sábado, 31 de dezembro de 2011

PASSAGEM E PERMANÊNCIA

A noite de fim de um ano e de início do próximo é, por norma, aquela em que mais anseio alcançar um estado de completa imobilidade, indefectível silêncio e inefável repouso. Talvez seja só a teimosia de sustentar o contraste, preferindo o lado inabitual, aí onde não chegam os ruídos múltiplos, as passas e os brindes, os abraços efusivos, os rituais da praxe. Mas pode tratar-se igualmente de uma vontade de regresso, mesmo se por poucas horas, mesmo se apenas simbólico, a uma espécie de matriz primordial, anterior aos anos e ao que neles acontece: um sono sem conteúdo onírico – anónimo e profundo.
Imagino que tudo se reduz, originariamente, a um mar de irrepreensível quietude – vastidão líquida e espelhada, polida de modo impecável. Por qualquer razão, desenhou-se uma onda na superfície, outras a imitaram, e a estas outras ainda, criando-se a ficção da mudança numa realidade que sobreleva o jogo ilusório dos dias. O calendário parece usar uma linguagem diferente. Com ela transitamos, porventura alheios a esse âmbito secreto em que o tempo e o olvido permanecem.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O SUICÍDIO: “THAT IS THE QUESTION”

Ao contrário de Albert Camus, não creio que o suicídio seja o único «problema filosófico verdadeiramente sério» (1). Mas com certeza que procurar saber «se a vida merece ou não ser vivida» (2) é algo que torna verdadeiramente sérios os restantes problemas filosóficos.
Do tabuleiro do viaduto da A24, inaugurado em 2007, já quatro pessoas se lançaram em direcção à morte – duas em 2008, duas no ano prestes a findar. Três dos suicidas eram (ou tinham sido) professores e escolheram uma sexta-feira para consumarem o acto.
O caso mais recente foi bastante divulgado: ao início da madrugada, uma mulher precipita-se de uma altura de cerca de quarenta metros, com a filha de vinte meses nos braços. A criança sobrevive. «Um milagre», realçaram uns, pensando na bebé. «Uma tragédia», constataram outros, pensando na mãe. Talvez uma tragédia e um milagre em simultâneo. A mente oscila entre ambos os pólos, busca entendê-los de modo integral, suspender a ameaça do absurdo, mitigar o drama ou até envolver parte dele de religioso assombro – e deduz, possivelmente, que nenhum desses pólos é compreensível na sua inteireza. O silêncio impõe-se, como vasto nevoeiro.
Quase todos os dias passo de carro por baixo daquela estrutura em betão. Também ali passei no dia vinte e três de Dezembro, várias horas depois do sucedido e desconhecedor ainda da notícia. Os pilares do viaduto – como se compusessem uma sequência austera de problemas filosóficos – encontravam-se mergulhados numa estranha neblina

(1) Albert Camus (s/d), O Mito de Sísifo, Lisboa, Edição Livros do Brasil, p. 13.
(2) idem.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ENTRE AS LETRAS E AS CÉLULAS

Talvez jamais consigamos compreender de que modo entrámos para dentro da linguagem. Na única circunstância – estar fora da linguagem –, em que tal compreensão seria logicamente aceitável, acabaríamos por não dispor de elementos que a tornassem realmente possível.
Talvez jamais consigamos esclarecer de que maneira a hipotética alma se ajusta aos movimentos do corpo. Necessitaríamos, para isso, que o sujeito presenciasse, de forma neutral, momentos de união do seu espírito à sua matéria. Só que então ele não poderia ser nem matéria nem espírito.   
Situamo-nos algures entre as letras do alfabeto, com que entendemos sem rigor o mundo, e uma urdidura de células, com que tecemos sem penhor a vida. Nesse intervalo, desenhamos um triângulo cujos vértices se adivinham: a ilusão, o embaraço e o desespero. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

AS SOLUÇÕES DEFINITIVAS

          A uns leva-os a aragem, a outros o suão, muitos  aproveitam o vento içando velas, os desatinados enfrentam o ciclone. Saber da vida? Nem sequer sabemos donde vem o vento ou quem o sopra.

              J. Rentes de Carvalho, Saber da vida - Tempo Contado
  
Se existem inquietude, sombra e dúvida nos espíritos que se entregam a reflectir sobre o mundo, parece que a conjuntura ideal seria aquela em que a todas as questões filosóficas tivesse sido dada – ou vendida a preço de saldo – uma resposta incontroversa. Talvez então se descobrisse, por exemplo, que metade delas era privada de sentido e que a outra metade era desprovida de interesse. O Céu, à semelhança dos locais que o imitam, deve ser um lugar assim: tudo esclarecido e nenhum ponto de interrogação a desenhar perturbantes coreografias no horizonte.
Afigura-se inclusive haver pessoas aqui, na Terra, que já responderam a noventa por cento de tais perguntas. No tocante aos dez por cento que sobram, é possível que elas estejam convencidas de conhecerem quem, na Eternidade, lhes há-de fornecer solução categórica ou perfeito desenlace. Julgam saber agora qual o fundamento último da vida – e que no Além irão obter firme evidência quanto ao essencial que já sabiam. Nessa altura, fitando o cerne luminoso da Verdade, podem as almas, finalmente, esquecer a sempre incómoda razão e dispensar mesmo a outrora vantajosa fé. Nada lhes será exigido. 
A crença arbitrária em dogmas irrefutáveis, em promessas redentoras, em seres de luz hipotética, em indefinidas energias cósmicas ou em elevadas frequências vibratórias permite eliminar a necessidade de ociosos questionamentos. A regra é simples: ter uma religião para usar em certos dias e livros de auto-ajuda para os dias mais incertos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O TÉDIO SUBLIME

Há uma espécie de tédio, de indefinidos contornos metafísicos, que não devemos deixar extinguir sem que o tenhamos fruído amplamente. Para tal, basta centrarmos a nossa consciência na zona do corpo de onde emerge a distinta, elevada e, ao mesmo tempo, deprimente sensação: talvez o chamado plexo solar ou as suas redondezas. Em semelhante estado, experimenta-se aí a despótica presença de qualquer coisa idêntica ao nada. Tentar atingir uma unidade com essa caricatura do vazio é fazer o mundo, ou a ideia dele, resvalar para dentro de um parêntesis enorme. No exterior, fica unicamente um sujeito que se afastou do objecto ou um objecto que abandonou o sujeito.
Nalgumas situações, o tédio é, portanto, uma autêntica maravilha. Se para mais não servir, será pelo menos a prova de que, no fundo, nos encontramos bem – ou assim nos parece – em termos de saúde em geral e sem grandes desassossegos em particular. Resta-nos apenas vencer a possível angústia de existir. Mas isso é só um detalhe, mera sombra flutuante, se o espírito já repousa no seu enfado divino.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"CANAIS PROCRUSTEANOS"

Procrustes, o bandido da mitologia que atacava transeuntes na estrada entre Atenas e Mégara, forçava os grandes a deitarem-se numa cama pequena e, a fim de que ali coubessem, cortava-lhes as pernas; forçava os pequenos a deitarem-se numa cama grande e, para que se ajustassem a todo o comprimento, esticava-lhes o corpo.
Símbolo da banalização convencional, da medida despótica e tirânica ou do nivelamento conformista, Procrustes serve também para figurar uma categoria específica de canais televisivos. Designemos de canais procrusteanos(1) aqueles que, sem cortarem literalmente as pernas, mutilam amplamente a inteligência, e, sem que estiquem propriamente o corpo, imbecilizam largamente a alma.

(1) Podemos talvez ser menos radicais e limitar a aplicação deste termo a apenas alguns dos programas exibidos pelos canais visados. Diremos então que esses são programas procrusteanos, um modo rítmico e ainda cortês de aludir aos programas medíocres


domingo, 25 de dezembro de 2011

"FILHÓ", "FILHÓS" E "FILHOSES"

Asseveram os especialistas que “filhós” é o plural de “filhó”. No uso corrente, “filhós” é, com frequência, o singular de “filhoses”. Há dicionários que legitimam ambas as possibilidades, sem aparentemente compreenderem que isso gera desentendimentos entre os apreciadores do pequeno bolo. O que se ganha, porém, ao nível das virtualidades reflexivas supera equívocos pontuais e leva-me também a admitir que essa representa a melhor opção. É que assim, de um modo bem mais complexo do que o que sucede com os substantivos invariáveis em termos de singular e plural, o vocábulo “filhós” acaba por ser uma bela síntese do plural e do singular: o múltiplo e o uno espelham-se ali mutuamente. O facto enriquece a alma, enobrece o raciocínio e até confere outro sabor à iguaria.
«Sê plural como o universo!», escreveu Fernando Pessoa, que era, ele próprio, um universo bastante singular e, todavia, plural. Reescrevamos a exortação: «Sê singular em ti mesmo, sê em ti mesmo plural, como este vasto universo, como a palavra “filhós”!»

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

PARA UMA CLASSIFICAÇÃO DOS BLOGUES

           Tenciono com este post sugerir um conjunto de categorias – impugnáveis, é certo, mas baseadas em legítimo critério – susceptíveis de configurar uma alternativa, de entre muitas, à recente proposta de arrumação de blogues – de compreensível simplismo, tendo em conta o fim em vista – avançada pelos cavalheiros do Combate de Blogs
          Sirvo-me, para tal, de um excerto do livro Outras Inquirições, de Jorge Luis Borges, concretamente extraído do ensaio "O idioma analítico de John Wilkins". Aí, o autor alude a Franz Kuhn e à sua alegada descoberta de uma enciclopédia chinesa (intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos) em cujas «remotíssimas páginas» aparece uma taxonomia zoológica, que haveria de levar Michel Foucault a escrever As Palavras e as Coisas.
          No quadro abaixo, a primeira coluna mostra a lista que se acha no texto de Borges (1); a segunda – com alíneas inspiradas nas alíneas da primeira  apresenta o meu contributo para colocar uma ordem mínima na blogosfera, antes que o caos e a arbitrariedade se apossem dela e de nós.


CLASSIFICAÇÃO 
 DOS ANIMAIS
CLASSIFICAÇÃO 
 DOS BLOGUES
a)    pertencentes ao imperador;
a) os defensores das medidas governamentais e os apologéticos;
b)    embalsamados;
b) os que tendem para a egiptologia e os que exibem um estilo gótico;
c)    amestrados; 
c) os que são ou de direita ou de esquerda (sem mistura possível);
d)    leitões;
d) os que fornecem receitas em geral e técnicas de ioga em particular;
e)    sereias;
e) os que seduzem e também se escamam;
f)     fabulosos;
f) os que se situam entre o sensato e o fabuloso;
g)    cães vadios;
g) os que foram abandonados antes do terceiro post;
h)    incluídos nesta classificação;
h) os que estão incluídos em classificações diferentes desta;
i)     que se agitam como loucos;
i) os que servem de alimento aos agitadores profissionais;
j)     incontáveis;
j) os que contam histórias inventadas por outros e nunca referem as fontes;
k)    desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo;
k) os que foram concebidos ao luar do deserto, sobre uma esteira de palha;
l)     etc…;
l) os diários íntimos e/ou a literatura obscena;
m)  que acabam de quebrar o jarrão;
m) os que motivaram a quebra de algum ecrã;
n)    que ao longe parecem moscas.
n) os que estão às moscas, sobretudo nos meses frios.

        A tarefa, agora, consiste em encaixar os blogues existentes nas categorias referidas – para posterior selecção e atribuição de prémios, se nisso houver interesse –, sendo que muitos até se ajustarão a mais do que uma. O trabalho deve ser penoso. Quanto ao resultado – assegurarão os que já fizeram algo do género –, esse só poderá ser amplamente gratificante.


(1) Jorge Luis Borges (1998), Outras Inquirições, in Obras Completas 1952-1972, Lisboa, Editorial Teorema, p. 83.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A COR DOS ESPÍRITOS

A cor, uma das principais matérias-primas da imaginação, torna-se obrigatória quando representamos espíritos nas nossas mentes. Para que estes sejam percepcionados como entidades não meramente coloridas, é forçoso o raro talento de os ver, ouvir, cheirar, tactear e/ou pressentir. Quem se encontre privado de tais dons terá de limitar-se a usar a cor. O facto não reduz a nobreza do espírito em causa: deixa-o propenso à generosidade da fantasia.
De resto, é sabido que as figurações do Além – celeste, purgativo ou infernal – podem, em última análise, dispensar o som, o aroma, o volume, o peso, a textura, o movimento, mas jamais a cor, radiosa ou lúgubre, inevitável nesses quadros, mais do que a morte que os antecede, mais do que os impostos, que perseguem a vida.
Dir-se-á que o nirvana suprime toda a cor. Não há forma possível de o contestar nem maneira segura de o defender. Certo, porém, é que o nirvana tem o seu quê de soporífero. E em sono, por vezes, os sonhos acontecem, cheios de cópias, rostos, aparências – e cores que projectam outros mundos, multiplicando a sombra e o arco-íris. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O PENSAMENTO LIVRE

É compreensível que os fiéis decidam orar a Deus pela conversão do gatuno vadio, do homicida inclemente, do torcionário impune ou do mentiroso compulsivo. A súplica ajudará, possivelmente, a minimizar danos colectivos e a prevenir desditas pontuais. Incompreensível é a opção de solicitar ao Altíssimo que transmude o ateu em fiel adorador da divindade que tão insanamente ele rejeita. «Senhor, converte o ateu!», implora o sequaz da doutrina infalível, apenas incomodado com o facto de o incrédulo cavalheiro reflectir de maneira distinta da sua.
Nunca saberemos se Deus atende a este tipo de prece. Se o faz, deve sentir maçada e desapontamento. Interferir assim no sistema de crenças de qualquer criatura é comprometer-lhe a autonomia racional, na medida em que, pelo menos nesta circunstância, não resta lugar para a opinião contrária.
Objectar-se-á, com subida ponderação, que, nos casos do mentiroso, do torcionário, do homicida e do gatuno, Deus acaba, igualmente, por se intrometer com os respectivos sistemas de crenças, não se verificando aí, de modo análogo, direito ao argumento ou à resposta.
Aprovo a refutação. Mas há uma diferença entre as duas situações: enquanto que, ao transformar a visão do ateu e ao forçá-lo a acreditar na sua existência, Deus se limita a impedir – o que se afigura um erro – que o pensamento do próprio livremente se exerça, ao proceder à correcção das ideias do malfeitor, Deus está também a permitir – o que é louvável – que o pensamento dos outros se exerça livremente.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

DIREITOS

O anoitecer, nesta altura do ano, mais do que um retalho de tempo a avançar com lassidão, lembra um agregado de instantes onde o espírito decide ficar quieto. É como se uma orla indefinida separasse as ilusões que a luz do dia trouxe das ilusões que a escuridão garante. A Lua ameaça esconder-se atrás de um montão de nuvens; o transeunte carrega um pequeno pinheiro sem raízes.
A felicidade – juram os entendidos – é um direito (eu acrescento: é um facto, se não formos exigentes). A ideia vem expressa em livros que incluem técnicas eficazes para atingir a dita. O leitor dessas páginas, se dispensa analisar o sentido da afirmação de que a felicidade é um direito, julga então que vai direito à felicidade. Geralmente, isso constitui um engano, porque mesmo tais livros ordenam pausas, suscitam dúvidas, impõem recuos – embora insistam que a beatitude se obtém com métodos idênticos aos usados para conceber naves espaciais ou para enfeitar árvores de Natal.
A Lua já se ocultou. A copa oscilante do pinheiro acaba de desaparecer nas sombras da viela. Todo o ser humano tem direito à vida, à liberdade, à segurança – e (entre outras coisas igualmente óbvias) a olhar para o mundo com lúcida melancolia.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

III – SÍNTESE: O CONHECIMENTO INTEGRAL DO OUTRO

«Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a ser conhecido" (Mt 10, 26). A consumação do fenómeno está reservada para o dia do Juízo final. Nunca deste nos achámos tão perto – se é que não nos mantivemos sempre a uma distância inalterável. Consequência previsível da revelação em análise é que todos fiquem a saber tudo de todos. Os mais precipitados a abordarem o assunto dirão que isso é a apoteose da bisbilhotice. Enganam-se. O saber em causa há-de ser profundo e solene, assemelhando-se ao ressoar da divina voz pelo Vale de Josafat. Tratar-se-á de conhecer melhor o outro do que ele, actualmente, se conhece a si mesmo. Em simultâneo, assevera o Catecismo da Igreja Católica, pronunciará o Pai, através do Filho, a palavra definitiva sobre a história, divulgando o sentido último da criação.
Os ingredientes expostos conduzem à hipótese de que, em tal momento de tal dia – este quiçá bastante longo e véspera da duração ilimitada –, cada um será os demais, num exercício de copiosa permuta e fulgurante assimilação. Só assim o efectivo conhecimento do outro se tornará possível. Viveremos, pois, a exaltação da troca plena de almas e consciências. O Criador assistirá ao inefável desempenho. A seguir, dar-se-á a cisão derradeira: uns ascendendo à glória, outros descendo ao abismo. Ter-se-á quebrado a unidade que se gerara, readquirindo o indivíduo a sua identidade própria, ou a que ele julgará ser propriamente sua. 
Sobrarão memórias do Instante Revelador? Talvez não: o olvido apaga os vestígios do êxtase. Talvez ao fragmento suceda, de novo e apenas, o fragmento. Talvez, exceptuando a Divindade e aquele intercâmbio sublime, as várias existências se resumam a estilhaços de eterno desencontro.      

domingo, 18 de dezembro de 2011

II – ANTÍTESE: ILUSÓRIAS EXCEPÇÕES

Somos tão únicos que não precisamos de decidir sê-lo. Só os outros, porém, é que decidem se somos ou não excepcionais. Claro que uma simples dedução é suficiente para completar a fórmula narcísica: “Sou único, logo sou excepcional”. E pronunciar tal fórmula com determinação e fervor até pode cevar a auto-estima, polir a confiança, aprimorar o esforço. O deplorável reverso é o esquecimento dos traços fundamentais da condição humana, do cortejo de júbilos e tormentos que, embora distintamente enquadrados e reflectidos – a que se acrescenta o carácter inacessível da consciência alheia –, parecem irmanar criaturas e neutralizar privilégios quando se trata da experiência do mundo.
É possível que alguém, convencido de ser incontornável e notória excepção, admita que, se no prazer não difere do desnorteado vulgo, no desespero é original. Ou, pelo menos, no brilhante modo de o reconhecer. Ou, sem dúvida, no talento secreto para o redimir. Ou talvez na intuição, muito sua, do absurdo da existência e do desencanto do Universo.
O problema é que esta espessa ilusão de pouco lhe serve. Se o faz sentir-se vivo, intocável, especial, na sua redoma ontológica, o certo é que nem lhe garante a percepção do nada que o limita, nem lhe consente a visão do Ser ilimitado.

sábado, 17 de dezembro de 2011

I – TESE: VIDAS INCOMPARÁVEIS

Suponhamos que um indivíduo de 34 anos resolve afirmar já ter vivido mais do que o vizinho de 43. A vida a que o cavalheiro se refere não é, por certo, mensurável com base na lógica do calendário, que o poria em nítida desvantagem. Ele está a pensar numa forma diversa de existência – íntima, subjectiva, não quantificável. O facto colide, no entanto, com a pertinência da mencionada comparação: não é possível – pelo menos, não é honesto – dizer, em semelhante contexto, que se viveu mais do que o outro, ainda por cima se não somos o outro para sabermos exactamente o que ele viveu. Quando muito, ter-se-á vivido de maneira diferente, o que aliás é óbvio.
Suponhamos agora que um homem gastou, no essencial, a vida a ressonar, deambulando horas pelas terras de Morfeu e elegendo os lençóis por testemunhas silenciosas da sua grande vocação. Admitamos que, ao invés, o irmão gémeo correu mundo, enfrentou escolhos, desceu aos abismos, provou o fel, apreciou o néctar, passou noites em claro e a maior parte em sono breve. Ambos morreram no mesmo dia. A única declaração dotada de alguma legitimidade não consiste em jurar que o segundo viveu mais do que o primeiro, antes em afiançar que o primeiro dormiu mais do que o segundo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

AS ASAS DOS ANJOS

Não deve ser de todo racional o processo que leva o ser humano a representar os anjos com asas. Elas são indispensáveis ao voo, é certo, e essa é a forma dilecta de os anjos se moverem. Só que, tratando-se de seres compostos de substância espiritual – fogo divino e deslumbrante luz –, capazes de se deslocar em virtude de faculdades superiores, puramente intelectuais, torna-se dúbio o fundamento para a adição de tais apêndices.
Assim sendo, pensará o atento leitor, também não seria adequado figurá-los com corpos idênticos aos que possuímos – todavia assexuados ou até hermafroditas –, pois não é suposto precisarem deles, e semelhantes pesos acabariam por ocasionar rudeza e estorvo. Ora, parece bem mais idóneo o carácter antropomórfico da imagem que a presença de alados acessórios: a condição dos anjos aproxima-se da nossa e vice-versa. A não ser que estejamos a admitir a possibilidade de eles se manifestarem igualmente às aves. São ocorrências, porém, que apenas às aves e a eles dizem respeito.
Para lá do modo como revelamos os anjos aos outros, existe a maneira como eles se revelam a nós. Tudo conduz à ideia de que, pelo menos no caso dos bons, se mostrem com o aspecto de criaturas humanas voantes e radiosas. Sou obrigado a abster-me do debate, porque nunca lobriguei nenhum. A única observação que me apraz fazer é esta: ou os anjos escolhem a sua aparência baseados em critérios que nos ultrapassam ou quem os vê se engana ao julgar o que vê de facto. Já que desconfio do alcance da primeira alternativa – nada interessaria aos anjos dificultarem o acto de surgirem diante dos nossos olhos –, creio, por conseguinte, haver pessoas que, graças a insondáveis artifícios mentais, inventaram asas para celestes anjos – e não é de excluir a hipótese de, nalgumas situações, terem inventado anjos para mundanas asas.  

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DA DIALÉCTICA AO DEFINITIVO

Hegel não facilitou. Todavia, as três fases da sua famosa dialéctica – pedagogicamente designadas de tese, antítese e síntese – tornam-se inteligíveis se recorrermos a uma acção perfeitamente banal, dispensando discursos herméticos e conceitos rotundos. Bastará talvez o seguinte exemplo: um indivíduo senta-se na esplanada e manda vir um café e um mil-folhas cortado em duas partes iguais (portanto, uma resma em cada parte). Num primeiro momento – o da tese –, ele ingere metade do bolo. No segundo – o da antítese –, bebe o escuro líquido de um trago apenas. Sem açúcar. No terceiro – o da síntese –, ataca a doce porção remanescente. O último paladar une e ultrapassa os dois anteriores – ou, pelo menos, a memória deles.
Dir-se-á que esses gestos permitem caracterizar a dialéctica do sabor, mas jamais o sabor da dialéctica. Discordo. A dialéctica hegeliana nada tem de apoteótico: é o processo do ser e do pensamento – termos distintos para exprimir o mesmo – que se desenvolve no sentido da superação de contradições e lutas. A paz definitiva – ou a unificação dos opostos – é o propósito de tudo isto. Inútil será desejar saber qual o propósito da paz definitiva, pois o definitivo é sem propósito. No entanto, a aparente fixidez é pouco vantajosa para as coisas que só se habituaram a fluir.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

CONEXÕES

A ideia de que todos os seres existem conectados entre si – ou que o Universo está prenhe de laços, nexos e analogias – é, por inteiro, estabelecida a priori. Afigura-se racionalmente desejável. Torna-se, no entanto, impossível garantir que seja empiricamente correcta. Com efeito, não se exclui a hipótese de haver fronteiras de nada a separarem conjuntos incomunicáveis de realidades. Nesse caso, a relação seria, quando muito, de pura vizinhança metafísica, sem que as coisas interagissem de facto.
Contudo, a mente humana é capaz das mais estranhas invenções se se trata de justificar proximidades, toques, vínculos, empurrões e intercâmbios. Por exemplo, qual a afinidade entre a peça 4’33’’, de John Cage, e os rebuçados peitorais Dr. Bayard? A peça dedica-se a criar o silêncio; os rebuçados destinam-se a acabar com a tosse que poderia interferir com o silêncio da peça.
A este aspecto circunstancial vem juntar-se a dimensão cronométrica: actuando com parcimónia salivante – e evitando a trituração dentária –, conseguimos prolongar o tempo de diluir-se na boca um dos tais rebuçados para o dobro da duração da referida peça, ou seja, para nove minutos e seis segundos. Isso permite formular uma conjectura, a exigir rigorosos testes experimentais até ganhar estatuto de lei: o tempo que leva a fazer-se um pedaço de silêncio é metade do que leva a desfazer-se um pedaço de matéria.  
 O liame seduz e a mente é fraca.
   

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"DAR O EXEMPLO"

«É melhor esperarem muitos por um, ou um por muitos?! Ele é que tem de dar o exemplo!» Adivinha-se com facilidade que o indivíduo a quem ouvi estas palavras sentia uma ligeira irritação por uma entidade que, sendo esperada por muitos, ia sujeitando esses muitos a esperar. Falha na pontualidade, em síntese. Compreendo o agastamento.
O que não consigo compreender é a última frase que integra o desabafo. É que em matéria de pontualidade – a menos que haja crianças a instruir, desconhecedoras das regras elementares da convivência humana – ninguém é especialmente obrigado a “dar o exemplo” – ou, se preferirmos, todos temos a obrigação de ser absolutamente exemplares. Se um encontro foi marcado para as três da tarde, não se pede a cada envolvido que apareça no local às catorze e cinquenta e nove, apenas que o faça antes das quinze e um.
Dir-se-á que o surgimento de imprevistos justifica um minuto de atraso – e até mais. Qualquer pessoa habituada a ser pontual consegue tolerar demoras resultantes de circunstâncias do género, recordando as escassas alturas em que lhe sucedeu o mesmo. Todavia, a maior parte dos atrasos, sobretudo se uma criatura os repete sem dó nem piedade, não se deve a genuínos imponderáveis: deve-se unicamente à falta de educação.  
O homem que soltava aquela censura referia-se (julgo eu) a um padre. Em tal contexto, e admitindo que a cerimónia seria susceptível de acontecer sem a totalidade dos fiéis do costume, embora nunca sem a do oficiante, ganha valor a resposta, só que perde sentido a pergunta. É que então já não estamos a falar da espera decorrente de um défice alheio de pontualidade, mas do carácter imprescindível de uma figura cuja presença anularia, salvo raras excepções, a exigência da espera.
Em suma, e tendo em conta que o cavalheiro aludia, quase de certeza, à pontualidade, eis o remate da prédica: se até se entende que existam seres a precisarem das sentenças de um sacerdote para aprenderem a chegar ao Céu, o que não se percebe é que alguém necessite do seu exemplo para aprender a chegar a horas. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O NASCIMENTO DOS HERÓIS

Há num mito dos Pigmeus a crença de que o herói recusa o nascimento vaginal, elegendo o dedo grande do pé direito da mãe para entrar no mundo. É uma opção que merece respeito, suscitando certa surpresa. Ao operar de semelhante modo, talvez o herói deseje testar-se a si mesmo, rompendo zonas do organismo de difícil passagem, e anunciar aos que o esperam o início para breve de uma vida excepcional.
Tudo leva a supor, no entanto, que haja heróis a escolherem a via de saída habitual de quem os vai dar à luz, sem que tal interfira no brilho da luz que eles irão dar. Não se exclui até a existência de heróis que nascem obscuros, vivem discretos e morrem ignorados. Servem um destino que se aproveita dos seus actos, sem que revele os seus exemplos. «São esses os verdadeiros heróis», dizem alguns, ora com firmeza, ora com ironia, ora com inveja – e sempre sem citarem nomes.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O DIVINO CRITÉRIO

Joshua David Stone foi seguramente o maior especialista no âmbito da ascensão espiritual. Nos livros que deixou, abundam técnicas destinadas a tal efeito que vão do exercício do bem à prática meditativa, da reza banal à invocação profunda. A par de bússolas de incontestável utilidade, surgem porém nas suas obras passagens susceptíveis de originar desnorte, mormente em almas propensas à dúvida. Aludiremos a alguns desses casos em futuras ocasiões.
Por agora, consideremos o preceito do autor segundo o qual a atitude mais importante é a de ver Deus a visitar-nos, revestido de forma física, em cada pessoa, animal, vegetal e mineral. Acrescenta Stone: «Veja todos e todas as coisas, inclusive a si mesmo, como uma encarnação do Eu Eterno.»[1] Analisemos a advertência numa perspectiva moral, evitando a componente mística que se lhe encontra associada.
As dificuldades são óbvias. Elas decorrem de uma abordagem ética que procura colocar em igual plano a multiplicidade das criaturas, conscientes ou não. Aparentando admitir um rigoroso panteísmo – Deus é tudo e, por conseguinte, em tudo há Deus –, este critério, como norma geral a presidir à acção concreta, acabará talvez por melhorar a ideia que tenho dos outros seres; mas também pode acontecer que danifique a ideia que tenho de Deus. Pior: ele é capaz de arrasar a minha auto-estima enquanto sagrada centelha, sempre que desbarato a humilde planta, esmago o caracol sem dar por isso ou me comprazo num cruel churrasco. Apesar da excelência do princípio, acentua-se a força do dilema.
Para lá de tal desassossego, quem finge ver Deus em todas as coisas arrisca-se a não ver nem as coisas nem Deus. Quando o humano é autêntico, o divino é presumível. Quando o divino é fingido, o humano é mascarado.



[1] Joshua David Stone (2007), Manual Completo de Ascensão, São Paulo, Editora Pensamento, p. 246. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

ENTRE O ABSURDO E A SABEDORIA

Caminhar por uma pacata vila, em manhã rodeada de nevoeiros altos, é um exercício que nos possibilita distinguir o absurdo que emana das coisas. Há folhas acumuladas na relva, por baixo de um grande plátano, talvez julgando-se protegidas sob as que ainda se mantêm seguras aos ramos. Há um caixote do lixo transformado por isqueiro de vândalos em pedaço de matéria negra a retratar a imundície. Há um sinal de estacionamento proibido lançado entre entulho diverso, no alpendre de uma velha escola, onde já só se ensina com êxito a lógica do abandono. Há hexágonos de betão a sucederem-se no pavimento, misturando-se a passos repetidos e a ideias que voam por inúteis. 
Se nos esforçássemos, conseguiríamos ver e sentir tudo isto como se fosse pela primeira vez. Juram alguns que esse é o começo da autêntica sabedoria. Mas nem assim os dias mudariam de propósito ou de essência: eles são meras variações no grau de luz e no modo como nos ajustamos às suas sombras. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"BALADAS DE UMA OUTRA TERRA"

Sérgio Godinho, numa das suas ponderadas canções – a Balada da Rita –, presenteia-nos com um refrão bastante inspirador:

«O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu p’ra nada.»

Na realidade, o coveiro só se apoia na enxada durante as pausas que a si mesmo concede aquando das tarefas de cavar e preencher a sepultura, com o eventual objectivo de oferecer descanso aos braços ou de emendar reflexões que lhe surjam menos brandas. Aliás, para o coveiro a morte deve ser um assunto duplamente importante: pelo lugar e relevo que, na Terra, lhe dão os vivos e pelo relevo que ele dá à terra sobre o lugar dos mortos.
No que ao coração diz respeito, parece que, em rigor, este bateu sempre para alguma coisa, nem que fosse para ter condições que lhe possibilitassem continuar a bater. Já no tocante a decidir se o somatório das pulsações é ou não “para nada”, constitui isso matéria a exigir outro tipo de análise. Almas de pendor romântico assegurariam que o palpitar do coração – talvez rápido em seres impacientes, talvez lento em criaturas sem pressa – é um modo involuntário de bater à porta da Ceifeira com pancadas tímidas e inocentes que se prolongam até ao dia em que ela resolve abrir. O que se passa depois é do foro da intimidade e não será legítimo descrevê-lo em palavras banais.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

GRANDES ADVENTOS

Politicamente, asseguram uns, desembocámos já no fim da história. Culturalmente, asseveram outros, ingressámos na pós-modernidade. Espiritualmente, garantem mais alguns, desaguámos numa nova era
Só, em si mesma, a condição humana é que parece ainda resistir a tão belas e inúteis fantasias. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ENTRE DUAS ÁRVORES

Que tipo de coisas haveria entre a árvore do conhecimento do bem e do mal e a da vida eterna? Saboreámos o fruto da primeira, do da segunda nos vimos privados; mas elas estariam perto uma da outra, no centro do Jardim do Éden, pelo que escassas seriam as realidades a separá-las e fáceis de adivinhar: um arbusto ainda sem nome, um riacho de luzentes águas, um amontoado de pedras por cima do qual as aves se juntavam ou algum lugar que as serpentes elegiam quando precisavam de mudar de pele. No entanto, a pergunta não se refere a esse intervalo paradisíaco. Alude antes àquele espaço entre ambas as árvores que praticamente circunda o globo, a distância mais longa entre dois pontos próximos.
Adão e Eva, ignorando o que existiria no vasto mundo exterior ao local onde inauguraram o nosso drama, apenas o concebiam, se a tal se entregavam, em jeito de encantadora possibilidade, pelo menos até ao dia em que foram expulsos para sempre daquela sucursal das delícias celestes. Depois, vieram os tempos de dor e errância, a aprendizagem das lições que medeiam entre a lucidez que se ganhou por efeito de um fruto e a imortalidade que se perdeu por causa da lucidez. Muitas das experiências acabariam por ser subvertidas pela pura imaginação, faculdade que se exerce entre duas árvores: a do saber que detemos e a do ideal que nos chama. Se não alcançamos o eterno aqui e agora, só pela invenção o podemos atingir. «Se há algo de divino em Deus», escreveu Henry Miller, «é isso: Ele ousou imaginar tudo».  

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"A VÉSPERA DE UM DIA"

Assim a definiu o sofista Antifonte: «A vida é a véspera de um dia.» Regista-se aqui uma ambiguidade que talvez diferente tradução acabasse por neutralizar. Vale a pena, porém, aceitar o resultado. Há ambiguidades virtuosas. É o caso desta. De facto, o termo véspera encerra, pelo menos, dois significados bem distintos: de acordo com o primeiro, caído em desuso, refere-se à parte final de um dia, que precede o anoitecer; de acordo com o segundo, de uso corrente, refere-se ao dia que antecede imediatamente outro.
Antifonte quis aludir a algo com significado vizinho do primeiro. A sentença, todavia, ficará mais sugestiva se admitirmos o segundo. Assumirá, enfim, um carácter solene se, sujeitando-a à indefinição semântica, associarmos o segundo ao primeiro. Se este confere brevidade ao exterior da existência, aquele oferece esperança no interior da brevidade. Se o primeiro reduz a nossa vida a escassas horas, o segundo prolonga as horas para além da vida.
Juntando ambos os significados, e pensando a vida como uma totalidade – mesmo capaz de superar a morte – em que se misturam a memória confusa e o ideal contraditório, então podemos alterar o aforismo e dizer que a vida é a véspera de dois dias: de um que não sabemos, ao certo, quando chegou e de outro a que nunca, por certo, haveremos de chegar.   

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AS DORES DOS POETAS

O poeta não se viu ao espelho pela manhã. Fê-lo ao princípio da tarde, pouco depois de acordar. Em seguida, ainda a digerir os vagos efeitos do sono, desatou a gerar versos alusivos a oliveiras, harpas, labirintos e róseas nuvens desfalecendo à entrada do crepúsculo. Ia já na terceira estrofe quando lhe surgiu uma importuna dor num dente, de causas bastante objectivas. Nem assim largou a ode. Ocorreu-lhe que «o poeta é um fingidor». Lamentavelmente, não percebeu a ideia.
Terminada a composição, de modo algum lhe passou pela cabeça marcar consulta no dentista. Iniciou novo poema. Reconhecia dessa forma a importância de aproveitar os momentos intensamente penosos, julgando que nenhuma dor deveras sente quem, no lance aflitivo, consegue juntar o estro ao disfarce. É difícil unir ambas as coisas, se um incisivo geme ou um canino protesta. No entanto, existem poetas capazes de misturar tudo. Até acabam por se tornar complexos e obscuros. Além disso, ignorando a atenção devida às lamúrias do corpo, habituam-se a entoar apenas queixumes da alma. Tal acontece, muitas vezes, por não saberem ao certo onde lhes dói.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A CULPA DOS INOCENTES

De acordo com o calendário hagiológico, é hoje dia de S. João Damasceno, de Santa Bárbara e dos beatos João Calábria e Adolfo Kolping, quiçá de outros mais. Fixemo-nos nos episódios protagonizados pela santa, ou no que lhes sobra em lenda, a fim de apreciarmos um interessante pormenor. 
Ao fugir da torre onde seu pai – Dióscoro, rico pagão de Nicomédia, que a pretendia matar – a encerrara, e onde a santa, virgem e formosa, entretanto exigira (e conseguiu) que se rasgasse uma terceira janela, para assim se honrar a Trindade, Bárbara viu o caminho facilitado porque um penedo se abriu e deixou que ela passasse. Um pastor descobriu-a e foi punido por Deus, que lhe transformou as ovelhas em escaravelhos. Analisemos este detalhe. Em rigor, houve aqui três castigos: o do pastor, que perdeu as ovelhas; o das ovelhas, que perderam a identidade, e o dos escaravelhos, que, ao surgirem abruptamente no mundo, devem ter tomado a vida como expiação, desnorte e absurdo, embora viessem de certeza a considerar-se uns privilegiados.
Santa Bárbara seria submetida a martírios atrozes. O pai decapitou-a e acabou fulminado por um raio e reduzido a pó. A filha haveria, doravante, de ser invocada para proteger de coriscos, tempestades e mortes repentinas. O pastor ficou seguramente perplexo com o sucedido ao rebanho. As ovelhas, transitando de súbito para a condição de insectos, nem sequer baliram em jeito de queixume. Os escaravelhos, esses, talvez nunca se tenham habituado ao seu próprio ser, carregando uma herança híbrida, entre a inocência e a culpa: a inocência de quem ignora o que significa existir de facto e a culpa de quem se sente em dívida pelo facto de existir.

sábado, 3 de dezembro de 2011

SALVAÇÃO E IDENTIDADE

Falemos de dois modos distintos de salvação: ou, como no catolicismo, conservamos a nossa identidade (real), mas só nos salvamos por iniciativa de Deus, ou, como no budismo, só nos salvamos por iniciativa própria, embora percamos a nossa identidade (aparente).
Contraditórias entre si, ambas as perspectivas se afiguram inconsistentes em si mesmas: a primeira, ao sustentar que a identidade é conservada, torna a salvação ilusória; a segunda, ao defender que a identidade é perdida, torna a salvação inútil.
Sucede, no entanto, que em rigor nunca se tratou de salvar a identidade. Trata-se de a aprimorar, como assinalam os católicos, ou de a dissolver, como destacam os budistas. Retoques num caso, diluição no outro.
Diante de tal cenário – e admitindo que os estilos salvíficos das demais doutrinas religiosas pouco se diferenciam de um dos dois mencionados –, talvez não seja abusiva a conclusão de que, a esse nível, nada existe à espera de ser salvo.
Assim, acabamos por intuir, como que através de um milagre, a vasta presença de todas as coisas. Íntegra e redimida. E ainda nos sobram o sol de Outono, o gesto fugidio, a memória breve – e até o virtual esquecimento.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

LEI E PECADO

Há autores bíblicos imprescindíveis na textura global da palavra de Deus. Entre eles encontram-se o obreiro do Génesis e São Paulo. Se aquele nos esclareceu acerca da maneira como caímos, este instruiu-nos sobre a forma de nos levantarmos. Ora acontece que, numa passagem da Carta aos Romanos, o Apóstolo parece dar a entender que Deus, embora não causasse directamente o pecado original, inventou a ocasião que o fez surgir. Pronuncia-se, a certa altura, o ex-perseguidor dos cristãos: «A lei é pecado? De modo algum! Mas eu não conheci o pecado senão por meio da lei. É que eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse: “Não cobiçarás”.» (Rom 7, 7.)
Admitindo a tese paulina, viajemos sem demora até ao Éden e detenhamo-nos naquele minuto em que Deus notificou o primeiro homem de que não deveria comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal – nem sequer tocar nele, como realçaria a mulher, tempos depois, em conversa com o réptil tentador. Era a lei divina a atingir o âmago da inocência humana. A conclusão é óbvia: o pecado original é mais original do que supúnhamos, porque em rigor não começou quando Adão e Eva, iludidos pela serpente, decidiram morder o fruto proibido, mas quando Deus resolveu proibir-lhes que mordessem o fruto.  
Objectar-se-á com a ideia (justíssima) de que Paulo, na Carta, aludia essencialmente à lei mosaica, tendo inclusive referido que o pecado «não se leva em conta se não houver uma lei» (Rom 5, 13). No entanto, também não ignorou as interdições e ordens do Criador prévias aos mandamentos entregues a Moisés, em particular a inicial, formulada no velho Paraíso. Só que evitou – calculamos – extrair daí perigosas consequências. Ou assim o não quis a exegese.
O Apóstolo acrescenta: «Sem a lei, o pecado está morto.» (Rom 7,8.) E nós, seguindo as pegadas do Apóstolo, podemos completar o acrescento: sem a lei, o pecado nunca teria nascido.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

GOZO E FELICIDADE

Miguel de Unamuno cita Frei Pedro Malón de Chaide enquanto alude à tese católica da ressurreição dos mortos, pondo em relevo que os bem-aventurados se lamentam no Céu de se não acharem inteiros, «porquanto só ali está a sua alma; e, embora não possam padecer, porque estão vendo a Deus, de cuja presença gozam inefavelmente, parece que não são todavia felizes»[1]. Sê-lo-ão unicamente a partir do momento em que os corpos venham cobrir a sua metafísica nudez.
Neste mundo de matéria grosseira e imensa ilusão, o gozo é, em muitas ocasiões, regalia do corpo; a felicidade é, com frequência, vitória da alma. No Além, de acordo com o anunciado no excerto, a realidade afigura-se distinta: o gozo é exercício da alma; a felicidade será efeito do corpo. A junção dos dois estados apenas se há-de verificar quando, pouco antes do Juízo final e após ouvir o som da trombeta, o corpo se erguer da terra, limpo e glorioso – do justo falamos, o relapso não conta –, e for agregado à respectiva alma, ajudando-a a preencher o derradeiro vazio de existir.
Porém, no interior da recém-obtida plenitude, poderão ocorrer súbitos conflitos entre felicidade e gozo, com a primeira impedindo o segundo ou o segundo toldando a primeira. Não é ainda de excluir a hipótese de a criatura sofrer, uma e outra vez, a insatisfação inerente à sua incontornável finitude. Assim, ela acabará por regressar a velhos queixumes, ora tácitos, ora explícitos, obrigando a Divindade a conceber novas maneiras de abolir – ou, pelo menos, de apaziguar – o eterno desconsolo dos eleitos.


[1] Miguel de Unamuno (s/d), Do Sentimento Trágico da Vida, Lisboa, Relógio d’Água, p. 59.