terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O lado oco da Lua

Não devem existir muitos apoiantes da tese de que a Terra seja oca. Já no que se refere ao nosso satélite natural, uma conjectura desse género facilmente ganha adeptos. Ora, se um dia for corroborada a hipótese de que a Lua é, de facto, oca, diminuirá, de forma significativa, o peso que ela ainda tem em certos poemas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

«Fazer presenças»

Diversos famosos, sobretudo aqueles cuja celebridade a televisão ajudou a medrar, costumam «fazer presenças», sendo pagos para isso. Quanto aos obscuros, esses, em tal contexto (e porque o palco já se encontra ocupado), apenas poderão «fazer ausências», sem quaisquer contrapartidas. Mas este último constitui um acto tão extraordinário que não só será invejado, de modo superior, pelo hipotético «Deus omnipresente», como pode tornar irrelevante uma alheia «feitura de presenças».

domingo, 20 de janeiro de 2019

Queima

Fontes fiáveis o asseguram: há cerca de sete anos, um indivíduo que terá comprado, algures na zona do Douro, certo solar provido de vasta biblioteca de edições antigas, talvez raras, entreteve-se, durante uma semana, e auxiliado por dois cúmplices, a queimar livros. Existem factos perante os quais a mão, a língua e o cérebro ficam paralisados no momento de tecer o mais breve comentário.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Distracção

«A minha suprema distracção», escreve Salvador Dalí, «é a de me imaginar morto, devorado pelos vermes». Eminentes pensadores acharão o acto de se distrair uma fuga à morte ou à ideia que dela se tem. Talvez Dalí surja como excepção. Ou como o paroxismo da regra. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A teimosia do fim do mundo

O historiador norte-americano David Montaigne, também autor de páginas proféticas, garante que é desta. Falhou três tentativas, mas à quarta será de vez: o mundo vai acabar a 28 de dezembro de 2019. Até lá, o cavalheiro continuará a vender os seus livros de teor apocalíptico, enquanto vai congeminando e escrevendo sobre uma próxima data.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Olhos vendados

Parece que o filme "Bird Box" suscitou o desafio de andar com os olhos vendados, em casa, na rua, nos montes, no cemitério, no lupanar, e de, eventualmente, fazer um vídeo para que o orbe se inteire da experiência. Adivinham-se – e ocorreram já – lamentáveis desfechos. «A maior cegueira é a de quem não quer ver», dizem os entendidos. A definição está incompleta: a maior cegueira é a de quem não quer ver e, em simultâneo, quer ser visto a não querer ver.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Ressurgimento

1657 dias após a sua morte, este blogue ressuscitou. Ou talvez tenha reencarnado. Da vida anterior conserva certos vícios, sobretudo a tendência para ser irritantemente sintético nos textos que exibe. Preguiça disfarçada. Mas a preguiça tem vantagens, algumas de alcance cósmico: o mundo ainda não se deu ao trabalho de acabar. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

HIBERNAÇÃO

Este blogue encontra-se suspenso por um tempo indeterminado. Grato pela atenção.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

DILÚVIO

     Há duas relevantes estratégias para superar os embaraços desencadeados pelos silêncios da vida social: uma delas consiste em fazer alusões ao estado do tempo; outra, em tecer comentários ao estado a que o país chegou. Existem, no entanto, fórmulas que as sintetizam a ambas. Eis um exemplo, saído de voz tonitruante: «Isto vai tudo acabar em dilúvio!» Trata-se de uma sentença universal, capaz de corrigir qualquer silêncio. Ao invés do dilúvio – que não permite emendar grande coisa.

domingo, 18 de maio de 2014

ZOMBIES

      O zombie é uma criatura idêntica a nós, excepto no irrisório facto de se achar desprovida de consciência. Embora exteriormente vivo, o morto-vivo está intimamente morto. Por conseguinte, ninguém sabe (salvo por analogia) o que é ser ou sentir-se zombie. Isso torna tal entidade um enigma indecifrável, um constrangimento lógico – e até uma aberração metafísica. Não admira que o Pentágono tenha um plano de acção contra um eventual ataque de zombies. Criaturas assim paradoxais são rigorosamente imprevisíveis.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

LETRAS E PSIQUISMO

      Os grafólogos estabelecem correspondências entre as letras e as instâncias (freudianas) do psiquismo: a zona inferior equivale ao id; a média, ao ego; a superior, ao superego. Porém, embora todas «tenham» ego, só a letra «f» acumula as três instâncias. Umas «carecem» do superego, que dita regras; outras, do id, que segue impulsos; várias, dos dois. A escrita à mão parece constituir um irremediável desencontro: nem a regra conhece o impulso, nem o impulso descobre a regra.

sábado, 10 de maio de 2014

MEMORIAL DA NEVE

      Aos oito anos, memorizei a «Balada da neve» de Augusto Gil. Na altura, colhi das nove quintilhas uma impressão situada entre a ampla nostalgia e a pequena catástrofe. Hoje, examinando o arquivo, reparo que os versos ainda constam. Inteiros. Alvíssimos. Poemas fixados na infância e prolongados no tempo terão, decerto, relevantes efeitos existenciais. Trazer a neve, em redondilha fácil, talvez engendre plácida frieza. Entretanto, porém, inevitável, a memória recolhe outras estrofes – que não batem assim tão levemente.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

COSTUME ALTERNATIVO

       Eu costumo dizer que não gosto da expressão «eu costumo dizer que». Estruturalmente, sendo usada para o sujeito se citar a si mesmo, ela não anuncia nada de novo. Aprecio, ao invés, a expressão «eu costumo calar que», se pronunciada só assim, sem complementos – directo, indirecto, oblíquo ou contrafeito – que a tornem vacilante, ineficaz. O que habitualmente se cala tende para o infinito: «eu costumo calar que» promete silêncios robustos; «eu costumo dizer que» antecede frouxas epifanias.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A ARANHA

     No alfarrabista, abrindo um dicionário de filosofia, deparo com minúscula aranha aninhada no pequeno desvão feito por um grosso marcador de livros. Aguardo, para ver o que acontece. O animal não tarda a mover-se: atravessa a teoria do silogismo, galga premissas, vence conclusões, abeira-se da margem, despenha-se no intervalo que separa dois volumes fechados. Parece buscar o sentido da sua existência entre a lógica de Aristóteles e os livros que nunca lerá. Como qualquer um de nós.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

ESPERAS

        No tocante às esperas, quatro fases – variando as idades em que ocorrem – marcam a vida do pessimista. A uma primeira, em que tudo se espera dele, segue-se aquela em que o próprio admite: «Não esperem grande coisa de mim.» Já na terceira fase, em diálogo consigo, o pessimista declara: «Não espero nada de ti.» Por fim, dirá simplesmente: «Não espero.» Depois, é claro, irá embora. Um optimista passa exactamente pelas mesmas etapas. Mas distrai-se com mais facilidade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

NÃO

      Especialistas salientam a dificuldade do cérebro em entender o «não». Daí a vantagem de pensar «Eu sou inteligente» e a nocividade de proferir «Eu não sou estúpido». Estranhamente, Sartre descobriu na raiz daquele advérbio uma estrutura ontológica: o nada, condição necessária do «não», habita o ser, «como um verme». A primeira teoria contradiz a segunda. Ou talvez o cérebro seja um grande «não» – só empenhado em acolher o «sim». Mas tal ideia é francamente absurda. Ou não.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

GÉNESE DE UM SÍMBOLO

      Uroboro, serpente que morde a própria cauda, simboliza várias coisas: autofecundação, eterno retorno, união de opostos, perfeição celeste, roda das existências, etc. Menos inefável, há um vídeo que exibe uma serpente concreta a morder a sua cauda efectiva. Afirmam especialistas que tal comportamento ocorre em animais doentes, sem noção do que fazem. Talvez a génese de Uroboro fosse inspirada nessa enfermidade. Os símbolos esotéricos têm sempre um alcance que nos fascina – e uma origem que nos desilude.

domingo, 4 de maio de 2014

CONFUNDIR AS VIDAS SENTADAS

       Num certo sketch dos Monty Pythona prioridade é «confundir um gato». O animal sofre de tédio, abulia, quebranto. Expondo-o a alguns momentos circenses, tornou-se possível recuperá-lo. Com humanos, seria maior a dificuldade. «A minha vida sentou-se», escreve Mário de Sá-Carneiro. Para rimar, «fartou-se». Como impedir que as vidas se sentem? Como reerguer vidas sentadas? Como «confundir» os mortais, felinos incluídos? Talvez estes problemas garantam que, pela eternidade fora, as vidas dos deuses se mantenham de pé.

sábado, 3 de maio de 2014

NA SOMBRA DA GAVETA

      Trata-se de um volume de poesia, já antigo, de autor obscuro. As folhas, por abrir, reclamam espátula. Do frontispício, no entanto, salta um rectângulo intencional, porventura com estatuto de marcador, no qual se lê, escrito a vermelho, o seguinte aforismo probabilístico: «Talvez este livrinho te faça perder o medo de desenterrar teus versos da gaveta.» Mensagens assim ressumam ambiguidade e algum excesso: não sabemos se o poeta confia exageradamente no nosso talento, se desconfia demasiado do seu.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

APENAS O ECO

      Adolescente ainda, li num jornal estes inolvidáveis versos de Fernando Echevarría: «Estamos tão sós como se haver o mundo / fosse o eco somente de o haver.» Nos recessos do inconsciente, devo ter deduzido, na altura, que o mundo se encontrava suspenso entre o ser e o nada. Mais tarde, abordando o soneto que os integra, notei irrelevância ou quebranto nos restantes doze. Há versos nascidos para formarem dísticos intocáveis – e serem o eco irremissível um do outro.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

VIAGEM

     «Procuro, de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra.» Diz-lhe o alfarrabista: «Não disponho do livro, mas será fácil encontrá-lo em edição de bolso.» Certo. Para o filho, contudo, tornava-se penoso ler letras miudinhas. Então o homem sublinhou a vantagem de permanecer à superfície: no centro da Terra, a temperatura é elevadíssima. Depois de ela sair, comentou: «Muito preocupada! Como se o seu problema tivesse um alcance universal...» Não tinha, de facto: era um problema estritamente planetário.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

38

       Afirma um estudo recente que aos 38 anos (em média) o homem se torna igual ao seu pai: adormece no sofá, ri das piadas próprias, etc. A figura do progenitor, no entanto, constitui aqui um mero artifício retórico: aos 38, o indivíduo entra no «campo dos velhos» – particularismos genéticos são irrelevantes. Uma tal conclusão, bizarra e totalitária, até dá vontade de adormecer no sofá, de rir das piadas próprias – e das anedotas que estudos assim involuntariamente representam.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

RELÓGIO EXISTENCIAL

       Recém-inventado, o Tikker é um relógio que mostra ao utilizador quanto tempo lhe resta no mundo, após análise das respostas a um questionário sobre o seu estilo de vida. No entanto – pasme-se! –, o aparelho não é completamente rigoroso. Talvez falhe por segundos, o que faz uma enorme diferença. A intenção, todavia, consiste em suscitar o reconhecimento da preciosidade dos instantes. De qualquer modo, também seria conveniente informar o utilizador acerca do tempo de vida do próprio relógio.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

ACERCA DO CÉU

      No hipermercado, noto a presença na mesma prateleira de três livros que anunciam temáticas celestes. Avalio os títulos. O primeiro é de índole experimental: Uma Prova do Céu. O segundo é de carácter ontológico: O Céu Existe Mesmo. O terceiro é de pendor revolucionário: O Céu Muda Tudo. Talvez a dificuldade mais obstinada, para as almas que se entretêm a descrever o Céu – lugar de conflitos domados e de redundâncias certas –, seja encontrar um título minimamente original.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

HUMILHAÇÕES

       «[Nós] temos o direito a ser humilhados!», proferiu o moço, em defesa da praxe. Nada de grave subjaz à reivindicação de um direito – excepto quando tal reivindicação pressupõe um dever que a dignidade humana seguramente não aprova. O enunciado exposto configura uma situação do género: para que uns tenham o direito a ser humilhados, outros terão o dever de os humilhar. Claro, há sempre candidatos disponíveis para cumprir essa tarefa – excepto em países onde a decência reina.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O IMPULSO E A METÁFORA

       David Mourão-Ferreira conclui certo poema aludindo às «espadas de amor» que se cravam «no teu ventre». (Ante)ontem, na Rússia, após discussão sobre os méritos literários da prosa e da poesia, um adepto de poesia esfaqueou mortalmente um apreciador de prosa. No caso do poema de Mourão-Ferreira, adivinha-se facilmente que impulso humano guiou a criação da metáfora. Já no segundo caso – sem sonegar a intervenção de Baco – dificilmente se imagina que desumana metáfora presidiu à concretização do impulso.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

BURACOS NEGROS

     Stephen Hawking suscitou burburinho após afirmar, recentemente, que os buracos negros não existem como os conhecemos. Contestando a noção de «horizonte de eventos» (fronteira a partir a qual, graças à intensa força gravítica, nada escapa ao buraco), o físico propõe o conceito, mais flexível, de «horizonte aparente». Um buraco negro – consta – engole tudo em redor, sem sofrer indigestão nem emitir arroto. Hawking nega-o. Enquanto representações mentais, os «buracos negros» parecem ser lugares interessantes para jogar às escondidas.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

AS CINZAS E O INCONSCIENTE

      Meliantes terão tentado roubar as cinzas de Freud. Usurpar cinzas alheias é uma forma ilusória de ganhar poder sobre as latentes cinzas próprias. Usurpar as do fundador da psicanálise é uma estratégia sinuosa de dominar as forças do inconsciente. Não se trata de matar segunda vez o mensageiro, antes de sequestrar o que sobrou dele. Freud daria, para o sucedido, uma explicação melhor. Talvez os ladrões, numa espécie de círculo hermenêutico, andassem justamente à procura dessa explicação.

domingo, 12 de janeiro de 2014

SEGREDOS

       Era a primeira aula. Decorria a exibição de um documentário sobre «linguagem corporal» quando dois alunos, com inefável reciprocidade, se envolveram aos socos e aos pontapés. Presumindo não estar perante um circunstancial afago, achei melhor intervir. O apaziguamento não foi tarefa macia. Eis, portanto, um começo auspicioso. Bem sei que a linguagem corporal, à semelhança do Cosmos, encerra segredos susceptíveis de deixar perplexa a criatura humana. Mas sempre dispensei que eles se revelassem de forma tão exuberante.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

LAPSO DUPLO

       Constato: as respostas dos dois testes equivalem-se na perfeição. Pormenor relevante: nenhum dos alunos se lembrou de colocar o nome no espaço reservado para o efeito. Lapso que Freud explicaria sem rodeios: na inconsciente profundeza, qualquer um deles recusou assumir a autoria daquilo que sabia não ser da sua lavra. Deve, pois, ter existido uma cábula comum, ou certo influxo verbal divino, partilhado com rigor, ou uma intervenção do Inefável, que estende o esquecimento sobre os nomes. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

FÓRMULA REDENTORA

        Célebres poemas de David Mourão-Ferreira, «Escada sem Corrimão» sintetiza os absurdos da vida, «Ladainha dos Póstumos Natais» analisa os efeitos da morte. Cada um a sua, ambos organizam as duas metades do caos que em herança universal nos coube. Se lhes acrescentarmos o legítimo devaneio, obteremos uma fórmula aparentemente redentora: «Há-de vir um Natal e será o primeiro a trazer um corrimão à escada em caracol» – só que nessa altura já não existirá escada para o receber.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O HÍFEN

        Em hora crepuscular, li no ecrã do computador a expressão «fim da história». «Fukuyama» vinha a seguir, entre usuais parêntesis. Acontece, no entanto, que percepcionei um hífen a unir a «história» ao «da». Estranhei tal presença, tanto mais que ela recomendava, no mínimo, um segundo hífen que ligasse aquela dupla ao anunciado «fim». Passou um daqueles instantes que, por teimosia ou redundância, dizemos ser «breve», e o «hífen» moveu-se. Tratava-se de um imponderável mosquito. Fim da história.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

COMEÇO

       Fernando Pessoa julgava – ou assim o pensou ao escrever determinado verso da Mensagem – que «todo o começo é involuntário». Mas tal verso deve ter sido involuntário – porque lhe surgiu, dádiva dos deuses, para começo de um poema. A sentença, pressupondo uma leitura providencialista da história, parece colidir com outra, que destaca a livre iniciativa do indivíduo: «Tudo o que é voluntário é começo.» Aceitemos as duas ideias como quem aceita o Universo: todo o começo é contraditório.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

FRASE ANÓNIMA

       Citar uma frase anónima constitui obscura homenagem aos talentos ignorados. A homenagem perde valor se o conteúdo da frase nos sugerir que todos, ou quase, teriam condições existenciais para formular tal máxima com esforço mínimo. Ela readquire, no entanto, o valor perdido, ganhando até uma pertinência complementar, se o pensamento aí expresso for uma exortação sapiencial que se autocontradiz mediante a ironia cúmplice. Eis uma sentença desse género: «Pensa sempre que és único, exactamente como qualquer outro.»

domingo, 1 de dezembro de 2013

O QUERER DO EU

       Reconhecia-o Lily Tomlin: «Sempre quis ser alguém. Agora vejo que devia ter sido mais específica.» Sublinhou, todavia, Kierkegaard que o eu desespera quando não quer ser ele próprio; se o quiser ser, acontece-lhe o mesmo. Trata-se de um modo original de conjugar o verbo «querer»: eu quero, tu queres, ele quer, nós desesperamos… Buda conseguira já uma fórmula para erradicar a doença: o eu não existe. Desde há 2500 anos que tentamos, em vão, ser mais específicos.

sábado, 30 de novembro de 2013

O PERMANENTE

       Filósofos de diferentes culturas decidiram, um dia, rumar ao desconhecido, buscando «Aquilo que permanece». Venceram montes, desceram ribas, calcorrearam desertos, suportaram tempestades – até que o descobriram. Em seguida, procuraram dar-lhe nome. Surgiram várias propostas, nenhuma consensual: Infinito, Uno, Deus, Espírito, Eternidade, Nirvana, Totalidade, Ser, Essência, Verdade, Substância, Absoluto, Universo, Consciência, Tao, Ain Soph, Brahman. Após longas horas, alguém se lembrou de lhe chamar «Nada». Registou-se um acordo pleno. E todos, em uníssono, soltaram este aforismo: «Nada permanece.»

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

PRIMAZIA CRONOLÓGICA

       Um não foi autorizado. Perguntara: «Posso fumar enquanto rezo?» Outro recebeu licença. Questionara: «Posso rezar enquanto fumo?» Diferencia os dois casos uma distinta precedência cronológica das acções – ou das intenções subjacentes. Conta-o Fernando Blázquez: achando no portal onde costumava ir «desbeber», além da cruz (desenhada na véspera), o axioma «Onde se põem cruzes, não se mija», o poeta Quevedo acrescentou: «Onde se mija, não se põem cruzes.» Frequentava o espaço há mais tempo. E voltou a urinar.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ENTRE O SER E O NÃO-SER

     O objecto foi ideado por George Lichtenberg: uma faca sem lâmina, à qual falta o cabo. Representá-lo exige quatro momentos: primeiro surge a faca; de seguida, esvai-se a lâmina; depois, dissolve-se o cabo; por fim, usando-se o próprio objecto, efectua-se um corte que separa a «faca ainda presente» da «já ausência de faca». Trata-se, portanto, de um objecto que origina intervalos mentais: um alívio para os pensadores; uma bênção para os torturados; uma inutilidade para os idiotas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

DUAS PERGUNTAS

       A questão encontra-se no poema Domingo de Manuel da Fonseca: «Que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre como se fosse uma festa?...» Acrescente-se-lhe outra, igualmente encomendada à esfera dos enigmas, colhida em Stevenson, n’A Ilha do Tesouro: «Se jamais se viu um espírito com sombra, como haverá um que faça eco?» Mora aqui a resposta à sinuosa angústia anterior: «Aos domingos, se te faltar inclinação gregária, torna-te espírito: não deixes eco nem emanes sombra.»

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O ANEL E A INVISIBILIDADE

      Conta-o Platão: Giges, pastor ao serviço do soberano, achou um anel de ouro. Voltando o engaste para a parte interna da mão, tornava-se invisível; rodando-o para fora, tornava-se visível. Que fez? Seduziu a rainha, matou o rei e tomou o poder. Perante o cenário, ter-se-á de admitir que a causa da invisibilidade é plural: está presente no anel, mas também no dedo e no acto giratório. Só desta forma se assegura a conveniente invisibilidade do próprio anel.

sábado, 23 de novembro de 2013

MEMÓRIAS

      Não desejava partilhar as suas memórias, embora quisesse libertar-se da sombra delas. Decidiu então redigi-las em pleno ar, à altura dos olhos. Num amplo terreno, onde se erguiam duas árvores, passava dias a agitar o indicador direito, enchendo o espaço de parágrafos invisíveis. Volvido um tempo, os raios de sol, persistindo nas copas das árvores, deixaram de tocar aquele chão. Densas de desespero, as lembranças escritas teciam uma nuvem incorpórea que a luz era incapaz de atravessar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

SONO APLICADO

       O volume que, em geral, inseria debaixo do travesseiro onde dava descanso ao cérebro acolhia a Constituição. Outros, no entanto, igualmente de pendor jurídico, tinham ali lugar em noites próprias. Estudante de Direito, acreditava que, dormindo com os livros sob a cabeça, receberia por osmose inconsciente o saber aí expresso. Se alguém lhe perguntava a razão daquela atitude, justificava-se de um modo que o defendia da acusação de preguiçoso: «Enquanto sonho, gosto de estar acima da lei.»

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MUDAR DE IDEIAS

      O pensamento filosófico de Friedrich Schelling terá passado por mais fases que a própria Lua: cinco ao todo, rezam os especialistas. Face ao desaforo, perguntar-se-á com legítima apreensão: como levar a sério este indivíduo tão intelectualmente volúvel? A culpa, todavia, é da realidade material: consta que, pelo menos a nível subatómico, ela jamais soube estar quieta. Objectar-se-á dizendo-se que tal pormenor não explica tudo. Certo. Mas, se tal pormenor explicasse tudo, nunca os filósofos mudariam de ideias.

sábado, 16 de novembro de 2013

O TÚNEL

      Sugere-o Rousseau: a instituição da propriedade privada – e dos estragos inerentes – deu-se com aquele espertalhão que, tendo cercado um terreno, disse: «Isto é meu!» Alguns ingénuos acreditaram nele. O resto é conhecido. No entanto, a origem do problema deve ser muito anterior. Certo australopiteco passou por uma experiência de quase-morte. Obviamente viajou ao longo de um túnel pessoal e intransmissível. Ao regressar do transe, exclamou: «Esta caverna é minha!» Referia-se ao túnel. Mas todos entenderam outra coisa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

INFINITUDE

     Nicolau de Cusa defendeu algumas teses sobre o infinito – onde coincidem os opostos – usando argumentos bastante persuasivos. Sem esforço, ele demonstra, por exemplo, que num círculo infinitamente grande a circunferência equivale à tangente: «curvo» e «recto» não se distinguem. Ora o infinito fica longe: deve ser exorbitante o preço do bilhete. Daí que o pensamento, para não abandonar a finitude, aceite facilmente o que lhe dizem acerca desse algo indefinido que, mudo e remoto, nunca deixou pistas. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CORRESPONDÊNCIAS

        Inspirados no interseccionismo pessoano, podemos elaborar ousadas correspondências, até que a realidade se desvende. Hobbes caracteriza a vida humana, no estado de natureza, como «solitária, pobre, sórdida, brutal e curta». Antes dele, Maquiavel disse que os homens são «ingratos, volúveis, dissimulados, esquivos ao perigo e cúpidos de lucro». Talvez as más qualidades apontadas n’O Príncipe traduzam o resultado, inconsciente, das péssimas circunstâncias sugeridas em Leviatã. Contamos cinco nos dois casos: a mão que escreve nunca foi isenta.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

EXPLICAÇÕES

      Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Obedeci ao conselho: parei na terceira página. Mas estou, finalmente, decidido a ler uma obra de Lobo Antunes: Explicação dos Pássaros. Adquiri-a em edição primeira. Lá dentro, marcador suspeito, achava-se uma embalagem de dez comprimidos para dormir: seis ainda resistiam. Estranharia menos se descobrisse a liga da duquesa no breviário do capelão. O clínico detalhe convida-me à leitura. A mente funciona por enigmas. As aves são mais fáceis de entender.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O OLVIDO DO OVINO

      Martin Heidegger produziu três ideias acerca do «ser» que desaguam numa conclusão perturbadora. Primeira: «O ser foi esquecido.» Segunda: «A linguagem é a casa do ser.» Terceira: «O homem é o pastor do ser.» Então o que é o «ser», se reunirmos numa só estas loucas perspectivas? É um ovino que passa a noite no curral da linguagem e que o homem apascenta durante o dia, embora sem consciência de o fazer – porque olvidou esse animal obscuro.

domingo, 10 de novembro de 2013

IMPOSSIBILIDADE

      Num lote de livros que adquiri – na altura não o explorei de forma exaustiva –, descubro um volume escrito pela catalã Cecilia A. Mantua, editado entre nós pela Figueirinhas. Metade deste exemplar encontra-se por abrir, reclamando espátula, faca ou xis-acto; a outra metade aparece irremediavelmente desfeita, com centenas de papelinhos amontoados, fruto do labor de ratos minuciosos. Em síntese: uma parte está fechada, outra parte está perdida. Só falta mesmo referir o título: O Nosso Amor é Impossível

sábado, 9 de novembro de 2013

ERGUER O BRAÇO

       Difícil na elaboração do texto é escolher as palavras de abertura, as de fecho e as que fazem a ligação entre umas e outras. Apesar da contrariedade, aproveitemos esta pergunta de Wittgenstein: «O que resta se eu subtrair o facto de o meu braço se erguer ao facto de eu erguer o meu braço?» Resta a intenção – ou nada. Mas o que geralmente conta é a intenção. Satisfeito com a resposta, Ludwig? Então pode baixar o braço.