sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Livros de memórias e de esquecimentos

Muitos se lembram de redigir um livro de memórias. A ninguém ocorre escrever um livro de esquecimentos. A maior parte dos livros de memórias cai no esquecimento. Talvez a maior parte dos livros de esquecimentos ficasse na memória. Não consta, porém, que o destino seja tão equilibrado no exercício das suas ironias.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Esse obsessivo escultor





Chamaram-lhe «esse grande escultor». Sim, o tempo esculpe – e não há troço de matéria nem fragmento de espírito que lhe não sinta o cinzelar paciente, exercido sem peremptório desígnio nem categórica absurdidade. Mas existe outro predicado, menos óbvio, desse artista tão universal. Ele é, acima de tudo, um irrecuperável perfeccionista: desde o distante momento do «Fiat lux» (e até inclusive antes de a luz surgir com a estranha missão de rasgar as trevas primitivas), não consta que o tempo, esse obsessivo escultor, tenha já dado por concluída alguma das suas obras.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Corpo e alma

Em carta a José Bento de Araújo Assis, Camilo Castelo Branco escreve, como premissa a apoiar uma conclusão estranha (em que alude ao «pó organizado que a Providência desata com dores»), que a sua «alma não foi previamente consultada sobre se lhe convinha ter corpo». Talvez o argumento mantivesse a mesma força se o autor de Amor de Perdição dissesse que o seu corpo não foi previamente consultado sobre se lhe convinha ter alma. Aliás, o suposto ser que efectuasse a prévia consulta ver-se-ia, provavelmente, em dificuldades para descobrir o ponto exacto onde a alma termina e o corpo começa, ou onde o corpo finda e a alma desabrocha. De resto, desde que Eva e Adão (primeiro as senhoras) foram expulsos do Éden, corpo e alma têm existido misturados, confusos, esquivos à hermenêutica. Aproveitando tal condição, substituem-se, muitas vezes, um ao outro, mormente se isso for de interesse mútuo. Compreende-se, pois, a relutância que ambos nutrem ante a hipótese de regressarem, um dia, ao Paraíso. 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Perspectivas

Somente vistas e imaginadas a partir de fora podem as humanas vidas ser consideradas interessantes, sobretudo se beneficiarem de narrativas que as mitifiquem ou de representações que as elevem ao estatuto de arquétipos.  Se observadas e sentidas a partir de dentro, apenas um optimismo alienígena, uma fantasia tenebrosa ou outra condição patológica é capaz de impedir que tais vidas sejam experienciadas como um conjunto (em proporções diversas) de perdas explícitas, fracassos anunciados, sonhos quebradiços, rotinas sem mérito, actos sem espessura e vitórias sem consolo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Meditar

Meditar não consiste em suprimir conteúdos mentais, antes em mantê-los a confortável distância, deixando-os fluir, num cenário em que nada se fortifica e tudo se observa: palavras soltas, imagens quebradas, desejos fracturados, memórias diluídas, expectativas lassas, desassossegos frouxos. Claro que nada disto se consegue sem o esforço inerente à prática do não-esforço ou da letargia sublime do pensamento. Torna-se, pois, necessário transcender o hemisfério cerebral direito e o hemisfério cerebral esquerdo, como quem vence, em termos ideológicos, a ilusão da esquerda, o desacerto da direita e a incapacidade de distinguir ambos os equívocos. A inteireza começa onde os partidos acabam.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

As portas

René Magritte, A Vitória, 1939.

É amplamente sabido que o termo porta tanto designa uma abertura rectangular (chamemos-lhe porta 1) como a peça, também rectangular, que fecha tal abertura (chamemos-lhe porta 2). Nesse sentido, a porta 1 – achando-se, por natureza, sempre aberta – é condição necessária para que se fale em abertura da porta 2, a qual – estando, por essência, sempre fechada – é condição necessária para que se fale em fechamento da porta 1. Por conseguinte, as expressões “porta aberta” e “porta fechada” ou são, de certo modo, redundantes – se, respectivamente, se referirem à porta 1 e à porta 2 –, ou são, em parte, duvidosas e, em parte, contraditórias – se aludirem, respectivamente, à porta 2 e à porta 1. Claro que um texto assim começa a ficar pouco arejado. Será melhor abrir uma janela. E sair, a voar, através dela. (A rima foi aqui mera sequela.)

sábado, 25 de janeiro de 2020

Alvo modesto

A ideia segundo a qual todo o ser humano anda em busca da felicidade – tenha esta a forma que tiver – afigura-se uma evidência quase a roçar a tautologia. Ela carece, no entanto, de sustentação empírica. Além disso, uma séria escavação nos domínios do inconsciente permite apontar num sentido bem mais modesto, a saber: é possível que qualquer indivíduo, mesmo rotulando o alvo da sua existência com a palavra «felicidade», tente apenas extinguir ou eliminar infelicidades – nascidas e alimentadas entre os limites que o corpo ignora ter e as ilusões que a mente ousa criar.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Respiração de um verso

«Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas», escreveu Herberto Helder. Claro que nem tudo o que se ouve dizer se deve levar a sério. Mas neste caso justifica-se, vivamente, a confiança. E não será necessário matutar longamente em redor do verso e daquelas «luzes transformadas», prejudicando, com tal atitude, o legítimo sono. Basta pensar que os mortos têm, muitas vezes, comportamentos estranhos. Sobretudo quando respiram.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Virtudes do trabalho

Embora tal facto o não isente de responsabilidades no que a alguns processos de aviltamento se refere, evidentemente que o trabalho dignifica. O problema é que ele anda tão ocupado que até já se habituou (nem sempre com êxito) a confiar ao ócio tão nobre tarefa.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Gurus

Há apenas um guru realmente confiável: aquele que se aninha dentro da própria consciência do eventual discípulo ou seguidor. Mas no âmago de tal guru outro se encontra, mais confiável do que ele, sendo que no íntimo deste último um outro se achará, ainda mais confiável. A busca só termina no infinito. O derradeiro guru será, esse sim, absolutamente confiável. Todavia, nos lugares infinitos dispensam-se os gurus. Nos lugares finitos também.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Reunião sem acta

Convocados por não se sabe quem, a fim de discutirem não se sabe o quê, reuniram-se, em dia e lugar incertos, estes sete seres: Sua Magnificência, Sua Santidade, Sua Eminência, Sua Majestade, Sua Reverência, Sua Alteza e Sua Vulgaridade. Do encontro, conforme expectável, nada de frutífero resultou. Cada um ficou na Sua.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Circunstâncias

Quem de conforto térmico desfrute dar-se-á ao luxo de contar ao mundo que o frio é só mania psicológica. Quem de dinheiro nunca sentiu falta dar-se-á ao luxo de exprimir ao orbe o lado enganador dos bens terrenos. Quem de saúde não se vê privado dar-se-á ao luxo de explicar ao outros ser a doença uma invenção mental. Expressamo-nos sempre desde o núcleo de uma determinada circunstância: a nossa, claro, a nossa, obviamente, mesmo se ela exigir metamorfoses. Mudo – e alheio a toda a conjuntura , o Infinito, se falar pudesse, provavelmente não diria nada.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Duas crenças

Trata-se de duas crenças de certo modo paralelas. A primeira crença mostra-se útil para alimentar pequenas desculpas. É a dos indivíduos que, independentemente de qualquer gravidez, juram trazer dentro de si uma criança. Como se eles próprios ainda não tivessem nascido. A segunda crença revela-se útil para nutrir grandes vaidades. É a dos indivíduos que, independentemente da idade cronológica, gostam de anunciar ao mundo que são pessoas vividas. Como se eles próprios já estivessem mortos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Desejos

Qualquer que seja a influência que sobre tal fenómeno o pensamento mágico possa exercer, costumam verificar-se, por esta altura, no tocante à conjugação da linha temporal com as aspirações individuais, duas atitudes: a generalista e a minimalista. A primeira é a dos que desejam (aparentemente aos outros e categoricamente a si mesmos) um «bom ano», ou algo similar; a segunda é a dos que preferem concentrar-se no imponderável instante que faz a ponte entre o ano que emerge e o que se extingue, havendo, neste caso, duas tendências a ter em conta: a dos minimalistas proactivos, que desejam «boas entradas», e a dos minimalistas retroactivos, que desejam «boas saídas».

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Notícias

Após o confronto com muitas daquelas notícias cujos títulos, sedentos de cliques, se referem a factos que «prometem correr mundo», a coisas que estão «a dar que falar» ou a algo que «já se tornou viral», e depois de se haver constatado que, no fundo, nem as promessas se cumpriram, nem as falas se excederam, nem os vírus se propagaram, concluímos que tudo isso é uma consagração do fútil, um tributo à irrelevância, uma homenagem à vacuidade.

sábado, 21 de dezembro de 2019

A chuva sobre as ovelhas


Enquanto flechas de chuva lhes ferem o lanígero envoltório, as ovelhas parecem adquirir uma espécie de imobilidade meditativa, como se apenas aguardassem o dilúvio definitivo ou o solene ingresso na Unidade primordial, onde se apagam as disparidades e se diluem as semelhanças, onde o ser e o nada trocam amigavelmente de lugar, onde os balidos se não diferenciam dos silêncios. O rio cresce, engole as margens. E, observando o espectáculo por entre carvalhos nus, aqueles animais, sentindo já na pele a ferocidade líquida, assumem essa postura quase enigmática, tolhidos de espanto, moldados de quietude.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Aparência e essência

O principal defeito da aparência é o facto de insistir em manifestar-se. O principal defeito da essência é o facto de insistir em esconder-se. Entre uma e outra existimos nós, cheios de lacunas, falhas, erros, frequentemente a tentar achar o equilíbrio entre a essência e a aparência, ou até a sonhar com um ponto ideal, situado para lá das duas, um ponto que nem se oculte nem se exiba, mas consiga ser a negação simultânea de ambos os processos – qualquer coisa assim como coisa nenhuma.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Solução intermédia

«Nada te perturbe. Nada te espante», recomendava Teresa de Ávila. A imperturbabilidade constitui, de facto, um princípio de sabedoria – ou até o fim de certas ilusões. Mas a ausência total de espanto, sobretudo para quem não costuma ter experiências místicas, atira-nos para um limbo rigorosamente insípido. A solução do problema (se algum houve) é de natureza intermédia e reside no espanto imperturbável – essa tranquila homenagem ao Universo indiferente.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Expulso ao intervalo

No recente jogo entre o Palmeiras e o Flamengo – disputado em casa da equipa de São Paulo –, um sexagenário, adepto do Palmeiras, foi expulso do estádio, ao intervalo, por outros torcedores do mesmo time, em virtude de ter passado a primeira parte do encontro a ler um livro sobre Karl Marx, numa espécie de protesto devido aos maus resultados do seu clube. Em vez de aderir à chinfrineira, o homem optou pelas vias da mais compenetrada mudez. Não há incompatibilidade existencial em ser-se adepto de futebol, de Karl Marx, da leitura e do silêncio. Mas convém não exibir, em simultâneo, a defesa de tantas causas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Estremecer

Há muita cabeça que, à semelhança da de Herberto Helder, «estremece com todo o esquecimento». Há muita cabeça que, similarmente à de qualquer cidadão, estremece com toda a memória. Consta haver também uma ou outra que, graças a técnicas de meditação aprofundada, julga que encontrou o equilíbrio perfeito entre a recordação e o olvido, a ponto de já não mais estremecer. Tal significa viver sem cisma nem sismo. É sempre bom ter isto na memória, se não for preferível esquecê-lo.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Duas caras

Viver com baixa auto-estima é virtualmente perigoso. Viver sem sentido de humor é naturalmente sinistro. A conjugação de ambas as situações deve gerar um absoluto desnorte. As vias da salvação exigem outras possibilidades. Uma delas é que o sentido de humor seja aguçado pela baixa auto-estima. Quando, visitado por certa mulher, esta o informou de que ele, por ter nascido no signo de Gémeos, tinha duas caras, Ariano Suassuna disse-lhe o seguinte: «E você acha que se eu tivesse duas caras usaria essa?»

sábado, 30 de novembro de 2019

A carta

É mais ou menos célebre a anedota do louco, no manicómio, que se encontra a escrever uma carta a si mesmo e que, interrogado pelo psiquiatra sobre o conteúdo nela expresso, oferece esta resposta, em forma de pergunta: “Como é que eu hei-de saber se ainda não a recebi?” Sitiada pelas sombras da loucura, num jogo de estranhos reflexos, a existência individual identifica-se obscuramente com essa carta: quer da parte de quem a redige e envia quer da de quem a recebe e tenta ler, ela será sempre um documento indecifrável.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Neutralidade

Trazendo-nos à lembrança os anjos neutros, descritos na Divina Comédia, essas criaturas que o Céu expulsa e o Inferno se recusa a hospedar – visto não terem tomado partido nem por Deus nem por Lúcifer –, Allan Kardec refere existir uma classe de espíritos, obviamente imperfeitos, a que chama espíritos neutros. Caracteriza-os o estranho facto de não serem suficientemente bons para fazerem o bem nem suficientemente maus para fazerem o mal. Moralmente falando, eles nem atam nem desatam. Todavia, quer o mal e o bem se definam pelas intenções, quer pelas consequências, quer pela conjugação de ambas as coisas, possuir a insólita competência de nunca praticar nem um nem outro deve exigir um tal equilíbrio que talvez estejamos perante uma classe vazia.

sábado, 23 de novembro de 2019

"As portas da percepção"

Por vezes é inevitável: o transeunte pousa os olhos na salamandra esmagada sobre o asfalto, junto à folha de bétula que o vento para ali trouxe. Ao invés do que supunha William Blake, mesmo que «as portas da percepção» estejam limpas, o infinito não se mostrará: tudo o que aparece à consciência surge circunscrito, limitado, definido. Mas talvez do lado de lá da salamandra desfeita, da folha tombada, do vento inquieto e do transeunte ocasional exista uma espécie de lugar negativo, habitado pela não-salamandra, pela não-folha, pelo não-vento, pelo não-transeunte, pelo não-tudo. Aí, o infinito manter-se-á oculto. Mas «as portas da percepção», logo que se abram para esse espaço, devem ficar inteiramente limpas.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Saber e ignorar

Encontra-se na Bíblia algo parecido ao seguinte: o muito saber gera muita dor. Ao invés, talvez isto não se encontre na Bíblia: a muita ignorância produz idêntico efeito. Ainda está por surgir um compêndio em que venha rigorosamente exposto o que é necessário e suficiente saber e o que é suficiente e necessário ignorar para que se atinja aquele ponto em que a dor cognitiva se anule. A leitura de um manual assim deverá revelar-se excitante e esclarecedora: excitante, porque metade do livro será constituída por inéditas epifanias; esclarecedora, porque a outra metade, cheia de cautelosas omissões, será composta de páginas em branco.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O quinto bolso

Consta que o pequeno bolso existente por cima do bolso lateral direito das calças de ganga foi inicialmente concebido para guardar e proteger os relógios dos cowboys. Actualmente, ou é usado para transportar os mais diversos objectos que nele caibam ou não se lhe dá uso nenhum. Esta alternativa parece, aliás, a preferível. Sem albergar relógio nem outras coisas fugazes, e como se prestasse homenagem ao silêncio do mundo e ao vazio do espaço, esse compartimento discreto pode ser o último reduto da eternidade.

domingo, 17 de novembro de 2019

Tempo para a depressão

Há pessoas que, talvez beneficiadas pela genética ou pelo meio, e decerto sustentadas por um ilusório pragmatismo, gostam de anunciar ao mundo que não têm tempo para depressões. Conviria, no entanto, que elas centrassem a atenção num facto elementar: até aquele que julga não ter tempo para a depressão se encontra exposto à contingência de, um dia, a depressão ter tempo para ele. E consta que as depressões não costumam exigir reciprocidade.

sábado, 16 de novembro de 2019

Sintoma

Pode acontecer ao mais obscuro blogger:  sentir, à superfície, o impulso irresistível de transmitir um pensamento provisório e experimentar, lá no fundo, o secreto desejo de regressar ao silêncio definitivo. Manter um blogue é, por vezes, como estar com tosse.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Psicocinese

Rolf Alexander (1891-1970), autor de livros que tentam evidenciar os poderes mentais, era alegadamente capaz de dispersar uma nuvem apenas concentrando-se nela. Nestes dias cinzentos, agradecer-se-ia tal espécie de psicocinese. A boa notícia é que dissolver nuvens de um determinado ponto do céu (ou, inclusive, fazê-las aí surgir) constitui um exercício que – havendo paciência e tempo – até o ser humano mais bisonho consegue executar sem grande esforço.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Sonho tumular

Consta que, achando-se de boa saúde, o naturalista britânico Edwin Reed Brookman (1841-1910) sonhou, certa noite, que entrava num cemitério onde encontraria um túmulo de mármore branco, sobre cuja lápide leu o seguinte: «Reed, naturalista. 7 de Dezembro de 1910.» O cavalheiro expôs a amigos e parentes esta informação privilegiada  e acabou por falecer exactamente naquela data. Todo o ser humano deveria poder visitar, em sonhos, a sua derradeira morada – e, alterando a matéria onírica, ter o inalienável direito, pelo menos uma vez na vida, de mudar a eventual data da morte que lá estivesse inscrita para uma altura julgada mais oportuna.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Atrair o semelhante

Parece consensual: o semelhante atrai o semelhante. O mais difícil, nestas situações, é saber qual dos semelhantes iniciou o acto de atrair. Em todo o caso, os líderes espíritas tendem a acreditar que muitas – a esmagadora maioria – das supostas entidades desencarnadas que à nossa volta vagueiam (e connosco por vezes se misturam) são criaturas ignorantes, confusas, cheias de stress, privadas de rumo. Pensar sobre o Além talvez seja libertador; mas é, com frequência, dar um passo em direcção ao desconsolo.

sábado, 9 de novembro de 2019

Dualismo imperfeito

Só há dois tipos de pessoas neste mundo tão diverso: a) as que já alcançaram a perfeição; b) as que já foram alcançadas pela perfeição; c) e as que, por vezes, se enganam a fazer as contas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Desajustes

Talvez se afigure estranho ou perturbador. Mas o certo é que também os autores daqueles livros de auto-ajuda que apontam as vias do conseguimento ilimitado, do sucesso absoluto, do poder infinito e da felicidade sem mácula se encontram sujeitos aos achaques, às frustrações, ao quebranto e à morte. Não, não estamos perante falta de credibilidade por parte do escriba. Trata-se unicamente, a par de uma certa vocação para o exagero, do facto de entre as palavras e a vida existirem incuráveis divergências.

sábado, 2 de novembro de 2019

Preferências



É de longe preferível, agora que a natureza amplamente o favorece, proceder à colecta sábia de idóneos cogumelos, entre tufos de erva e folhas outonais, do que envenenar o espírito com algum aforismo colhido em Schopenhauer ou noutro pessimista desatento.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Apagar

Tantos ficheiros inúteis se acumulam no computador, à semelhança do que sucede com escusados reflexos na memória, que a determinada altura o imperativo é apagar, extinguir, eleger o nada, rumar ao esquecimento. A máquina, então, ganha mais espaço; conquista o espírito maior vazio. O fim do dia gera a noção de terem valido a pena o esforço de afastar o entulho, o labor de dissolver o supérfluo e a valentia de abolir imagens – mesmo se a vacuidade vier a coincidir, por ironia, com formas ancestrais da plenitude.

domingo, 27 de outubro de 2019

Num canto, com um livro

A frase, de Tomás de Kémpis, ganhou notoriedade graças a Umberto Eco, ao ser posta no fim da introdução de O Nome da Rosa: «In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro.» Dito de outro modo, em tradução aproximada: «Procurei a paz em todo o lado, e não a encontrei em lado nenhum, excepto num canto, com um livro.» Neste caso, porém, conviria esclarecer onde se situava o canto, de que livro se tratava e – se não houver nisto demasiada exigência – qual o uso que dele se fez. Afinal, entre o eu e o não-eu os armistícios nunca foram fáceis.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Folhetos proféticos

Num desses folhetos publicitários que chegam, sem prévio consentimento de quem os recebe, através do correio – e que se mostram muito úteis agora que o frio começa a revelar uma assiduidade escusada – pode ler-se o seguinte: «Espetáculo dos descontos. Aproveite os últimos dias!» Compreende-se que este género de publicidade se associe, com frequência, ao exagero. Mas devia, no mínimo, poupar-nos a sugestões de carácter apocalíptico.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Destino e aceitação

Um internauta acedeu a este blogue através das palavras «como aceitar o destino». Improvável ter obtido uma resposta animadora. De facto, diferentemente do que sucede com a aceitação da morte, de um conselho ou de uma bolacha, a aceitação do destino – entendido à maneira de uma inevitabilidade cósmica – faz parte do próprio destino, sendo dele tão inseparável como o hidrogénio o é da água. Quando de destino se trata, os actos de aceitar, de não aceitar e de se marimbar para o assunto encontram-se destituídos de eficácia em relação a tal destino. Mas tentar não custa e insistir não dói. Talvez o destino acabe por se mostrar aparente, se pressionado por aparente liberdade. Talvez estejamos destinados a viver de forma livre o conflito irreal entre essas duas ilusões.

sábado, 12 de outubro de 2019

O ovo

Num manual de Língua Portuguesa do segundo ano, intitulado Cortiço, pelo qual estudaram, na década de oitenta, alguns cidadãos que hoje escrevem em blogues, deparamo-nos com um texto, sem menção de autor, em que se diz que, no meio do quintal, se achava um ovo branco, sendo que ninguém sabia quem o tinha posto. A galinha que o encontrou exclamava então: «Olhem o meu ovo! Tão grande que é!» Também se desconhece quem terá posto o chamado Ovo Cósmico, essa realidade mística, alquímica, esotérica, sobre a qual se torna árduo opinar. Enquanto não houver provas relativas à identidade do ser que o colocou na existência, qualquer criatura, apontando indefinidamente para ele, poderá proferir aquelas palavras: «Olhem o meu ovo! Tão grande que é!» Do Ovo Cósmico far-se-á talvez um número infinito de omeletes.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Sobre a auto-estima

Admitamos que a auto-estima se situa entre o zero e o mais infinito. Progredir rumo a este último parecerá, então, constituir um ideal humano. Todavia, não só tal extremo é inacessível, como há grande probabilidade de, a certa altura, o indivíduo explodir, inchado pela estima em excesso. Claro que evoluir em direcção ao zero também não se recomenda. Mas tal ponto nulo, além de atingível, garante, quando alcançado, um equilíbrio absoluto entre o eu e o mundo.

sábado, 5 de outubro de 2019

Reflectir

Mais um dia de reflexão. E, embora nada de politicamente relevante se afigure haver sobre que reflectir, fica-se com a filosófica ilusão de que o dia traz consigo uma espécie de substância invisível e subtil que entrará, por osmose, em cada cérebro, convidando ou até forçando o pensamento a deter-se, a voltar-se para si mesmo, a concentrar-se nas grandes questões existenciais, a explorar hipóteses metafísicas, a afundar-se em mistérios insondáveis, a equacionar saídas limpas para a nossa insistente incompletude.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sinais de cinza

Num documentário sobre Sinais de Fogo, à pergunta «O que é que acha que são os Sinais de Fogo?» alguém responde: «Isso já se conhece desde a altura da pré-história, não é?» Possivelmente. «Sinais de fogo as almas se despedem, tranquilas e caladas, destas cinzas frias», escreve Jorge de Sena. Talvez na pré-história elas fizessem o mesmo. E talvez assim continuem. Até que se unam ao fogo de que são sinais. Ou se percam para sempre, tranquilas e caladas, entre as cinzas frias de uma história sem sentido.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O presente exclusivo

Não obstante a veemência com que os livros de auto-ajuda – que muitas vezes o são também de hetero-prejuízo – costumam advogar a ideia de que devemos, mentalmente falando, viver em exclusivo no presente, torna-se difícil pôr em prática tal imperativo. Para o conseguir, o indivíduo tem de desenvolver a habilidade de se ajustar a uma espécie de fissura que separa algo que já acabou de algo que está sempre a começar, sendo que esses dois factos aparentes se reduzem ao mesmo acontecimento. Não é fácil.

domingo, 29 de setembro de 2019

Mitigação verbal

Se for possível, em termos verbais, mitigar as consequências, mais ou menos funestas, resultantes de uma escorregadela, por exemplo, em casca de banana, aqui fica um contributo nesse sentido: em rigor, não é o indivíduo quem escorrega no referido invólucro; é a casca de banana que, esmagada entre o calçado e o chão, sofre a inevitabilidade de escorregar em si mesma.

sábado, 28 de setembro de 2019

Epígrafe discutível

Eugénio de Andrade inicia o livro “Matéria Solar” com a seguinte epígrafe, da autoria de Vladimir Holan: «Ser não é fácil… fácil, só a merda.» A primeira parte da tese parece refutável: ser é facílimo; difícil é o «dever ser», que põe o ser em conflito consigo mesmo. No tocante à parte excrementícia, talvez Vladimir e Eugénio tenham olvidado essa chatice pouco poética chamada prisão de ventre.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Sala de espera

Eis uma pergunta insensata: quantas salas de espera existirão no Universo? Eis outra, basicamente estranha: não será o próprio Universo uma sala de espera? Mas espera por quê ou por quem? Por coisa nenhuma. Nem sequer por Godot. Uma espera desprovida de objecto. Absurda. Incondicionada. Inefável. Pascal sentia-se aterrorizado pela eterna mudez dos espaços infinitos. Talvez isso o deixasse, até, no limiar do desespero. Talvez, inutilmente, ele aguardasse ouvir alguma voz na grande sala de espera do silêncio.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Nada

Luís XVI escreve no diário, em 14 de Julho de 1789, apenas isto: «Nada.» Nesse dia ocorreu a Tomada da Bastilha. «Não é nada», terá dito e repetido, no limiar da morte e da Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Fernando da Áustria, em 28 de Junho de 1914, após baleado por Gavrilo Princip. Sartre achava que o nada reside «no próprio seio do ser, no seu coração, como um verme». Consta até que o mundo foi criado a partir do nada. Ou terá sido destruído? O nada é um verme altamente misterioso.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A mosca

Hoje é o Dia Mundial do Sonho. E uma expectável mosca pousa, sem cerimónia, sobre o ecrã do Surface. Resvala involuntariamente ao longo da página em branco do Word. Esfrega as patinhas dianteiras, enquanto persiste em derrapar com as outras. Volta à situação anterior. Inicia agora um movimento normal, como se quisesse fazer de conta que vive acima de qualquer deslize. Não tarda, talvez entediada, irá levantar voo. E o texto chega ao fim. 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Leilão do eu

«Fiz leilão de mim», escrevia Artur Ribeiro e muitos o cantaram. A hasta correu mal: ninguém quis saber do lote em causa. «Diz-me a pouca sorte / que para castigo / até vir a morte / vou ficar comigo», desabafa o sujeito poético. Certo, no entanto, é que a pessoa que seja capaz de «ficar consigo até à morte» – ou de coabitar com a sua persistente e inevitável sombra –, sem conflitos internos que a dilacerem nem discórdias auto-punitivas que a torturem, jamais terá necessidade de fazer leilão de si mesma. Ou de arrematar outro eu.

"Fiz Leilão de Mim" (Tony de Matos): aqui

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A omnipresença da vaidade

«Eu, que disse mal das Vaidades, vim a cair na de ser Autor», escreve Matias Aires no prólogo do seu livro mais proeminente. O problema é que a extinção da vaidade ocorre se, e apenas se, ocorrer a extinção do eu – ou da ilusão que o eu constitui. Significa isto, portanto, que não existe a vaidade de não ter um eu – embora a tentativa de se despojar dele, a fim de abolir a vaidade própria, resulte, com frequência, de um impulso da própria vaidade.