sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Respostas editoriais

Se dado autor enviar o seu original para certa editora, receberá uma resposta – louve-se a boa educação, por ter havido resposta – na qual se destaca um detalhe altamente motivador, expresso mais ou menos nestas palavras: «Das 1500 obras que nos chegam em cada ano, publicamos, em média, apenas duas.» Eis uma interessante paráfrase do último verso que Dante viu escrito por cima da porta do Inferno: «Deixai toda a esperança, vós que entrais.» Toda, em rigor, não: meramente cerca de 99,8%. Dir-se-á que a analogia entre tal editora e o lugar do eterno martírio está longe de ser escorreita. Sim, ter-se-á de aceitar esse reparo. De facto, proceder à análise de 1500 originais para aproveitar somente dois constitui um suplício que até no próprio Inferno é inadmissível.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

«Clickbait»

Na estratégia do caça-clique – a par das imagens «virais» e daquelas que, ainda não o sendo, «prometem correr mundo», mas de que amanhã já ninguém se lembrará, ou do asteróide que «vai passar perto da Terra», isto é, a quatro milhões de quilómetros –, o verbo «derreter» surge com bastante frequência: uma fotografia que derrete os fãs, um gesto que derrete os internautas, um vídeo que derrete as redes sociais. Eis agora o título de uma “notícia” recente, em que tal verbo adquire uma dimensão global, de carácter apocalíptico, atirando para segundo plano qualquer asteróide que ameace o planeta: “O detalhe na chuteira de Ronaldo que está a derreter o mundo.”

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Virtudes da magia

Nascido em Warwickshire, o mesmo condado em que Shakespeare viu a luz, Aleister Crowley, o célebre mágico ocultista que se autodenominava «a Grande Besta», também redigia poemas. «Por estranha coincidência», haveria ele de afirmar, «um pequeno condado deu à Inglaterra os seus dois maiores poetas – pois não se deve esquecer Shakespeare». Os rituais de magia não só preservam a memória como estimulam a imaginação. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Tijolos

Carl Grimberg conta, na sua História Universal, que uma sentença egípcia com mais de 3000 anos narra os delitos de um certo contramestre, entre os quais o roubo, num túmulo, de dois exemplares do Livro dos Mortos, a vida pecaminosa com as mulheres dos trabalhadores que chefiava ou o ter mandado assassinar os subordinados que tencionavam queixar-se dele ao faraó. Um dos divertimentos deste patife consistia em subir a um muro para atirar tijolos sobre os seus operários. Além de ser este, à data, um entretenimento bastante original, não consta que tenha tido imitadores ao longo dos três milénios seguintes. Aliás, as relações laborais sofreram algumas mudanças. Os tijolos também. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

«Partir o telemóvel»

O sujeito poético da letra da canção interpretada, no Festival, por Conan Osíris parece ter o estranho impulso para, intencionalmente, partir e destruir telemóveis – «Eu parti o telemóvel», «Vou estragar o telemóvel», «Quero viver e escangalhar o telemóvel» –, levantando a dúvida de saber se a realização do acto se encontra circunscrita aos seus aparelhos – «Eu só parto aquilo que é meu» –, se igualmente aos de mais alguém – «Eu vou partir o telemóvel / O teu e o meu» –, embora também nos deixe a promessa de que haverá mudança de conduta: «Eu partia telemóveis / Mas eu nunca mais parto o meu.» Em todo o caso, o sucesso da canção pode aumentar o risco de contágio e levar ao surgimento de uma legião de «telemocastas», vocábulo possível para significar «destruidores de telemóveis». Fiquemos atentos. Ao telemóvel, claro. 

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Missão e "ranking"

A missão da escola é, ou deveria ser, formar cidadãos capazes de viver felizes e esclarecidos – conscientes, em simultâneo, de que uma coisa não impede a outra. O ranking das escolas, baseado numa duvidosa noção de «sucesso», dificilmente contribui para esse desiderato. O cenário piora quando, aliando-se a dimensão institucional à esfera individual, surgem notícias com títulos deste género: “Ranking das Escolas: saiba em que lugar ficou a sua.” E o leitor, mesmo sem ligação a nenhuma, passa a acreditar que tem uma escola e que possui, como adepto ou sócio, alguma responsabilidade no tocante à posição que ela ocupa no ranking. Deste modo, a nobre missão da escola é substituída pelo desígnio plebeu de um mero clube de futebol. 

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Junto e separado

Alberto Caeiro afirmava não haver nada mais simples do que o redigirem-lhe a biografia, após ele defunto, a qual só teria duas datas – a da nascença e a da morte –, sendo os dias entre elas pertença sua – logo passíveis de se exprimirem (como o poeta o fez) em um punhado de características pessoais. De facto, a maior parte das vidas é pouco relevante do ponto de vista literário (inclusive a dos literatos), desde o momento em que o indivíduo se separa do útero, ou lugar equivalente, até àquele em que se junta à sepultura, ou equivalente lugar. Aliás, os verbos «separar-se» e «juntar-se», traduzindo o jogo da repulsão e da atracção, parecem suficientes para descrever as várias ocorrências de uma vida. Talvez alguém consiga não existir nem separado nem junto. Mas serão casos raríssimos. Deve aparecer um de dez em dez mil anos. E esse, geralmente, suscita dúvidas ou passa despercebido. 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Túneis

Há traças que furam um volume da primeira à última página sem que, milagrosamente, afectem o texto ou mutilem as palavras. Há leitores que percorrem um livro de ponta a ponta sem que, admiravelmente, empanquem em frases ou tropecem em ideias. É como se aquelas fossem capazes de abrir túneis muito próprios e estes fossem incapazes de abandonar os seus próprios túneis. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O encontro de duas irrealidades

Um jovem observa a irmã a agitar o regador, e pergunta-lhe o que está a fazer. «A regar as flores», diz ela. «Mas são de plástico!», admira-se o rapaz. «Eu sei», responde a moça. «Por isso é que não pus água!» O que suscita humor, neste caso, é o encontro, na mesma situação, de duas irrealidades: a da «não-água» e a das «não-flores». Mudemos para um registo possivelmente menos cómico. Em certo sutra budista, sugere-se que duas irrealidades – a de um eu permanente e a de um mundo consistente –, apoiadas uma na outra, geram as vias do karma irreal. É muita irrealidade junta. Então porque será que isto não costuma provocar o riso? Porque os regadores vazios julgam que deitam água e porque as flores de plástico acreditam que precisam dela. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Piadas (muito) secas

Um número significativo de piadas consideradas «secas» – logo, de humor duvidoso – baseia-se na utilização de termos ambíguos. Se, na mesma anedota, estiverem presentes dois, então talvez a «secura» aumente para o dobro – ou diminua para metade. Vejamos um exemplo, em duas partes. Certo indivíduo, no café, pede a sua habitual bebida, a que foi dado o nome de «piada». Após o primeiro gole, nota que, desta vez, o conteúdo lhe sabe mal. Volta-se para o empregado e diz: «Isto só pode ser uma piada de mau gosto.» No dia seguinte, manda vir o líquido do costume. O empregado põe-lhe à frente um copo vazio. «O que é isto?», pergunta o cliente, indignado. O outro responde: «É uma piada seca.»

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

«Não quero nada»

Intérpretes da filosofia budista, com Schopenhauer à cabeça, afirmarão que para atingir o Nirvana é necessário (quiçá suficiente) extinguir o desejo e anular a vontade. Talvez sirvam então de mantra, nesse processo libertador, dois conhecidos versos de Álvaro de Campos: «Não: não quero nada. / Já disse que não quero nada.» E quando, tocado o cume e obtida a iluminação, alguém perguntar ao discípulo, agora fonte de mestria, «Como conseguiste alcançar o Nirvana?», ele poderá, simplesmente, dar a seguinte resposta: «Não sei. Foi sem querer.»  

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Imagem e autor

Consta que agora, apoiados na distinção entre os «direitos de autor do fotógrafo» e os «direitos de imagem do fotografado», são os paparazzi a processar as celebridades (e, por arrasto, os respectivos fãs), quando estas, ilegalmente, publicam nas redes sociais as fotografias que lhes tiraram aqueles. Mas há algo mais complexo que seria bom ter em conta: o fotografado é também autor (ou, pelo menos, co-autor) da imagem com que surge aos outros e de que o fotógrafo – excepto se lhe foi dada permissão – indevidamente se apropria. Dir-se-á que, com tal abordagem, entramos no plano metafísico, susceptível de obscurecer o caminho do argumento. Não: não entramos nesse plano porque, em rigor, nunca de lá saímos. 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Sair dos labirintos

Escreve Saramago, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, haver «quem diga que a mais segura maneira de sair deles [dos labirintos] é ir andando e virando sempre para o mesmo lado, mas isso, como temos obrigação de saber, é contrário à natureza humana». Talvez não seja tão contrário assim: há quem vire sempre à esquerda e quem o faça sempre à direita. Além disso, não parece ser essa «a mais segura maneira de sair dos labirintos», antes o modo mais eficaz (ainda que inconsciente) de criar novos labirintos, dos quais nem com as asas de Dédalo se conseguirá sair.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

A cauda de Minos

A acreditar em Dante, à entrada do segundo círculo do Inferno encontra-se Minos, um dos juízes desse lugar de tortura. A ele se confessa a desventurada alma, que ficará então a saber em que círculo passará os seus dias eternos. Diante dela, Minos enrola-se tantas vezes na sua própria cauda «quantos graus mais abaixo a endereça» – uma forma original de comunicar a sentença. Quem se creia já condenado poderá sempre imaginar o número de voltas que, exclusivamente para si, verá serem feitas, pela cauda, em redor de Minos. Trata-se de um pensamento quase geométrico, rente à pura abstracção do círculo ou da espiral, capaz de atenuar culpas, portanto bom para ter antes de dormir.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Olhar ou não para trás

Orfeu perdeu Eurídice porque olhou para trás. Lot perdeu Edith (nome não consensual da mulher) porque ela olhou para trás. Eneias perdeu Creúsa porque não olhou para trás. Mas Orfeu saía das trevas do Inferno, Lot escapava às iras do Céu e Eneias fugia das confusões da Terra. Em todo o caso, as perdas particulares dificilmente originam leis universais.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Não ingerência

«Wu wei» é um princípio prático do taoísmo que, literalmente traduzido, significa «não acção», embora haja autores – eventualmente receosos de que a expressão suscite conflitos escusados nos locais de trabalho – que preferem traduzi-lo por «não ingerência». Trata-se, em suma, de viver de modo desprendido, intuitivo, flexível, tolerante, sem tensão nem esforço, em harmonia com os ritmos da natureza. Tal princípio revela-se eficaz na obtenção da tranquilidade e até na conquista da iluminação – excepto talvez quando se tem de lidar com pessoas em geral, com animais agressivos em particular ou com algum extraterrestre visivelmente embriagado.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Obrigado a existir

Um indiano de 27 anos tenciona processar os progenitores – não obstante manter com eles uma relação excelente – por o terem concebido e «obrigado a nascer». O moço parece ignorar um detalhe: a condição necessária para usufruir de direitos – pelo menos no âmbito de uma justiça laica – é precisamente o facto de ter sido concebido, tal como o de ter nascido é a condição necessária para um dia os poder, conscientemente, reivindicar. Por outro lado, se invocarmos a doutrina da preexistência da alma e da reencarnação – crenças que na Índia não constituem novidade –, o cenário é susceptível de se inverter: os pais podem então, igualmente, processar o filho por ele (ainda espírito sem corpo) os ter obrigado a que o pusessem no mundo, sem os avisar de que trazia em si matéria original para um bom estudo psiquiátrico.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Inexistência

Para além, entre outras, da crença de que está morta, a pessoa afectada pela síndrome de Cotard pode igualmente possuir a crença de que não existe, contribuindo, assim, para abalar a universalidade do «Penso, logo existo», o célebre Cogito cartesiano. É como se o sujeito afirmasse: «Não existo, embora pense.» Também o solipsismo – a teoria segundo a qual só existe o eu particular – deparará eventualmente nessa doença com uma expressão da hipótese contrária, a mesma que assaltou, um dia, Raymond Smullyan, que – após quase duas horas a falar com Alan Ross Anderson, justamente sobre o solipsismo – se levantou e disse: «Neste momento creio que todos existem menos eu!» 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Assim-assim

O advérbio «assim-assim» manifesta invejável simetria, pelo que haverá no seu uso maior vantagem morfológica e semântica do que nas expressões «mais ou menos», «nem bem nem mal», «nem muito nem pouco» ou nos termos «medianamente», «sofrivelmente», etc. Acrescente-se o seguinte: se é no meio que a virtude reside e é do meio o caminho que ao lugar mais alto conduz, então aquele extraordinário hífen, com um «assim» de cada lado, devia merecer especial atenção por parte de quem medita e age movido pelo ideal do rigoroso equilíbrio. Dir-se-á que, do ponto de vista da estética literária, o advérbio «assim-assim» não é muito interessante. Sim, mas também não é muito desinteressante. É um advérbio assim-assim

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Mordeduras

Na representação budista da Roda da Vida, o círculo central envolve três animais: um porco (a ignorância), uma serpente (o ódio) e um galo (a avidez). Numa das variantes, o primeiro morde a cauda da segunda, que faz o mesmo ao terceiro, que morde a do primeiro, compondo assim um outro círculo, evocativo de Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda. Mas não convém levar demasiado longe a comparação: Ouroboros – em automordedura – simboliza quase tudo, do eterno retorno à união dos mundos ctónico e celeste. Já aqueles três infelizes – em heteromordeduras – simbolizam os três venenos que se encontram na base das nossas chatices. Criar símbolos é sempre um modo subtil de morder a realidade. 

sábado, 2 de fevereiro de 2019

«Cras»

Consta que Santo Expedito, sujeito à tentação de certo demónio que assumiu a forma de um corvo, após ouvir deste o natural «cras, cras», interpretou tal crocitar como sendo um convite a que adiasse para amanhã (cras em latim) a sua conversão, pelo que pisou o animal, deixando-o defunto, ao mesmo tempo que dizia «Hodie!» ("Hoje!"). É difícil saber o que surpreende mais no tocante a esta narrativa: se a dúbia criatividade do demónio, se o excesso de zelo de Expedito, se a universalidade do latim, se o facto de a lenda não ter sido ainda censurada por uma eventual Associação de Defesa das Aves Injustamente Consideradas Agourentas e Procrastinadoras.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Leitura(s)

Como se sabe, a leitura é plural, quer em tipo quer em modo. Ela pode ser dinâmica, em grupo, recreativa, silenciosa, em diagonal, centrada no título, aprofundada, crítica, fragmentada, integral, focada na badana, informativa, rápida, envolvente, criativa, prática, reflexiva, exploradora da lombada, etc. Daí que à pergunta «O que anda a ler?» qualquer resposta tenha um fundo de verdade, mesmo que o interrogado – e não apenas quando se trata de clássicos – afirme, invariavelmente, que «anda a reler». Mas o mais sensato é declarar: «Eu não falo da minha vida íntima.»

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Quíron

Com uma flecha, Héracles feriu, involuntariamente, o imortal Quíron, deixando-o muito queixoso, de um incurável aleijão. Trocada a perenidade de Quíron pela finitude de Prometeu, o benévolo centauro teve direito a morrer e a libertar-se daquele estado aflitivo. Mas como pode um imortal sentir dores, se elas constituem sempre uma defesa ou um aviso contra a morte? Ou Quíron inventou uma desculpa ou alguém violou as leis da natureza. É bom que se investigue este caso, doa a quem doer.  

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Estar atento

Mindfulness para professores? A ideia é para lá de óptima. Dotar os docentes de competências de foco no instante e de atenção plena, sem julgamento, irritação ou crítica, fazendo-os viver no aqui e no agora, não só constitui um sinal dos tempos – parece que dantes quem tinha de estar atento eram os alunos –, como permite a estes profissionais observar, com maior rigor, de que boca saiu o palavrão, de que mão partiu o soco e se a aula se encontra ou não a ser transmitida, em directo, no Facebook. Finalmente, assim instruído, o professor deixará de sofrer por antecipação e habituar-se-á a sofrer no momento certo. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

«Final four»

A expressão «final four» tem vindo a substituir, não sem equívoco, a palavra «meias-finais». Compreende-se: é que «meias-finais» lembra peúgas de defunto, enquanto «final four» outorga, quando pronunciada, requinte e sensualidade à voz – e permite «pôr na final» alguns clubes que, de outro modo, dificilmente lá conseguiriam entrar. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Nirvana?

Num soneto intitulado “Nirvana”, Antero afirma que, para lá da trapalhada toda que há no «Universo luminoso», existe uma espécie de «vácuo tenebroso». Após ter permanecido absorto nesse espaço escuro, o pensamento, ao voltar a debruçar-se sobre a natureza, apenas vê, com tédio e em tudo, «a ilusão e o vazio universais». Talvez o poeta, quando se refere ao «vácuo tenebroso», esteja a falar não do Nirvana mas de um enorme buraco negro. Ou, metidos uns nos outros, de um conjunto de buracos negros. Aliás, é isso que torna o soneto particularmente brilhante. 

domingo, 27 de janeiro de 2019

O odor da suspeita

Um vegetariano que sinta prazer (e inclusive o procure) ao cheirar peixe assado e carne em idêntica situação – como acontecia, no caso da carne, a um nível talvez sem paralelo na história humana e divina, com o deus do Antigo Testamento – continua a ser vegetariano ou teremos de o excluir da classe? É uma questão chata. A Bíblia não responde. A ciência não ajuda. E as redes sociais assobiam para o lado.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Mudar o «se»

O «não» e o «que» (entre outros) têm perdido, graças a vozes das quais se esperava maior cuidado, o legítimo poder de atrair o «se». Em vez de «Eu acho que se fala bem a língua portuguesa», já se diz com frequência: «Eu acho que fala-se bem a língua portuguesa». Em lugar de «Um texto não se escreve à toa», já se afirma com (ir)regularidade: «Um texto não escreve-se à toa.» Até se fica desorientado. Ou será «até fica-se»? 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Vertical e horizontal

Escreveu Carl Jung: «Quando a era gótica (…) se desmoronou, abalada pela catástrofe espiritual da Reforma, a ascensão vertical do espírito europeu foi detida pela expansão horizontal da consciência moderna.» Ora, qualquer frase em que se contraponha a «ascensão vertical» à «expansão horizontal», sugerindo que uma exclui a outra, fica sempre exposta ao risco de ser lida com «desconfiança oblíqua».

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

As iniciais do meio

Garantem os especialistas que a abreviatura, unicamente com a letra inicial, dos nomes do meio – sobretudo, acrescentamos, se se tratar apenas de um –, escrevendo os extremos por inteiro, faz o indivíduo parecer mais inteligente aos olhos dos outros – e quiçá aos próprios. Em rigor, fá-lo é parecer mais misterioso, como se ele quisesse anunciar ao mundo que abriga no seu espírito, escondidos, tesouros de valor incalculável, em vez do repugnante Minotauro, que por hábito ensombra os labirintos.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Verbos e astros

O facto de «aterrar» não ter tido origem no termo que dá nome ao nosso planeta não impediu o surgimento de verbos afins para descrever o «pousar em corpos celestes específicos» – como «alunar» (na Lua) e «amartar» (em Marte). Adivinha-se, a este nível, um futuro promissor para o vocabulário: «amercuriar», «avenusar», «ajupitar», «auranar», «asaturnar», «aneptunar», «aplutanar», até ao infinito cósmico. Mas os simplificadores linguísticos dirão, nessa altura, ser suficiente o verbo «aastrar», acompanhado da designação do astro em causa. E «aastraremos» na Terra, na Lua e onde for possível. Ou «pousaremos» – e não se fala mais nisso.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O lado oco da Lua

Não devem existir muitos apoiantes da tese de que a Terra seja oca. Já no que se refere ao nosso satélite natural, uma conjectura desse género facilmente ganha adeptos. Ora, se um dia for corroborada a hipótese de que a Lua é, de facto, oca, diminuirá, de forma significativa, o peso que ela ainda tem em certos poemas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

«Fazer presenças»

Diversos famosos, sobretudo aqueles cuja celebridade a televisão ajudou a medrar, costumam «fazer presenças», sendo pagos para isso. Quanto aos obscuros, esses, em tal contexto (e porque o palco já se encontra ocupado), apenas poderão «fazer ausências», sem quaisquer contrapartidas. Mas este último constitui um acto tão extraordinário que não só será invejado, de modo superior, pelo hipotético «Deus omnipresente», como pode tornar irrelevante uma alheia «feitura de presenças».

domingo, 20 de janeiro de 2019

Queima

Fontes fiáveis o asseguram: há cerca de sete anos, um indivíduo que terá comprado, algures na zona do Douro, certo solar provido de vasta biblioteca de edições antigas, talvez raras, entreteve-se, durante uma semana, e auxiliado por dois cúmplices, a queimar livros. Existem factos perante os quais a mão, a língua e o cérebro ficam paralisados no momento de tecer o mais breve comentário.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Distracção

«A minha suprema distracção», escreve Salvador Dalí, «é a de me imaginar morto, devorado pelos vermes». Eminentes pensadores acharão o acto de se distrair uma fuga à morte ou à ideia que dela se tem. Talvez Dalí surja como excepção. Ou como o paroxismo da regra. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A teimosia do fim do mundo

O historiador norte-americano David Montaigne, também autor de páginas proféticas, garante que é desta. Falhou três tentativas, mas à quarta será de vez: o mundo vai acabar a 28 de dezembro de 2019. Até lá, o cavalheiro continuará a vender os seus livros de teor apocalíptico – e terá tempo suficiente para congeminar e escrever sobre uma próxima data.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Olhos vendados

Parece que o filme "Bird Box" suscitou o desafio de andar com os olhos vendados, em casa, na rua, nos montes, no cemitério, no lupanar, e de, eventualmente, fazer um vídeo para que o orbe se inteire da experiência. Adivinham-se – e ocorreram já – lamentáveis desfechos. «A maior cegueira é a de quem não quer ver», dizem os entendidos. A definição está incompleta: a maior cegueira é a de quem não quer ver e, em simultâneo, quer ser visto a não querer ver.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Ressurgimento

1657 dias após a sua morte, este blogue ressuscitou. Ou talvez tenha reencarnado. Da vida anterior conserva certos vícios, sobretudo a tendência para ser irritantemente sintético nos textos que exibe. Preguiça disfarçada. Mas a preguiça tem vantagens, algumas de alcance cósmico: o mundo ainda não se deu ao trabalho de acabar. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

HIBERNAÇÃO

Este blogue encontra-se suspenso por um tempo indeterminado. Grato pela atenção.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

DILÚVIO

     Há duas relevantes estratégias para superar os embaraços desencadeados pelos silêncios da vida social: uma delas consiste em fazer alusões ao estado do tempo; outra, em tecer comentários ao estado a que o país chegou. Existem, no entanto, fórmulas que as sintetizam a ambas. Eis um exemplo, saído de voz tonitruante: «Isto vai tudo acabar em dilúvio!» Trata-se de uma sentença universal, capaz de corrigir qualquer silêncio. Ao invés do dilúvio – que não permite emendar grande coisa.

domingo, 18 de maio de 2014

ZOMBIES

      O zombie é uma criatura idêntica a nós, excepto no irrisório facto de se achar desprovida de consciência. Embora exteriormente vivo, o morto-vivo está intimamente morto. Por conseguinte, ninguém sabe (salvo por analogia) o que é ser ou sentir-se zombie. Isso torna tal entidade um enigma indecifrável, um constrangimento lógico – e até uma aberração metafísica. Não admira que o Pentágono tenha um plano de acção contra um eventual ataque de zombies. Criaturas assim paradoxais são rigorosamente imprevisíveis.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

LETRAS E PSIQUISMO

      Os grafólogos estabelecem correspondências entre as letras e as instâncias (freudianas) do psiquismo: a zona inferior equivale ao id; a média, ao ego; a superior, ao superego. Porém, embora todas «tenham» ego, só a letra «f» acumula as três instâncias. Umas «carecem» do superego, que dita regras; outras, do id, que segue impulsos; várias, dos dois. A escrita à mão parece constituir um irremediável desencontro: nem a regra conhece o impulso, nem o impulso descobre a regra.

sábado, 10 de maio de 2014

MEMORIAL DA NEVE

      Aos oito anos, memorizei a «Balada da neve» de Augusto Gil. Na altura, colhi das nove quintilhas uma impressão situada entre a ampla nostalgia e a pequena catástrofe. Hoje, examinando o arquivo, reparo que os versos ainda constam. Inteiros. Alvíssimos. Poemas fixados na infância e prolongados no tempo terão, decerto, relevantes efeitos existenciais. Trazer a neve, em redondilha fácil, talvez engendre plácida frieza. Entretanto, porém, inevitável, a memória recolhe outras estrofes – que não batem assim tão levemente.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

COSTUME ALTERNATIVO

       Eu costumo dizer que não gosto da expressão «eu costumo dizer que». Estruturalmente, sendo usada para o sujeito se citar a si mesmo, ela não anuncia nada de novo. Aprecio, ao invés, a expressão «eu costumo calar que», se pronunciada só assim, sem complementos – directo, indirecto, oblíquo ou contrafeito – que a tornem vacilante, ineficaz. O que habitualmente se cala tende para o infinito: «eu costumo calar que» promete silêncios robustos; «eu costumo dizer que» antecede frouxas epifanias.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A ARANHA

     No alfarrabista, abrindo um dicionário de filosofia, deparo com minúscula aranha aninhada no pequeno desvão feito por um grosso marcador de livros. Aguardo, para ver o que acontece. O animal não tarda a mover-se: atravessa a teoria do silogismo, galga premissas, vence conclusões, abeira-se da margem, despenha-se no intervalo que separa dois volumes fechados. Parece buscar o sentido da sua existência entre a lógica de Aristóteles e os livros que nunca lerá. Como qualquer um de nós.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

ESPERAS

        No tocante às esperas, quatro fases – variando as idades em que ocorrem – marcam a vida do pessimista. A uma primeira, em que tudo se espera dele, segue-se aquela em que o próprio admite: «Não esperem grande coisa de mim.» Já na terceira fase, em diálogo consigo, o pessimista declara: «Não espero nada de ti.» Por fim, dirá simplesmente: «Não espero.» Depois, é claro, irá embora. Um optimista passa exactamente pelas mesmas etapas. Mas distrai-se com mais facilidade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

NÃO

      Especialistas salientam a dificuldade do cérebro em entender o «não». Daí a vantagem de pensar «Eu sou inteligente» e a nocividade de proferir «Eu não sou estúpido». Estranhamente, Sartre descobriu na raiz daquele advérbio uma estrutura ontológica: o nada, condição necessária do «não», habita o ser, «como um verme». A primeira teoria contradiz a segunda. Ou talvez o cérebro seja um grande «não» – só empenhado em acolher o «sim». Mas tal ideia é francamente absurda. Ou não.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

GÉNESE DE UM SÍMBOLO

      Uroboro, serpente que morde a própria cauda, simboliza várias coisas: autofecundação, eterno retorno, união de opostos, perfeição celeste, roda das existências, etc. Menos inefável, há um vídeo que exibe uma serpente concreta a morder a sua cauda efectiva. Afirmam especialistas que tal comportamento ocorre em animais doentes, sem noção do que fazem. Talvez a génese de Uroboro fosse inspirada nessa enfermidade. Os símbolos esotéricos têm sempre um alcance que nos fascina – e uma origem que nos desilude.

domingo, 4 de maio de 2014

CONFUNDIR AS VIDAS SENTADAS

       Num certo sketch dos Monty Pythona prioridade é «confundir um gato». O animal sofre de tédio, abulia, quebranto. Expondo-o a alguns momentos circenses, tornou-se possível recuperá-lo. Com humanos, seria maior a dificuldade. «A minha vida sentou-se», escreve Mário de Sá-Carneiro. Para rimar, «fartou-se». Como impedir que as vidas se sentem? Como reerguer vidas sentadas? Como «confundir» os mortais, felinos incluídos? Talvez estes problemas garantam que, pela eternidade fora, as vidas dos deuses se mantenham de pé.

sábado, 3 de maio de 2014

NA SOMBRA DA GAVETA

      Trata-se de um volume de poesia, já antigo, de autor obscuro. As folhas, por abrir, reclamam espátula. Do frontispício, no entanto, salta um rectângulo intencional, porventura com estatuto de marcador, no qual se lê, escrito a vermelho, o seguinte aforismo probabilístico: «Talvez este livrinho te faça perder o medo de desenterrar teus versos da gaveta.» Mensagens assim ressumam ambiguidade e algum excesso: não sabemos se o poeta confia exageradamente no nosso talento, se desconfia demasiado do seu.