domingo, 5 de fevereiro de 2012

DIZEM QUE "SOMOS TODOS UM"

Independentemente do seu alcance metafísico – talvez sejamos manifestações da Consciência única e infinita – e do seu difícil confronto com a realidade tal como a conhecemos – as impressões digitais variam de pessoa para pessoa –, a afirmação de que somos todos um revela um certo vigor em termos éticos. Ela parece constituir o suplemento que faltava ao imperativo categórico, a lei moral fundamental que – assegura Kant – é inerente a cada um de nós e nos manda agir de um modo que seja universalmente aceite.
       O problema é que semelhante frase é mais ambígua do que as fórmulas kantianas do dever, sobretudo se examinarmos os contextos que pressupõe ou os desígnios que a norteiam. Tendo em conta essa vertente pragmática, encontramos, pelo menos, dois sentidos, rigorosamente opostos, para a convicção de que somos todos um: ora se entende que o um é a coexistência pacífica de todos, ora se deseja que todos se submetam à homogeneidade do um. Se a primeira interpretação remete para a perspectiva de Kant, estando na base do respeito e até do altruísmo, a segunda, se for levada à prática, servirá de pasto aos movimentos totalitários e às suas agendas.
       Há muitos círculos religiosos e esotéricos a insistirem na doutrina de que somos todos um. Convém, no entanto, que esclareçam se, ao proporem tal aforismo, estão a pensar na defesa em conjunto das legítimas diferenças, se na consagração perversa das ideologias autoritárias.
 

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