segunda-feira, 21 de novembro de 2011

LUZ E TREVAS

É sabido que os conceitos de luz e trevas se revelam fundamentais para a compreensão da vida espiritual. Mantém-se o costume de os espíritos serem considerados como pertencentes ou à facção da luz ou à das trevas, sendo difícil encontrar entidades neutras, embora Dante nos conte haver deparado com anjos desse jaez logo à entrada do grande Abismo.
À parte o detalhe, cumpre notar que luz e trevas parecem referir-se a duas realidades com diferente grau de auto-suficiência: se a luz precisa de um fundo de trevas para que brilhe, já as trevas não necessitam de um fundo de luz para que negrejem. Face a tal pormenor, e admitindo o princípio de que o bem é autónomo e o mal é viciado, torna-se discutível o associar-se a luz ao primeiro e as trevas ao segundo.
A explicação para o facto reside, todavia, noutro pressuposto: a luz equivale, em certa medida, ao ser; as trevas representam, de algum modo, o nada. E, em geral, perante o nada, preferimos o ser.
Se pensarmos na vastidão sombria do Universo, somos obrigados a concluir que o nada impera enormemente em redor do ser, da mesma forma que – descendo agora a ínfimo âmbito  o vazio reina incrivelmente no interior do átomo.
O cenário não deve ser distinto nas dimensões invisíveis da existência, onde, apesar disso, ainda se continua a presumir que estão envoltas em esplendor as almas dos bons e mergulhadas no escuro as almas dos maus, como se se ignorasse do Inferno o clarão do lume e se excluísse do Céu a temperada noite.
Talvez a luz do ser vá deslizando sobre as trevas do nada. Se assim for, respeitemos os dois pólos deste misterioso deslizar.

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