quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A ORAÇÃO DO PANTEÍSTA


É sabido: o crente, quando reza, busca anular os vários tipos de distância que o separam de Deus ou da criatura designada para substituir, de modo incompleto, o Altíssimo. Pedir, louvar, penitenciar-se ou agradecer constituem diversas possibilidades de abolição do fosso existente entre a pessoa humana e o ser que ela tomou como pólo de veneração e súplica. Até aqui, as dúvidas são poucas ou, pelo menos, escassamente preocupantes.
O problema advém se o crente em análise é um panteísta autêntico, sincero e radical. Que fórmulas devocionais ele entoa? A que ser as dirige e em que circunstâncias? Admitindo a tese de que tudo, incluindo obviamente ele próprio, é Deus, o genuíno panteísta não encontra, no espaço em que se agita o seu religioso impulso, entidades superiores a si às quais endereçar laudes e preces. Dir-se-á que o pode fazer a guias espirituais, mestres ascensos, anjos, arcanjos, santos, devas, elohins e extraterrestres. Pode. Todavia, encarando o cenário numa perspectiva abrangente, o resultado será sempre o de Deus a orar a si mesmo, a Essência única a desdobrar-se, reabrindo com a particularidade de um rogo a brecha que tapara com a generalidade de um princípio.
Neste mundo plural, não faltam panteístas singulares: sentem Deus dentro de si, no tronco apodrecido da árvore, no suspiro ocasional do transeunte, no movimento incerto da lagartixa e, com fervor, invocam-no como se o achassem apartado, eventualmente remoto. A consciência de tal contradição jamais lhes surge ou, a surgir, em nada os incomoda. Afastam-se do Uno com palavras e regressam por força de uma ideia. É provável que algumas orações tenham sido forjadas para que o indivíduo não se lembre de pensar no assunto ou em matérias similares. (Eu só rezo para que nunca me esqueça.)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

AS VIAS DO AFORISMO

Abro um livro intitulado Conversações de Confúcio. Leio: «O meu Caminho procede de um pensamento único que liga o todo.» O autor também poderia ter dito: «O meu Caminho procede de um único todo que liga o pensamento.»
A segunda máxima, através de mudança mínima, seria tão inteligível como a primeira, embora com um sentido ligeiramente distinto. São assim muitas frases citáveis: trocamos a ordem das palavras e obtemos nova sentença.
Talvez as ideias que exprimimos de modo aforismático se reduzam a tentativas de verbalizar uma Ideia comum, rigorosamente inexprimível. Talvez haja um único Pensamento e um único Todo, de onde partem – ou onde procuram chegar – os diversos caminhos da linguagem.

domingo, 27 de novembro de 2011

HIGIENE MENTAL

Que significa ter boa higiene mental? Significa várias coisas. Há, no entanto, uma particularmente interessante. Trata-se de admitir que os pensamentos positivos nos mantêm imaculados, enquanto os negativos nos mancham a alma. A literatura da especialidade efectua uma clara distinção entre esses dois tipos de pensamentos, ligando-os às emoções: são positivos os que nos fazem sentir bem; negativos, os que nos fazem sentir mal. Resta saber se haverá ou não pensamentos neutros. Mas conservemo-nos neutros em relação a tais hipotéticos pensamentos.
A referida visão aparenta pressupor que os pensamentos se encontram, nas nossas cabeças, separados à semelhança de comprimidos numa embalagem. Ora, qualquer ser humano minimamente ponderado entende, com facilidade, que tal separação nunca se verifica. O princípio de que as ideias se associam entre si é tão vulgar como a íntima vocação para intercâmbios e devaneios. Razoável, por isso, seria afirmar que existem pensamentos predominantemente positivos e pensamentos predominantemente negativos. Nenhum deles exclui a sombra do oposto.
Face ao cenário, revela-se inviável – ou, pelo menos, pouco sensata – a tentativa de expulsar o conteúdo indesejável da casa mental, já que sempre se acabaria por varrer amontoados de jóias só porque elas surgiram misturadas com pêlo, cotão e imundícies. O essencial, se o objectivo é assegurar interna placidez, não consiste em expurgar a mente, antes em garantir que o lixo a não perturba. Mais se impõe vigilância do que luta. Mais se pede inteireza do que hipnose. Mais se exige atenção do que vassoura.  

sábado, 26 de novembro de 2011

O PESCOÇO

             Ensinaram-nos a dividir a sucessão dos dias em passado, presente e futuro. O esquema não deixa de ser funcional. Proponho, todavia, a introdução aí de um quarto elemento que, embora não contribua necessariamente para entender a natureza do tempo, talvez ajude a voar um pouco acima dele. Esse elemento é o pescoço.
           Um indivíduo sente o incómodo nos pensamentos, teima em substitui-los por outros, surgem-lhe tumultos ainda maiores. Mergulha em lembranças indesejadas, medos insensatos: é engolido pelo passado e digerido pelo futuro. Nem se apercebe do istmo venerável, ali tão perto. O pescoço convida-o a rumar ao presente, a abandonar a península do intelecto, a descer e a concentrar-se no que sobra, tronco e membros, a veranear pelo continente, a sul da inquietação mental.
           As girafas pediriam uma abordagem distinta e inevitavelmente mais longa. Os batráquios não exigiriam qualquer análise. O que acaba de se expor tem a medida do pescoço humano. Ele separa o momento actual dos que o virão a ser e dos que foram apenas a ilusão de o terem sido. Sem fios de ouro nem adornos escusados. Se há quem tenha morrido pelo pescoço, há quem por ele aprenda a renascer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

SONHOS LÚCIDOS

Os sonhos lúcidos – aqueles em que a pessoa, nos momentos do sonho, tem consciência de que está a sonhar – são eventos mentais com inúmeras virtualidades no tocante à revelação do mundo ou, pelo menos, aos processos usados para que ela se torne possível. Há duas atitudes extremas susceptíveis de ser adoptadas perante a matéria dos sonhos: o exercício da diluição e a prática da “não interferência”.
Mediante o primeiro, busca-se provar a inconsistência do que nos cerca, atravessando sem esforço superfícies densas e, no limite, dissolvendo literalmente seres e objectos, até que só reste uma absurda escuridão. Trata-se de testar o princípio de que os fenómenos (como salientam os budistas) não são mais do que vazio ou de reforçar a ideia de que os átomos (como juram os cientistas) são vazio e pouco mais.
Mediante a segunda, procuramos evitar que as coisas e os factos sejam perturbados por obscuros desejos ou impulsos de descoberta. Trata-se de aplicar o princípio tauista do “wu-wei”, que significa “não-agir”. Em rigor, alude-se aqui a uma “acção mínima”, ou de “não ingerência”, em que seguimos a corrente, sem tensões, e granjeamos a harmonia com a natureza. No âmbito específico da ligação a oníricos conteúdos, importa deambular de modo flexível entre as formas do sonho, ajustando-se ao ritmo do seu suceder.
A separar as duas atitudes mencionadas há um conjunto indefinido de maneiras de influir nos sonhos – desde que a presença da lucidez o garanta. Falta saber o que será mais útil: se as aprendizagens do sonho para os períodos de vigília, se as experiências da vigília para o desenrolar dos sonhos  isto admitindo que existem fronteiras reais a dividirem ambas as ilusões. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

UM ENXAME NAS BARBAS

            A “navalha [de barbear] de Occam” designa o princípio segundo o qual «as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário». Atribuída a Guilherme de Occam, embora nos textos do filósofo se encontrem apenas fórmulas semelhantes, esta regra defende a não introdução de realidades supérfluas e a moderação possível no uso de conceitos quando se trata de esclarecer fenómenos ou gerar demonstrações. O que no fundo se recomenda é a explicação mais simples.
Conta-se na minha aldeia que, há bastantes anos, um dos habitantes de então subira ao monte e ali, enquanto descansava junto a uns cortiços, foi surpreendido por um enxame que lhe pousou na opulenta barba. Sem saber como livrar-se do aperto, decidiu regressar ao povoado, transportando consigo os incómodos insectos.
Ao vê-lo chegar em tal transe, um outro indivíduo dispôs-se a ajudá-lo. Começou por instalar um balde com água por baixo daqueles pêlos ameaçadores. Em seguida, pediu ao sujeito que, de forma gradual, mergulhasse aí as barbas. Desse modo, garantiu que as abelhas o deixassem em paz à medida que iam voando para dentro de um cortiço estrategicamente colocado um pouco acima da sua cabeça.
Talvez a “navalha de Occam” acabasse por barbear a criatura. Ou talvez anulasse as fantasias da história – e a própria história, por achá-la uma fantasia. Mas isso seria exceder as legítimas competências da lâmina. Se a ciência dispensa o redundante, o imaginar recusa a parcimónia.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O REGRESSO DO POEMA

Numa das suas manifestações líricas, Herberto Helder sugere-nos a imagem de um poema que sobe pela caneta, «atravessando seu próprio impulso». Há, de facto, poemas do género: saem do criador, desenham no mundo infindáveis percursos e regressam ao poeta que os engendrou para, eventualmente, servirem de matéria inspiradora a nova lavra do estro. Muitos, no entanto, jamais regressam: reduzem-se a esboços privados de fulgor, inclusive para aquele que os escreveu.
A referida imagem é susceptível de ilustrar as intuições filosóficas que vêem no Real o desdobramento e a reintegração: é comum elas apresentarem uma Unidade que – por razões insondáveis – se divide (ou finge dividir) numa incrível multiplicidade, a qual, um dia, seguirá o caminho do retorno, até que se feche o ciclo cósmico, entendido em acepção ampla e abarcante. Supõe-se, em geral, que o processo se reiniciará. Apreciaremos o mistério noutra altura.
Talvez o Ser constitua um imenso poema e não exclua versos de monstruosa dissonância. Talvez cada palavra seja capaz de conhecer, por si, o significado que lhe é inerente. Contudo, este não basta para aceder ao sentido último da composição ou para voltar a um espaço de resgate associado ao Todo. É preciso ainda ficar atento ao recital, praticamente inaudível por quem se julgue fragmento separado. Só uma longa e aturada escuta permite suprimir hiatos lógicos e exceder os limites da semântica.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O FIM DO MUNDO, ETC.

Há quem anuncie o fim do mundo com a mesma facilidade com que antecipa o desfecho de uma telenovela. Uma vez que o assunto é grave e não mera deambulação metafísica, importa que tais pessoas expliquem aos cidadãos, mormente aos desprovidos do dom oracular, em que matutam quando falam do “mundo” e, se não for pedir demasiado, a que aludem ao mencionarem o “fim”.
Apesar da míngua de esclarecimento, sabemos que, no imaginário colectivo, a espantosa ocorrência se encontra, em geral, associada a catástrofes, hecatombes e a toda a espécie de caricaturas do Armagedão. Sucede, no entanto, que o “fim do mundo”, embora persista, já não é o que era. Com efeito, a visão apocalíptica tem sido substituída por uma leitura mais diplomática: a da “transição planetária”.
É claro que também este conceito exige ser elucidado. Ora, se uns discorrem em abundância e até lançam detalhes precisos no tocante à natureza e aos resultados do processo, outros aproveitam a perspectiva para engendrarem prosa cheia de optimismo ingénuo e de coerência discutível.
Evitando pormenores que acabariam por desacreditá-los, limitam-se alguns proponentes da ideia a dizer que estamos a entrar numa Nova Terra. Talvez se tenham cansado de viver numa Terra que é, de facto, bastante velha.
O que não se entende é o objectivo de ambos os géneros de profecias: alimentar medos? Cevar expectativas? Apelar à conversão? Ganhar adeptos? Domar insubmissos? Em definitivo, penso que espíritos inteligentes e minimamente autónomos em termos morais – que têm consciência do trabalho a fazer, que aceitam sem azedume as insondáveis decisões do Cosmos e não esperam que Deus lhes devolva o Paraíso – nunca tomam como referência existencial o delírio inerente aos vaticínios.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

LUZ E TREVAS

É sabido que os conceitos de luz e trevas se revelam fundamentais para a compreensão da vida espiritual. Mantém-se o costume de os espíritos serem considerados como pertencentes ou à facção da luz ou à das trevas, sendo difícil encontrar entidades neutras, embora Dante nos conte haver deparado com anjos desse jaez logo à entrada do grande Abismo.
À parte o detalhe, cumpre notar que luz e trevas parecem referir-se a duas realidades com diferente grau de auto-suficiência: se a luz precisa de um fundo de trevas para que brilhe, já as trevas não necessitam de um fundo de luz para que negrejem. Face a tal pormenor, e admitindo o princípio de que o bem é autónomo e o mal é viciado, torna-se discutível o associar-se a luz ao primeiro e as trevas ao segundo.
A explicação para o facto reside, todavia, noutro pressuposto: a luz equivale, em certa medida, ao ser; as trevas representam, de algum modo, o nada. E, em geral, perante o nada, preferimos o ser.
Se pensarmos na vastidão sombria do Universo, somos obrigados a concluir que o nada impera enormemente em redor do ser, da mesma forma que – descendo agora a ínfimo âmbito  o vazio reina incrivelmente no interior do átomo.
O cenário não deve ser distinto nas dimensões invisíveis da existência, onde, apesar disso, ainda se continua a presumir que estão envoltas em esplendor as almas dos bons e mergulhadas no escuro as almas dos maus, como se se ignorasse do Inferno o clarão do lume e se excluísse do Céu a temperada noite.
Talvez a luz do ser vá deslizando sobre as trevas do nada. Se assim for, respeitemos os dois pólos deste misterioso deslizar.

domingo, 20 de novembro de 2011

A IGNORÂNCIA DOS OUTROS

Por vezes, cabecinhas geniais decidem ser chegada a hora de apreciar a cultura geral de alguns cidadãos. E os cidadãos em causa podem ser alunos, professores, políticos, reformados, taxistas, transeuntes, actores, por aí fora. O que alegadamente importa é avaliar a sua riqueza intelectual e o esplendor do seu saber. 
Empunhando microfones e acompanhados por câmaras de filmar, jornalistas ou alguém a imitá-los descem à rua ou acedem a vestíbulos, cheios de perguntas e – melhor que tudo – portadores incontestados das respostas. Deve ser uma honra partilhar o mesmo oxigénio com malta tão ilustrada. Menos dignificante, porém, é o que estes doutos vão encontrar: gente que ignora o número de cantos d’ Os Lusíadas, a raiz quadrada de dezasseis, o nome do Presidente da República, a fórmula química da água. Horrível! Devastador! 
Estranho é o facto de os resultados dos testes nunca serem favoráveis aos entrevistados, que acusam falhas, hesitações, míngua de brilho. Parece, pois, que o principal objectivo da diligência não é aferir conhecimentos e corrigir lacunas, antes evidenciar a insciência alheia – e até sugerir a erudição própria. 
Se é lamentável que o semelhante viva atolado em ignorância tão espessa, mais lamentável é aproveitar a circunstância para sujeitá-lo à humilhação pública. 

sábado, 19 de novembro de 2011

O "SENTIDO" DO SENTIDO DA VIDA

Se, movidos por afectivo drama, vício intelectual ou razões menos contumazes, nos dispusermos a colocar a questão de saber qual o sentido da vida, será conveniente gastarmos um minuto a colocar a questão do sentido de tal sentido. É como se indagássemos um “meta-sentido”, capaz de conferir sentido a todas as metas.
Exercitando-nos dessa forma, rapidamente notaremos que andar à cata de sentido para a existência é um jeito de mostrar apetite, ainda que indirecto, por um lugar seguro e eterno, onde a finalidade se misture com o valor. 
Lugares do género ou já se encontram aqui ou não se encontram em parte alguma. Ora, por um lado, nunca o lugar foi senão aqui; por outro, o que há de eterno e seguro num lugar não lhe pertence, mas só eventualmente a quem o ocupa.
A imediata consequência disso é que a questão do sentido da vida deixa de traduzir um importante enigma e passa a exprimir um doloroso equívoco.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A SÍLABA

Ao abrir um dos seus magníficos poemas, Eugénio de Andrade assegura que andou toda a manhã à procura de uma sílaba – e que ela lhe fazia falta, o que aliás não gera grande espanto. Refere ainda, entre mais aspectos, que só essa sílaba o poderia defender do frio e da estiagem. E fecha assim o desafogo: «Uma sílaba. / Uma única sílaba. / A salvação.»
O derradeiro verso é susceptível de nos sugerir que o autor de As Palavras Interditas demandava, sem consciência disso, a sagrada e famosa sílaba Om, visto esta constituir um som que – usado em jeito de mantra, com valia cósmica e sabor primordial, no âmbito do hinduísmo e de outras práticas religiosas e esotéricas – possui alegadamente um alcance redentor.
Asseveram peritos que tal mantra é flecha e Deus é o seu alvo. Por consequência, entoá-lo ajuda a pessoa a encher-se de Deus – embora haja quem, sucinto em paciência, se tenha acabado por encher do mantra. Consola saber que, insistindo indefinidamente em articular uma sílaba exclusiva, acordaremos dentro do Divino ou o Divino acordará dentro de nós.
Alguns preferem tecer discursos mais elaborados, inclusive de carácter filosófico. Mas, para bom entendedor, uma sílaba é suficiente – e Deus é bom entendedor. Ou talvez não o seja – se é necessário, para que ele finalmente nos “entenda”, repetir tanta vez a mesma coisa.
Se calhar, Eugénio buscava um som menos monótono – ou o lado menos monótono do som. De qualquer forma, é tão difícil perceber o modo de encontrar a Divindade como descobrir que sílaba procuram os poetas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

OU PENSAR OU SENTIR

Se alguém afirma que Deus é para ser sentido e jamais para ser pensado, então pensa que alguma vez o sentiu, sendo que na altura sentia-o e não o pensava. O defensor desta tese arrisca-se, pois, a cair em duas contradições tão grandes como Deus, não fosse Deus maior que todas as contradições: a primeira decorre de pensar que Deus unicamente pode ser sentido, o que é impossível, visto que desse modo já o pensou; a segunda decorre de admitir que sentiu Deus sem o pensar, o que em rigor nunca lhe permitiria pensar que o sentiu.
Dirá uma pessoa mais entregue a sentir o Divino que a pensá-lo: «Jogar com as palavras não te leva a lado nenhum, vazia criatura!» Eu sei que não, eu sei que não! Tanto assim é que inclusive agora – apesar da vulgaridade do instante – chego a pensar que estou a sentir Deus. O problema é que, justamente porque o penso, não tenho a certeza de que o sinto. Bacorejo que até ao derradeiro minuto, aquele que há-de preceder a minha eventual diluição no Todo, serei, mesmo se pouco, sempre céptico. Só depois de abandonadas as últimas sombras do meu ego é que deixarei de ser céptico de todo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

APOSTAS

             Suponhamos que duas pessoas, depois de intensa discussão em torno do problema relativo à continuidade ou não da vida após a morte, descobrem serem incapazes de persuadir o interlocutor da verdade da tese que perfilham. Uma delas sustenta que não só há vida após a morte, como o sujeito conservará intacta a identidade, ainda que privada dos aspectos mais densos, em concreto os atinentes ao corporal invólucro. A outra defende que a aniquilação é o destino comum a todos os seres conscientes. Perante isto, decidem submeter a uma aposta as respectivas opiniões, sem benefícios relevantes para o vencedor, excepto o facto de ter tido razão.
            Eis, em consequência, duas situações possíveis, entre várias de fácil achamento, no tocante ao resultado da aposta: se houver vida após a morte, ambos ficarão a saber quem a ganhou; se não houver vida após a morte, nenhum ficará a saber quem a perdeu. Daí que, a esse nível, se registem ligeiríssimas vantagens em acreditar na persistência do eu além-túmulo ou, pelo menos, em dizer que se acredita. Aliás, quando encarada sob o ângulo das regalias a obter – e Pascal compreendeu isso ao expor uma engenhosa aposta na existência de Deus –, a vivência religiosa costuma surgir como particularmente sedutora. Adoptá-la nada inspira de censurável: cada um gere os prós e os contras da doutrina de forma adequada à sua dose de angústia e de sonho.
            A única circunstância a merecer reparo é aquela em que a criatura humana – manipulada por agentes que lhe “lavam” o cérebro com total impunidade – vê tolhido o exercício normal de um raciocínio tranquilo pelo devaneio pernicioso de uma crença alucinada. Não é admissível que, procurando incrementar no indivíduo a ânsia do proveito em termos de devoção, se acabe por forçá-lo a prescindir do uso elementar do intelecto.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

DEUS E O MAL

          O mal – seja o natural, que inclui as catástrofes evidentes e as biológicas falhas, seja o moral, que inclui a crueldade atroz e a vulgar canalhice – representa o grande obstáculo à crença na existência do Deus omnisciente, omnipotente e sumamente bom, constituindo uma espécie de sombra que parece ofuscar, sem remédio, a perfeição suprema.
          O ateu vê ali um forte motivo para rejeitar o Artífice Luminoso. O teísta encontra ali uma viva ocasião para mostrar os insondáveis mistérios do Altíssimo. Aquele aprecia argumentos gastos; este delicia-se com justificações estranhas. Acontece até que, enquanto os ateus partem do mal para negarem a existência de Deus, alguns teístas ultrapassam expectativas: partem de Deus para negarem a existência do mal.
          O que ambos os grupos esquecem é que, mais importante do que saber se Deus existe perante o mal que há no mundo, é saber de que modo, perante o mal que há no mundo, Deus chegou a existir. Não se trata de constatar um efeito e de legitimar ou não uma causa: trata-se de indagar como é que tal causa se gerou a partir do constatado efeito.
          Esta pequenina metamorfose talvez nos permita dispensar as precárias teodiceias e, ao mesmo tempo, as investidas ateias. E talvez nos ajude a ficarmos mais atentos não ao espírito divino e ao sossego da sua natureza, mas ao espírito humano e à natureza do seu desassossego.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O RISO E O DESESPERO

Se, como Demócrito sustentava, os átomos se deslocam através do vazio, então também é possível que o vazio se desloque através dos átomos. E não será fácil avaliar qual dos movimentos é o mais belo.
Se, como Kierkegaard sublinhava, o indivíduo está só perante Deus, então também é provável que Deus esteja só perante o indivíduo. E será difícil decidir qual das solidões é a maior.
Demócrito sabia cultivar um amplo riso. Kierkegaard optou por granjear o desespero. É natural que assim acontecesse: o primeiro ria porque num Universo desencantado não há nada a perder; o segundo desesperava por receio de que se não haveria de salvar.
A existência nunca é, em si mesma, um pesadelo. O pesadelo tem início se, com boas ou más razões, deixamos de aceitar uma parte da existência  seja aquela onde mora o desespero, seja aquela onde o riso não floresce.

domingo, 13 de novembro de 2011

O BRILHO DAS IDEIAS

                Por vezes surge em nossas cabeças uma ideia cintilante, digna de ser convertida em prosa. Ao transpô-la para o papel, no entanto, começamos por notar que as palavras iniciais – sinal de que não foram ditadas pelos deuses – lhe roubam algum brilho; as primeiras frases tiram-lhe mais um pouco – e dois parágrafos bastam para anularem o restante.
             Ainda o texto, motivado por tão interessante ideia, não chegou ao fim e já chegou ao fim o interesse pela ideia que motivou o texto.
            O problema, como é óbvio, não decorre da insuficiência do vocabulário disponível, antes da ingenuidade de supormos que a luz que há nas ideias se mantém quando as trazemos para outra luz.
            O mundo vai ceifando lentamente a nossa vocação para o esplendor. 

sábado, 12 de novembro de 2011

PARTICULAR E UNIVERSAL

Um indivíduo opta por cismar longamente em torno de dramas particulares; outro decide reflectir profundamente sobre dramas universais. Aquele deixa-se conduzir pelas formas da sua mente desregrada; este não deixa de conduzir, de forma regrada, a sua mente. O primeiro alimenta as labaredas de um inferno imprevisível; o segundo suaviza as chamas de um purgatório disciplinado.
Ambos imersos na selva do intelecto, adere aquele à crueza das vivências que imita; oferece este a sageza ao real que examina. O primeiro cai no visco da proximidade; o segundo controla o risco do distanciamento.
Algumas vozes garantem que, bem mais do que o segundo, ficará sensível o primeiro à dor alheia. Não nos precipitemos, por favor, pois nem cismar nos torna compassivos nem reflectir nos torna desumanos. Além disso, a cisma é sobretudo autocentrada; a reflexão liberta-nos do eu. 
Resta dizer que, independentemente do grau de verdade atingido por cada um, o resultado prático é sempre desigual. Se o primeiro se obriga a ampliar a desdita e a repeti-la, o segundo consegue esvaziar a mente e serená-la: aquele, por ter cedido à intensa amargura das imagens; este, por ter gerido a luta inevitável dos conceitos. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11/11/11 - "PORTAL DO DESPERTAR"

A excitação pode ter conduzido alguns ao delírio. A verdade, porém, é que os trabalhadores da luz – pelo menos os mais atentos – vêem chegado o dia por que tanto ansiaram: hoje, precisamente. Consta que a data 11/11/11 representa um Momento Cósmico, relativo à abertura de um Portal do Despertar. Há muito que o evento vinha sendo anunciado por entidades angelicais e mestres que pontificam nas altas dimensões, em prosa fatigante, embora plena de optimismo.
Pela minha parte – sabendo-me doutrinado na escola dos cépticos e instruído no pessimismo de Schopenhauer –, julgo-me criatura insusceptível de acordar finalmente para Deus. Logrando-o, no entanto, nem assim a suspeita evitaria: será que as almas deixam de dormir ou só muda a maneira de sonhar?
Vai-se abrindo o Portal solenemente. Creio ouvir o ranger das dobradiças. Mas o meu sono é denso e obstinado.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

EXCESSO DE REFLEXÃO

Reflectir em excesso sobre Deus, em especial o da concepção teísta, mais depressa conduz à irrupção agridoce da dúvida do que à solução tranquila do dogma. Daí não ser fácil imaginar de que modo grandes filósofos – mormente os da época medieval –, empenhados em mostrar a harmonia entre as verdades da fé e as que acompanham o suor extenuante da razão, alcançavam o repouso mental de quem esclareceu mistérios e diluiu enigmas.
Mas será que o alcançavam de facto? Possivelmente, não só isso acontecia, como até, por vezes, em virtude da intensa devoção, obtinham divinas, terminantes e inefáveis recompensas. Lembremo-nos de Tomás de Aquino, por exemplo. Condiscípulos seus apelidaram-no de boi mudo, embora – Alberto Magno o profetizara – os mugidos do boi haveriam de fazer-se ouvir no mundo inteiro. Efectuando uma brilhante síntese – por acaso pouco sintética – entre as especulações aristotélicas e os ensinamentos cristãos, o Doutor Angélico terá tido, três meses antes de morrer, uma visão sobrenatural que o levou a desistir da escrita e a declarar que, em comparação com o que aí lhe fora revelado, tudo quanto redigira lhe parecia palha.
Nem todos gozariam êxtases do género. Como quer que fosse, pelo menos depois do percurso do autor da Suma Teológica, ficámos a saber que um boi mudo, entretanto tornado sonante em conteúdos metafísicos, recusa a palha insossa do intelecto após provar o místico alimento.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

UMA QUESTÃO DE INFLUÊNCIA

Trata-se, aparentemente, de uma falha grave, sobretudo em alguém dedicado a abordagens metafísicas, esotéricas e afins. Certo, no entanto, é que a astrologia nunca me despertou o mínimo interesse. Ao cabo de trinta e cinco anos – atingida pois a idade que talvez seja o meio do caminho em nossa vida, assim a baptizou Dante –, divididos entre a curiosidade natural e o espanto implacável, os astros ainda não instalaram em mim o pendor necessário ao estudo dessa elevada arte, que – além de os ver espelhados no destino humano – revela nexos, augura coisas, define leis.
Por vezes, retiro da estante um volume consagrado à temática. O polegar direito assume a tarefa de fazer correr as folhas: pára na introdução, avança até uma página vizinha da cem, vasculha o crepúsculo, detém-se no epílogo e solta, por fim, uma contracapa onde surgem algumas palavras inúteis. O livro regressa ao intervalo que lhe pertencia, e eu experimento o desencanto de quem em livros tais só prevê ler entulho, treva, confusão e dogma.
Dir-se-á que a minha postura traduz um imenso equívoco existencial. Discordo: quando muito será pressentimento, quiçá obtuso. Em todo o caso, ficar-me-ia bem reconhecer, com científica humildade, a nobre e sublime influência dos astros. A verdade é que não apenas a reconheço, como a julgo suficientemente benéfica para nem sequer ousar opor-me a ela. É também por esse motivo que a astrologia se mostra incapaz de me seduzir: não estou disposto a trocar a honesta influência dos astros pela duvidosa influência dos astrólogos.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A DIFÍCIL ORIGINALIDADE

Ser original já é muito difícil. Ser difícil já é pouco original. Há escritores que, procurando contrariar a primeira ideia, acabam por reforçar a segunda. Encontramo-los em todos os géneros literários, ficcionais ou não. Enigmáticos na materna língua, os seus textos tornam-se buracos negros quando vertidos em outra.
         Colocados diante de palavras assim entretecidas, até podemos sofrer um rude golpe na nossa auto-estima, sobretudo se não tivermos razões para duvidar das competências exegéticas que arduamente aprimorámos. Trata-se de um incómodo bastante escusado. Tais autores, mais do que reverência tola ou censura precipitada, merecem genuína compaixão: existem vaidades a sustentar, carências a esconder, atenções a atrair. No fundo, no fundo, nada de particularmente inédito dentro da condição humana. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

SOLUÇÕES DÍSPARES

           Não é invulgar as duas soluções serem adoptadas pela mesma pessoa que se entrega à demanda espiritual: por um lado, a genuína opção de viver o instante em plenitude; por outro, o apetite desenfreado de ascender às inefáveis regiões divinas.
         A primeira leva o indivíduo a apreciar rosas, a colher pormenores e a descruzar os braços; a segunda condu-lo a entoar orações, a imitar gurus e a cruzar as pernas. Não sendo modos incompatíveis de suportar as asperezas da existência, são no entanto maneiras contraditórias de encarar o sentido da acção.
        Além disso, o sonho de fruir luminosos êxtases no futuro obscurece o júbilo de gozar os íntegros frutos do presente. Submetidos em simultâneo a ambos os pólos na orientação do agir, arriscamo-nos, por efeito da amálgama, da indefinição e do hábito, a instalar nas nossas mentes duas faces do desconforto: o tédio de pressentirmos que tudo agora nos faz embrutecer e a ilusão de supormos que um dia alguém nos há-de salvar.

domingo, 6 de novembro de 2011

FUSÃO E SOLIDÃO

João Escoto Erígena, admirável filósofo do século IX, legou-nos uma reflexão que suscita ampla perplexidade: «Se eu compreendo o que tu compreendes, converto-me no teu próprio entendimento e, de certa maneira inefável, converto-me em ti próprio. E quando tu compreendes o que eu compreendo, convertes-te no meu entendimento, e dos dois entendimentos resulta um só, constituído por aquilo que ambos sincera e correctamente compreendemos.»
Este excerto, afirmando o derrube das fronteiras que justificam a alteridade, sugere um modo bastante eficaz de abolir a nossa estrutural solidão – e, a fortiori, o solipsismo caprichoso –, embora o mais provável é que a faça ainda maior. Em virtude do carácter indizível do referido acto de conversão, usemos com prudência (não vai ser fácil) as palavras de que dispomos. 
Segundo Erígena, dois seres humanos que se compreendam reciprocamente fundem-se um no outro, acabando – a consequência é inevitável – por formar uma só identidade. Ora, tal abordagem parece tender em exclusivo para a dimensão intelectual, o que a torna parcelar e redutora. Podemos, igualmente, perguntar qual o critério de reconhecimento da existência de uma fusão efectiva. Trata-se de um critério difícil de estabelecer, mesmo se admitirmos uma fusão completa e não limitada ao entendimento.
O facto de a pessoa A se transformar na pessoa B, passando a coincidir com ela, em nada se diferencia do facto de a pessoa B se transformar na pessoa A. Registando-se uma identificação, como notar as mudanças ocorridas? A verificarem-se, por exemplo, a perda de memórias próprias e o ganho de recordações alheias, a nova entidade seria incapaz de avivar lembranças que deixaram de ser suas e de reparar nas que entretanto o começaram a ser. 
Deduz-se, pois, que essas fusões das almas não anulam a vasta solidão, nem talvez quando Deus também se envolve: fundir-se em Deus, em vez de mostrar como é relativa a solidão humana, apenas revela como é absoluta a solidão divina.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O BURRO IMÓVEL

Conheço um burro que, no tranquilo pascigo onde decorre grande parte da sua vida quotidiana, representa um núcleo de evidente sabedoria. Isto apesar de toda a negatividade de que a espécie asinina foi coberta, só porque o ser humano achou por bem associá-la a falhas do pensar e a inépcias do agir.
Se a chuva desce furiosamente, aquele burro imobiliza-se. A estratégia, embora se afigure tola, visa quase de certeza minimizar o desagradável efeito da água a cair-lhe no corpo: não a podendo evitar, o animal resolve eleger uma sensata quietude que o ajuda a tolerar no pêlo e na alma, sem sinais de ira nem de vã resignação, a violência líquida dos céus.
         Naquela postura de estátua, ele fixa o olhar num ponto do mundo que talvez lhe sirva de trampolim para secretas viagens interiores. Parece um filósofo amplamente meditativo ou um místico divinamente extasiado. Mistura a dor de ser com a alegria de existir. É uma criatura dividida entre dois mistérios: o mistério que as coisas geram nela e o que ela, como as coisas, gera em nós.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A SOLIDÃO DA ETERNIDADE

«Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?», perguntava-se no tempo de Santo Agostinho. «Preparava a geena», respondia certo gracejador, «para aqueles que perscrutam estes profundos mistérios».
A questão, no entanto, já passou de moda. Aliás, o que mais importa hoje é indagar, não o que fazia Deus antes de criar o céu e a terra, mas o que fará depois de eventualmente os destruir. Suponhamos – também para actos de suposição nos deram a preciosa vida – que Deus resolvia, com um piparote, aniquilar o Cosmos e todas as repartições inicialmente destinadas a acolher a imortalidade, geena incluída. Sobraria apenas ele, em rematado sossego e inefável solidão.
De que modo haveria de entreter-se a preencher os dias? Oh, pesquisa vã! A eternidade encontra-se acima dos dias. Em tal caso, admitamos que não se encontra acima das noites. Ora, em vez de exercer com imaginação a tarefa de inventar o Inferno para loucas criaturas, Deus tentaria afastar da memória os infernos inventados por criaturas loucas. Em consequência do desempenho, iria diluindo em si a identidade que a recordação garante, e até por inteiro a perderia se, após esquecer os longos infernos, olvidasse igualmente os breves paraísos.
Calada em definitivo a lembrança das coisas, restaria só a Consciência sem objecto a resvalar para dentro do nada absoluto. Não o nada de onde Deus, como sabemos, decidiu tirar o mundo, mas aquele de onde Deus se tirou a si mesmo, sem que talvez ele próprio o soubesse.
Assim se escreveria subtilmente o último capítulo do Ser.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

“NULLA DIES SINE LINEA”

           Escrever todos os dias, mormente se se trata de exprimir reflexões de teor filosófico, pode condenar-nos à redundância. A causa próxima é a redundância da mente, associada à redundância que existe nos dias. Também o esforço de redigir sobre temas que não sejam redundantes no interior dos dias acaba por ganhar, ao fim de algum tempo, uma redundância idêntica à dos dias, sujeitando os temas a igual redundância.
        Acontece, porém, que escrever só de vez em quando pouco ajuda a melhorar a situação: textos ocasionais não tornam o espaço da escrita menos redundante, apenas tornam a redundância da escrita mais espaçada.
         O imperativo de não haver dia sem linha é compatível com a liberdade de não exceder uma linha por dia. Talvez até fosse interessante se tais linhas não formassem ideias completas e se, no dia seguinte, evitássemos dar continuidade à linha do dia anterior. Deste modo, com pensamentos encetados e logo de imediato interrompidos, anulava-se a redundância no exercício de escrever todos dias e, pelo menos a esse nível, os próprios dias deixavam de ser exercícios redundantes.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"QUEM SOU EU?"

Colocar a questão “Quem sou eu?” é um exercício de escasso conforto e sinuosa esperança que subentende a presença de um eu – ou, pelo menos, de alguma entidade que legitimamente o substitua. Aí, de resto, o equívoco é mínimo e até seria nulo se, em vez de “Quem sou eu?”, a interrogação fosse “Quem é isto?”. Ignorando agora esse detalhe, cumpre notar que a maior imprudência intelectual, no momento em que a questão se coloca, é a de admitir o carácter permanente, separado e inamovível daquela entidade.
Consideremos, pois, que há um núcleo de existência que justifica a pergunta, mas sem a fixidez de um busto sério nem o rigor mental de um axioma. Isto conduz-nos à hipótese de a questão – ao longo de um dia, por exemplo – emergir sempre de realidades diversas, susceptíveis de lhe conferir um sabor exclusivo. Perguntar “Quem sou eu?” logo que se acaba de sair do sono é diferente de o fazer ao almoço, entre duas garfadas de arroz de ervilhas, ou no meio de uma rua, ao anoitecer, quando em redor, como Cesário Verde, deparamos apenas com soturnidade e melancolia.
Se, ao despertarmos, a questão parece oriunda de um vago cenário onírico por onde a consciência andou dispersa, ao almoço, enquanto mastigamos, ela sugere nascer de um organismo que mantém com as coisas uma relação medianamente pacífica (ainda que parcialmente trituradora), insinuando à noitinha, debaixo de luzes pálidas e lúgubres sombras, ter brotado de muitos pontos do globo terrestre, como se indefinidas vozes a exprimissem em simultâneo.
Deste modo, não será incorrecto afirmar que estamos diante de três questões que variam entre si, mais do que de três variantes da mesma questão. A primeira é unificadora; a segunda é inoportuna; a terceira é cosmopolita. Todas elas nos dizem algo acerca do eu: a primeira concebe-o na memória de um sonho; a segunda distingue-o na ilusão de um corpo; a terceira descobre-o na incerteza do mundo.