quinta-feira, 17 de novembro de 2011

OU PENSAR OU SENTIR

Se alguém afirma que Deus é para ser sentido e jamais para ser pensado, então pensa que alguma vez o sentiu, sendo que na altura sentia-o e não o pensava. O defensor desta tese arrisca-se, pois, a cair em duas contradições tão grandes como Deus, não fosse Deus maior que todas as contradições: a primeira decorre de pensar que Deus unicamente pode ser sentido, o que é impossível, visto que desse modo já o pensou; a segunda decorre de admitir que sentiu Deus sem o pensar, o que em rigor nunca lhe permitiria pensar que o sentiu.
Dirá uma pessoa mais entregue a sentir o Divino que a pensá-lo: «Jogar com as palavras não te leva a lado nenhum, vazia criatura!» Eu sei que não, eu sei que não! Tanto assim é que inclusive agora – apesar da vulgaridade do instante – chego a pensar que estou a sentir Deus. O problema é que, justamente porque o penso, não tenho a certeza de que o sinto. Bacorejo que até ao derradeiro minuto, aquele que há-de preceder a minha eventual diluição no Todo, serei, mesmo se pouco, sempre céptico. Só depois de abandonadas as últimas sombras do meu ego é que deixarei de ser céptico de todo.

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