quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A SOLIDÃO DA ETERNIDADE

«Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?», perguntava-se no tempo de Santo Agostinho. «Preparava a geena», respondia certo gracejador, «para aqueles que perscrutam estes profundos mistérios».
A questão, no entanto, já passou de moda. Aliás, o que mais importa hoje é indagar, não o que fazia Deus antes de criar o céu e a terra, mas o que fará depois de eventualmente os destruir. Suponhamos – também para actos de suposição nos deram a preciosa vida – que Deus resolvia, com um piparote, aniquilar o Cosmos e todas as repartições inicialmente destinadas a acolher a imortalidade, geena incluída. Sobraria apenas ele, em rematado sossego e inefável solidão.
De que modo haveria de entreter-se a preencher os dias? Oh, pesquisa vã! A eternidade encontra-se acima dos dias. Em tal caso, admitamos que não se encontra acima das noites. Ora, em vez de exercer com imaginação a tarefa de inventar o Inferno para loucas criaturas, Deus tentaria afastar da memória os infernos inventados por criaturas loucas. Em consequência do desempenho, iria diluindo em si a identidade que a recordação garante, e até por inteiro a perderia se, após esquecer os longos infernos, olvidasse igualmente os breves paraísos.
Calada em definitivo a lembrança das coisas, restaria só a Consciência sem objecto a resvalar para dentro do nada absoluto. Não o nada de onde Deus, como sabemos, decidiu tirar o mundo, mas aquele de onde Deus se tirou a si mesmo, sem que talvez ele próprio o soubesse.
Assim se escreveria subtilmente o último capítulo do Ser.

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