sábado, 17 de setembro de 2011

O "SAMSARA"

O pensamento budista atingiu a rara proeza conceptual de admitir a doutrina da reencarnação sem recorrer a um agente reencarnante. Banida a ideia de um eu estável, de uma identidade fixa, resta esse devir confuso, dramático ou, jurarão alguns, cómico.
Vidas e corpos são reinventados pela força do medo e pelo imperativo do desejo, num turbilhão de alucinações potencialmente dolorosas. E o erro prolonga-se, infatigável, pelo menos enquanto a ilusão da permanência alimentar a permanência da ilusão.
É preciso extinguir o processo, dizer: «Acabou! Deixei de ser parte integrante deste ciclo falso de imagens fracturadas.» Mas não basta declará-lo. Exige-se mais qualquer coisa, entre o gesto desprendido e o desprendimento absoluto. Depois – consta – é o despertar, a fruição do vasto amplexo do nirvana.
«E a seguir ao nirvana?», pergunta o impaciente. A resposta chega silenciosa. Ou talvez até nem chegue. Há quem se preocupe demasiado com o futuro – e isso, geralmente, não é bom.

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