quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O ESPELHO DO SOLIPSISTA

René Magritte, Reprodução Proibida
(Retrato de Edward James)
, 1937.

O verdadeiro solipsista nunca se afunda na sensação do ridículo. Apesar disso, não dispensa ver-se ao espelho antes de algum evento social que o exponha aos olhos do mundo, porventura consciente da ideia sartriana de que «o inferno são os outros». Ou talvez procure apenas contemplar o único ser dotado de efectiva realidade. Descurando o acto, arriscar-se-ia a olvidar o seu próprio existir, acabando, também ele, por desaparecer nas brumas insidiosas do nada.
Depois de criar os céus e a terra, o espírito de Deus entretinha-se a mover-se «sobre a superfície das águas». Será tentador conjecturar que o Omnipotente mirava a sua face, reflectida no líquido elemento. Puro engano. Ainda não havia luz, e sem ela nenhum espelho devolve imagens ou simulacros. A dada altura, Deus decidiu romper as trevas. «Faça-se a luz», disse. E a luz surgiu. Finalmente, o Ser Supremo achara a companhia do seu admirável rosto.
Para o solipsista, como em certa medida para Deus, o espelho é um lugar de encontro e até de redenção. Ele ajuda a tornar mais suportável o universal e gélido abandono.   
  

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

PALAVRA E PERCEPÇÃO

Claude Monet, Bordighera, 1884.

Se a linguagem verbal se ausentasse de todo por instantes, o mundo da percepção surgiria talvez amplamente depurado e como um lugar de plenitude, sem necessidade de zelo intelectual nem de esforço redentor. Nessa altura, as coisas exteriores limitar-se-iam a estar aí, ou a deslocarem-se sem contudo responderem aos apelos da perfeição remota nem aos caprichos da intencionalidade. Alguns objectos, à semelhança da esferográfica de tinta escura, pôr-se-iam, para usar a expressão d’ A Náusea de Sartre, «a existir na nossa mão».
Uma vez banidas, mesmo se provisoriamente, as sílabas e a sintaxe que as estrutura, o sentido e o absurdo seriam pólos coincidentes. É a palavra que inaugura a incompletude e suscita a oposição entre o absurdo e o sentido. Sem ela, achar-nos-íamos remetidos para o lado de fora da mudança, alheios à aspiração ao eterno e à angústia da fragilidade. E a tinta escura da caneta não chegaria sequer a ser uma promessa do mais simples e anónimo arabesco.  

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

ENTABULAR CONVERSA

Paul Gauguin, De onde vimos? Quem somos? Para onde vamos?,1897.

Entabular conversa mediante apreciações referentes ao estado do tempo constitui uma estratégia que se enraíza num facto notório: os circunstantes partilham o clima, como se se deixassem envolver pelo mesmo inevitável manto.
A alternativa poderia ser substancialmente distinta, embora também de índole comum: após a saudação, iniciar um diálogo com desabafos – ou provérbios acutilantes – alusivos à condição humana. Afinal, as vidas assemelham-se em mistério e perplexidade.   
Certamente que o grau de interesse relativo a este último tópico é bastante variável entre as criaturas racionais. Mas seria curioso e desafiante se aqueles que o detêm mais intenso ousassem eleger essa filosófica abordagem aquando da troca diária de cumprimento e de prosa.
Por exemplo, em vez do comentário «Está quentinho, hoje!», dir-se-ia: «A nossa passagem pelo mundo é um exercício tão breve como enigmático.» Talvez o resultado acabasse por nos surpreender – muito menos, no entanto, que a desconcertante evidência de existirmos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

MOMENTOS FILOSÓFICOS DE UM GATO

«Se eu atingir o ponto mais alto do mistério das coisas que me cercam, saberei então como desvendar tal mistério», pensava o gato ao subir lentamente um montículo de estrume.

«Tem de haver uma razão suficiente para que aquela alface esteja ali e não em outro lugar do Cosmos», reflectia o bichano enquanto deambulava por entre couves-galegas.


«Todos os esforços são inúteis neste mundo ilusório, excepto o que se faz para dormir  e muitas vezes também esse é inútil», concluiu o animal, guardando as patinhas debaixo do corpo e tentando imitar a grande Esfera do Ser.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

"A BUSCA DO IMPOSSÍVEL ATRAVÉS DO INÚTIL"

Salvador Dalí, Rosa Meditativa, 1958.
Escreveu Jean-Gabriel de Tarde que «a vida é a busca do impossível através do inútil» (1). Parece haver ampla amargura e vasto pessimismo na base de sentença tão espantosa. Após cuidada análise, veremos que o cenário se revela, afinal, pouco sombrio. Admitamos, pois, que a tese é verdadeira.
        Em primeiro lugar, importa referir que a vida, embora traduzível em palavras e demais suportes da linguagem em geral, mantém igualmente a sua dose de inefabilidade. Assim, para sermos equitativos, devemos conceder 50% de legitimidade à afirmação e atribuir a restante percentagem ao silêncio. Deste modo, esvai-se metade do pessimismo subjacente à citada máxima.
Em segundo lugar, convém que se note que a vida pode ser busca ou não o ser. Se me enlevo ante um quadro de Salvador Dalí ou me extasio ouvindo das aves o gorjeio, não me encontro, falando com rigor, em busca de algo: limito-me à contemplação. O pessimismo cai para 25%. A sobrante percentagem é para a não-busca.
         Em terceiro lugar, será oportuno esclarecer que a expressão “busca do impossível através do inútil” é susceptível de um corte que a torne mais sintética e lhe retire negrume. Bastará dizer: «A vida é uma busca inútil.» Ou então: «A vida é a busca do impossível.» Num caso, focamo-nos no meio usado (o inútil), operando uma leve deslocação semântica; no outro, centramo-nos no fim, estruturalmente contraditório (o impossível). O pessimismo decresce para uns irrelevantes 12,5%.
         Em suma, o adágio de Tarde não mata, não agride, não fere, não mói. Apenas causa, se tanto, um ligeiro mal-estar, deixando à vida, no mínimo, 87,5% de hipóteses de surgir como uma realidade distinta da «busca do impossível através do inútil».
         Além de não ser descabida uma interpretação mais optimista, existe ainda a alternativa de imaginarmos que a asserção é falsa. Mas não vale a pena tentar saber se o é de facto ou não. Talvez isso fosse a busca do inútil através do impossível.


Façamos um esquema (esperando que a tabela não se mostre uma escusada imitação do caos):





                           A VIDA É
Percentagem de pessimismo que desaparece
inefável
exprimível
50%

não-busca
a busca do impossível através do inútil

25%


uma busca inútil
a busca do impossível

12,5%
CONCLUSÃO: não há razões para ficarmos amargos e pensativos ante a afirmação de que «a vida é a busca do impossível através do inútil». Tal afirmação pode, inclusive, ser falsa. Nesse caso, os sonhos voltarão a iluminar os frágeis horizontes da existência.

Total: 87,5%

(1) A referência a esta ideia de Tarde encontra-se no Livro do Desassossego (de Fernando Pessoa), de onde se extraiu a citação.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

INTERPRETAÇÕES SEMELHANTES

Georges Braque, O Duo, 1937.

Se alguém resolve assegurar que tudo se reduz ao espírito, a interpretação é aceitável: as supostas realidades materiais são apenas a extensão de um jogo de ideias e intuições.

Se alguém decide afirmar que tudo se reduz à matéria, a perspectiva é admissível: as supostas entidades espirituais são apenas o prolongamento do enredo das partículas atómicas.

Ser puro espiritualista e ser puro materialista constituem dois modos igualmente defensáveis de ver o mundo: são opções decorrentes de interesses e gostos pessoais. Nada a opor.

Os conflitos que separam ambas as leituras brotam, em derradeira análise, da existência de duas palavras – espírito e matéria – que surgem sob a forma de negação recíproca.

No entanto, o azedume pode instalar-se na medida em que há implicações éticas associadas a tais conceitos: em geral, o primeiro faz apelo à liberdade, o segundo remete para o cego determinismo.

Só que um agente moral minimamente autónomo costuma tomar como referência para a sua conduta o respeito pela dignidade do outro – e não a natureza última das coisas.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

APETITE DE SER

René Magritte, Decalcomania, 1966.
Admitamos que a água é substância e que a sede é vazio. Um homem coloca, todos os dias, sobre a sua mesa de trabalho duas garrafas: uma cheia de água, outra privada de líquido. Um colega procura saber a razão de tal procedimento. Responde o cavalheiro: «A garrafa com água é para o caso de ter sede; a garrafa sem água é para o caso de a não ter.»
Estamos perante um contexto em que se subentende não apenas o preenchimento do vazio por parte de uma substância, mas também o preenchimento de uma substância por parte do vazio. É no carácter absurdo – ou meramente escusado – desta última sugestão que se baseia o humor da historieta.
Em simultâneo, podemos identificar, entre os pressupostos gerais da anedota, a ideia de que o ente humano se inclina para o ser e dispensa, em princípio, as seduções do nada. Se porventura, às vezes, se verifica o contrário, importa avaliarmos então se o nada a que se aspira constitui uma efectiva ausência de alguma coisa, ou se corporiza a negação de um estado de ser especialmente hostil.
Por exemplo, o nirvana dos budistas é aparentado ao nada. No entanto, ele é tido por realidade fundamental, dignamente distinta daquela onde se dão as mortes, os renascimentos e as ilusões. Outro exemplo: o Deus dos místicos – recorde-se o do Mestre Eckhart – é, com frequência, descrito como sendo nada. Em boa verdade, ele goza de uma existência plena, em oposição integral ao reino das criaturas. O nada torna-se uma forma indirecta de aludir ao ser absoluto.
            Se nos cercarmos de objectos que – à semelhança da garrafa sem água – traduzam o não-apetite e o não-desejo que nos habitam, e se ao mesmo tempo limitarmos, com equilíbrio, a presença dos que anulem desejos e apetites, acabaremos por ver o mundo como um lugar bastante favorável ao nosso desapego. Só de um subtil e oculto querer ser é que talvez jamais nos desprendamos.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

CINZAS

Harmen Steenwyck, As Vaidades da Vida Humana, c. 1645.

«Lembra-te que és pó…» E o indivíduo confirma o adágio, entrando na memória. Ela, todavia, é igualmente pó – uma instância fragmentada que, curiosamente, garante a ilusão da identidade. «E em pó te hás-de tornar.» E a pessoa coloca, por momentos, a certeza da morte à frente das restantes evidências.
O célebre versículo do Génesis, além de pouco favorável à doutrina da ressurreição, tende a mostrar-se contraditório, já que o conceito de é usado, em simultâneo, como atributo presente da criatura e como expressão vindoura da sua metamorfose. Mas o que ali interessa é o efeito poético e não a validade lógica.
Sentir-se é fruir a leveza daquilo que o vento dirige sem esforço  e perceber-se versátil e plural, à semelhança de um amontoado indefinido de minúsculas partículas dançantes. Isso pressupõe que se não viva esmagado sob o peso de um mundo imutável  nem se nutra a expectativa (admissível ou não) da persistência do corpo (mesmo se glorioso) e da alma (ainda que esclarecida) pelos séculos dos séculos. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

OMISSÕES

Hieronymus Bosch, Os Sete Pecados Mortais
e os Quatro Novíssimos do Homem
, c. 1480.
Eis os «pecados mortais, / que são sete, / quando
a terra não repete / que são mais» (Miguel Torga).

No rito penitencial católico, o crente menciona que pecou «muitas vezes por pensamentos, palavras, actos e omissões». Pensemos agora unicamente nas omissões, com a ajuda das palavras em acto.
O que é a omissão? No contexto da fórmula em análise, ela diz respeito ao serviço esperado que ficou por executar ou ao gesto nobre que deixámos na gaveta e cujo prazo de validade já se esgotou.
No entanto, se optarmos pela semântica abrangência, omissão refere-se a tudo o que não chegou a ser expresso, praticado, concebido, etc. – isto é, ela coloca-nos perante o que poderia (não necessariamente o que deveria) ter sido feito e não o foi.
Naturalmente que, se houver um destino inflexível a comandar o mundo e o que somos, a omissão adquire um carácter puramente abstracto e torna-se inútil reflectir sobre as suas variantes.
Mas pressupomos aqui a tese da existência do livre-arbítrio, sem a qual, de resto, seria mais problemático inventariar ofensas, confessar culpas, decretar castigos ou entender remissões.
Segundo esta abordagem, a omissão é vasta: engloba o mal e o bem, o vício e a virtude, a conduta rotineira e a façanhuda, o procedimento empenhado e o aparentemente neutro do ponto de vista moral ou religioso.
Em suma: se Deus se debruçar em torno da omissão encarada num amplo sentido, como avaliará o mérito de uma criatura? A omissão foi o possível não realizado. Tal possível é heterogéneo e quase infinito. Obviamente que isso complica bastante as contas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A GRANDE OBRIGAÇÃO

«Sabes qual é a única obrigação que temos nesta vida?», pergunta Fernando Savater. A resposta surge de forma categórica: «É a de não sermos imbecis.» (1) Acontece que a análise do filósofo, na passagem citada, se efectua em torno do conceito de imbecilidade moral, nas suas variantes, deixando de lado outras acepções.
Admitindo a pluralidade de significados do termo em questão, podemos ainda assim descortinar o antídoto para as diversas manifestações da imbecilidade. Tal antídoto não é inevitavelmente o conhecimento, que por vezes se revela falso, incompleto ou até faccioso. É a autocrítica.
Se, mediante o primeiro, desenvolvemos uma visão mais ou menos aproximada do mundo (entenda-se, daquele a que nos é dado aceder, em função das faculdades de que dispomos), através da segunda obtemos um retrato, constantemente actualizado, do modo como erigimos, alteramos e melhoramos essa visão.
A autocrítica permite que nos mantenhamos atentos aos mecanismos irracionais que nos levam, com frequência, a acolher certezas em mau estado e verdades de pacotilha. Ela não será a condição suficiente para nos vermos livres de todos os vestígios da imbecilidade. É, todavia, uma condição necessária. A não ser que acreditemos na intervenção divina. Só que a imbecilidade é um problema para o qual nem talvez o próprio Deus encontre soluções definitivas.

(1) Fernando Savater (2007), Ética Para Um Jovem, 14ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, p. 83.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

TEMPO E VIVÊNCIA

Nicolas Poussin, Um Bailado da Música do Tempo, c. 1638. 


A vida é bastante sintética: faz-se de instantes irrepetíveis. Ela não deixa, também, de ser estranhamente prolixa: repete-se, muitas vezes, nos irrepetíveis instantes.
Em jeito de objecção, dir-se-á que é nula a diferença entre o momento e o que nele acontece. E assim a existência será sempre uma perpétua novidade, na qual acidentalmente imprimimos semelhanças, cópias, analogias.
Aceite-se o argumento. Contudo, se o agora é indistinguível do que em si sucede, de onde brota a necessidade de usar palavras tão díspares para o mesmo fenómeno, umas exprimindo o conteúdo (ou o evento), outras afirmando o continente (ou a hora) que o envolve e torna possível?
Deve ser em virtude de nos sentirmos divididos por dentro que efectuamos as cisões lá fora. Em última análise, diferenciamos a vivência do tempo como quem separa a imagem do espelho. Porém, se o espelho se quebra, o que resta da imagem? Se o tempo se anula, o que sobra da vivência?  

sábado, 18 de fevereiro de 2012

ACERCA DO "DESPERTAR ESPIRITUAL"


Giovanni Bellini, S. Francisco em Êxtase, c. 1480. 
            Fico a saber, a partir do título de um texto disponível na Internet (e cuja autoria não descobri), que há 51 sintomas do despertar espiritual. A variedade surpreende: perturbações no sono, chacra coronal a abrir-se, alergias, impaciência (paciência!), “professores” a surgirem de todos os lados, borbulhas, acne, aumento de sensibilidade, confusão mental (sempre a temi), clarificação do karma (o que está longe de ser claro), ondas de emoção, acontecimentos marcantes, presságios, desarranjos, dores, sincronias, introspecção, leveza, presenças invisíveis, acesso a outras dimensões, canalização, viver o seu propósito (deixar o alheio em sossego), vertigens, crescimento rápido do cabelo e das unhas (que maçada!), memórias estranhas, etc.
            Pessoalmente, e a menos que exista um despertar espiritual sem sintomas ou que se revele, no máximo, só através de meia dúzia, sou obrigado a confessar que permaneço de olhos bem fechados. Aliás, elementos teóricos mais exactos, recolhidos junto de especialistas, levam-me à suspeita de que me encontro a dormir como um tijolo e a ressonar como um cãozinho em tranquila sesta. Sinto-me ligeiramente decepcionado. Dedico-me à espiritualidade com razoável desvelo – quase puramente intelectual, admito –, e é tolhido de algum desencanto que assisto à diluição da já obtida nitidez, como de um sonho pouco lúcido.
            Afirmam, porém, competentes vozes que habitamos uma época de despertar espiritual intenso e generalizado. A causa parece residir nas abundantes energias que por aí flutuam, ansiosas de atingirem qualquer um. Embora se misturem receios à expectativa, alegra-me a assombrosa novidade. E assim, meus caros cúmplices de sono, anuncio-vos que grandes certezas se aproximam. Paz e harmonia reinarão no orbe. Também se avizinham borbulhas e um crescimento anómalo das unhas. Nada de grave: será a luz divina em nossa pele e o celeste vigor em nossos dedos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

MOVIMENTO PENDULAR

Edvard Munch, Melancolia, 1894-1896. 

Pessimista de serviço, Schopenhauer declarou que «a vida oscila, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento para o aborrecimento: estes são os dois elementos de que ela é feita, em suma» (1). A analogia, não sendo exemplar, acaba por se mostrar fecunda no que se refere à análise da condição humana.
Ora, se a vida expressa um movimento pendular entre a dor e o tédio, então ela não é, rigorosamente falando, nem tédio nem dor. Reduz-se ao balouçar entre ambos os pólos. Imita-os muitas vezes, mas nunca chega a coincidir com eles.
Se tal coincidência se verificasse, a vida adquiriria a rigidez de ser apenas dor ou a fixidez de não ser mais que tédio, situações que se afiguram tolhidas de paradoxo. Mesmo se hesitante e repetitiva, a existência  pelo menos no seu lado habitual  é incessante fluir: foge sem saber bem de quê ou anda em busca de algo que desconhece.
Quando o pêndulo se imobilizar, a dor e o tédio hão-de identificar-se por inteiro. Só que a vida, por sua natural correnteza, terá deixado de estar ali. Ou, se ali estiver ainda, será de um modo que a ela própria parecerá estranho.


(1) Arthur Schopenhauer (s/d), O Mundo Como Vontade e Representação, Porto, RÉS-Editora, p. 411. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

EXPLICAÇÕES ENGLOBANTES

Há um ambicioso modo de explicação dos fenómenos que, no essencial, consiste em afirmar a existência de entidades e de leis que encerram todos os ingredientes exigidos para perceber tudo, inclusive os detalhes absurdos e os acontecimentos mais bizarros. A esse nível, dois conceitos merecem destaque: o de Deus, com o qual se esclarecem os movimentos gerais do mundo, e o de karma, com o qual se dilucidam vicissitudes particulares da vida.
Tais noções possibilitam vastos descansos ao intelecto, quando este, assistido pela fé e colocado ante a aparente anomalia cósmica ou os humanos dramas e injustiças, aceita que Deus oculta inefáveis intenções e o karma esconde os mais subtis enredos.
Assim, as ideias de Deus e de karma remetem para duas espécies de engrenagens cuja grande virtude é a de não deixarem nada de fora. A sua grande falha, todavia, é que não nos ajudam a entender como laboram, em rigor, por dentro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

MUNDOS INCOMUNICÁVEIS

Giorgio de Chirico, O Grande Metafísico, 1916.

Admitamos a existência de uma pluralidade de mundos. Entenda-se: a existência de mundos efectivamente distintos uns dos outros e – pormenor relevante – estruturalmente incomunicáveis entre si. Cada um funciona segundo as suas leis próprias, como se de um sistema autónomo se tratasse, não se registando entre eles a troca do mínimo fragmento de energia ou do mais ténue vestígio de informação.
Tal cenário constitui um ligeiro paradoxo. É que nunca teremos a certeza de que o quadro traduza algo de real. Para isso, tornar-se-ia necessário que circulassem entre os mundos teorias e dúvidas comuns, e essa hipótese já foi banida. A simples concepção, no espírito, de um panorama assim implica uma espécie de auto-engano: se as partes são, em rigor, incontactáveis, é impossível imaginar adequadamente o Todo.
A quem caberia a tarefa de ver e compreender as verdades e ficções dos universos em análise? O mais natural é atribuir a um ser omnipresente e omnisciente – chamemos-lhe Deus – o talento para essa visão múltipla e caleidoscópica. Deus seria então um elemento susceptível de cimentar a variedade cósmica. Mas isso iria contra o pressuposto inicial.
Se houver mundos incomunicáveis entre si, Deus assemelha-se inevitavelmente ao ser humano num ponto que em geral os diferencia: vivem ambos em perpétua ignorância no tocante à vastidão inacessível, mesmo tendo atingido um saber completo a respeito da sua zona de busca e de pesquisa, fechada ao exterior. Nos restantes mundos, presumíveis entes e alegadas formas mergulham, de igual modo, na auto-suficiência um pouco absurda do seu espaço.
Eis algumas das razões pelas quais a Unidade costuma surgir, não apenas para filósofos e místicos, como um grande atractivo sem rival.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O VENTO LÁ FORA

Obstáculos, saliências e frinchas permitem às rajadas de vento nocturno exercitarem a linguagem que lhes é comum. Trata-se de um modo de expressão que mistura, ao mesmo tempo, a solenidade cósmica e o ímpeto gemente e belicoso.
O atento psicanalista verá nas palavras anteriores uma espécie de erotização das violentas lufadas que percorrem o escuro. Mas dispensemos agora lições colhidas em Freud e meditemos na sentença de Platão, posta na fala de Sócrates, segundo a qual «uma vida sem exame não vale a pena ser vivida». Tal não significa, necessariamente, que uma vida com exame valha a pena ser vivida, embora tudo leve a crer que sim – ou que, pelo menos, um dia o haveremos de saber.
Uma vida com exame equivale a um exercício incessante de auto-conhecimento, de busca do sentido do ser e das ocultas razões inerentes a essa busca. Lá fora, o vento em fúria parece obedecer a um esquema semelhante: lembra a ponderosa questão, o impulso de descoberta e – apesar de esta não se exibir sob as formas do ruído – a ousada lucidez introspectiva.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ARGUMENTO ONTO-DEMONOLÓGICO

William Blake, O Ancião dos Dias, 1794.

De acordo com o chamado argumento ontológico, proposto por Anselmo de Cantuária, retocado por Descartes e combatido por Kant, a existência de Deus pode ser demonstrada a priori, ou seja, recorrendo em exclusivo à ideia que temos do ser divino. Em linhas sintéticas e abrangentes, o arrazoado consiste no seguinte: Deus é o ser perfeito, detentor de todas as perfeições. A existência é uma delas. Logo, o Altíssimo existe.
Tendo sido sujeito a paródia – embora devamos levar a sério tal ironia –, o argumento não se limita a afirmar Deus: também permite negar o Diabo. Este é um ser totalmente imperfeito. A inexistência é uma imperfeição. Logo, estamos libertos de Belzebu.
Comentou, um dia, Charles Baudelaire: «O mais belo truque do Diabo é o de vos convencer de que ele não existe.» Sendo assim, e apesar de gerado na cabeça de um santo, o argumento ontológico – se for tomado na sua vertente caricatural – resume o esforço astucioso com que o Demo se conserva sadio e operante sem que os mortais o saibam ou pressintam.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

CAIR E ESCORREGAR

Uns caem em contradição, outros escorregam no gelo. Há muitas pessoas a quem já sucederam ambos os percalços.
Cair em contradição não é necessariamente um indício de que o sujeito ignora os princípios lógicos ou pretende inventar um sofisma conveniente. Talvez seja o sinal de que o pensamento, nessas ocasiões, procura o exercício inovador.
Escorregar no gelo não é obrigatoriamente um sintoma de que o indivíduo desconhece as leis do atrito ou finge oferecer espectáculo gratuito. Talvez seja a prova de que os pés, sem avisarem o dono, ensaiam movimentos criativos.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

PRESUNÇÃO E SOLIPSISMO

M. C. Escher, Mão com esfera reflectora, 1935. 

A anedota não é brilhante, mas contém algo de sugestivo. Dois funcionários de uma agência de viagens atendem a fila enorme de passageiros. Um destes, por insondáveis motivos, resolve acusá-los de desatentos e incompetentes. E grita: «Sabem quem eu sou?» Voltando-se para o colega, um dos funcionários diz: «Esse cavalheiro tem um problema: não sabe quem é!...» (1)
Na verdade, ele parece «não saber quem é» mesmo no plano mais imediato, onde julga ser, de facto, alguma coisa de substancial. Tal crença, aliás, norteia altas decisões políticas, económicas, afectivas e por aí adiante.
A questão referida, por sua vez, apresenta variantes, como a seguinte: «Por acaso sabe com quem é que está a falar?» Por acaso, nem sempre o interlocutor se encontra devidamente informado.
Suponhamos agora que um sujeito lança interrogações do género a um filósofo solipsista – que sustenta ser o seu eu individual a única realidade e vê nos outros personagens quiméricas de um vasto e inútil sonho. A resposta poderia resumir-se a isto: «Estou firmemente convencido de que vossa excelência é uma ilusão.» O visado ficaria irritadíssimo, embora nada disso o tornasse menos fictício aos olhos do filósofo da solitude.
Ainda não há estudos que revelem a percentagem de criaturas que admitem serem elas as únicas a existirem, e também nos faltam dados estatísticos acerca daqueles que excedem bastante o socialmente aceitável no que toca a apregoarem e a defenderem a importância de que se acham detentores.
         De qualquer maneira, o solipsista carece de razões válidas para se preocupar com a sua própria vaidade – afinal ninguém lhe serve de plateia – e acaba por ser, de forma involuntária, o maior inimigo de uma alma presunçosa.  

(1) AAVV (1996), Antologia de Anedotas, Lisboa, Planeta Editora, p. 234.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

DESFRAGMENTAR

Wassily Kandinsky, Composição VIII, 1923.

O verbo desfragmentar, se expurgado do seu sentido informático, revela um nítido alcance místico e uma inegável dimensão gnóstica. Desfragmentar o ser humano consistirá em reconduzi-lo às vias da unidade (para neutralizar divisões internas) e do auto-conhecimento, até que ele atinja, por exemplo, a completa superação do seu eventual ego ilusório.
Pode, no entanto, acontecer que o próprio acto de desfragmentar seja a criação de novos e mais refinados fragmentos. Se isto não for tido em conta, tenderemos a crer que, desde que nos disponhamos a adoptar uma série de técnicas espirituais prescritas por outrem, venceremos as sombras que nos arrastam, as manchas que nos perturbam e os enganos que nos perdem.
É, todavia, conveniente usar tais métodos com sábia parcimónia. Em vários casos, eles representam meros ensaios distractivos ou promessas discutíveis de acesso a regiões inefáveis e luminosas: nem são, no fundo, o que nos dizem ser, nem dizem muito sobre o ser que somos. Talvez haja maior possibilidade de integração existencial em escutar atentamente as aves matinais do que em efectuar incursões a supostos mundos paralelos. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

MEMÓRIAS DA SUPERFÍCIE

No hipermercado, por onde acabo de vaguear em busca de coisa pouca, e enquanto aguardo a vez de ser atendido, vou reparando nos objectos que, por lapso, poderei ter olvidado, mas dos quais alguém insiste em fazer com que me lembre. Encontram-se, digamos, em ambos os lados da minha espera, e exercem a sua parte de sedução. É admirável esta sé das eventuais aquisições: sempre disposta a acender desejos e a coadjuvar memórias.
Entretanto, desvio a percepção para o som invariável que soltam as máquinas à medida que os artigos vão por elas desfilando: bip, bip, bip. Abstraio-me da faceta consumista subjacente à nota e fixo-me unicamente na nudez do timbre. A absurda sinfonia que dali resulta parece um conjunto de lamentos involuntários de seres mergulhados em nevoeiro, metafisicamente errantes. São assim as grandes superfícies: garantem pequenas profundidades.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

DUALISMOS

Salvador Dalí, Relógios Moles, 1933.

 É uma história inglesa. O indivíduo traz dois relógios, um em cada pulso. Indicam horas diferentes. Pergunta-lhe um dos amigos, admirado: «Para quê ter dois relógios se não marcam a mesma hora?» «Se marcassem a mesma hora», diz o cavalheiro, «não seria necessário ter dois.» (1)
Num panorama absurdo, emerge a questão atónita à qual é dada uma resposta persuasiva. Claro que ficamos sem perceber o interesse de transportar ambos os relógios, talvez nenhum deles de acordo com a hora oficial. No entanto, a hora certa poderia ser aquela que se situasse a igual distância das horas erradas: três da tarde, se um dos aparelhos informasse que eram, por exemplo, dezasseis e dez e o outro treze e cinquenta.
Defendiam os maniqueístas a existência de dois princípios eternos: o do Bem, ligado ao espírito e ao reino da luz, e o do Mal, associado à matéria e ao reino das trevas. Actualmente em mistura conflituante, estiveram originariamente apartados. Um dia, acontecerá a separação definitiva.
«Para quê admitir dois princípios eternos, se eles nunca chegam a conciliar-se?» O maniqueísta atento replicaria: «Se houvesse conciliação, seria incorrecto, a este nível, falar em dois princípios eternos.» O cenário descrito surge como paradoxal a um raciocínio ávido de abrangência e unidade; mas a imaginação ajuda a suprimir as irritantes falhas.

(1) Cf. Jean-Claude Carrière (2000), Tertúlia de Mentirosos, Lisboa, Editorial Teorema, p. 204.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A DOR, A NÃO-DOR E OUTROS LUGARES-COMUNS

            Se estivermos a ser torturados por uma séria dor de dentes e o mundo à volta se nos afigurar o pacífico oposto de tal núcleo de sofrimento, pensemos: “A existência dói-me na região dentária.” É como se a ilusória fronteira que habitualmente estabelecemos entre o eu o não-eu fosse agora desenhada entre a dor e a ausência dela, embora aqui o limite nos pareça mais real e dotado de maior nitidez.
De qualquer modo, a ideia de que a existência nos dói numa dada região do corpo facilita a unificação de tudo o resto sob o mesmo conceito, o da não-dor – partindo, é claro, do princípio de que nos achamos livres de outros incómodos físicos e morais. A não-dor, neste contexto, representa uma aproximação à ataraxia e à aponia dos epicuristas – ou inclusive ao nirvana búdico. Ante um rápido sumiço da dor, teríamos acesso, ainda que à maneira de simulacro, a esses estados de íntimo resgate. Mas há métodos menos sinuosos de garantir a tranquilidade. Certos fármacos são amavelmente criados para o efeito.
Devemos, no entanto, afastar interpretações demasiado literais. Caso contrário, um simples comprimido seria tomado em jeito de síntese material de uma via espiritual. E isso não só tornaria supérflua a palavra dos mestres do oculto, como poria em causa alguns negócios mais lucrativos associados ao apaziguamento e à salvação das nossas desorientadas almas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

PAUSA PARA CAFÉ

Tsuguharu Foujita, Café, 1949.
A mesa de tampo circular conserva ainda a solitária prisca no cinzeiro, breve caricatura do desencanto. As pombas, dadas a escasso recolhimento, adejam ao lado dos rostos oferecidos à luz ou tocados pela sua ausência. O café inscreve-se na chávena e convoca uma atenção marginal. Homens e mulheres, em várias direcções, vão optando pela do esquecimento comum, sem que talvez o desejem. O relógio hexagonal entrega os minutos, implacável.
Excluo urgências da memória, alvoroços da esperança. Abandono-me a isto. Finjo não ser um elemento exterior, até que intua que o não sou de facto. Percebo então que o existir, embora apelando ao íntimo assombro, se resume a ocultos silêncios e a este aglomerado mutável de sensações redundantes.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

DIZEM QUE "SOMOS TODOS UM"

Independentemente do seu alcance metafísico – talvez sejamos manifestações da Consciência única e infinita – e do seu difícil confronto com a realidade tal como a conhecemos – as impressões digitais variam de pessoa para pessoa –, a afirmação de que somos todos um revela um certo vigor em termos éticos. Ela parece constituir o suplemento que faltava ao imperativo categórico, a lei moral fundamental que – assegura Kant – é inerente a cada um de nós e nos manda agir de um modo que seja universalmente aceite.
       O problema é que semelhante frase é mais ambígua do que as fórmulas kantianas do dever, sobretudo se examinarmos os contextos que pressupõe ou os desígnios que a norteiam. Tendo em conta essa vertente pragmática, encontramos, pelo menos, dois sentidos, rigorosamente opostos, para a convicção de que somos todos um: ora se entende que o um é a coexistência pacífica de todos, ora se deseja que todos se submetam à homogeneidade do um. Se a primeira interpretação remete para a perspectiva de Kant, estando na base do respeito e até do altruísmo, a segunda, se for levada à prática, servirá de pasto aos movimentos totalitários e às suas agendas.
       Há muitos círculos religiosos e esotéricos a insistirem na doutrina de que somos todos um. Convém, no entanto, que esclareçam se, ao proporem tal aforismo, estão a pensar na defesa em conjunto das legítimas diferenças, se na consagração perversa das ideologias autoritárias.
 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

PARA SUPERAR O TÉDIO "SOCIAL"

Em ambiente de social ajuntamento, com a norma, tácita ou evidente, a retê-lo por ali, e com o enfado a aninhar-se no seu espírito, pode o indivíduo corrigir o incómodo recorrendo a uma destas opções: ou se fixa em pormenores de entidades e objectos – o botão fora da casa, a mosca a mudar de pouso, o pêlo solitário na manga, o modo como soa a palavra “forma”, o aspecto da unha de um dedo esquecido ao lado de uma jarra de flores – ou se dedica a reflectir teimosamente sobre o mundo e a vida – o sentido da humana condição, os nexos entre o ser e o pensamento, o mistério insondável da beleza.
        Mediante a primeira atitude, procurará dissolver o significado das coisas; mediante a segunda, procurará envolver as coisas de algum significado. É possível, no entanto, aderir a uma terceira via: experimentar de maneira integral o aborrecimento inoportuno, anulando distâncias, fissuras ou inquietações.
        Com tanta alternativa disponível, apetece perguntar se o tédio de origem gregária constitui um autêntico problema. Talvez não. Talvez ele represente apenas um magnífico ensejo de abordar o enigma infatigável de existir.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

DISCURSOS SOBRE O DIVINO

Para lermos ou ouvirmos falar sobre Deus temos, geralmente, à nossa disposição os discursos esotérico, religioso e crítico. O último integra, naturalmente, o que de mais lúcido há na metafísica anterior a Kant e o que de mais lúcido passou a haver depois de Kant ter serenado os ardores da metafísica. 
No que ao esotérico e ao religioso diz respeito, embora estes, em rigor, sejam bastante próximos e até possam conviver num mesmo texto, algumas especificidades os separam: o primeiro ora inventa certezas vazias, ora degenera em vastas contradições; o segundo ora encobre legítimas dúvidas, ora cede a banalidades suspeitas.
         Diante de tal cenário, é sempre bem-vindo o discurso crítico. Sendo uma entidade à qual nunca escasseiam as tarefas, o próprio Deus agradece que lhe arrumem a casa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

FORÇA MENTAL E QUEDA DE UM TELEVISOR

Confesso que nunca dei sinais, nem sequer para mim, de possuir a alegada capacidade com que Uri Geller, usando em exclusivo a força da mente, surpreendia multidões ao dobrar colheres, deformar chaves ou consertar relógios. Mas houve um episódio que me levou à suspeita de que o dom existe aninhado em meu espírito, nem sempre disposto a exercer a melhor influência no mundo. Certa vez, à entrada de um café – o qual escolhi por notar, do exterior, o interior vazio –, aconteceu-me este pensamento sinistro: “Lá está a televisão a fazer ruído!” Na verdade, o som sugeria já os derradeiros estertores. É que, no segundo imediato à silenciosa constatação, o aparelho caiu com grande estrondo e fragmentou-se em trezentos e cinquenta e dois pedaços, sem contar com os vidrinhos.
Os partidários da telecinesia assegurarão ter sido eu o responsável pelo desastre: a negatividade do meu ego transferiu-se, violenta, para o televisor e separou-o dos encaixes que o mantinham suspenso. Na ausência de danos pessoais, o eventual sentimento de culpa acabou por não se manifestar. O proprietário do café ajudou a conservá-lo em regime de latência ao expor uma teoria assente em causas menos esotéricas. Parece que uns cavalheiros, no dia anterior, assistiam ao futebol que lhes chegava do ecrã, e terão ajeitado a máquina, como se do rosto de uma fogosa amante se tratasse. Consequências (volvidas vinte e quatro horas): soltaram-se as roscas, a estrutura desmoronou-se, assustaram-se as moscas, o dono passou-se.
A minha consciência viu, pois, robustecida a sua tranquilidade após a científica explanação. Aliás, se eu sou uma «substância individual de natureza racional», para aplicar as palavras de Boécio, como poderá a minha essência, intangível e subtil, agir sobre a matéria, em particular à distância do corpo? O problema, que inquietou Descartes, Espinosa, Malebranche, Leibniz e outros, nunca foi adequadamente resolvido. De qualquer modo, agora evito colocar-me sob televisões susceptíveis de tombar contra seres indefesos. Receio a súbita queda e alguma vingança absurda e ostensiva.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"NÃO ESPERAR NADA DE NADA"

René Magritte, Belo Mundo, 1962.
Assim se dirige Italo Calvino ao leitor, pouco depois de abrir Se Numa Noite de Inverno um Viajante: «És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada.» Há alturas em que aparentemente acertamos na frase ou a frase em nós. Neste caso, porém, sobra do enunciado uma ligeira ambiguidade: afigura-se contraditório não esperar nada de nada e, em simultâneo, aperceber-se disso. Provavelmente, só num estado de consentida imobilidade e rematada inconsciência é que seria possível não esperar nada de nada. Em condições normais, a vida é incessante espera por algo de alguma coisa: o despontar da manhã, o diluir-se da tosse, o desabrochar da música.
Imaginemos, no entanto, como realizável o seguinte cenário: excluímos a intencionalidade eventual de cada gesto, a distância que vai da mente ao corpo, as representações do futuro e do passado. Anulamos a separação entre a consciência e os seus conteúdos: a rosa é flor e consciência; a consciência é visão e rosa. Não se exigem explicações, não se desenham projectos, não se tecem desculpas.
Em tal situação, pairaríamos fora do tempo, alheios a esperas e a ameaças, em rigorosa harmonia cósmica. Mas talvez perdêssemos também o direito ao erro. E quem não tem direito ao erro desconhece a frágil beleza do mundo.