sexta-feira, 30 de setembro de 2011

HUMOR OCO

O ateu militante, na luta encarniçada contra o defensor da “heresia” teísta, gosta de cultivar o humor que a sua condição, solta da obediência sisuda a entidades transcendentes, em princípio lhe deve permitir. Prova disso é a afirmação de que ele, ateu, só acredita num deus a menos que o seu rival monoteísta.
O único senão é que a piada é oca. Afinal, qualquer que ele seja, o crente coloca muito mais força, poder, volume e energia num deus único do que em trinta mil oitocentos e quarenta e sete. Esta multidão cabe num bom estádio de futebol. Aquele solitário excede, habitualmente, os limites do Universo.
Diante de um panteão, não interessa discutir quantos deuses o ocupam, mas a intensidade com que deles nos ocupamos. Mais do que saber se é possível esvaziá-lo de inquilinos, importa é perceber de que modo esses inquilinos lá costumam entrar.
O ateu que ignora isto revela, no fundo, que a si mesmo se ignora.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

AS DUAS LEITURAS

        Abro um livro intitulado Como Interpretar Os Sonhos e vou direito à palavra caixão. Se, no sonho, virmos um, isso é sinal de que seremos convidados para um casamento. Se estivermos deitados dentro dele, então espera-nos vida longa – talvez se trate da vida eterna.
        Folheio outro volume, igual no título, diferente na capa. Aqui, sonhar com um caixão significa a morte de alguém conhecido, o rompimento de uma relação ou o convite a que se mude uma atitude mental incoerente. Se o esquife se encontrar vazio, a imagem é um aviso a que evitemos investimentos arriscados.
        Rigorosamente falando, a segunda interpretação não se opõe à primeira. Sem forçarmos o intelecto, até poderíamos dizer que a complementa. Seja como for, há uma importante lição a extrair de tudo isto:

                 Antes de nos dedicarmos
       a sonhar com um caixão,
       será sensato escutarmos
       mais do que uma opinião.   

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O VIDRO


         No café, uma libélula investe contra a ampla vidraça. Lá fora há carros estacionados, candeeiros discretos, árvores em tímida agitação. A libélula descansa durante alguns segundos, até voltar ao frenesi de quem procura atirar-se para dentro de um mundo próximo e, em simultâneo, inacessível.
A realidade não exige sentido, explicação nem emenda. Encontra-se por aí, absolutamente inexprimível em si mesma. As palavras emergem, num milagre sem autor definido. Erguem um vidro resistente. Compor o texto é percorrer o vidro. Temos a crença de que as coisas se deixam atrair pelo exercício do verbo.
Paramos a ler as sílabas ajustadas à ilusão. E regressamos à escrita. O exterior seduz teimosamente. Rouba-nos o sossego de existir.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A FOGUEIRA DO PANTEÍSTA

No ano de 1600, Giordano Bruno, inclinado ao panteísmo e apaixonado pelo infinito, acabava os seus heréticos dias numa fogueira à qual amorosamente o condenaram os senhores da Inquisição. «Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la», teria declarado o filósofo no tribunal depois de conhecer que o lume era o destino.
É de admitir que, além do alegado temor, haveria, quase de certeza, na alma de tais juízes uma vocação para o remorso bastante sumária – se alguma havia. Por outro lado, quando os réprobos eram panteístas, talvez o eventual sentimento de culpa de quem decretava o castigo se dissolvesse como o fumo a elevar-se dos corpos a arder. É que um panteísta – pensariam os juízes –, ao dizer que tudo é Deus, não deve experimentar senão conforto, qualquer que seja a realidade particular que o envolva.
Essa dedução constituiria um refrigério para tão atormentadas consciências e, no limite, fazia da aplicação da pena um acto verdadeiramente redentor. Poéticos e compassivos, os juízes até poderiam dirigir-se ao filósofo deste modo: «Giordano, caro Giordano! Entregamos-te aos braços do Divino. Tu o defendes e sabes: eles são robustos, intensos e calorosos. Existem em toda a parte e esperam no fogo por ti. Sê digno, pois, do seu doce aconchego!…»
O aconchego, mais do que doce, era exagerado. Mas, sobretudo para um panteísta, isso não passaria de um simples detalhe.    

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"O MUNDO É MESMO PEQUENO!"

É vulgaríssimo. Uma pessoa encontra outra que já não vê há mais de quinze anos, numa cidade eventualmente estranha para ambas. Qualquer das duas pode ser tentada a exclamar: «O mundo é mesmo pequeno!»
Com essa frase, o sujeito contrai a extensão do espaço – pelo menos daquele que o orbe ocupa – e minimiza os efeitos do tempo – pelo menos daquele que a memória conserva.
Repetir a ideia de forma continuada talvez leve à revogação do acaso, à anulação da distância, à fruição do momento e, sobretudo, à progressiva descoberta da nossa íntima grandeza. Da real ou da ilusória? Se possuímos cómodas respostas, para quê tão incómoda pergunta?


domingo, 25 de setembro de 2011

O INTERVALO


Sabem-no os especialistas. Um pensamento desaparece, o seguinte ainda não chegou: há um intervalo – temporal e espacial – que os separa. Aconselham então: Escolhe o hiato, mergulha na abertura, aproveita a fenda. Este exercício de meditação conduz à experiência da suprema vacuidade. Sakya Pandita via no meio de dois pensamentos «uma continuidade inquebrantável de luminosidade clara». Uma continuidade no descontínuo. Bela, sem qualquer dúvida.
A teoria é idónea. A exortação é amável. A prática é espinhosa. Admitamos que o primeiro pensamento é a representação de um monge solitário a dar pequenos saltos no deserto à hora do crepúsculo. A mente, porventura desejando copiar o eremita, dá também um salto e logo o segundo pensamento lhe acontece: uma jovem mulher, em circunstâncias a definir, tirando uma peça de roupa de cada vez que ouve a palavra não.
Extinta a imagem do anacoreta, advém um suposto interregno e, de imediato, surge a mulher a despir-se. O certo é que o sujeito apenas repara na hipótese do interstício quando já se encontra perante o desnudamento. Ele poderá ensaiar o pulo contrário e regressar ao deserto. Porém, o malogro é idêntico: só alcançando o pensamento anterior é que a mente se apercebe de que saltou, sem direito à opção de cair na translúcida fenda.
Por isso, ou o pulo é tão rápido que o movimento se torna imperceptível ou, em rigor, a alegada fissura é ilusória. Haverá uma terceira possibilidade? Não, não, não. Há, sim: os pensamentos deslizam por cima do grande vazio; o eu desliza por cima dos pensamentos… Nesse caso, que fazer? O melhor mesmo é não pensarmos mais no assunto.

sábado, 24 de setembro de 2011

OMNIPRESENÇA

O conceito de omnipresença, aplicado ao Deus perfeito dos teístas, define-se como a capacidade que o Ser Supremo tem de se encontrar, simultaneamente, em todos os lugares, pontos e intervalos da sua extensa criação. Acrescente-se que Deus existe de um modo integral em cada um de tais espaços. Sendo assim, em termos de presença divina, o particular coincide com o universal, pois este não deixa de ser universal ao comparecer de maneira particular: Deus nada perde do que traz em si enquanto envolve as pétalas da rosa. É possível até que acabe por ganhar algum perfume, embora o Cosmos, a nível de estímulos sensoriais, seja bastante desigual.
Interessa ainda realçar que ser omnipresente equivale não apenas a ocupar os espaços vazios, como também a ocupar os seres que ocupam esses espaços. Ora – a exactidão a tal obriga –, não há outra forma de ocupar um ser senão a de ser o próprio ser que se ocupa: o Criador só habita uma árvore por inteiro se for, por inteiro, a árvore que habita. Morador de todos os seres, Deus é todos os seres que lhe servem de morada.
O teísta radical é um panteísta secreto.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

LIXO ANUNCIADO

         A história das vinte e seis peças do satélite UARS que se prevê caírem na Terra durante as próximas horas permite o estabelecimento de uma analogia em que entram também os regimes ditatoriais – e, claro, as formas mais duvidosas de regimes democráticos: alguns colocam o lixo potencial lá em cima; qualquer um pode levar com o lixo real cá em baixo.
A analogia está longe de ser perfeita: a probabilidade de ser atacado pela sujidade política é tremendamente maior do que a de ser atingido pelo detrito espacial. «Infelizmente!», dizem uns, focados apenas nos prejuízos efectivos da primeira. «Felizmente!», comentam outros, centrados tão-só nos danos imprevisíveis do segundo.
         O problema é que não se exclui a hipótese de se ser vítima de ambos os tipos de despejo. Nessa altura, haverá razões para perguntar se vale a pena o esforço de viver num mundo assim. Isto se as pancadas não tiverem sido suficientes para neutralizar a própria vontade de fazer questões.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O TÉDIO DOS DEUSES

As palavras tédio e remédio formam um par de convívio sadio em poesia de rima fácil. É provável que se trate da solução literária deste real desajuste: tédio longo, remédio escasso. Supõe-se, inclusive, haver uma espécie de tédio que excede a curteza das vidas e se introduz nos vastos salões da eternidade. Deve ser a sensação que emerge diante do vazio universal – ou de alguma plenitude gasta e repetida. Talvez os deuses a conheçam bem. Talvez sofram o incómodo de experimentarem um enfado de tais proporções. Aparentemente, não há remédio que o suprima. A não ser que os deuses se precipitem dentro do vazio, se confundam com ele – e alcancem a virtude derradeira: a pura inconsciência de existir. E é tudo.
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

SÁBIO REPOUSO

«Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração», escrevia Antero de Quental ao abrir mais um soneto. O poema é o declarar de um sono, evasivo ou não, obtido graças a uma douta renúncia. Deixo, todavia, a abordagem da composição para quem melhor a faça. O que me suscita análise é que Antero opte pela «mão direita» da Divindade, sendo que teoricamente – e excluindo bíblicas predilecções – nada o justifica. É sabido que Deus, em virtude da sua infinita simplicidade, não tem partes. Por isso, no âmbito do divino, a “mão” resulta enquanto imagem, mas confunde se a preferência é dada à dextra ou à canhota.
Porquê «mão direita»? A escolha não deve ter sido de todo consciente. Julgo que o motivo se prende com o apelo da rima. Usando a palavra direita, o vate conseguiu facilmente encontrar uma «escada estreita», uma «forma imperfeita» e flores com que tanta coisa «se enfeita». O campo é vasto. Servindo-se da palavra esquerda, acharia o léxico disponível bem menor, como se constata recorrendo a um Dicionário de Rimas que o próprio Antero poderia ter consultado: perda, lerda ou, mudando o som, herda, cerda – e alguma outra que agora me não ocorre. Quase tudo inoportuno.  
Duvido que Antero estivesse a pensar em termos de posições políticas e ideológicas. A criatura que se afundou no sossego proporcionado pelo Criador já não é de esquerda nem de direita, se um dia o foi. Tal distinção, de carácter mundano e faccioso, é pouco útil quando desejamos repousar – e bastante inútil quando repousam os desejos.  

terça-feira, 20 de setembro de 2011

SUPRIMIR O "SUPÉRFLUO"

Uma das regras do novo Acordo Ortográfico diz para não se escrever o que não se pronuncia, decretando assim a abolição das letras silenciosas das palavras. A regra não deixa dúvidas, mas alimenta suspeitas. Embora pareça mero desejo de excluir o supérfluo, ela talvez leve a imaginar um conluio inquisitorial. A supressão das consoantes mudas pode sugerir este desígnio sinistro: mutilar o pensamento, começando com pequenos cortes na língua.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O ETERNO PRESENTE

Quase a fechar o seu célebre Tractatus Logico-Philosophicus, escrevia Ludwig Wittgenstein que, se se compreender a eternidade como intemporalidade, «então vive eternamente quem vive no presente» (1).
Logo após a abertura de Quatro Quartetos, T. S. Eliot anunciava que «Se todo o tempo é eternamente presente / Todo o tempo é irredimível» (2).
Partindo das duas reflexões, talvez seja legítimo concluir que viver no presente não só impossibilita a redenção, como a torna desnecessária. Claro que, para sermos exactos, é no presente que todos vivem. Sucede, no entanto, que nem todos vivem o presente. E é disso que se trata.
Acrescente-se que viver o presente apenas será sinónimo de carpe diem se a fórmula horaciana for entendida no seu sentido original – “colher o dia de um modo sábio” – e não como apelo a um hedonismo desenfreado, incapaz de se reconhecer a si mesmo.
Admitindo, portanto, que o tempo se encontra inteiro – passado e futuro – aqui e agora, deixa de ser obrigatório imaginar miríades de fios invisíveis para estabelecer a ligação entre as coisas, os acontecimentos ou as vidas. A própria noção de karma perde a sua dimensão causal e passa a traduzir a ideia de espelho.
Em rigor, não há pecados que exigem ser redimidos: o que há são ilusões que precisam de ser quebradas.


(1) Ludwig Wittgenstein (1995), Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, 2ª ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 140.
(2) T. S. Eliot (1983), Quatro Quartetos, 3ª ed., Lisboa, Edições Ática, p. 15.

domingo, 18 de setembro de 2011

MOSCAS EM PROTESTO

Há moscas assim: destacam-se por serem maiores e mais ruidosas que o geral das moscas, entram no escritório, zumbem em todas as direcções, desenrolam um voo desvairado, pousam nos intervalos breves do silêncio, ganham fôlego e retomam a sua amarga contestação. Parecem zangadas com o mundo, marionetas do desespero à cata de afecto.
Porém, basta que eu lhes abra a janela para vê-las sair quase de imediato. É provável que elas sintam uma ligeira gratidão, mas afastam-se ainda a lançarem protestos alucinados, em parte por não terem sido capazes de perturbar a minha serenidade. 


sábado, 17 de setembro de 2011

O "SAMSARA"

O pensamento budista atingiu a rara proeza conceptual de admitir a doutrina da reencarnação sem recorrer a um agente reencarnante. Banida a ideia de um eu estável, de uma identidade fixa, resta esse devir confuso, dramático ou, jurarão alguns, cómico.
Vidas e corpos são reinventados pela força do medo e pelo imperativo do desejo, num turbilhão de alucinações potencialmente dolorosas. E o erro prolonga-se, infatigável, pelo menos enquanto a ilusão da permanência alimentar a permanência da ilusão.
É preciso extinguir o processo, dizer: «Acabou! Deixei de ser parte integrante deste ciclo falso de imagens fracturadas.» Mas não basta declará-lo. Exige-se mais qualquer coisa, entre o gesto desprendido e o desprendimento absoluto. Depois – consta – é o despertar, a fruição do vasto amplexo do nirvana.
«E a seguir ao nirvana?», pergunta o impaciente. A resposta chega silenciosa. Ou talvez até nem chegue. Há quem se preocupe demasiado com o futuro – e isso, geralmente, não é bom.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A RARIDADE DA VIDA

Observo pela janela a figueira do exterior, as folhas e os ramos tocados pelo vento. Os frutos existem. Isso basta.
Volto à Internet e colho um pensamento de Oscar Wilde: «Viver é a coisa mais rara do mundo. A maior parte das pessoas limita-se a existir.» Sou obrigado a discordar ou, pelo menos, a dizê-lo de outro modo: é justamente quando uma pessoa se limita a existir que viver se torna a coisa mais rara do mundo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A ANFISBENA

A anfisbena, enquanto figura mitológica, é uma serpente nascida do sangue que gotejou da cabeça da Medusa, transportada pelo herói Perseu, quando este voava sobre o deserto. Característica relevante de tal bicho é a de possuir duas cabeças, uma em cada extremo. Ora, se há duas cabeças, há duas consciências e, no mínimo, duas vontades.
Suponhamos agora que uma das cabeças decidia arrastar o animal para sul, ao passo que a outra resolvia dirigir-se para norte. Se ambas fossem obstinadas, o mais certo é que, após ameaças mútuas em língua bífida, o corpinho da anfisbena acabasse implacavelmente rasgado, deixando as vísceras espalhadas na areia ardente.
          Poderá admitir-se que a criatura detém apenas uma consciência, sendo que esta muda de cabeça como quem muda de canal. No entanto, é pouco provável que um réptil, mesmo da mitologia, seja capaz de tal proeza.
De qualquer modo, a anfisbena à semelhança de outras entidades bicéfalas ou policéfalas parece convidar-nos à reflexão em torno da possibilidade de a consciência ser independente do cérebro, ou de existir, para lá do cérebro, um nível superior de consciência. O assunto é controverso: ilustres neurocientistas reduzem a consciência à actividade cerebral; eminentes filósofos fazem da actividade cerebral um exercício menor de uma consciência maior.
Os defensores de ambas as teses formam, em geral, dois grupos marcados cada um pela sua arreigada teimosia. Desse facto resulta que eles optem por direcções opostas, como se não passassem de cabeças de uma anfisbena gigante, em íntimo conflito, duplamente casmurra.



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

CRIATIVIDADE

Não sei se se trata de simples – embora errada – informação ou se também existe ali alguma queixa implícita contra uma alegada falta de criatividade dos meus amigos. O certo é que, após abrir a caixa de correio electrónico do Hotmail, leio invariavelmente esta mensagem: “Os seus amigos não fizeram nada de novo ultimamente.”

terça-feira, 13 de setembro de 2011

MUDANÇA E MUNDO

“Será que o 11 de Setembro mudou o mundo?” A pergunta, embora legítima, não deixa de ser ligeiramente estranha. Ela parece pressupor que o 11 de Setembro, no que exibiu (e ocultou) de refinada malvadez e trágico efeito, foi um acontecimento exterior ao mundo – e que poderia tê-lo mudado ou não.
Ora, se entendermos o mundo como a totalidade dos seres, factos e respectivas interpretações, então teremos de concluir que nada lhe é exterior – a não ser talvez o próprio Deus, mas aí a história é diferente e merece um tratamento especial. Por outro lado, a mudança não surge só de vez em quando. O mundo encontra-se em incessante mudança – já distintos filósofos o sublinharam.
O 11 de Setembro não sucedeu fora do mundo para, em seguida, lhe imprimir algum tipo de mudança: foi uma parte evitável da mudança que se tornou parte inevitável do mundo. O resto são conjecturas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

OS "EUS"


A distinção é frequente, sobretudo em concepções de carácter esotérico: de um lado, o eu superior, presumivelmente em lugar cimeiro; do outro, o eu inferior, naturalmente em posição subalterna. No essencial, aquele é a livre centelha divina; este, a sede das emoções negativas. Certos autores alertam para a existência de outras configurações do eu, mais ou menos elevadas. Não avancemos por aí.
Admitindo os dois eus referidos, é tentador imaginar que a pessoa, o indivíduo concreto, será um terceiro eu, ora empenhado em agir de acordo com o amoroso chamamento do primeiro, ora impelido a actuar conforme o vicioso impulso do segundo. O cenário passa então a exibir três eus. Um pouco de esforço levar-nos-ia a descobrir mais alguns. Não vale a pena.
Há quem decida “extinguir” o eu, por ver nele uma ilusão da consciência. Há quem resolva multiplicá-lo, por vezes sem consciência da ilusão.

domingo, 11 de setembro de 2011

UMA PERGUNTA COMPREENSÍVEL

“Onde é que você estava a 11 de Setembro de 2001?” A pergunta é certamente compreensível. A resposta é geralmente irrelevante.
A brutalidade excede o conceito. O horror embaraça a ideia. O absurdo gera desnorte. Buscamos então legendas para o drama que as não tem. Procuramos esboçar a nitidez possível  a necessária, mesmo se frágil, redenção.
O sentido das vidas escurece perante o sem sentido que há nas mortes. Talvez uma pergunta nos devolva a claridade: onde estavam os vivos? Mas a noite do mundo dilui essa luz breve: onde estamos todos nós?


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

DINHEIRO E FELICIDADE

A afirmação de que o dinheiro não traz felicidade – mesmo assentando em diversos equívocos associados aos conceitos aí expressos – permite, em geral, distinguir três tipos de pessoas, consoante a intensidade da crença em tal afirmação: aquelas que têm boas razões para acreditarem no que estão a dizer; aquelas que o dizem sem que tenham boas razões para o acreditarem; e, finalmente, aquelas que não acreditam no que dizem, mas gostariam que outros acreditassem.
Julgo que era nestas últimas que estaria a pensar uma mulher de cerca de trinta anos ao propor a seguinte punição, bastante original: «Quem diz que o dinheiro não traz felicidade devia levar com um coelho morto nas ventas.»

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

REENCARNAÇÃO - FRÁGEIS EXEMPLOS

É sabido que a doutrina da reencarnação, partilhada por diversas filosofias, religiões e correntes gnósticas e esotéricas, parte, em geral, da ideia de que há uma alma imortal a mudar de corpo e de vida, até conseguir a libertação deste mundo impuro e pouco lisonjeiro. Essa dança metafísica ajusta-se a música do karma que significa, no presente contexto, um entrelaçado de causas e efeitos, regido pela lei segundo a qual o que hoje somos e vivemos foi semeado em vidas anteriores e, na actual existência, estamos semeando o que em futuras vidas haveremos de colher.
       Tenho perante mim um artigo publicado em 1927, na Revista de Espiritismo (da Federação Espírita Portuguesa), assinado por António J. Freire. O texto, com o título “Lei da Causalidade”, é rico em certezas, pelo que será bom voltar a ele uma e outra vez, correndo embora o risco de ver que tais certezas esvanecem, como o fumo que se escoa pela chaminé mais discreta de Paris.
        Depois de tecer largas considerações sobre o karma, Freire sublinha: «Todos os espíritas sabem que Moisés, o grande profeta Elias e João Baptista foram três vidas sucessivas do mesmo espírito.» De onde se obterão informações tão fidedignas? Não sei. Em seguida, é-nos dito que se vê «nitidamente como cada vida deste santo varão [João Baptista] é o reflexo da vida anterior, numa linha de continuidade progressiva coerente». Nitidez? Coerência? Desculpe, Dr. António, é possível clarificar esses pontos? Sim. Os morticínios que Moisés mandou executar após o episódio do bezerro de ouro e o facto de Elias «ter mandado trucidar os idólatras de Baal» foram as causas que constituíram um «karma explosivo» na vida de João Baptista, acarretando a sua degolação, por ordem de Herodes Antipas.
        A explicação não convence. É difícil perceber de que modo um espírito que, aparentemente, nos é apresentado como autor moral de vários crimes de homicídio em duas vidas consecutivas – Moisés em uma, Elias em outra – tem o dom de ressurgir como um «santo varão», o «espírito mais evolucionado e perfeito daquela época», sendo degolado para, dessa forma, expiar os horrores de um passado atroz. Dir-se-á que se trata de um simples exemplo: é preciso ter ainda em conta as antigas virtudes – que quase o santificaram – e as futuras penas – que o acabarão de redimir. O problema é que tudo isto é demasiado vago, e exemplos assim tão frágeis comprometem o valor da teoria. Eles podem, inclusive, inspirar a proliferação de outros exemplos, bem mais arbitrários, capazes de expor a doutrina da reencarnação às fantasias do delírio e da impostura.



quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PROFECIAS

Passos Coelho diz que 2012 será «o princípio do fim da emergência nacional». Vítor Gaspar diz que 2012 será «o princípio do fim da emergência financeira».
Ambas as afirmações – separadas do contexto que as suporta – acusam um tom vincadamente profético. Para mostrarem que estão a copiar o futuro, alguns profetas fingem-se pouco originais; para garantirem que terão sempre razão, optam pelas vias da ambiguidade.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

DILUIÇÃO DO MEDO

Na História dos Infernos, de Georges Minois, somos informados de que S. Vicente de Paulo, ao pintar os horrores dos lugares de danação, afirmava que os réprobos bebiam, aí, “o fel do dragão e o vinho do áspide”, líquido acompanhamento de uma refeição de “sapos e serpentes, carne já putrefacta”.
Todavia, o ponto decisivo é, claro está, o fogo. E é neste ponto que o terror da abordagem corre grande risco de se dissolver, preludiando até uma vasta compaixão. É que tal fogo, actuando de um modo omnipresente sobre cada parte do corpo e cada faculdade da alma, “parecerá dotado”, escreve o santo, “de uma profunda sabedoria”, precisamente ao diferenciar os pecados entre si, distinguindo por exemplo o incesto do adultério.
Trata-se, enfim, de um fogo inteligente – outros autores já o admitiram – que aplica a pena certa ao condenado, ao encarnar a celestial justiça. Esta descrição pode sugerir que ele é divino e eterno como Deus. Ante atributos tais, sempre haverá quem creia que esse fogo é amoroso. Se nunca foi sensato desejá-lo, perderam-se as razões para temê-lo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O ETERNO FEMININO

Di-lo a Bíblia, mais propriamente no livro do Apocalipse: após a abertura do sétimo selo, fez-se no Céu um silêncio de cerca de meia hora. Baseado no evento, Kant deduziu, com humor, que as mulheres não vão para o Céu: elas teriam impedido que a mudez fosse tão longa.
          Penso que a dedução kantiana é incorrecta. Admitamos que o Céu estivesse despovoado de mulheres, mas apenas enquanto durou o silêncio. Elas terão decidido ausentar-se por um período de trinta minutos. Chegara o tempo ideal de descerem à Terra, que um dia conheceram. Era preciso ensinar aos homens o caminho.

domingo, 4 de setembro de 2011

GRANDES RESPOSTAS

Há questões que um adulto considera pertinentes e que, se colocadas a uma criança, parecerão a esta totalmente supérfluas. E o óbvio acaba por acontecer: perguntas redundantes, respostas desarmantes.
O diálogo seguinte passou num dos canais generalistas, talvez em Outubro de 2005. Pergunta a jornalista a uma miúda de quatro ou cinco anos:
- Tu gostavas de ser uma fada?
- Sim – respondeu a criança.
- Porquê? – quis saber a jornalista.
- Porque nunca o fui.

sábado, 3 de setembro de 2011

MUITO SIMPLESMENTE

O mestre espiritual indiano Ramana Maharshi, que alguém descrevera como parecendo muito simplesmente existir, sabia por experiência que, superado o falso eu inventado pela mente, só poderia restar o Si, ou a Realidade, ou a Consciência, ou o Infinito – ou o que se lhe quiser chamar.
Se lhe perguntavam o que é a realização, respondia, com naturalidade, que ela consiste em desembaraçarmo-nos da ilusão de que não estamos realizados. Era uma definição bastante clara, talvez traduzível neste conselho: Rende-te ao que sempre foste. Fácil, escandalosamente fácil.
Ramana Maharshi, que abandonou o mundo em 1950, deixaria alguns devotos – sem que nada houvesse feito por isso – apostados em prostrarem-se diante da sua imagem, como se, no fim de contas, não tivessem percebido o essencial do que ele dissera. A famosa frase de Che Guevara “Prefiro morrer de pé que viver sempre ajoelhado” sofre aqui uma curiosa subversão: “Aprendi a ficar ajoelhado perante quem me ensinou a viver de pé”.
          Se não nos vamos salvar da ironia, que ao menos a ironia nos venha salvar. Mesmo se, muito simplesmente, já estivermos salvos. Desta vez sem ironia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O SACO

Certa manhã, numa das vilas deste país, retirei de um contentor de lixo um saco de gatos vivos. Tinham nascido há pouco tempo e já um profundo desespero existencial os obrigava a pedir ajuda. Possivelmente, foi alguém com sérias dificuldades auditivas que lançou ali aquele saco por engano. Trata-se apenas de uma hipótese. Haverá outras, como é natural; mas assim de repente não me ocorre mais nenhuma.


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

UMA QUESTÃO DE INTELIGÊNCIA

       Num conto intitulado “O Julgamento de Eva”, Júlio Dantas começa por apresentar Deus em conversa com um dos seus arcanjos. O Criador coloca a hipótese de suprimir e aniquilar as mulheres, por tão mal ter ouvido falar delas. Antes, porém, de se decidir por tão precipitado gesto, propõe-se escutar os homens, especificamente aqueles que, em vida, disseram mal das filhas de Eva.
Sábios, filósofos, poetas, teólogos, doutores, ascetas, reis, e por aí fora, são convocados para exporem as suas concepções (e o seu desprezo) em relação ao sexo feminino. Aparecem ali figuras várias: de Demócrito – que escolhera para o seu leito uma mulher pequena, porque «do mal, o menor» – a Santo Agostinho – que vociferava: «Mulheres, nascer duma, fugir de todas!» –, sem esquecer Schopenhauer – para quem as mulheres eram «animais de cabelos longos e ideias curtas». No entanto, os eflúvios misóginos acabariam por ser neutralizados com facilidade, e as mulheres foram poupadas pelo Autor do mundo.
       O conto fornece o enquadramento para entender um pouco os chamados crimes passionais – maioritariamente cometidos pelos homens, como as notícias não se cansam de o confirmar. As razões imediatas são conhecidas – ódio, sentimento de posse, ciúme patológico, defesa da honra, prova de poder, intolerância à frustração, etc. –, mas decorrem de duas mais gerais: a incapacidade que muitos homens parecem ter de aceitar a autonomia feminina e o medo de perderem uma alegada superioridade que alimentou todas as formas de despotismo másculo.
Esta incapacidade e este medo talvez tenham, por sua vez, uma origem mais profunda, de carácter biológico – se for posta em causa a aparente primazia resultante da força viril –, mas em íntima associação com um motivo premente de natureza intelectual. É que um belo dia (inclusive à noite) o homem descobre que a mulher, afinal, também é inteligente – qualquer que seja o tipo de inteligência em questão. Percebe ainda que ela é capaz, até, de ser mais inteligente do que ele. As premissas, correctas, dão lugar a um argumento falacioso se o sujeito conclui que tal inteligência lhe foi roubada a si, "exclusivo" detentor dessa aptidão.
Ficar sem uma costela no Paraíso até se admite: a causa era boa. Ser privado de uma parcela de intelecto na Terra é algo que o macho considera intolerável. A sua tese de furto, apesar de obtusa, leva-o a clamar por justiça e a usar a força para que a justiça seja feita. Os crimes passionais – e as diversas formas de violência contra as mulheres – constituem, em grande parte, a expressão indirecta dessa radical, perversa e insuportável sede de vingança.