quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Solução intermédia

«Nada te perturbe. Nada te espante», recomendava Teresa de Ávila. A imperturbabilidade constitui, de facto, um princípio de sabedoria – ou até o fim de certas ilusões. Mas a ausência total de espanto, sobretudo para quem não costuma ter experiências místicas, atira-nos para um limbo rigorosamente insípido. A solução do problema (se algum houve) é de natureza intermédia e reside no espanto imperturbável – essa tranquila homenagem ao Universo indiferente.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Expulso ao intervalo

No recente jogo entre o Palmeiras e o Flamengo – disputado em casa da equipa de São Paulo –, um sexagenário, adepto do Palmeiras, foi expulso do estádio, ao intervalo, por outros torcedores do mesmo time, em virtude de ter passado a primeira parte do encontro a ler um livro sobre Karl Marx, numa espécie de protesto devido aos maus resultados do seu clube. Em vez de aderir à chinfrineira, o homem optou pelas vias da mais compenetrada mudez. Não há incompatibilidade existencial em ser-se adepto de futebol, de Karl Marx, da leitura e do silêncio. Mas convém não exibir, em simultâneo, a defesa de tantas causas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Estremecer

Há muita cabeça que, à semelhança da de Herberto Helder, «estremece com todo o esquecimento». Há muita cabeça que, similarmente à de qualquer cidadão, estremece com toda a memória. Consta haver também uma ou outra que, graças a técnicas de meditação aprofundada, julga que encontrou o equilíbrio perfeito entre a recordação e o olvido, a ponto de já não mais estremecer. Tal significa viver sem cisma nem sismo. É sempre bom ter isto na memória, se não for preferível esquecê-lo.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Duas caras

Viver com baixa auto-estima é virtualmente perigoso. Viver sem sentido de humor é naturalmente sinistro. A conjugação de ambas as situações deve gerar um absoluto desnorte. As vias da salvação exigem outras possibilidades. Uma delas é que o sentido de humor seja aguçado pela baixa auto-estima. Quando, visitado por certa mulher, esta o informou de que ele, por ter nascido no signo de Gémeos, tinha duas caras, Ariano Suassuna disse-lhe o seguinte: «E você acha que se eu tivesse duas caras usaria essa?»

sábado, 30 de novembro de 2019

A carta

É mais ou menos célebre a anedota do louco, no manicómio, que se encontra a escrever uma carta a si mesmo e que, interrogado pelo psiquiatra sobre o conteúdo nela expresso, oferece esta resposta, em forma de pergunta: “Como é que eu hei-de saber se ainda não a recebi?” Sitiada pelas sombras da loucura, num jogo de estranhos reflexos, a existência individual identifica-se obscuramente com essa carta: quer da parte de quem a redige e envia quer da de quem a recebe e tenta ler, ela será sempre um documento indecifrável.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Neutralidade

Trazendo-nos à lembrança os anjos neutros, descritos na Divina Comédia, essas criaturas que o Céu expulsa e o Inferno se recusa a hospedar – visto não terem tomado partido nem por Deus nem por Lúcifer –, Allan Kardec refere existir uma classe de espíritos, obviamente imperfeitos, a que chama espíritos neutros. Caracteriza-os o estranho facto de não serem suficientemente bons para fazerem o bem nem suficientemente maus para fazerem o mal. Moralmente falando, eles nem atam nem desatam. Todavia, quer o mal e o bem se definam pelas intenções, quer pelas consequências, quer pela conjugação de ambas as coisas, possuir a insólita competência de nunca praticar nem um nem outro deve exigir um tal equilíbrio que talvez estejamos perante uma classe vazia.

sábado, 23 de novembro de 2019

"As portas da percepção"

Por vezes é inevitável: o transeunte pousa os olhos na salamandra esmagada sobre o asfalto, junto à folha de bétula que o vento para ali trouxe. Ao invés do que supunha William Blake, mesmo que «as portas da percepção» estejam limpas, o infinito não se mostrará: tudo o que aparece à consciência surge circunscrito, limitado, definido. Mas talvez do lado de lá da salamandra desfeita, da folha tombada, do vento inquieto e do transeunte ocasional exista uma espécie de lugar negativo, habitado pela não-salamandra, pela não-folha, pelo não-vento, pelo não-transeunte, pelo não-tudo. Aí, o infinito manter-se-á oculto. Mas «as portas da percepção», logo que se abram para esse espaço, devem ficar inteiramente limpas.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Saber e ignorar

Encontra-se na Bíblia algo parecido ao seguinte: o muito saber gera muita dor. Ao invés, talvez isto não se encontre na Bíblia: a muita ignorância produz idêntico efeito. Ainda está por surgir um compêndio em que venha rigorosamente exposto o que é necessário e suficiente saber e o que é suficiente e necessário ignorar para que se atinja aquele ponto em que a dor cognitiva se anule. A leitura de um manual assim deverá revelar-se excitante e esclarecedora: excitante, porque metade do livro será constituída por inéditas epifanias; esclarecedora, porque a outra metade, cheia de cautelosas omissões, será composta de páginas em branco.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O quinto bolso

Consta que o pequeno bolso existente por cima do bolso lateral direito das calças de ganga foi inicialmente concebido para guardar e proteger os relógios dos cowboys. Actualmente, ou é usado para transportar os mais diversos objectos que nele caibam ou não se lhe dá uso nenhum. Esta alternativa parece, aliás, a preferível. Sem albergar relógio nem outras coisas fugazes, e como se prestasse homenagem ao silêncio do mundo e ao vazio do espaço, esse compartimento discreto pode ser o último reduto da eternidade.

domingo, 17 de novembro de 2019

Tempo para a depressão

Há pessoas que, talvez beneficiadas pela genética ou pelo meio, e decerto sustentadas por um ilusório pragmatismo, gostam de anunciar ao mundo que não têm tempo para depressões. Conviria, no entanto, que elas centrassem a atenção num facto elementar: até aquele que julga não ter tempo para a depressão se encontra exposto à contingência de, um dia, a depressão ter tempo para ele. E consta que as depressões não costumam exigir reciprocidade.

sábado, 16 de novembro de 2019

Sintoma

Pode acontecer ao mais obscuro blogger:  sentir, à superfície, o impulso irresistível de transmitir um pensamento provisório e experimentar, lá no fundo, o secreto desejo de regressar ao silêncio definitivo. Manter um blogue é, por vezes, como estar com tosse.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Psicocinese

Rolf Alexander (1891-1970), autor de livros que tentam evidenciar os poderes mentais, era alegadamente capaz de dispersar uma nuvem apenas concentrando-se nela. Nestes dias cinzentos, agradecer-se-ia tal espécie de psicocinese. A boa notícia é que dissolver nuvens de um determinado ponto do céu (ou, inclusive, fazê-las aí surgir) constitui um exercício que – havendo paciência e tempo – até o ser humano mais bisonho consegue executar sem grande esforço.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Sonho tumular

Consta que, achando-se de boa saúde, o naturalista britânico Edwin Reed Brookman (1841-1910) sonhou, certa noite, que entrava num cemitério onde encontraria um túmulo de mármore branco, sobre cuja lápide leu o seguinte: «Reed, naturalista. 7 de Dezembro de 1910.» O cavalheiro expôs a amigos e parentes esta informação privilegiada  e acabou por falecer exactamente naquela data. Todo o ser humano deveria poder visitar, em sonhos, a sua derradeira morada – e, alterando a matéria onírica, ter o inalienável direito, pelo menos uma vez na vida, de mudar a eventual data da morte que lá estivesse inscrita para uma altura julgada mais oportuna.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Atrair o semelhante

Parece consensual: o semelhante atrai o semelhante. O mais difícil, nestas situações, é saber qual dos semelhantes iniciou o acto de atrair. Em todo o caso, os líderes espíritas tendem a acreditar que muitas – a esmagadora maioria – das supostas entidades desencarnadas que à nossa volta vagueiam (e connosco por vezes se misturam) são criaturas ignorantes, confusas, cheias de stress, privadas de rumo. Pensar sobre o Além talvez seja libertador; mas é, com frequência, dar um passo em direcção ao desconsolo.

sábado, 9 de novembro de 2019

Dualismo imperfeito

Só há dois tipos de pessoas neste mundo tão diverso: a) as que já alcançaram a perfeição; b) as que já foram alcançadas pela perfeição; c) e as que, por vezes, se enganam a fazer as contas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Desajustes

Talvez se afigure estranho ou perturbador. Mas o certo é que também os autores daqueles livros de auto-ajuda que apontam as vias do conseguimento ilimitado, do sucesso absoluto, do poder infinito e da felicidade sem mácula se encontram sujeitos aos achaques, às frustrações, ao quebranto e à morte. Não, não estamos perante falta de credibilidade por parte do escriba. Trata-se unicamente, a par de uma certa vocação para o exagero, do facto de entre as palavras e a vida existirem incuráveis divergências.

sábado, 2 de novembro de 2019

Preferências



É de longe preferível, agora que a natureza amplamente o favorece, proceder à colecta sábia de idóneos cogumelos, entre tufos de erva e folhas outonais, do que envenenar o espírito com algum aforismo colhido em Schopenhauer ou noutro pessimista desatento.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Apagar

Tantos ficheiros inúteis se acumulam no computador, à semelhança do que sucede com escusados reflexos na memória, que a determinada altura o imperativo é apagar, extinguir, eleger o nada, rumar ao esquecimento. A máquina, então, ganha mais espaço; conquista o espírito maior vazio. O fim do dia gera a noção de terem valido a pena o esforço de afastar o entulho, o labor de dissolver o supérfluo e a valentia de abolir imagens – mesmo se a vacuidade vier a coincidir, por ironia, com formas ancestrais da plenitude.

domingo, 27 de outubro de 2019

Num canto, com um livro

A frase, de Tomás de Kémpis, ganhou notoriedade graças a Umberto Eco, ao ser posta no fim da introdução de O Nome da Rosa: «In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro.» Dito de outro modo, em tradução aproximada: «Procurei a paz em todo o lado, e não a encontrei em lado nenhum, excepto num canto, com um livro.» Neste caso, porém, conviria esclarecer onde se situava o canto, de que livro se tratava e – se não houver nisto demasiada exigência – qual o uso que dele se fez. Afinal, entre o eu e o não-eu os armistícios nunca foram fáceis.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Folhetos proféticos

Num desses folhetos publicitários que chegam, sem prévio consentimento de quem os recebe, através do correio – e que se mostram muito úteis agora que o frio começa a revelar uma assiduidade escusada – pode ler-se o seguinte: «Espetáculo dos descontos. Aproveite os últimos dias!» Compreende-se que este género de publicidade se associe, com frequência, ao exagero. Mas devia, no mínimo, poupar-nos a sugestões de carácter apocalíptico.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Destino e aceitação

Um internauta acedeu a este blogue através das palavras «como aceitar o destino». Improvável ter obtido uma resposta animadora. De facto, diferentemente do que sucede com a aceitação da morte, de um conselho ou de uma bolacha, a aceitação do destino – entendido à maneira de uma inevitabilidade cósmica – faz parte do próprio destino, sendo dele tão inseparável como o hidrogénio o é da água. Quando de destino se trata, os actos de aceitar, de não aceitar e de se marimbar para o assunto encontram-se destituídos de eficácia em relação a tal destino. Mas tentar não custa e insistir não dói. Talvez o destino acabe por se mostrar aparente, se pressionado por aparente liberdade. Talvez estejamos destinados a viver de forma livre o conflito irreal entre essas duas ilusões.

sábado, 12 de outubro de 2019

O ovo

Num manual de Língua Portuguesa do segundo ano, intitulado Cortiço, pelo qual estudaram, na década de oitenta, alguns cidadãos que hoje escrevem em blogues, deparamo-nos com um texto, sem menção de autor, em que se diz que, no meio do quintal, se achava um ovo branco, sendo que ninguém sabia quem o tinha posto. A galinha que o encontrou exclamava então: «Olhem o meu ovo! Tão grande que é!» Também se desconhece quem terá posto o chamado Ovo Cósmico, essa realidade mística, alquímica, esotérica, sobre a qual se torna árduo opinar. Enquanto não houver provas relativas à identidade do ser que o colocou na existência, qualquer criatura, apontando indefinidamente para ele, poderá proferir aquelas palavras: «Olhem o meu ovo! Tão grande que é!» Do Ovo Cósmico far-se-á talvez um número infinito de omeletes.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Sobre a auto-estima

Admitamos que a auto-estima se situa entre o zero e o mais infinito. Progredir rumo a este último parecerá, então, constituir um ideal humano. Todavia, não só tal extremo é inacessível, como há grande probabilidade de, a certa altura, o indivíduo explodir, inchado pela estima em excesso. Claro que evoluir em direcção ao zero também não se recomenda. Mas tal ponto nulo, além de atingível, garante, quando alcançado, um equilíbrio absoluto entre o eu e o mundo.

sábado, 5 de outubro de 2019

Reflectir

Mais um dia de reflexão. E, embora nada de politicamente relevante se afigure haver sobre que reflectir, fica-se com a filosófica ilusão de que o dia traz consigo uma espécie de substância invisível e subtil que entrará, por osmose, em cada cérebro, convidando ou até forçando o pensamento a deter-se, a voltar-se para si mesmo, a concentrar-se nas grandes questões existenciais, a explorar hipóteses metafísicas, a afundar-se em mistérios insondáveis, a equacionar saídas limpas para a nossa insistente incompletude.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sinais de cinza

Num documentário sobre Sinais de Fogo, à pergunta «O que é que acha que são os Sinais de Fogo?» alguém responde: «Isso já se conhece desde a altura da pré-história, não é?» Possivelmente. «Sinais de fogo as almas se despedem, tranquilas e caladas, destas cinzas frias», escreve Jorge de Sena. Talvez na pré-história elas fizessem o mesmo. E talvez assim continuem. Até que se unam ao fogo de que são sinais. Ou se percam para sempre, tranquilas e caladas, entre as cinzas frias de uma história sem sentido.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O presente exclusivo

Não obstante a veemência com que os livros de auto-ajuda – que muitas vezes o são também de hetero-prejuízo – costumam advogar a ideia de que devemos, mentalmente falando, viver em exclusivo no presente, torna-se difícil pôr em prática tal imperativo. Para o conseguir, o indivíduo tem de desenvolver a habilidade de se ajustar a uma espécie de fissura que separa algo que já acabou de algo que está sempre a começar, sendo que esses dois factos aparentes se reduzem ao mesmo acontecimento. Não é fácil.

domingo, 29 de setembro de 2019

Mitigação verbal

Se for possível, em termos verbais, mitigar as consequências, mais ou menos funestas, resultantes de uma escorregadela, por exemplo, em casca de banana, aqui fica um contributo nesse sentido: em rigor, não é o indivíduo quem escorrega no referido invólucro; é a casca de banana que, esmagada entre o calçado e o chão, sofre a inevitabilidade de escorregar em si mesma.

sábado, 28 de setembro de 2019

Epígrafe discutível

Eugénio de Andrade inicia o livro “Matéria Solar” com a seguinte epígrafe, da autoria de Vladimir Holan: «Ser não é fácil… fácil, só a merda.» A primeira parte da tese parece refutável: ser é facílimo; difícil é o «dever ser», que põe o ser em conflito consigo mesmo. No tocante à parte excrementícia, talvez Vladimir e Eugénio tenham olvidado essa chatice pouco poética chamada prisão de ventre.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Sala de espera

Eis uma pergunta insensata: quantas salas de espera existirão no Universo? Eis outra, basicamente estranha: não será o próprio Universo uma sala de espera? Mas espera por quê ou por quem? Por coisa nenhuma. Nem sequer por Godot. Uma espera desprovida de objecto. Absurda. Incondicionada. Inefável. Pascal sentia-se aterrorizado pela eterna mudez dos espaços infinitos. Talvez isso o deixasse, até, no limiar do desespero. Talvez, inutilmente, ele aguardasse ouvir alguma voz na grande sala de espera do silêncio.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Nada

Luís XVI escreve no diário, em 14 de Julho de 1789, apenas isto: «Nada.» Nesse dia ocorreu a Tomada da Bastilha. «Não é nada», terá dito e repetido, no limiar da morte e da Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Fernando da Áustria, em 28 de Junho de 1914, após baleado por Gavrilo Princip. Sartre achava que o nada reside «no próprio seio do ser, no seu coração, como um verme». Consta até que o mundo foi criado a partir do nada. Ou terá sido destruído? O nada é um verme altamente misterioso.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A mosca

Hoje é o Dia Mundial do Sonho. E uma expectável mosca pousa, sem cerimónia, sobre o ecrã do Surface. Resvala involuntariamente ao longo da página em branco do Word. Esfrega as patinhas dianteiras, enquanto persiste em derrapar com as outras. Volta à situação anterior. Inicia agora um movimento normal, como se quisesse fazer de conta que vive acima de qualquer deslize. Não tarda, talvez entediada, irá levantar voo. E o texto chega ao fim. 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Leilão do eu

«Fiz leilão de mim», escrevia Artur Ribeiro e muitos o cantaram. A hasta correu mal: ninguém quis saber do lote em causa. «Diz-me a pouca sorte / que para castigo / até vir a morte / vou ficar comigo», desabafa o sujeito poético. Certo, no entanto, é que a pessoa que seja capaz de «ficar consigo até à morte» – ou de coabitar com a sua persistente e inevitável sombra –, sem conflitos internos que a dilacerem nem discórdias auto-punitivas que a torturem, jamais terá necessidade de fazer leilão de si mesma. Ou de arrematar outro eu.

"Fiz Leilão de Mim" (Tony de Matos): aqui

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A omnipresença da vaidade

«Eu, que disse mal das Vaidades, vim a cair na de ser Autor», escreve Matias Aires no prólogo do seu livro mais proeminente. O problema é que a extinção da vaidade ocorre se, e apenas se, ocorrer a extinção do eu – ou da ilusão que o eu constitui. Significa isto, portanto, que não existe a vaidade de não ter um eu – embora a tentativa de se despojar dele, a fim de abolir a vaidade própria, resulte, com frequência, de um impulso da própria vaidade.

domingo, 22 de setembro de 2019

Promessas

Se a beleza, como diria Stendhal, «é a promessa da felicidade», resta saber se o é da felicidade eterna, se da provisória. Felicidade eterna é promessa de tédio. Felicidade provisória é promessa de angústia. Há algo de saudável em desconfiar das promessas.

sábado, 21 de setembro de 2019

A pedra

É célebre o poema de Carlos Drummond de Andrade que se inicia com o verso «No meio do caminho tinha uma pedra» e se conclui com o verso «No meio do caminho tinha uma pedra». As duas estrofes, aliás breves, nada acrescentam sobre a origem de tal pedra e são omissas quanto ao destino desse pedaço de matéria. Há poesias assim: tropeçamos nelas como na vida. «No meio do caminho tinha uma pedra.» Outra no meio do poema.

"No meio do caminho" (em vários idiomas): aqui

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Os despertos

É tentação comum a vários seres humanos, que, nesse âmbito, adoptam, com frequência, rótulos de cariz religioso, filosófico, científico, artístico, gastronómico ou de outro teor: achar que grande parte dos semelhantes dorme, sendo que só eles se encontram despertos e com missão de acordar tais infelizes. Mas a realidade tem o costume atroz de se revelar sempre um pouco mais complexa. Sono e vigília não se opõem: complementam-se. E são muitos os níveis em que se desperta, diversos os planos em que se adormece – e totalmente legítimos os motivos que levam alguém a desejar voltar a adormecer, mesmo logo depois de despertar.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Simultaneidade

A frase, da autoria de Woody Allen ou de outro filósofo, diz que «o tempo é a forma que a natureza encontrou para evitar que tudo aconteça em simultâneo». Mas já a Teoria da Relatividade – se não quisermos recuar dois milénios e meio, até Parménides – obriga a reescrever tal axioma, à luz da perturbadora concomitância de passado, presente e futuro numa espécie de eterno agora: «O tempo é a ilusão que a consciência produziu para evitar confrontar-se com o terrível facto de tudo existir em simultâneo.»

terça-feira, 30 de julho de 2019

«Refazer a vida»

A expressão «refazer a vida» é sobretudo aplicada à acção de quem, tendo saído de um relacionamento, ingressou em outro. Raramente ela se utiliza para caracterizar a situação de quem, abandonada certa relação, optou por uma existência de eremita que se envolve em ideais místicos ou de mero solitário que nem consigo mesmo se compromete. A própria expressão parece, em geral, inadequada ou redutora, já que a vida continuamente se faz e refaz, transcendendo alegadas escolhas sentimentais. A expressão «refazer a vida» e o uso que dela se faz precisam de ser refeitos.

sábado, 27 de julho de 2019

Assimetrias

Senta-se um indivíduo no café, pede algo para comer e de imediato lhe perguntam: «E para beber?» Senta-se o mesmo indivíduo no mesmo café, pede algo para beber e não lhe perguntam: «E para comer?» Quem deteste pequenas ou grandes assimetrias pode ter dificuldade em suportar este detalhe aparentemente inócuo.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Memórias de adultez

Há vários casos documentados. O mais recente é o do filho de quatro anos de um apresentador de televisão australiano, que diz ser a reencarnação da princesa Diana. Admitamos que a tese corresponde à realidade. Fica então a dúvida de saber se uma criança com memórias de quando, numa vida passada, foi adulta continua a ser criança ou se é um adulto em miniatura. Porém, substituindo a relação de identidade pela de inclusão, deduz-se que, se o adulto contém em si a criança que foi, também a criança pode conter em si o adulto que se supõe ter sido. Seja como for, e voltando ao caso em análise, não deve usufruir de infância doce um miúdo que, aos quatro anos, já não crê no amável Pai Natal, nem na felicidade das princesas, nem na polivalência das cegonhas.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Eterna repetição

«Se todo o tempo é eternamente presente / Todo o tempo é irredimível», escreveu T. S. Eliot. Por outras palavras: se tudo se encontra já aqui e agora, nada há que possa ser salvo ou, inclusive, que precise de o ser. Desta forma, a história fica privada de um sentido e consistirá apenas numa repetição que indefinidamente se repete, sem que um evento originário – explosão ou algo similar – a tenha posto em marcha e sem que um ponto final encerre o texto cósmico. Chamar-se-á a isto «eterno retorno». Mas será mais compreensível dizer (não obstante a entorse gramatical) que hoje se repetirá o que ontem se repete e o que amanhã se repetiu.

domingo, 14 de julho de 2019

Para lá do princípio da identidade

O princípio da identidade – segundo o qual cada objecto é igual a si mesmo e distinto dos demais – encontra-se na base da qualquer ordem estabelecida, seja esta relativa a factos ou a valores, a parafusos ou a beringelas. Duas coisas, no entanto, parecem constituir excepção e escapar ao domínio de tal princípio: o sonho nocturno, que é muitas vezes o caos da memória, e o Universo como um todo, que será sempre a memória do caos. 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Evasões e convicções

Eis um poema possível, composto de versos colhidos nas hortas de Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, António Nobre e Antero de Quental, sendo a autoria segundo a ordem que se apresenta: «Ah, que me metam entre cobertores, / E não me façam mais nada!...» / «Sou um pobre de longe, é quase noite... / Terra, quero dormir... dá-me pousada!» / «Porque o melhor, enfim, / É não ouvir nem ver,» / «Não quero mais que um som de água, / Ao pé de um adormecer.» / «Vais-te a dormir na tua casa nova / Cem séculos ou mais... provavelmente.» / «Dorme o teu sono, coração liberto. / Dorme na mão de Deus eternamente!» Poderá alegar-se que estamos perante fugas ao mundo, embora seja também legítimo argumentar-se que nos encontramos diante de aproximações à realidade autêntica, essa coisa imóvel, infinita, perene, invisível, só descoberta nas funduras do ser, nos recessos do inconsciente, nas alturas do espírito – ou em lugar nenhum. Em todo o caso, recomenda-se lembrar os versos citados pouco antes de dormir. Resta saber se é problemático tê-los na cabeça imediatamente depois de acordar.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Riquezas

A revista Forbes apresentou, recentemente, a lista dos 50 portugueses mais ricos. E tudo leva a crer que, como de costume, não se trata de «riqueza interior». Mas convenhamos que já vai sendo tempo de surgir uma lista capaz de reflectir dimensões profundas da alma, não obstante ainda carecerem de rigor os critérios para a escolha dos espiritualmente abastados. Em todo o caso, e abordando de novo os bens materiais, qualquer português minimamente atento deverá consultar a referida lista dos 50. É que por vezes o nosso nome aparece onde menos se espera.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Adicionar conteúdos

Notificação do Facebook: Fulano adicionou conteúdos à sua história. A frase destila profundidade, a par de uma inequívoca estranheza. Afinal, por cada passo que dá, a criatura humana adiciona conteúdos à sua própria história. Ou então, em rigor, é a história universal a originar, impessoalmente, os passos individuais – e a adicionar conteúdos a si mesma. Ou até pode acontecer que se trate não de adicionar, antes de subtrair conteúdos: se a história avança em direcção ao fim, deve tornar-se cada vez mais leve.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Interregnos

Admitamos, como os defensores da reencarnação, haver um período entre vidas, de duração incerta – as hipóteses fazem-na variar de seis dias a dez mil anos. Chamemos «Intervalo» a tal espaço de tempo – que talvez nem seja tempo nem espaço –, coincidente, no essencial, com o Chönyid Bardo de O Livro Tibetano dos Mortos. O conceito de «Intervalo» remete desde logo para uma experiência de libertação, facilmente reconhecível por quem necessita, com urgência, de se deslocar à casa de banho, e sugere que a vida corpórea corresponde igualmente a um interregno – um intervalo entre dois intervalos.  Pensando assim, ter-se-á sempre a sensação de se estar no intervalo. Num jogo de regras obscuras, é esse o modo mais subtil de atingir a idealizada vitória – ou, pelo menos, de desvalorizar a previsível derrota.

domingo, 30 de junho de 2019

As montanhas que se movem

Num texto em que fala de montanhas e cita a passagem bíblica relativa à fé seminal que as pode mover, Giovanni Papini constata que, quase dois mil anos depois, «nenhuma montanha mudou de lugar». E pergunta: «Ter-se-á porventura realizado o milagre sem que ninguém se apercebesse?» Com certeza, Giovanni! E o milagre maior, neste caso, é mesmo o facto de ninguém se ter apercebido.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Nadificando

Eça de Queirós conclui uma das suas crónicas com a ideia de que, «se não fosse o egoísmo senil desse patriarca borracho», ou seja, Noé, «nós hoje gozaríamos a felicidade inefável de não sermos...». De tal felicidade, porque inefável, nada em concreto poderá dizer-se. Mas é possível fazer uma aproximação, usando um «método nadificante», apoiado no exemplo da «faca sem lâmina à qual falta o cabo», de G. C. Lichtenberg. Começa-se então por conceber qualquer realidade como dividida em duas partes. Em seguida, «nadifica-se» o mundo, pensando na «caixa sem exterior a que falta o interior», «na folha sem verso a carecer do anverso», «no signo sem significante, desprovido de significado», «na água sem hidrogénio, privada de oxigénio». Finalmente, «nadifica-se» o eu, imaginando «uma entidade sem espírito a quem roubaram a matéria» ou «uma criatura sem alma a quem subtraíram o corpo». Resultado: ficar-se-á a um passo do não-ser, e sentir-se-á, sem se deixar de ser, a felicidade inefável que do não-ser promana. E também se dispensarão dilúvios, asteróides e chatices similares.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Pensando no esqueleto

Uma das melhores formas de alguém se convencer de que é finito consiste em representar mentalmente, nas mais diversas situações da existência, o seu próprio esqueleto. Se o propósito for convencer-se de que é infinito, precisará esse alguém de recorrer a frases megalómanas, cientificamente duvidosas, repetidas de modo hipnótico. Só que neste último caso, para se ser bem-sucedido, necessário se torna também um poder infinito de persuasão ou uma capacidade infinita de se deixar persuadir. Ambas as hipóteses, no entanto, implicariam resultados imediatos, não fazendo sequer sentido falar em «processo de persuasão». Ou seja, seguir por tal caminho revela uma aparente insensatez. Terão, pois, maior sanidade psíquica, ainda que menos expectativas de absoluto, aqueles que preferem viver sintonizados com os seus ossos.

domingo, 23 de junho de 2019

«Mehr Licht!»

Em O Princípio do Prazer (Retrato de Edward James), René Magritte põe uma explosão de luz onde era suposto achar-se uma cabeça humana. Para lá das evocações psicanalíticas do título do quadro, há ali uma espécie de concretização do ideal de algumas formas de meditação, baseadas em visualizações de grandes luminosidades nos neurónios e à sua volta. Mas talvez esse excesso de esplendor leve a curtos-circuitos no cérebro, com os efeitos funestos que daí decorrem. «Mais luz!» – eis as que terão sido as últimas palavras de Goethe. Tratar-se-ia de um pedido, de uma exclamação ou da constatação de um facto? O certo é que Goethe morreu a seguir. Portanto, e por uma questão de sensatez, temperemos o impulso em direcção à refulgência: «Mais sombra, se faz favor!»