quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O REGRESSO DO POEMA

Numa das suas manifestações líricas, Herberto Helder sugere-nos a imagem de um poema que sobe pela caneta, «atravessando seu próprio impulso». Há, de facto, poemas do género: saem do criador, desenham no mundo infindáveis percursos e regressam ao poeta que os engendrou para, eventualmente, servirem de matéria inspiradora a nova lavra do estro. Muitos, no entanto, jamais regressam: reduzem-se a esboços privados de fulgor, inclusive para aquele que os escreveu.
A referida imagem é susceptível de ilustrar as intuições filosóficas que vêem no Real o desdobramento e a reintegração: é comum elas apresentarem uma Unidade que – por razões insondáveis – se divide (ou finge dividir) numa incrível multiplicidade, a qual, um dia, seguirá o caminho do retorno, até que se feche o ciclo cósmico, entendido em acepção ampla e abarcante. Supõe-se, em geral, que o processo se reiniciará. Apreciaremos o mistério noutra altura.
Talvez o Ser constitua um imenso poema e não exclua versos de monstruosa dissonância. Talvez cada palavra seja capaz de conhecer, por si, o significado que lhe é inerente. Contudo, este não basta para aceder ao sentido último da composição ou para voltar a um espaço de resgate associado ao Todo. É preciso ainda ficar atento ao recital, praticamente inaudível por quem se julgue fragmento separado. Só uma longa e aturada escuta permite suprimir hiatos lógicos e exceder os limites da semântica.

Sem comentários:

Enviar um comentário