sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Destino e aceitação

Um internauta acedeu a este blogue através das palavras «como aceitar o destino». Improvável ter obtido uma resposta animadora. De facto, diferentemente do que sucede com a aceitação da morte, de um conselho ou de uma bolacha, a aceitação do destino – entendido à maneira de uma inevitabilidade cósmica – faz parte do próprio destino, sendo dele tão inseparável como o hidrogénio o é da água. Quando de destino se trata, os actos de aceitar, de não aceitar e de se marimbar para o assunto encontram-se destituídos de eficácia em relação a tal destino. Mas tentar não custa e insistir não dói. Talvez o destino acabe por se mostrar aparente, se pressionado por aparente liberdade. Talvez estejamos destinados a viver de forma livre o conflito irreal entre essas duas ilusões.

sábado, 12 de outubro de 2019

O ovo

Num manual de Língua Portuguesa do segundo ano, intitulado Cortiço, pelo qual estudaram, na década de oitenta, alguns cidadãos que hoje escrevem em blogues, deparamo-nos com um texto, sem menção de autor, em que se diz que, no meio do quintal, se achava um ovo branco, sendo que ninguém sabia quem o tinha posto. A galinha que o encontrou exclamava então: «Olhem o meu ovo! Tão grande que é!» Também se desconhece quem terá posto o chamado Ovo Cósmico, essa realidade mística, alquímica, esotérica, sobre a qual se torna árduo opinar. Enquanto não houver provas relativas à identidade do ser que o colocou na existência, qualquer criatura, apontando indefinidamente para ele, poderá proferir aquelas palavras: «Olhem o meu ovo! Tão grande que é!» Do Ovo Cósmico far-se-á talvez um número infinito de omeletes.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Sobre a auto-estima

Admitamos que a auto-estima se situa entre o zero e o mais infinito. Progredir rumo a este último parecerá, então, constituir um ideal humano. Todavia, não só tal extremo é inacessível, como há grande probabilidade de, a certa altura, o indivíduo explodir, inchado pela estima em excesso. Claro que evoluir em direcção ao zero também não se recomenda. Mas tal ponto nulo, além de atingível, garante, quando alcançado, um equilíbrio absoluto entre o eu e o mundo.

sábado, 5 de outubro de 2019

Reflectir

Mais um dia de reflexão. E, embora nada de politicamente relevante se afigure haver sobre que reflectir, fica-se com a filosófica ilusão de que o dia traz consigo uma espécie de substância invisível e subtil que entrará, por osmose, em cada cérebro, convidando ou até forçando o pensamento a deter-se, a voltar-se para si mesmo, a concentrar-se nas grandes questões existenciais, a explorar hipóteses metafísicas, a afundar-se em mistérios insondáveis, a equacionar saídas limpas para a nossa insistente incompletude.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sinais de cinza

Num documentário sobre Sinais de Fogo, à pergunta «O que é que acha que são os Sinais de Fogo?» alguém responde: «Isso já se conhece desde a altura da pré-história, não é?» Possivelmente. «Sinais de fogo as almas se despedem, tranquilas e caladas, destas cinzas frias», escreve Jorge de Sena. Talvez na pré-história elas fizessem o mesmo. E talvez assim continuem. Até que se unam ao fogo de que são sinais. Ou se percam para sempre, tranquilas e caladas, entre as cinzas frias de uma história sem sentido.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O presente exclusivo

Não obstante a veemência com que os livros de auto-ajuda – que muitas vezes o são também de hetero-prejuízo – costumam advogar a ideia de que devemos, mentalmente falando, viver em exclusivo no presente, torna-se difícil pôr em prática tal imperativo. Para o conseguir, o indivíduo tem de desenvolver a habilidade de se ajustar a uma espécie de fissura que separa algo que já acabou de algo que está sempre a começar, sendo que esses dois factos aparentes se reduzem ao mesmo acontecimento. Não é fácil.

domingo, 29 de setembro de 2019

Mitigação verbal

Se for possível, em termos verbais, mitigar as consequências, mais ou menos funestas, resultantes de uma escorregadela, por exemplo, em casca de banana, aqui fica um contributo nesse sentido: em rigor, não é o indivíduo quem escorrega no referido invólucro; é a casca de banana que, esmagada entre o calçado e o chão, sofre a inevitabilidade de escorregar em si mesma.

sábado, 28 de setembro de 2019

Epígrafe discutível

Eugénio de Andrade inicia o livro “Matéria Solar” com a seguinte epígrafe, da autoria de Vladimir Holan: «Ser não é fácil… fácil, só a merda.» A primeira parte da tese parece refutável: ser é facílimo; difícil é o «dever ser», que põe o ser em conflito consigo mesmo. No tocante à parte excrementícia, talvez Vladimir e Eugénio tenham olvidado essa chatice pouco poética chamada prisão de ventre.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Sala de espera

Eis uma pergunta insensata: quantas salas de espera existirão no Universo? Eis outra, basicamente estranha: não será o próprio Universo uma sala de espera? Mas espera por quê ou por quem? Por coisa nenhuma. Nem sequer por Godot. Uma espera desprovida de objecto. Absurda. Incondicionada. Inefável. Pascal sentia-se aterrorizado pela eterna mudez dos espaços infinitos. Talvez isso o deixasse, até, no limiar do desespero. Talvez, inutilmente, ele aguardasse ouvir alguma voz na grande sala de espera do silêncio.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Nada

Luís XVI escreve no diário, em 14 de Julho de 1789, apenas isto: «Nada.» Nesse dia ocorreu a Tomada da Bastilha. «Não é nada», terá dito e repetido, no limiar da morte e da Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Fernando da Áustria, em 28 de Junho de 1914, após baleado por Gavrilo Princip. Sartre achava que o nada reside «no próprio seio do ser, no seu coração, como um verme». Consta até que o mundo foi criado a partir do nada. Ou terá sido destruído? O nada é um verme altamente misterioso.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A mosca

Hoje é o Dia Mundial do Sonho. E uma expectável mosca pousa, sem cerimónia, sobre o ecrã do Surface. Resvala involuntariamente ao longo da página em branco do Word. Esfrega as patinhas dianteiras, enquanto persiste em derrapar com as outras. Volta à situação anterior. Inicia agora um movimento normal, como se quisesse fazer de conta que vive acima de qualquer deslize. Não tarda, talvez entediada, irá levantar voo. E o texto chega ao fim. 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Leilão do eu

«Fiz leilão de mim», escrevia Artur Ribeiro e muitos o cantaram. A hasta correu mal: ninguém quis saber do lote em causa. «Diz-me a pouca sorte / que para castigo / até vir a morte / vou ficar comigo», desabafa o sujeito poético. Certo, no entanto, é que a pessoa que seja capaz de «ficar consigo até à morte» – ou de coabitar com a sua persistente e inevitável sombra –, sem conflitos internos que a dilacerem nem discórdias auto-punitivas que a torturem, jamais terá necessidade de fazer leilão de si mesma. Ou de arrematar outro eu.

"Fiz Leilão de Mim" (Tony de Matos): aqui

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A omnipresença da vaidade

«Eu, que disse mal das Vaidades, vim a cair na de ser Autor», escreve Matias Aires no prólogo do seu livro mais proeminente. O problema é que a extinção da vaidade ocorre se, e apenas se, ocorrer a extinção do eu – ou da ilusão que o eu constitui. Significa isto, portanto, que não existe a vaidade de não ter um eu – embora a tentativa de se despojar dele, a fim de abolir a vaidade própria, resulte, com frequência, de um impulso da própria vaidade.

domingo, 22 de setembro de 2019

Promessas

Se a beleza, como diria Stendhal, «é a promessa da felicidade», resta saber se o é da felicidade eterna, se da provisória. Felicidade eterna é promessa de tédio. Felicidade provisória é promessa de angústia. Há algo de saudável em desconfiar das promessas.

sábado, 21 de setembro de 2019

A pedra

É célebre o poema de Carlos Drummond de Andrade que se inicia com o verso «No meio do caminho tinha uma pedra» e se conclui com o verso «No meio do caminho tinha uma pedra». As duas estrofes, aliás breves, nada acrescentam sobre a origem de tal pedra e são omissas quanto ao destino desse pedaço de matéria. Há poesias assim: tropeçamos nelas como na vida. «No meio do caminho tinha uma pedra.» Outra no meio do poema.

"No meio do caminho" (em vários idiomas): aqui

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Os despertos

É tentação comum a vários seres humanos, que, nesse âmbito, adoptam, com frequência, rótulos de cariz religioso, filosófico, científico, artístico, gastronómico ou de outro teor: achar que grande parte dos semelhantes dorme, sendo que só eles se encontram despertos e com missão de acordar tais infelizes. Mas a realidade tem o costume atroz de se revelar sempre um pouco mais complexa. Sono e vigília não se opõem: complementam-se. E são muitos os níveis em que se desperta, diversos os planos em que se adormece – e totalmente legítimos os motivos que levam alguém a desejar voltar a adormecer, mesmo logo depois de despertar.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Simultaneidade

A frase, da autoria de Woody Allen ou de outro filósofo, diz que «o tempo é a forma que a natureza encontrou para evitar que tudo aconteça em simultâneo». Mas já a Teoria da Relatividade – se não quisermos recuar dois milénios e meio, até Parménides – obriga a reescrever tal axioma, à luz da perturbadora concomitância de passado, presente e futuro numa espécie de eterno agora: «O tempo é a ilusão que a consciência produziu para evitar confrontar-se com o terrível facto de tudo existir em simultâneo.»

terça-feira, 30 de julho de 2019

«Refazer a vida»

A expressão «refazer a vida» é sobretudo aplicada à acção de quem, tendo saído de um relacionamento, ingressou em outro. Raramente ela se utiliza para caracterizar a situação de quem, abandonada certa relação, optou por uma existência de eremita que se envolve em ideais místicos ou de mero solitário que nem consigo mesmo se compromete. A própria expressão parece, em geral, inadequada ou redutora, já que a vida continuamente se faz e refaz, transcendendo alegadas escolhas sentimentais. A expressão «refazer a vida» e o uso que dela se faz precisam de ser refeitos.

sábado, 27 de julho de 2019

Assimetrias

Senta-se um indivíduo no café, pede algo para comer e de imediato lhe perguntam: «E para beber?» Senta-se o mesmo indivíduo no mesmo café, pede algo para beber e não lhe perguntam: «E para comer?» Quem deteste pequenas ou grandes assimetrias pode ter dificuldade em suportar este detalhe aparentemente inócuo.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Memórias de adultez

Há vários casos documentados. O mais recente é o do filho de quatro anos de um apresentador de televisão australiano, que diz ser a reencarnação da princesa Diana. Admitamos que a tese corresponde à realidade. Fica então a dúvida de saber se uma criança com memórias de quando, numa vida passada, foi adulta continua a ser criança ou se é um adulto em miniatura. Porém, substituindo a relação de identidade pela de inclusão, deduz-se que, se o adulto contém em si a criança que foi, também a criança pode conter em si o adulto que se supõe ter sido. Seja como for, e voltando ao caso em análise, não deve usufruir de infância doce um miúdo que, aos quatro anos, já não crê no amável Pai Natal, nem na felicidade das princesas, nem na polivalência das cegonhas.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Eterna repetição

«Se todo o tempo é eternamente presente / Todo o tempo é irredimível», escreveu T. S. Eliot. Por outras palavras: se tudo se encontra já aqui e agora, nada há que possa ser salvo ou, inclusive, que precise de o ser. Desta forma, a história fica privada de um sentido e consistirá apenas numa repetição que indefinidamente se repete, sem que um evento originário – explosão ou algo similar – a tenha posto em marcha e sem que um ponto final encerre o texto cósmico. Chamar-se-á a isto «eterno retorno». Mas será mais compreensível dizer (não obstante a entorse gramatical) que hoje se repetirá o que ontem se repete e o que amanhã se repetiu.

domingo, 14 de julho de 2019

Para lá do princípio da identidade

O princípio da identidade – segundo o qual cada objecto é igual a si mesmo e distinto dos demais – encontra-se na base da qualquer ordem estabelecida, seja esta relativa a factos ou a valores, a parafusos ou a beringelas. Duas coisas, no entanto, parecem constituir excepção e escapar ao domínio de tal princípio: o sonho nocturno, que é muitas vezes o caos da memória, e o Universo como um todo, que será sempre a memória do caos. 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Evasões e convicções

Eis um poema possível, composto de versos colhidos nas hortas de Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, António Nobre e Antero de Quental, sendo a autoria segundo a ordem que se apresenta: «Ah, que me metam entre cobertores, / E não me façam mais nada!...» / «Sou um pobre de longe, é quase noite... / Terra, quero dormir... dá-me pousada!» / «Porque o melhor, enfim, / É não ouvir nem ver,» / «Não quero mais que um som de água, / Ao pé de um adormecer.» / «Vais-te a dormir na tua casa nova / Cem séculos ou mais... provavelmente.» / «Dorme o teu sono, coração liberto. / Dorme na mão de Deus eternamente!» Poderá alegar-se que estamos perante fugas ao mundo, embora seja também legítimo argumentar-se que nos encontramos diante de aproximações à realidade autêntica, essa coisa imóvel, infinita, perene, invisível, só descoberta nas funduras do ser, nos recessos do inconsciente, nas alturas do espírito – ou em lugar nenhum. Em todo o caso, recomenda-se lembrar os versos citados pouco antes de dormir. Resta saber se é problemático tê-los na cabeça imediatamente depois de acordar.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Riquezas

A revista Forbes apresentou, recentemente, a lista dos 50 portugueses mais ricos. E tudo leva a crer que, como de costume, não se trata de «riqueza interior». Mas convenhamos que já vai sendo tempo de surgir uma lista capaz de reflectir dimensões profundas da alma, não obstante ainda carecerem de rigor os critérios para a escolha dos espiritualmente abastados. Em todo o caso, e abordando de novo os bens materiais, qualquer português minimamente atento deverá consultar a referida lista dos 50. É que por vezes o nosso nome aparece onde menos se espera.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Adicionar conteúdos

Notificação do Facebook: Fulano adicionou conteúdos à sua história. A frase destila profundidade, a par de uma inequívoca estranheza. Afinal, por cada passo que dá, a criatura humana adiciona conteúdos à sua própria história. Ou então, em rigor, é a história universal a originar, impessoalmente, os passos individuais – e a adicionar conteúdos a si mesma. Ou até pode acontecer que se trate não de adicionar, antes de subtrair conteúdos: se a história avança em direcção ao fim, deve tornar-se cada vez mais leve.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Interregnos

Admitamos, como os defensores da reencarnação, haver um período entre vidas, de duração incerta – as hipóteses fazem-na variar de seis dias a dez mil anos. Chamemos «Intervalo» a tal espaço de tempo – que talvez nem seja tempo nem espaço –, coincidente, no essencial, com o Chönyid Bardo de O Livro Tibetano dos Mortos. O conceito de «Intervalo» remete desde logo para uma experiência de libertação, facilmente reconhecível por quem necessita, com urgência, de se deslocar à casa de banho, e sugere que a vida corpórea corresponde igualmente a um interregno – um intervalo entre dois intervalos.  Pensando assim, ter-se-á sempre a sensação de se estar no intervalo. Num jogo de regras obscuras, é esse o modo mais subtil de atingir a idealizada vitória – ou, pelo menos, de desvalorizar a previsível derrota.

domingo, 30 de junho de 2019

As montanhas que se movem

Num texto em que fala de montanhas e cita a passagem bíblica relativa à fé seminal que as pode mover, Giovanni Papini constata que, quase dois mil anos depois, «nenhuma montanha mudou de lugar». E pergunta: «Ter-se-á porventura realizado o milagre sem que ninguém se apercebesse?» Com certeza, Giovanni! E o milagre maior, neste caso, é mesmo o facto de ninguém se ter apercebido.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Nadificando

Eça de Queirós conclui uma das suas crónicas com a ideia de que, «se não fosse o egoísmo senil desse patriarca borracho», ou seja, Noé, «nós hoje gozaríamos a felicidade inefável de não sermos...». De tal felicidade, porque inefável, nada em concreto poderá dizer-se. Mas é possível fazer uma aproximação, usando um «método nadificante», apoiado no exemplo da «faca sem lâmina à qual falta o cabo», de G. C. Lichtenberg. Começa-se então por conceber qualquer realidade como dividida em duas partes. Em seguida, «nadifica-se» o mundo, pensando na «caixa sem exterior a que falta o interior», «na folha sem verso a carecer do anverso», «no signo sem significante, desprovido de significado», «na água sem hidrogénio, privada de oxigénio». Finalmente, «nadifica-se» o eu, imaginando «uma entidade sem espírito a quem roubaram a matéria» ou «uma criatura sem alma a quem subtraíram o corpo». Resultado: ficar-se-á a um passo do não-ser, e sentir-se-á, sem se deixar de ser, a felicidade inefável que do não-ser promana. E também se dispensarão dilúvios, asteróides e chatices similares.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Pensando no esqueleto

Uma das melhores formas de alguém se convencer de que é finito consiste em representar mentalmente, nas mais diversas situações da existência, o seu próprio esqueleto. Se o propósito for convencer-se de que é infinito, precisará esse alguém de recorrer a frases megalómanas, cientificamente duvidosas, repetidas de modo hipnótico. Só que neste último caso, para se ser bem-sucedido, necessário se torna também um poder infinito de persuasão ou uma capacidade infinita de se deixar persuadir. Ambas as hipóteses, no entanto, implicariam resultados imediatos, não fazendo sequer sentido falar em «processo de persuasão». Ou seja, seguir por tal caminho revela uma aparente insensatez. Terão, pois, maior sanidade psíquica, ainda que menos expectativas de absoluto, aqueles que preferem viver sintonizados com os seus ossos.

domingo, 23 de junho de 2019

«Mehr Licht!»

Em O Princípio do Prazer (Retrato de Edward James), René Magritte põe uma explosão de luz onde era suposto achar-se uma cabeça humana. Para lá das evocações psicanalíticas do título do quadro, há ali uma espécie de concretização do ideal de algumas formas de meditação, baseadas em visualizações de grandes luminosidades nos neurónios e à sua volta. Mas talvez esse excesso de esplendor leve a curtos-circuitos no cérebro, com os efeitos funestos que daí decorrem. «Mais luz!» – eis as que terão sido as últimas palavras de Goethe. Tratar-se-ia de um pedido, de uma exclamação ou da constatação de um facto? O certo é que Goethe morreu a seguir. Portanto, e por uma questão de sensatez, temperemos o impulso em direcção à refulgência: «Mais sombra, se faz favor!»

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sem resposta

É sabido: há e-mails que ficam teimosamente sem resposta, mesmo se a reclamam, sejam eles dirigidos a empresas, a particulares ou a extraterrestres. Temos pressas, encargos, conveniências. O que nos parece cair fora de tais âmbitos decretamo-lo como spam, spam, spam. Fórmulas de agradecimento, recusas educadas, confissões de indisponibilidade, palavras circunstanciais ou simples modos automáticos de responder dão lugar a uma espécie de indiferença obscuramente legitimada, com a qual também julgamos alimentar as nossas superioridades ocas e ilusórias.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

"Há-de vir um Natal..."

"Ladainha dos póstumos Natais" constitui um dos melhores poemas escritos desde que Adão e Eva resolveram afundar a perfeita dentição no nefasto fruto. David Mourão-Ferreira faz ali, em oito dísticos, a transição paulatina de uma espécie de pensamento de natureza doméstica, referente ao «lugar vazio» à mesa, para uma intuição de carácter universal, alusiva ao acto em que o Nada retoma «a cor do Infinito». Teremos certamente alguma dificuldade em digerir esta última ideia. Mas isso é porque nos dentes, ou na falta deles, ainda sentimos os efeitos das mordidelas proibidas.

"Ladainha dos póstumos Natais"

sábado, 8 de junho de 2019

Iluminações

Há quem acredite estar tanto mais próximo da iluminação quanto maior for o número de esculturas de Buda que tiver em casa. Perspectiva diferente possuem aqueles que entendem ser mais vantajoso, a esse nível, um investimento sério em painéis solares. Nem as quatro nobres verdades do budismo nem as leis vulgares da electricidade parecem garantir um esclarecimento suficiente no que se refere a esta problemática. E assim cada um se ilumina à sua maneira enquanto se obscurece à maneira dos outros.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Seguir em frente

Pode acontecer a qualquer mortal: dirigir-se de carro até uma aldeia onde o expectável é não surgir vivalma, estacionar a viatura num espaço que a intuição supostamente elege, sair, olhar em redor e ver duas placas, uma a apontar para a direita e a dizer «Casa mortuária», outra a apontar para a esquerda e a dizer «Cemitério». Nessas alturas, facilmente se compreende que o cidadão seja tomado pelo impulso de seguir em frente – e se belisque algumas vezes, só para ter a certeza de que ainda não é um fantasma.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Além da dor e do prazer

Deve existir, além da dor e do prazer, uma sensação que não é de prazer nem de dor, que não coincide com o modo normal de ser e percepcionar da consciência, e que também não equivale à ataraxia dos sábios antigos nem à neutralidade dos indiferentes. Ignora-se a designação mais adequada para esse estado, embora algum parentesco o ligue ao prazer e à dor. Situações banais do quotidiano podem sugeri-lo, como as frases seguintes, alusivas aos membros de certa família, e escutadas em aldeia quase despovoada: «Uma era a Dores. Outra era a Prazeres. E havia ainda uma terceira irmã... Só que agora não me lembro do nome dela.»

domingo, 2 de junho de 2019

A inexistência do humor

Teoria pertinente explicativa da presença do humor no mundo é aquela que o liga à necessidade de inesperadas quebras de sentido, súbitos golpes na que se supõe ser a ordem natural das coisas. Rir serve de compensação para tal desconforto. Daí que por cima das portas de acesso aos paraísos e às utopias deva haver letreiros com esta declaração dantesca: «Deixai todo o humor, vós que entrais.» Obviamente que a inexistência do humor em regiões de felicidade extrema ou infelicidade mínima não constitui um drama. Configura, no entanto, uma situação que não tem piada nenhuma.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

O bom senso, essa coisa excessiva

Se, como assegura Descartes, «o bom senso é a coisa do mundo mais bem partilhada», a ponto de ninguém ter por costume desejar mais do que aquele que já possui, emerge a questão de saber para onde vai o bom senso de que a Humanidade prescinde. É provável que vagueie por aí, afligindo a atmosfera, atazanando os bichos, servindo de obstáculo às nossas vidas. Assim, o bom senso pessoal entra em conflito com o bom senso impessoal. E o conflito será tanto maior quanto maior for o bom senso de ambas as partes.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

«Em que estás a pensar?»

Interrogação facebookiana: «Em que estás a pensar?» A pergunta não exige que se forneça uma resposta – pelo menos uma resposta directa –, podendo inclusive servir de alavanca a profundos actos introspectivos. Mas há quem entenda o contrário e resolva expor ao mundo todos os seus conteúdos mentais. Fazê-lo sem filtro, reserva ou ponderação constitui, em muitos casos, a metodologia privilegiada. O mundo, no entanto, pouco se importa com o resultado final. E o que se julgava matéria preciosa do espírito acaba por se diluir nos aterros sanitários da Internet.

domingo, 26 de maio de 2019

Reflexão, exame e vazio

O chamado «dia de reflexão» está para o acto eleitoral como o designado «exame de consciência» está para a confissão dos pecados. No primeiro caso, porque nada costuma haver sobre que reflectir, a mente depara-se com o seu vazio interno; no segundo, porque se ignoram técnicas de exame, a mente encontra-se com o seu eterno vazio. Ambas as situações podem conduzir à iluminação espiritual. O acesso ao Nirvana principia nos exercícios estéreis.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

(In)compreensibilidade

Declarava Einstein que «a coisa mais incompreensível sobre o Universo é que ele seja compreensível». Porém, tanto quanto os cientistas nos fazem crer, o Universo expande-se, modifica-se, desenvolve-se, desdobra-se, inquieta-se, contradiz-se, a si mesmo se estranha, em si mesmo se entranha, em seus laços se apanha, perdido se ganha. Parece, portanto, expectável que o que dele se sabe ou julga saber apresente idênticas características. Isto autoriza-nos a trocar os termos e a supor que «a coisa mais compreensível sobre o Universo é que ele seja incompreensível».

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Desequilíbrio existencial

Não pode haver equilíbrio na esfera psicológica se existir desequilíbrio na relação com a esfera cronológica. Ora só se corrige este desequilíbrio – para o qual diversas forças contribuem – quando se percebe, de modo integral, que tão útil como saber ocupar os tempos livres é saber libertar os tempos ocupados.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Entre duas esferas

Na obra Conceito Rosacruz do Cosmo, Max Heindel refere que o corpo humano foi, no passado remoto, idêntico a uma esfera, surgindo curvado para dentro (à semelhança do que sucede na vida intra-uterina), e que, no futuro, se converterá, gradualmente, noutra esfera, mas curvado para fora. Talvez em virtude da condição vertical – provisória e imperfeita – nos faltem maturidade de intelecto e curvatura inversa suficientes para entender teorias deste género. Embora preservem a cabeça, o tronco e os membros, elas correm sério risco de parecer que não têm pés nem cabeça.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A vitória sobre si mesmo

A vitória sobre si mesmo deve ser o único exemplo de triunfo que não implica nenhum dos seguintes aspectos: os festejos mais ou menos delirantes, o regozijo pela derrota alheia e o orgulho inerente ao êxito. Aliás, a vitória sobre si mesmo é tão estranha que, uma vez alcançada, deixa a sensação de que não houve, no fundo, qualquer vitória, porque o si mesmo, em rigor, nunca existiu.

domingo, 19 de maio de 2019

Turismo sepulcral

Consta que virou moda a visita guiada a cemitérios. Para lá de gerar benefícios culturais, trata-se de uma forma simbólica de atenuar o efeito psicológico de duas circunstâncias pouco animadoras: o facto de a morte constituir uma experiência alegadamente solitária e o facto de o Além ainda não ser uma região turística.

sábado, 18 de maio de 2019

Memórias sem cérebro

Um dos pressupostos de qualquer teoria de pendor reencarnacionista consiste em admitir a existência de memórias que subsistem após a morte do cérebro. Mas isto suscita várias questões, entre as quais a seguinte: com que aspecto aparecem tais memórias a uma eventual testemunha a quem elas nunca tenham pertencido? Tentativas de resposta convidam ao devaneio. Porém, toda a memória é sempre memória de alguma coisa, implicando uma interioridade que suporta e representa, com maior ou menor emoção, certa exterioridade que um dia se integrou na vivência. Ora, se aquelas memórias e a sua observação neutral forem possíveis em simultâneo, então é igualmente possível ver a partir de fora algo que apenas pode ser visto a partir de dentro.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Suprimir a vírgula

Frequentemente se despreza, em especial no subcontinente dos comentários, o uso da vírgula para isolar o vocativo. Daí a ambiguidade de frases como «Beijinho grande amiga», embora neste exemplo seja maior a probabilidade de a grandeza pertencer à amiga, visto o beijo aparecer em diminutivo. Mas deve existir uma explicação de carácter psicológico para tal fenómeno: a Internet permite e até exige tanta proximidade que a vírgula representará, no caso do vocativo, um tropeço à expressão emocional, um corpo adverso às irrupções da alma, um empecilho hostil para o afecto.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

História e auto-referência

Em finais do século XIX, Joris-Karl Huysmans declarava (através de Durtal, seu alter ego) ser a história «a mais solene das mentiras, o mais infantil dos logros». Aludia, claro, à interpretação do caudal de factos e intenções que forma a substância do passado. Mas qualquer asserção sobre a história ou a historiografia é auto-referencial, justamente pela inevitabilidade do seu carácter histórico. Por isso, a afirmação de Huysmans é igualmente, à sua maneira, «logro infantil» e «mentira solene». E o que dela se acaba de dizer é também, a seu modo, «mentira solene» e «logro infantil».

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Vacuidade

De acordo com o filósofo budista Nāgārjuna, todas as coisas são desprovidas de existência intrínseca, substancial, independente. A natureza última do real é a vacuidade. «Como alguém soterrado sob um muro que se desmoronasse, jazo sob a vacuidade tombada do universo inteiro», escreveu Bernardo Soares. Jazer sob a vacuidade universal pode levar ao tédio, mas não à asfixia. Aliás, talvez seja essa inclusive a situação em que potencialmente melhor se respira.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Retrospecção

Especialistas em ocultismo destacam os benefícios psicológicos e espirituais de um exercício chamado retrospecção. Trata-se de recordar, à noite, os acontecimentos do dia, só que por ordem inversa. Isto implica, no entanto, individualizar tais acontecimentos e, por conseguinte, representar mentalmente cada um deles na sua ordem normal. Para ir mais além exigir-se-ia a completa subversão das leis da natureza e do psiquismo, ante a qual a reprodução de um vídeo ao contrário não constitui senão uma caricatura. Em suma, ainda que seja possível rever acontecimentos por ordem inversa, não parece exequível rever a ordem inversa de cada acontecimento. Esta conclusão dificulta o exercício retrospectivo da lembrança, mas facilita o movimento prospectivo do sono.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Acção e contemplação

Notar apenas a diferença – ou, no limite, a oposição – entre o agir e o contemplar pressupõe nunca se ter atingido aquele ponto em que, agindo, se contempla o ritual do agir e, contemplando, se age sobre o objecto contemplado. Ambos os processos exigem óbvio distanciamento, permitindo que o sujeito não se prenda a uma conduta como às calças adere a pastilha elástica, nem mergulhe no êxtase como em frasco de mel se envisca uma formiga tonta.