terem nascido cá dentro, mesmo se resultaram do hábito de imitar coisas de fora. E, por vezes, surge a pergunta: «Quem são, afinal, aqueles com os quais lido todos os dias? E aqueles com os quais não lido, ou deixei de o fazer, quem são?»
Nunca saberemos exactamente como diluir os limites que nos dividem. Ensinaram-nos gestos propícios, fórmulas oportunas. Porém, o outro situa-se num ponto do mundo – talvez colado à nossa fronteira – que parece geometricamente inacessível. Se o não é, de que forma teremos a certeza disso?
Em diálogos múltiplos, trocamos prosa, afecto, desassossego. Se nos demoramos a analisar cada encontro de modo neutral, chegamos até a concluir que, sendo o eu a negação do outro e o outro a negação do eu, essa dupla "recusa" se tenta converter na afirmação de algo maior e mais puro. Mas, inclusive num tal grau, a solidão sempre excede a mera e simples ameaça, tanto em suas amargas evidências, quanto nos seus enganos sinuosos. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

HUMOR UNIVERSAL

M. C. Escher, Circulação, 1938.

Se estivermos atentos e tranquilos, veremos fontes de humor por todo o lado, numa grande parte dos entes. Cada presença, em movimento ou em repouso – seja ela mera fracção do possível ou estrita irrupção do necessário –, é também algo em incessante risco de nutrir comédia, mormente se percepcionada como se fosse pela primeira vez.
À margem das explicações racionais que avançamos para as coisas, e quando nenhum drama tolhe o espírito de inclemente severidade, tudo é susceptível de desencadear humor brando – inclusive misturado a uma sóbria compaixão. No fundo, não se trata de procurar bem: trata-se de suspender os conceitos e de focar por inteiro o que nos chega do exterior, separando a matéria que os sentidos nos dão daquilo que nós damos à matéria dos sentidos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

TESOUROS DE DENTRO

Giorgio de Chirico, A Conquista do Filósofo, 1914. 

Àqueles que fugiam, temendo o exército persa, e se espantavam de o verem sair sem que nada levasse dos seus pertences, o filósofo Bias de Priene, um dos Sete Sábios da Grécia, replicou: «Levo comigo todas as minhas coisas.»
Importa agora esclarecer a que aludia ele ao dizer que levava consigo todas as suas coisas, as quais não se reduziriam aos modestos andrajos, à eventual côdea bolorenta ou a algum punhado de figos secos. É tentador achar aí ressonâncias ou, sobretudo, antecipações de âmagos metafísicos que as filosofias e as religiões tinham já consagrado ou haveriam de o fazer: do nirvana búdico ao reino dos Céus, do Ouro dos alquimistas à Substância (exclusiva) de Espinosa, do Ain Soph cabalístico à Ideia platónica de Bem, do Uno dos místicos ao númeno kantiano.
Admitamos que Bias se teria conectado com algo similar a uma das instâncias apontadas, reconhecendo nela indubitável superioridade, comparativamente aos precários tesouros de índole terrena. Será que alguém pouco dado a ascensões inefáveis tem a possibilidade de aceder de imediato a tal núcleo de redenção? Se as coisas mais preciosas se encontram dentro de nós, não se supõe como necessário grande esforço para ganhar consciência e fruir a vivência delas em plenitude.
A prática deve assumir a facilidade de um piparote. Basta fingir que essa realidade interior é o que, num certo momento, existe para além (ou aquém) do que estamos a percepcionar, a conceber, a sentir, a imaginar, e concentrarmo-nos depois no que isso possa ser. Ora, o que isso possa ser é nada e tudo ao mesmo tempo. Assim, o exercício consiste, basicamente, em duas etapas: a primeira é a negação total da experiência finita; a segunda é a experiência infinita dessa total negação.