segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PACÍFICA TRANSIÇÃO (77)


Compreender literalmente o ditame que impõe entrar com o pé direito no novo ano é sujeitar-se a um tremendo equívoco. Isto porque tal regra confunde tempo e espaço, podendo levar o referido pé, nos momentos da transição, a agitar-se inutilmente, movido por ilusória geometria. Este e análogos absurdos acabam por esvaecer se a passagem se cumprir em inefável sono, longe de rituais supersticiosos, deixando que os pés entrem como entenderem e o ano surja como achar melhor.

domingo, 30 de dezembro de 2012

SAUDADES DO (IM)POSSÍVEL (77)


Engendrar saudades por algo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, deve ser um exercício ingrato. Gastar a categoria da possibilidade a forjar passados alternativos nada tem de especialmente vantajoso, e tornar-se nostálgico de tempos que nunca foram constitui uma estratégia inútil de fugir aos tempos que aí estão. A saudade exige, decerto, alguma percentagem do que poderia ter acontecido. Isso, aparentemente, não é o mesmo que transformar o que poderia ter acontecido em objecto de saudade.

sábado, 29 de dezembro de 2012

DOIS DIAS (77)


Talvez a ideia de Nietzsche acerca do eterno retorno se possa traduzir na imagem de dois dias, vésperas e subprodutos um do outro, renovando-se indefinidamente, sem obedecer a leis exteriores ou, pelo menos, a uma ordem que alguém conceba. Perante este cenário, devemos acrescentar um dia na resposta à questão «O que é o amanhã?», colocada no filme A Eternidade e um Dia: o amanhã é a eternidade e dois dias – dois dias que resumem a eternidade.  

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

OBSERVANDO (77)


Dedicar algum tempo a observar os transeuntes, imaginando-lhes as vidas e os ideais, no interior de uma viatura aparcada em ponto susceptível de o garantir, constitui um exercício ludicamente agradável, embora existencialmente perturbador. Os passos diversos desenham um emaranhado invisível e absurdo de linhas que, dentro da ordem, arremeda o caos. Se perguntássemos «Porque seguem estes seres anónimos em direcções distintas?», poderia responder-nos Nasreddin Hodja: «Porque se seguissem todos na mesma direcção o mundo perderia o equilíbrio.»

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

DO FALAR E DO OUVIR (77)


Enquanto penso que um primeiro exemplar de De Revolutionibus foi recebido por Copérnico (segundo a lenda) no leito de morte, ouço: «Se há pessoas que estão no Inferno pela língua que têm, uma é ela…» Provavelmente, aí também entrarão os que – mesmo sem esforço – escutam o interdito. Talvez fiquemos em presença da obra principal da nossa vida um pouco antes do último suspiro, desde que não percamos tempo a falar sem recato nem a ouvir sem critério.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

INSTANTE (77)


Este preciso ou impreciso instante, emancipado do que nele se evoque, livre do que dele se espere, coincide, por um lado, com isso que acaba de passar. Por outro, consumação de algo estruturalmente frágil, ele é o ponto de chegada absoluto e negação do Absoluto como ponto de chegada. Johann Fichte gostava de pensar que o eu é tudo. Mas convém evitar tão ampla dispersão se o objectivo é dar a entender que estamos sempre exactamente aí.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

SEM TÍTULO (77)


A antecipação, seja ela de conteúdo doce, amargo ou sofrível, é produto que a mente resolve engendrar com o objectivo de se sentir menos desacompanhada ao voltar-se para os dias hipotéticos. A memória fornece-lhe a matéria, servindo também idêntica finalidade. Trata-se, nos dois casos, de recobrir uma espécie de nudez primordial, que uns julgam ser a fonte da inefável plenitude, outros, a origem do implacável tédio. Talvez estes tenham razão e aqueles não deixem de estar certos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

APEGO OU DESAPEGO (77)


Deambulando por mercados transbordantes de artigos naturalmente vendíveis, Sócrates exclamava: «Tanta coisa de que não preciso!» Talvez ali perto, um homem dispunha de um barril vazio. Encheu-o de algo e acabou por o tornar mais leve. De que o terá enchido? Obviamente, de buracos. Ambas as historietas sugerem uma estratégia para avaliar graus de apego ou desapego: o primeiro caso, na forma como nos relacionamos com os objectos; o segundo, na maneira como os relacionamos entre si.

domingo, 23 de dezembro de 2012

INCOERÊNCIAS (77)


         Leio à entrada do parque de estacionamento de um centro comercial: «Já estávamos com saudades suas.» É bom saber que há pessoas atentas. À saída, lê-se: «Obrigado e até amanhã.» Ora, a menos que o sujeito da recepção se distinga do da despedida – tanto que ele é plural no primeiro caso e singular no segundo – ou que, mantendo-se inalterável, padeça da síndrome da nostalgia inaudita, deduzo que nem todos os centros comerciais se mostram coerentes na etiqueta.

sábado, 22 de dezembro de 2012

SEGREDAR (77)


Ser pouco dado a revelar segredos não atrai menos o segredo alheio. No entanto, ainda não se definiu a lei que estabelece a relação entre o prazer de ouvir e a confidência. Em todo o caso, há muito a recolher da forma como a sábia natureza equilibra, afinal, ambas as forças. Note-se o vento a confessar-se às folhas. Fá-lo às vezes de um modo tão excessivo, que elas fogem das árvores, exaustas. Consta, inclusive, que jamais regressam.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O UNIVERSO, A ESTUPIDEZ E O FIM (77)


Afirma Albert Einstein haver duas coisas infinitas, o Universo e a estupidez humana, acrescentando não dispor de certeza absoluta no tocante à infinitude do primeiro. Com base na suposta profecia maia, juram peritos que o apocalipse é chegado – a exterminação do ímpio, quiçá do justo, porventura uma dramática, global metamorfose. Ora, independentemente do desfecho, é possível que a estupidez (humana ou de outra natureza), dotada de incrível resistência a cataclismos e transmutações, permaneça ainda por inumeráveis séculos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ALGURES SOB AS ESTRELAS (77)


Defendia Maquiavel que um príncipe necessita «de ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para amedrontar os lobos» (1). Por sua vez, Kant sentia duas coisas a nutri-lo de respeito e admiração crescentes: «O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim.» (2) Resta saber se alguém que, simultaneamente, se mantenha leão e raposa dispõe de tempo que lhe permita apreciar os astros e achar em si imperativos éticos – ou se apenas vê nuvens e aleijões.

(1) Maquiavel (1994), O Príncipe, 5ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, p. 84.
(2) Kant (1989), Crítica da Razão Prática, Lisboa, Edições 70, p. 183.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

FALHAR (77)


«Falhei em tudo», queixa-se o autor do poema Tabacaria. A menos que se tenha o pensamento centrado na eventual dissolução última do sonho e da obra feita, estamos diante de um artifício literário ou de uma estrutural contradição. Ninguém pode falhar em tudo, tanto mais que, a suceder tal, consumar-se-ia aí uma inefável proeza. A fórmula inversa, porém, reduziria os estragos emocionais: «Tudo falhou em mim.» Eis um modo sereno de conceder ao mundo o nosso fracasso.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O COMENTADOR NO LIMBO (77)


Dante colocou Averróis no Limbo, lugar por excelência da reflexão filosófica, embora a perspectiva da duração eterna possa aí condicionar tal exercício, típico de seres que se sabem mortais e efémeros. Comentador de Aristóteles, em quem notava a expressão máxima da inteligência humana, Averróis teria agora a possibilidade de dialogar indefinidamente com o grego, até esgotarem a força dos conceitos. O Limbo é um sítio onde as ideias ganham esplendor e a realidade nunca solta o véu.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

FRANQUEZA DE ELEIÇÃO (77)


Em carta a Abelardo, e já depois de confessar que, durante as solenidades da missa, imagens obscenas lhe atormentavam a alma, prevalecendo sobre orações de imaculado teor, Heloísa escreve: «Longe de chorar pelas faltas que cometi, suspiro pelas que não posso mais cometer.» (1) Se todos os humanos sempre se compreendessem com tanta lisura e sempre se exprimissem com este grau de franqueza, talvez Freud nunca tivesse inventado a psicanálise  e o inconsciente fosse uma esfera menos conturbada.

(1) Laura Vasconcellos (2003), As Cartas de Abelardo e Heloísa, Lisboa, Guimarães Editores, p. 191.

domingo, 16 de dezembro de 2012

UNIVERSO E HUMOR (77)


«Terá sentido o Universo?» constitui uma interrogação ociosa, possivelmente sem sentido. Maior pertinência reside em procurar saber se o Universo tem ou não sentido de humor, pelo menos segundo critérios de mortais inquietos, já que os imortais não devem sequer abordar o tema. A eventual resposta pressuporia haver no Cosmos uma intencionalidade sem limites concebíveis, propensa à ironia generalizada ou à inexorável sisudez. Até prova em contrário, todavia, só conhecemos o humor que se adapta à finitude.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O SACO (77)


No contexto da perseguição aos mártires cristãos, inventou-se uma técnica de tortura e morte que, basicamente, consistia em fechar o condenado num saco, em companhia de um galo, de um macaco, de um cão e de uma víbora. Depois, lançava-se o conjunto às águas profundas. Eis um quadro de malvadez que não apenas revelava a imaginação mórbida daquele que seleccionou o saco e o que meter lá dentro, como levaria a exercitá-la os que ficavam cá fora.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O INFERNO E A ESPERANÇA (77)


«Deixai toda a esperança, vós que entrais», lê-se por cima da porta do Inferno, segundo Dante. Eis uma exortação ao abandono da própria faculdade de forjar a esperança, a mesma que habilita a sentir o desespero. Talvez daí se deduza ser o Inferno um lugar neutro, com vivências permutáveis, ou a imitação do esquecimento, na qual o drama é estruturalmente inconcebível. «Deixai quase toda a esperança» era porventura mais conforme ao cenário. Mas ali manda a hipérbole.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

"HELLO DARKNESS, MY OLD FRIEND" (77)

          É precedido o adormecer pelo eclodir na mente de mensagens desprovidas de intencionalidade, oriundas de vozes sem sujeito: palavras soltas, frases desatadas, locuções errantes. Também no fim será o verbo, todavia menos dado à coerência, menos disposto à sintaxe, menos propenso a razões. Segue-se a treva mais densa, porventura igual à que os místicos dizem luminosa e alguns não-místicos, abençoada. O eu dilui-se em nocturnos fragmentos, até acordar e reassumir idêntica dispersão, que só a linguagem atenua.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

DESPRENDER-SE (77)


Dizer que a folha se desprende da árvore mantém-nos reféns de pressupostos outonais. Já o dizer que a árvore se desprende da folha coíbe o pensamento de tombar de imediato no repisado chão da sua lógica. De qualquer modo, podemos, em alternativa, dizer que se desprendem uma da outra. Escreve Espinosa que «toda a coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser» (1), excepto se, nessa tácita dualidade entretanto aberta, acontecer um mútuo abandono.

(1) Bento de Espinosa (1992), Ética, Lisboa, Relógio D’ Água, p. 275.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FACTOS E MISTÉRIOS (77)


A doutrina da predestinação, tal como formulada por Calvino, enfrenta o problema de saber que razões levam Deus a eleger uns para a glória eterna e os demais para a eterna ruína. Não só o desconhecemos (dirá o defensor da crença), como o facto é um sinal do mistério de Deus. Dificuldade suplementar reside em perceber por que motivo o Altíssimo achou melhor não divulgar as listas. Talvez o facto seja um sinal do mistério dos homens.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CAMBIANTES DO DESEJO (77)

        Associando o desejo sexual à tentativa de o indivíduo se assenhorear da consciência alheia, mediante apropriação total do alheio corpo, escreve Sartre: «Por cada carícia, sinto a minha própria carne e a carne do outro através da minha própria carne e tenho consciência de que esta carne que sinto e da qual me aproprio pela minha carne é carne-sentida-pelo-outro.» (1) Notícia recente: na Suécia, uma mulher começou a ser julgada por alegadamente ter mantido relações sexuais com esqueletos. 

(1) Jean-Paul Sartre (1995), L’ Être et le Néant, Paris, Éditions Gallimard, p. 436.

domingo, 9 de dezembro de 2012

ORGULHO PRECOCE (77)

          Certo dia, ouvi a um miúdo de cinco ou seis anos, enquanto ele mantinha conversa ligeira com gente adulta, uma frase que apenas gerou risos passageiros e complacentes, mas que, se foi ponderadamente engendrada e fosse devidamente discutida, poderia abrir assinaláveis brechas na teoria de Piaget acerca do desenvolvimento cognitivo e sugerir profícuas abordagens aos analistas do pensamento e da reflexão. Sem mais preâmbulo e em jeito de epílogo, eis a sentença: «Tenho orgulho de ser meu.»

sábado, 8 de dezembro de 2012

DATAS FINAIS (77)


Provavelmente o que se encontra na base da crença de que o mundo, ou a espécie humana, acabará num dia preestabelecido, anunciado por impolutas criaturas, é a necessidade de sentir o aumento gradual da excitação, qualquer que seja a sua natureza, até que tal dia chegue e revele o seu aniquilante esplendor. Assim se ocultam parcelas do irremissível tédio. Se, à semelhança deste, o mundo teimar em persistir, outra data se lhe arranja, novo ciclo se inaugura.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

IGNORÂNCIA E IMPREVISIBILIDADE (77)


            Se uma borboleta bater as asas junto a uma couve-troncha, ajudará talvez a que se desencadeiem (ou minimizem) temporais nos antípodas da horta. Eis uma possibilidade que já não é elegante contestar. No entanto, quem afirme que esse facto, cuja pressuposição alimenta a chamada teoria do caos, é suficiente para anular a ideia do determinismo eventual do Universo parece confundir a natureza aflitiva da ignorância que nos tolhe com o carácter imprevisível do mundo que nos cerca.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"É MENOS DIFÍCIL DO QUE PENSAS" (77)


              Eis duas faces habituais da comunicação: palavra necessária, silêncio conveniente. Mais invulgar é aquela em que, graças à ironia, se transforma o silêncio conveniente em palavra necessária. Nasreddin Hodja, pouco disposto a emprestar a corda de secar roupa ao vizinho, e querendo ocultar-lhe (silêncio conveniente) essa genuína recusa, disse-lhe (palavra necessária) que precisava dela para secar farinha. «Como podes secar a farinha numa corda?» Respondeu-lhe Nasreddin: «É menos difícil do que pensas, quando não se deseja emprestá-la.» (1)

(1) Cf. AAVV (1981), Sociedades Secretas, vol. VI, Lisboa, Círculo de Leitores, pp. 76 e 80.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

LINHA SEPARADORA (77)


Henri Bergson distingue a fixidez da matéria, com anseio buscada pela inteligência, da duração real, apreendida só pela intuição. Emmanuel Levinas diferencia a totalidade, avidamente adorada nos grandes sistemas filosóficos, do infinito, amavelmente anunciado no rosto de outrem. Apesar de adoptarem categorias e dualidades que se não confundem, embora se aproximem, ambos os pensadores parecem tomar como referência obrigatória a mesma linha: aquela que separa o eventual tédio de haver mundo da velha nostalgia de o sonhar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

CAIXA LIMPA (77)


Manter a caixa de correio electrónico minimamente expurgada pode constituir factor de redenção. Esse espaço virtual é, em simultâneo, um lugar mental que se deseja arejado no aspecto, eficaz na resposta, selectivo na abordagem. A este nível, porém, a lei da atracção dos semelhantes não tem cabimento: o lixo da Internet polui sem critério. Mas é bom saber que os responsáveis pelo serviço aplaudem o asseio dos usuários: «Parabéns! A sua pasta A Receber está muito limpa!»

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

"A MÃO DO DIABO" (77)


Há dias, no espaço de cerca de hora e meia, rumei a três pontos de venda de livros e, em todos, o primeiro vocábulo que li ao entrar foi, vibrando em letras de fogo, a palavra Diabo. Só no último local me abeirei do produto que a exibia, descobrindo tratar-se de um romance de José Rodrigues dos Santos. Embora já saiba onde costumo pousar os olhos, o Tentador ainda finge, por vezes, desconhecer as minhas preferências literárias.

domingo, 2 de dezembro de 2012

SOBREVIVER À BUROCRACIA (77)


Cada vez mais se exige do professor que tenha alma de burocrata e a saiba unir ao corpo da acta. Por hábito, canalizo o esforço implícito na obrigação em causa para o cultivo da frase breve, da escanhoada sinopse. Quando se trata de lidar com papéis supérfluos, imagino um mundo de ilusões em desfile. Os gestos podem agora acontecer entre a síntese e a ironia. O espírito, esse, finjo-o a resvalar para o infinito, lugar estranhamente devoluto. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

77 PALAVRAS - PRÓLOGO (1)


Trata-se de opção técnica, apesar de eventuais ressonâncias simbólicas. Decidi escrever alguns posts cujas palavras não excedam, em número, as setenta e sete nem fiquem, por desleixo, abaixo desse limite. Os tempos não exigem lentos, ondulantes raciocínios. Pedem o aforismo exacto, a síntese desprendida. O ritmo do mundo escapa à dialéctica vagarosa. Encolha-se pois o discurso, e que das pausas de silêncio ampliadas surjam novas formas de intuir o ponto invisível que ocupamos, decerto visitados pela bruma. 

(1) Títulos não contam. Notas de rodapé também ficam de fora. Os posts serão identificados com o número 77.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

NOTAS DE RODAPÉ

M. C. Escher, Castrovalva, 1930.

Alfred Whitehead sustentava que a filosofia ocidental não passa de uma série de notas de rodapé à obra de Platão. A ideia revela-se um pouco arbitrária, na medida em que parece esquecer as intuições originais de Parménides, Heraclito e restantes pré-socráticos. Mas não entremos agora em tal debate. Sublinhe-se, contudo, a beleza da metáfora.
A filosofia ocidental – com a do Oriente sucede o mesmo – será, quando muito, um conjunto de notas de rodapé (ou de fim, consoante opção do misterioso editor) a um texto absoluto, de reflexão definitiva, contido numa espécie de mente universal, ou a um texto que, de facto, não existe, nunca existiu, nem é crível que algum dia venha a existir.
A primeira hipótese carece de sentido: um texto absoluto jamais exige ou tolera notas de rodapé, seja por não suscitar necessidade de explicações adicionais, seja por não o precederem fontes relevantes. Já a segunda hipótese, apesar de escassamente idónea, se afigura preferível à anterior: os filósofos acrescentam notas de rodapé a um discurso que apenas se adivinha na ordem das possibilidades, ou a título de mero ideal regulador.
Platão cindiu a realidade em duas esferas: o mundo sensível e o mundo inteligível. É tentador imaginar, usando a sugestão de Whitehead, que eles são notas de rodapé um do outro, embora (subvertendo a primazia ontológica) mais o inteligível do sensível, pois aquele ajuda a decifrar este, do que o sensível do inteligível, visto este ser pobremente imitado por aquele.
Suspendamos, porém, as divagações. Se a linguagem é a nossa residência comum, tudo quanto pensarmos e escrevermos poderá não ir além de um amontoado circunstancial de notas de rodapé a outras notas de rodapé, desenhando círculos e espirais no interior de uma portentosa ilusão.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"VANITAS VANITATUM"

David Bailly, Vanitas, 1651.

Escolho abrir ao acaso alguns livros que ao acaso não escolho. Retiro de uma das páginas a frase que justificará o esforço. 
Começo com Reflexões Sobre a Vaidade, de Matias Aires: «A vaidade pode enganar a cada um pelo que respeita a si, mas não pode enganar a todos pelo que respeite a cada um.» (1) 
O próximo volume anuncia ilusórios optimismos – Cândido, de Voltaire: «O Diabo imiscuiu-se de tal modo nos negócios do mundo – observou Martin – que bem podia estar no meu corpo, como aliás em qualquer outro lado.» (2)
Surge agora a Utopia, de Thomas More: «Espantam-se os Utopianos que alguém seja tão louco que se deleite com o brilho incerto de uma pérola ou pedra preciosa, quando se pode olhar o brilho das estrelas e a luz do Sol.» (3) 
Avanço para O Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau: «[O luxo] vende a pátria à inércia, à vaidade.» (4)
Enfrento depois o Elogio da Loucura, de Erasmo: «[A adulação] é o mel e o tempero de todas as relações entre os homens.» (5) 
Prossigo com o Húmus, de Raul Brandão: «O homem é sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancores, com resquícios de oiro à mistura.» (6). 
Finalizo com La Rochefoucauld: «Confessamos os pequenos defeitos, para persuadir os outros de que não os temos grandes.» (7)
Sem notórios artifícios, é possível perceber a ligação de todas as máximas à vaidade: a primeira desmascara-a; a segunda concede-lhe um rosto; a terceira mede-lhe a insensatez; a quarta acrescenta-lhe um aliado; a quinta destaca-lhe a virtude; a sexta submerge-a no atoleiro; a sétima descobre-lhe a impostura. 
E – razão tinha o Eclesiastes – o conjunto das sentenças, desta forma organizado, expõe a inútil vaidade do texto que aqui termina.

(1) Matias Aires (1971), Reflexões Sobre a Vaidade, Lisboa, Editorial Estampa, p. 66.
(2) Voltaire (s/d), Cândido, Mem Martins, Publicações Europa-América, p. 90.
(3) Thomas More (s/d), Utopia, 3ª ed., Mem Martins, Publicações Europa-América, p. 88.
(4) Jean-Jacques Rousseau (s/d), O Contrato Social, 3ª ed., Mem Martins, Publicações Europa-América, p. 71.
(5) Erasmo (1973), Elogio da Loucura, Mem Martins, Publicações Europa-América, p. 81.
(6) Raul Brandão (1991), Húmus, Porto, Porto Editora, pp. 104-105.
(7) La Rochefoucauld (1990), Máximas, Lisboa, Editorial Estampa, p. 54.

sábado, 24 de novembro de 2012

O SONHO E A INSPIRAÇÃO

M. C. Escher, Espirais, 1953.

A dado passo da obra Ficções, cita Jorge Luis Borges uma estranha ideia de Moisés Maimónides: se distintas e claras, são divinas as palavras ouvidas em sonho, desde que se não possa ver quem as disse (1). Talvez a regra se aplique de igual modo às que nos surjam escritas em livro retirado das estantes oníricas. É vulgar assistir-se então a incómodas metamorfoses das letras, o que torna volúvel a frase e incompreensível o texto. Achar sentenças inamovíveis constitui uma excepção que permite supor que elas apenas de Deus terão chegado, ou de algum legítimo representante.
Subjaz ao acima referido a crença de que as palavras do Altíssimo revelam marcas da solidez eterna, embora exijam que os peritos as diferenciem do verbo precário das criaturas. Esses peritos servem-se, naturalmente, de critérios específicos, reconhecendo através deles as verdades originárias de uma inspiração sagrada suficiente para integrarem o cânone, mantendo o apócrifo à distância.
No entanto – sem evocar sequer as dúvidas históricas inerentes aos actos de redacção e cópia –, tais critérios devem resultar de idêntica inspiração. Só que isso reclama outros inspirados critérios, susceptíveis de estabelecer os critérios inspirados.
Desta forma, caímos numa bela regressão ao infinito. E o infinito é um lugar – ou um não-lugar – onde, por impossível coexistência, nenhuma autoridade se demora.

(1) Cf. Jorge Luis Borges (1998), Ficções, in Obras Completas 1923-1949, Lisboa, Editorial Teorema, p. 531.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

TRANSIÇÃO

Gustave Courbet, O Regato Coberto ou o Poço Negro, 1865.

Uma das condições que permite o acto de tomarmos consciência de algo é, justamente, a exclusão simultânea de tudo o resto, enquanto objecto possível para essa consciência. Partamos de um exemplo: se tenho consciência de meia dúzia de seixos que um curso de água transpõe – sem esquecer os pensamentos sobrepostos à percepção –, é natural que, ao mesmo tempo, deixe na sombra aquilo que, sendo concebível no âmbito da minha experiência, não está explicitamente a ser visado. Em certo sentido, o que fica na sombra é uma ampla paisagem inconsciente, cujos elementos, de modo sucessivo, se iluminam e se apagam, formando de cada vez a dupla, sempre renovada, do aqui e do agora.
Tal processo converte a existência num conjunto de operações aritméticas, de resultado nunca definitivo, à excepção talvez do que acontece após o suspiro derradeiro. Até lá, desconhecedores de percursos irrepreensíveis e de taxinomias perfeitas, limitamo-nos a recolher e a abandonar os instantes, fluindo à semelhança da água por entre seixos. Imagens, ideias, sons e movimentos são a garantia provisória de que nos achamos, pelo menos, no umbral de um mundo que jura solidez, embora a promessa já seja antiga e extenuante. Aí transitamos de um acto de consciência para outro, sem sabermos como. Vastíssimo, portanto, se adivinha o nada que nos vai parasitando. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

ILUSÕES E MANIPULAÇÕES


A afirmação de Marx segundo a qual a religião «é o ópio do povo» (1) adquiriu, com o tempo, a mesma incerteza que preside à noção de povo, aos efeitos do ópio e ao conceito de religião. Nos actuais contextos, a validade de tal axioma reclama exemplos sólidos. Exige-se prudência com generalizações tão categóricas.
De qualquer modo, se concedermos que uma criatura se torna politicamente dócil ao pensar na felicidade que lhe trará um céu futuro, convém não esquecer as submissões que decorrem de admitir-se a existência de vidas passadas. A este nível, é a ideia de karma que se impõe. Através dela, tanto se pode lutar pela justiça cósmica, mitigando injustiças sociais, como aceitar injustiças sociais, evocando a alegada justiça cósmica.
Todas as normas de carácter esotérico ou divino – entenda-se, as que supostamente dirijam a esfera imediata do nosso quotidiano – se encontram sujeitas a intermináveis distorções e a interesseiros arranjos. Permeável ao que a recompensa, refractária ao que a penaliza, a mente humana franqueia sem dificuldade a porta aos manipuladores de serviço. 
Marx pretendeu debelar diversas formas de alienação. A experiência histórica – nomeadamente com a barbárie comunista – revelou a escassa fidelidade a esse desígnio libertador. O problema é que os abismos, os medos, o paraíso, as leis kármicas, os lugares messiânicos, a sedução das utopias, e outros itens afins, não são realidades exteriores que nos digam o que devemos fazer, mas elementos interiores sob cuja influência nem sempre fazemos o que é devido.

(1) Karl Marx (1993), Manuscritos Económico-Filosóficos, Lisboa, Edições 70, p. 78.

domingo, 18 de novembro de 2012

"POETA À SOLTA"

Salvador Dalí, Retrato de Paul Eluard,1929

Diz Agostinho da Silva numa entrevista: «O homem não nasce para trabalhar: o homem nasce para criar, para ser o tal poeta à solta.»
Um dos problemas desta máxima reside na confusão do valor com o facto ou na associação imponderada entre o ideal a cumprir – ser “poeta à solta” – e a destinação cumpridora – o “nascer para”.
Um segundo problema, de natureza conceptual, é o de saber de que se fala quando se fala em “poeta à solta”. No contexto do pensamento de Agostinho da Silva, “poeta à solta” parece constituir uma expressão solta e poética para caracterizar o indivíduo que experimenta o ócio auspicioso e que, eventualmente, se entrega à liberdade criativa.
De qualquer modo, a ordem do mundo não tem sido favorável, excepto para alguns mais protegidos pelos arbítrios da fortuna, aos processos de obtenção de semelhantes privilégios. Além, é improvável que tais prerrogativas sejam universalmente desejadas.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O ÚLTIMO PENSAMENTO

Georgia O' Keeffe, Especial N.º 21, 1916.

Lê-se no Bhagavad-Gita que certo indivíduo pensou, à hora da morte, num veado, e em veado se tornou na vida seguinte. O exemplo visa ilustrar uma lei: «A pessoa alcança sem falta o estado de existência do qual se lembra quando abandona [o] seu corpo, qualquer que seja este estado de existência» (1).
Quem dedique cinco minutos a examinar o tópico esbarra com assinaláveis perplexidades. Se admitirmos que o «estado de existência» se refere, indiscriminadamente, às formas vivas e inanimadas, concretas e abstractas, que o cérebro recorda, engendra ou concebe, então as possibilidades respeitantes ao que haveremos de ser após a morte surgem, pelo menos para nós, como ilimitadas, à semelhança do que sucede com os conteúdos mentais que nos é dado produzir.
O último pensamento pode revelar-se majestoso ou ridículo, poético ou deprimente, melífluo ou atrabiliário; pode incidir sobre objectos físicos, coisas divinas, elementos matemáticos, entidades fictícias, eventos naturais ou relações humanas; pode encerrar drama e fracasso ou albergar sossego e plenitude.
Deste modo, o derradeiro acto da consciência – entenda-se, derradeiro dentro de um «estado de existência» específico – é o limiar de uma condição imprevisível, que não exclui (se levarmos o argumento até ao fim) a redução ao nada e ao absoluto silêncio.
Acentua-se o carácter obscuro da perspectiva se a confrontarmos com o problema da conexão entre pensamento e realidade. E uma pergunta se impõe: será que nos convertemos na realidade cuja imagem desfila no pensamento, ou apenas nos transformamos em tal pensamento, que é, nessa altura, a única realidade?
Tão complexo e embrulhado se afigura o assunto que apetece escolhê-lo para encher o intelecto no momento do extremo suspiro. Mas talvez o desfecho trouxesse algum incómodo. Talvez o próximo «estado de existência» consistisse num tremendo enigma. Talvez isso, em todo o caso, não envolvesse grande novidade.  

(1) A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada (org.) (1989), O Bhagavad-Gita como ele é (1989), 7ª ed, São Paulo, Bhaktivedanta, p. 343.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A IRREDUTÍVEL UNIVERSALIDADE DO TÉDIO


Ainda que inconscientemente, há inúmeras pessoas a aguardar que a vida lhes traga instantes de inefável surpresa e assim lhes redima ou dilua para sempre o tédio de existir. Mas é bem possível que o efeito da idade e a obstinada monotonia das horas as levem a reconsiderar aquela expectativa e a descobrir no tédio um lugar seguro e infinito que não exige resgate nem emenda.
Aliás, se intuirmos, como o autor do Livro do Desassossego, que o tédio transcende – embora os inclua – o aborrecimento, o mal-estar, o cansaço e até o profundo sentir da vacuidade das coisas (1), sendo um abalo íntimo talvez comum a homens e deuses, quiçá a bichos e pedras, se intuirmos isso, nada se nos pedirá além da pura aceitação, sem vestígio de conflito, dessa vivência universal e irredutível a qualquer outra.
Só uma tal postura nos pode devolver ao espanto primitivo e abolir a tentação ingrata de desejar assombros episódicos.

(1) Fernando Pessoa (2000), Livro do Desassossego, Linda-a-Velha, Bibliotex, pp. 239-240.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

COLOCADA NO FIM

Caspar David Friedrich, Cemitério do Convento Coberto de Neve, 1817-19.

Leio numa enciclopédia de anedotas francesa, editada no século XIX, que um capuchinho disse que Deus fez bem em colocar a morte no fim da vida. É que assim temos tempo de nos preparar para ela.
Ora se admitirmos a ideia, repetida por vários mestres, de que filosofar é aprender a morrer, então o referido tempo há-de ser, sobretudo, introspectivo. E não se julgue que, pelo menos de início, a tarefa deixará o neófito radiante.
Se, todavia, preferimos a visão tranquila e despreocupada de Epicuro, segundo o qual a morte não nos deve causar perturbação nem alarme – na medida em que, quando nós estamos, ela não está e, quando ela está, não estamos nós –, nessa altura acharemos razões para suspeitar do interesse de que só no fim da vida se dê o despontar da morte.
No entanto, também em tal contexto a sabedoria divina se mostra exemplar: Deus põe a morte no fim para que ela seja a última coisa que vale a pena ter no pensamento.

sábado, 10 de novembro de 2012

CONJECTURAS, REFUTAÇÕES E LIBERDADE

Kazimir Malevitch, Suprematismo da Pintura.
Massas Pictóricas em Movimento
, 1916.

Karl Popper sublinhava que uma dada teoria é científica unicamente se for falsificável. Daí que nunca nos achamos em condições de afirmar que ela é verdadeira: podemos, quando muito, mostrar que é falsa. Procurando testar a hipótese – entenda-se, ver até que ponto a mesma sobrevive –, o investigador revela-se criativo e inconformista: levanta conjecturas e ensaia refutações.
Embora discutível – Thomas Kuhn, por exemplo, considerava os cientistas bem menos insubmissos –, o esquema é aplicável, a diversos níveis, à existência individual, desde que se não confunda isto com desejos pueris de obter surpresas grandiosas e de colher soberbas novidades. Impõem-se, no entanto, a abertura à autocrítica e o estar-se disposto a modificar a perspectiva sobre o mundo e, inclusive, a escala de valores, se a experiência e a reflexão o vierem a exigir.
Quem assim procede não costuma situar-se à esquerda nem perfilar-se à direita. Fiel ao exercício dos dois hemisférios do cérebro, analisa as ideias por dentro, antes de se abandonar a ideais de fora. Habituado, em alturas cruciais, a contar apenas consigo próprio, descobre que o céu nada lhe deve, que o abismo nada lhe empresta e que a terra só a morte lhe promete. Sabe que nenhum partido o tornará, sem ilusões, inteiro; que nenhum grémio o arranca à primitiva solidão; que nenhum culto é fonte indubitável de resgate.
Consciente dos seus recursos e limites  em momento algum deixando de reconhecer o lado meritório do que a humanidade foi capaz , imune a pressões de autoritarismos atrofiantes, de camarilhas absconsas e de sectarismos obcecados, ele aceita pôr em causa as suas certezas e convicções, de que cujo número jamais transbordou. Não por oca vassalagem aos arautos da utopia, mas por íntimo decreto da liberdade que o move.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

POLEGARES EQUILIBRANTES


A linguagem corporal, enquanto prolongamento de processos mentais, não se limita a ser um reflexo passivo – ainda que sujeito a avaliações exteriores – de vivências que decorrem no actual momento. É também uma forma de compensação e de equilíbrio.
«Sua Senhoria abanou a cabeça e começou a fazer girar os polegares um em volta do outro, como sempre fazia quando o seu estado de espírito ficava mais toldado» (1), lê-se em O Homem Sem Qualidades. O segundo gesto não é invulgar, e possivelmente os especialistas já lhe deslindaram o sentido e o alcance.
De qualquer modo, se aceitarmos e generalizarmos a interpretação sugerida por Robert Musil, a tarefa que se nos impõe será a de estabelecer a razão por que os polegares, usualmente após se terem cruzado os restantes dedos, se põem a desenhar círculos invisíveis – em rigor, um mesmo e único círculo – nalgumas das ocasiões em que implacáveis incertezas e sombras habitam o espírito.
Ora, se admitirmos, à semelhança dos antigos gregos, que o círculo é a figura geométrica perfeita, e que tal ideia funciona até como lei essencial a um nível inconsciente, a explicação advém com suave lisura: girando um em volta do outro, os polegares exprimem o desejo – o apolíneo desejo – de achar a perfeição e a clareza que, nessa altura, ao espírito se negam.

(1) Robert Musil (2012), O Homem Sem Qualidades, 3ª ed., vol. 1, Lisboa, Publicações Dom Quixote, pp. 320-321. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DESVIOS

Joan Miró, O Canto do Rouxinol à Meia-Noite e a Chuva Matinal, 1940.

             Inspirado no atomismo de Leucipo e Demócrito, Epicuro (ou algum discípulo seu) terá encaixado aí a ideia de clinamen, ou desvio. Indivisíveis, eternos e a moverem-se no vácuo – o espaço vazio e infinito –, num sentido descendente, com velocidade inalterável e sem desígnio preestabelecido, os átomos, por vezes, desviam-se, colidindo uns com os outros. É de tais colisões que resultam os mundos, a ordem que os define, a desordem que os perturba e a loucura que os alimenta.
           O desvio dos átomos é também um sinal – por sinal, o único – de indeterminação, num cosmos dominado pelo determinismo mecanicista. São guinadas análogas que, já depois de os átomos se agruparem em mundos, permitem a liberdade humana e o carácter voluntário das acções. No poema De Rerum Natura, Lucrécio introduziu o termo clinamen, resumindo assim o argumento:

            «Para que uma força compulsiva não sujeite a mente
            E ela não siga um curso predeterminado, impotente
            Um átomo desvia-se um pouco, em movimento
            E guina acaso num certo lugar e momento.» (1)

A teoria torna-se discutível se pensarmos que o clinamen, enquanto princípio explicativo, é em si mesmo inexplicável. De qualquer modo, à parte a controvérsia suscitada, a doutrina de Epicuro diz-nos que a vida é irmã gémea do acaso e a liberdade nasce do desvio.

(1) Lucrécio, De Rerum Natura, cit. por Anthony Kenny (2010), Filosofia Antiga: Nova História da Filosofia Ocidental, volume I, Lisboa, Gradiva, p. 214.

domingo, 4 de novembro de 2012

O CAMÕES POTENCIAL

Francisco Augusto Metrass, Camões na Gruta de Macau,  1880.

           Quantos sonetos estarão ocultos numa epopeia? Deixo a seguir um que Luís de Camões poderia ter escrito. Afinal, os versos são dele. Eu limitei-me a recolhê-los d’Os Lusíadas (1) e a dar-lhes uma ordem lógica e rítmica, fazendo eventuais alterações na pontuação.
Aceite o desafio quem achar o exercício compensador e para isso dispuser de tempo: revelar o Camões lírico potencial a partir do Camões épico real.

Maravilha fatal da nossa idade,                   (I, 6)
Um inconcesso amor desatinado,               (III, 141)
Que assi dos Vates foi profetizado,             (III, 117)
Manda mais que a justiça e que a verdade. (X, 23)

Tudo faz a vital necessidade,                      (VIII, 63)
Enquanto eu tomo alento, descansado,      (VII, 87)
Por onde vem a efeito o fim fadado,            (IX, 5)
Em desusada e má deslealdade.                (IV, 13)

Tu, só tu, puro Amor, com força crua,         (III, 119)
Perdão alcançarás da culpa tua:                 (VIII, 60)
Descobre o fundo nunca descoberto!          (VI, 9)

Eu, que cair não pude neste engano,         (V, 54)
Daqui me parto, irado e quase insano,        (V, 57)
Confuso de temor, da vida incerto.              (VI, 80)

(1) A edição de onde se extraíram os versos foi a organizada por Emanuel Paulo Ramos: Luís de Camões (2000), Os Lusíadas, Porto, Porto Editora. À frente de cada verso, indicam-se o canto e a estância onde ele se encontra.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

FRAGILIDADE E DURAÇÃO


Se excluirmos uma leitura fatalista e inexorável do mundo e não assumirmos o ponto de vista de alguém sentado na Eternidade a fiscalizar as nossas andanças e loucuras – ou (usando expressões latinas cheias de erudita elegância e de interdito pedantismo) se encararmos tudo sub specie temporis, em vez de sub specie aeternitatis –, estaremos em condições de pensar que todos os seres se encontram a igual distância da sua própria fragilidade, indissociável da fragilidade universal.
Francis Bacon morreu em consequência de um resfriado que apanhou, em Londres, depois de rechear de neve uma galinha morta, quando pretendia avaliar os efeitos do frio na preservação da carne. Em busca de uma lei, procurando conferir ordem a ocorrências transitórias, o filósofo tombou para o seu lado mais débil. Quis prolongar o efémero – e, de certo modo, a carne da ave extinta – e acabou por anular a distância que o separava da sua própria fragilidade.
Acrescente-se que só há fragilidade por se desejar que algo dure para além dos seus limites. Quebra-se o copo e ainda o imaginamos nos estilhaços; secam as árvores e ainda lhes emprestamos a memória dos frutos; desistem os corpos e ainda os supomos fiéis a uma identidade precária. Seja como for, até que prova mais sublime o conteste, nada existe de errado neste desiderato de permanência, ou na melancolia de o achar inútil.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

"O QUE NÃO CONVÉM SABER"


A dispersão mental não é produto exclusivo da actualidade, embora nunca como hoje tenha beneficiado de tantos mecanismos que a fomentassem. Ela constitui, neste âmbito, o reverso previsível do desejável acesso à informação e ao conhecimento. Coloca-se, pois, o óbvio problema de seleccionar o que interessa, de não se perder com o que é dispensável e – tarefa mais radical – de evitar o que é estruturalmente nocivo.
Na obra Cultura: tudo o que é preciso saber, Dietrich Schwanitz escreve um capítulo sobre “o que não convém saber”, incluindo aí, numa abordagem que revela um certo detalhe, os mexericos divulgados pela imprensa cor-de-rosa, o lixo televisivo – que, segundo o autor, abrange concursos, exibições indigentes de música popular, programas humorísticos de duvidosa espécie, assim como reality shows ou «a hedionda pornografia sentimental de gente que desnuda a sua alma perante as câmaras» (1) – e, claro, os longos inventários de trivialidades ligadas ao desporto, mormente ao futebol.
Descontando eventuais exageros, e a menos que no-lo impeçam nobres motivos ou a necessidade de efectuar alguma reflexão sociológica em torno de semelhantes tópicos, fácil será descobrir quão libertador é o acto de manter a curiosidade a uma sensata distância dessa matéria virtualmente inane.
Parecendo pôr em causa o estafante cliché de que «o saber não ocupa lugar», a perspectiva de Schwanitz alerta-nos para o facto de existirem saberes – ou melhor, caricaturas demenciais do saber – apostados em extorquir o tempo que dedicamos a aprender o que importa realmente e, tão grave quanto isso, destinados a poluir o espaço da memória onde guardamos o que realmente importa.

(1) Dietrich Schwanitz (2006), Cultura: tudo o que é preciso saber, 6ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, p. 505. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

"PENSA QUE JÁ NÃO EXISTES"

Caspar David Friedrich, Dólmen na Neve, 1807.

Citemos uma quadra de António Aleixo que, não sendo literariamente esplendorosa, é todavia filosoficamente sugestiva. Ouçamos o poeta:

«Nas tuas horas mais tristes,
de mágoas e desenganos,
pensa que já não existes,
que morreste há muitos anos.» (1)

Nesta quadra, alia-se uma advertência prática a um pressuposto metafísico: o pressuposto de que deixar de viver equivale a deixar de existir e a advertência a que se finja não existir para derrotar angústias de viver.
Tal advertência e tal pressuposto são igualmente discutíveis. É-o a primeira, ao refutar a evidência do Cogito cartesiano: se for certo o penso, logo existo, então é impossível que eu me pense como não-existente. É-o o segundo, ao afastar qualquer hipótese de sobrevivência à morte, mesmo a título, digamos, puramente energético.
No entanto, o valor da quadra reside nesse carácter problemático: presume-se que a morte concede intermináveis sossegos, e o pensamento, ao fazer dela um abrigo seguro, finge instalar-se aí até que olvide, ou supere exemplarmente, a árdua realidade.
Se se estender o processo também às horas neutras e às mais alegres, fica a promessa de um salto qualitativo para fora do mundo da dor e do desejo. Depois, só restará saber se o grande vazio vale ou não a pena.

(1) António Aleixo (1970), Este Livro Que Vos Deixo, 2ª ed., Lisboa, Edição de Vitalino Martins Aleixo, p. 137,

domingo, 28 de outubro de 2012

PARTICIPAR



Tanto é o sentido que à realidade confere a teoria platónica da participação que ela própria se esvazia de sentido. As coisas transitórias são o que são na medida em que participam da Ideia imutável que delas existe num mundo eterno e inteligível. Mas o problema que nos sobra é o de determinar a natureza dos laços que unem a cópia adulterada ao modelo original, a coisa participante à Ideia participada. Neste caso, parece que um nebuloso pensamento mágico vem substituir, sem pudor nem indulgência, o aturado exercício racional.
Diógenes de Sínope, representante fiel da escola cínica, terá obrigado o autor d’ A República a ponderar melhor sobre o assunto naquele dia, decerto lendário, em que, ao mesmo tempo que se alimentava de figos secos, lhe dirigiu as seguintes palavras: «Platão, podes participar deles.» O discípulo de Sócrates dispôs-se a ingerir alguns frutos, porventura imaginando tratar-se de meras sombras que o corpo recebia e a alma tolerava. Diógenes, rindo, censurou-lhe a atitude: «Disse-te que participasses, Platão, não que os comesses.» (1)

(1) Cf. Pedro González Calero (2009), A Filosofia Com Humor, Lisboa, Planeta Manuscrito, p. 30.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

APONTAMENTO NOCTURNO

Caspar David Friedrich, A Abadia no Carvalhal, 1808-1810.

Cansa expor a alma – ou o que dela se imagina. Talvez apenas no recolhimento absoluto e sem mácula (se nada nisto houver de contraditório) se obtenha o fiel antídoto de tal quebranto. Mas eis que se ajusta o suceder dos dias à tentação de acreditar que se falhou na sintaxe, na moral, no gesto e no grau de lucidez.
As palavras, essas, distribuem cilícios a quem se arrisca a dar-lhes vida. Atira-se para o mundo o segredo imprestável, a ideia exangue, a frase que só a custo deixará vestígios sãos no solo macerado. E nem a figueira nem os frutos ao pé da casa existem – ou existirão alguma vez  para abolir o sonoro exercício do mocho, que vai piando em redor, como se, por decreto, aí se demorasse até lembrar toda a extensão da noite.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

EQUÍVOCOS LINGUÍSTICOS


Quem se aventure na tarefa de nomear objectos ainda não nomeados, ou que o foram de maneira inadequada, deve reflectir bem no uso que se fará das palavras em situações definidas e adivinhados contextos. Em suma, exige-se-lhe que ajuste os aspectos semânticos aos critérios pragmáticos. Um dos sectores que reclama certa prudência linguística, embora aberto a exercícios criativos, é o da gastronomia, mormente o da mais doce e refinada.
Há seis anos exactos (registei a data), assisti a uma cena legitimadora do que acabo de referir. Pouco faltava para as dezassete horas. O miúdo entrou na pastelaria. Disse querer uma empada e dois guardanapos. A senhora que o atendeu perguntou-lhe: «É para comer já?» Naturalmente. Caso contrário, talvez os guardanapos se revelassem inúteis. Eis, pois, a empada sobre o balcão e a mulher entretida a compor um embrulho.
Chegada a altura de pagar, ficamos a saber que o valor da conta é de dois euros e alguns cêntimos. O rapaz mostra estupefacção e embaraço. Traz apenas um euro, o equivalente ao preço da empada. Evitar-se-ia o equívoco se fosse designado por triângulo  ou por outro termo de similitude menos óbvia  o bolo a que se chama guardanapo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

CUMPRIMENTO E EXISTÊNCIA

Pierre-Auguste Renoir, O Baloiço, 1876.

Ter regozijo em cumprimentar e em ser cumprimentado, sentir aversão por ambos os actos, ou privilegiar um e outro nem por isso, constituem sinais reveladores da diversidade do humano. Ao panorama descrito convém ainda acrescentar a possibilidade de flutuação, dentro da mesma pessoa, dos gostos alusivos às atitudes em análise, em função por exemplo do clima, da circunstância social ou, simplesmente, do mais obscuro e anónimo apetite.
Se, do ponto de vista do equilíbrio psicológico, o cumprimento – dado, recebido ou potencial – significa muitas coisas, até contraditórias, já filosoficamente falando ele poderá corresponder a um processo de inegável afirmação ontológica, susceptível de apagar os loucos ataques do solipsismo. É como se alguém dissesse, transpondo o cogito de Descartes para os domínios da alteridade: «Saúdo, logo existo», «Saúdo-te, logo existes» e «Saúdas-me, logo existimos os dois».
Claro que, para lá do facto de o assunto fazer parte do civismo, da educação ou da mera etiqueta, um dos indícios de sabedoria consiste em manter razoável grau de tranquilidade quer se seja cumprimentado, quer não, quer os bons-dias tenham sido expressos com justeza, quer as boas-noites tenham ficado ao nível do silêncio.
A lei que induz a semelhante conquista, variante refinada do imperativo kantiano, resume-se ao seguinte: «Existe de tal modo que não precises da palavra de ninguém para to confirmar.» É difícil atingir tão elevados píncaros.
Se, refutando o acima exposto, houver quem defenda a ideia de que toda a gente, em rigor, existe desse modo, importa então lembrar que o rigor é uma condição inerente à lógica, não uma forma subjacente à vida.