quarta-feira, 16 de novembro de 2011

APOSTAS

             Suponhamos que duas pessoas, depois de intensa discussão em torno do problema relativo à continuidade ou não da vida após a morte, descobrem serem incapazes de persuadir o interlocutor da verdade da tese que perfilham. Uma delas sustenta que não só há vida após a morte, como o sujeito conservará intacta a identidade, ainda que privada dos aspectos mais densos, em concreto os atinentes ao corporal invólucro. A outra defende que a aniquilação é o destino comum a todos os seres conscientes. Perante isto, decidem submeter a uma aposta as respectivas opiniões, sem benefícios relevantes para o vencedor, excepto o facto de ter tido razão.
            Eis, em consequência, duas situações possíveis, entre várias de fácil achamento, no tocante ao resultado da aposta: se houver vida após a morte, ambos ficarão a saber quem a ganhou; se não houver vida após a morte, nenhum ficará a saber quem a perdeu. Daí que, a esse nível, se registem ligeiríssimas vantagens em acreditar na persistência do eu além-túmulo ou, pelo menos, em dizer que se acredita. Aliás, quando encarada sob o ângulo das regalias a obter – e Pascal compreendeu isso ao expor uma engenhosa aposta na existência de Deus –, a vivência religiosa costuma surgir como particularmente sedutora. Adoptá-la nada inspira de censurável: cada um gere os prós e os contras da doutrina de forma adequada à sua dose de angústia e de sonho.
            A única circunstância a merecer reparo é aquela em que a criatura humana – manipulada por agentes que lhe “lavam” o cérebro com total impunidade – vê tolhido o exercício normal de um raciocínio tranquilo pelo devaneio pernicioso de uma crença alucinada. Não é admissível que, procurando incrementar no indivíduo a ânsia do proveito em termos de devoção, se acabe por forçá-lo a prescindir do uso elementar do intelecto.

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