sábado, 3 de setembro de 2011

MUITO SIMPLESMENTE

O mestre espiritual indiano Ramana Maharshi, que alguém descrevera como parecendo muito simplesmente existir, sabia por experiência que, superado o falso eu inventado pela mente, só poderia restar o Si, ou a Realidade, ou a Consciência, ou o Infinito – ou o que se lhe quiser chamar.
Se lhe perguntavam o que é a realização, respondia, com naturalidade, que ela consiste em desembaraçarmo-nos da ilusão de que não estamos realizados. Era uma definição bastante clara, talvez traduzível neste conselho: Rende-te ao que sempre foste. Fácil, escandalosamente fácil.
Ramana Maharshi, que abandonou o mundo em 1950, deixaria alguns devotos – sem que nada houvesse feito por isso – apostados em prostrarem-se diante da sua imagem, como se, no fim de contas, não tivessem percebido o essencial do que ele dissera. A famosa frase de Che Guevara “Prefiro morrer de pé que viver sempre ajoelhado” sofre aqui uma curiosa subversão: “Aprendi a ficar ajoelhado perante quem me ensinou a viver de pé”.
          Se não nos vamos salvar da ironia, que ao menos a ironia nos venha salvar. Mesmo se, muito simplesmente, já estivermos salvos. Desta vez sem ironia.

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