quinta-feira, 2 de julho de 2020

Pôr tudo quanto se é

«Põe quanto és no mínimo que fazes», recomendava o prudentíssimo Ricardo Reis. Será tal conselho – facilmente memorizável por quem sofra de prisão de ventre – adequado a todas as situações? Melhor do que ninguém, Fernando Pessoa sabia que não: qualquer acto de fingimento exige, precisamente,  não pôr tudo quanto se é naquilo que se faz. Como alternativa, poder-se-á sempre ajustar a sentença e dizer o seguinte: «Faz de conta que pões tudo quanto és no mínimo que finges.» 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Misturas

Misturar versos desencantados com versos dissociativos gera efeitos esteticamente redentores, embora psiquicamente cruéis. Exemplifiquemo-lo, recorrendo a quadras de Camilo Pessanha e Mário de Sá-Carneiro: «Eu vi a luz em um país perdido: eu não sou eu nem sou o outro. A minha alma é lânguida e inerme: sou qualquer coisa de intermédio. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído – pilar da ponte de tédio –, no chão sumir-se, como faz um verme que vai de mim para o Outro…» 

sábado, 27 de junho de 2020

Frases

Condição necessária, todavia insuficiente, para a saúde mental é que, após um súbito acordar a meio da noite, se consiga impedir o surgimento de frases na cabeça, palavras tumultuosas em busca desesperada de sentido. O enunciado anterior, com maior ou menor esmero, germinou precisamente de um estado cerebral que se seguiu a um despertar idêntico ao descrito. Não parece haver remédio linguístico para a alma que não leve a incoerências pouco recomendáveis. Cuidemos, pelo menos, da sintaxe.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Solidões

Certo poema de Eugénio inicia-se assim: «Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.» Acontece a todos. Entretanto, o sujeito poético deveria ter esclarecido se se deitou do lado esquerdo, do direito, de cima, de baixo, de dentro, de fora – ou até se, eroticamente, misticamente, se fundiu com aquela presença (sejamos justos: alguns versos nutrem esta hipótese). A proximidade corpórea de outrem mostra-se irrelevante em tais circunstâncias. É metafísico o relacionamento do eu com a sua irremissível solitude.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Panoptismo Universal

O Deus Omnividente da tradição judaico-cristã vai cedendo lugar (inspiremo-nos em Foucault, que, por seu turno, em Bentham se inspirou) a um Panoptismo Universal: a toda a hora somos observados, vigiados, dissecados e espiolhados. Não nos limitamos, porém, a aceitar esse Olho Impessoal: veneramo-lo, de modo implícito, na selfie, no vídeo, no post, no comentário. Se exigimos o direito à invisibilidade, teremos de fazer por merecê-la. Mas só nos resta, como solução, ir habitar algum buraco negro.

sábado, 20 de junho de 2020

Livros e perdas

Ocupam-nos estantes livros assim: comprámo-los há vários anos e jamais os lemos; abrimo-los ao acaso, e as páginas não ajudam; percorremo-los sem expectativa e sentimo-los (para usar os termos poéticos de Borges) «arduos como los arduos manuscritos / que perecieron em Alejandría». Seríamos outros se os houvéssemos lido na altura certa. Outro seria o mundo se os manuscritos de Alexandria não tivessem perecido na altura errada. Tudo o que existe agora é infinita excepção, resultante de perdas infinitas.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

A estátuas e o Ser

Vandalizar estátuas constitui mecanismo de compensação, quiçá a única estratégia que alguns indivíduos encontraram para conferir sentido à existência: não aguentando quietudes nem silêncios que trazem dentro, necessitam de atacar algo que lhes evoque, numa aparência humana, silêncio e quietude lá fora. Talvez eles não suportem, igualmente, a ideia de Parménides segundo a qual o Ser é imóvel e o resto são meras ilusões. O Ser é uma estátua, erguida em homenagem a ninguém, impossível de vandalizar.

sábado, 13 de junho de 2020

Uma certa ignorância

Os peritos distinguem três tipos de conhecimento: proposicional, prático e por contacto. Sebastião da Gama diz ter nascido para ser ignorante. Mas os parentes dificultaram-lhe a tarefa. Ou talvez lha tenham facilitado: a ignorância em causa implica o abandono da bagagem cognitiva, adquirida ou inata, formada por elementos dos dois primeiros géneros de saber, e a valorização de um contacto inefável e não-invasivo com a realidade. Tal ignorância, arduamente alcançada, difere da outra, mais usual, tacitamente instituída.

                                                                                 Amália - "Nasci para ser ignorante" 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

O bêbado e o filósofo

Entre aquele que bebe em excesso e aquele que filosofa em demasia verifica-se um admirável contraste, partindo do princípio de que não estamos a falar da mesma figura. Aquele que filosofa em demasia procura referências sólidas num mundo líquido. Aquele que bebe em excesso encontra apenas referências líquidas num mundo sólido. Convém, entretanto, lembrar que existem planetas gasosos, alguns dos quais vizinhos da Terra. Neles, nem o filósofo medra, nem o bêbado vinga, nem o trocadilho floresce.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Cleópatra

Muitos daqueles que, aceitando a teoria da reencarnação, procuram clarificar que figuras históricas significativas foram em vidas passadas (talvez para atenuarem a cruel irrelevância da vida que suportam no presente) desejam, acreditam e dizem terem sido Cleópatra. Consta que a célebre rainha costumava tomar banho em leite de burra e dispunha de setecentos animais unicamente apostados em lhe alimentar tal capricho. O futuro não lhe apagaria o talento para ser um ponto de convergência de estranhos apetites.

domingo, 7 de junho de 2020

Solenidades poéticas

Há poemas marcados por solenidades tão circunspectas e confissões tão profundas que só podem ser categorizados como «formas de reverência», inclusive (ou sobretudo) quando não se dirigem explicitamente a uma figura veneranda. Nestes casos, não se inclinando perante um deus, um mortal relevante, uma sequóia, um topázio ou um ouriço, o autor, ainda que em geral de modo inconsciente, busca apenas reverenciar-se a si mesmo – para compensar o triste facto de mais ninguém se lembrar de o fazer.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

(Des)igualdade

Nascemos desiguais, vivemos desiguais, morremos desiguais, desigualmente nos acolhem, do outro lado da lápide, anjos abnegados, crepúsculos indefinidos ou vermes competentes. «Mas uma Igualdade cósmica subjaz a esta ilusão do plural», defende o místico, segredando a si mesmo que «somos todos Um», enquanto fecha por dentro portas e janelas, a fim de garantir, nos encontros agendados com o divino, a maior privacidade e o melhor silêncio para os exercícios metódicos que o levarão a êxtases apenas seus.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Iluminações

Andar pelas ruas da aldeia, essencialmente desertas, é correr o risco de encontrar, à direita, uma casa devoluta, meio arruinada, e, à esquerda, uma casa em construção, abandonada a meio. Em tais circunstâncias, esquerda e direita são rigorosamente permutáveis. O primeiro imóvel evoca um passado que se apaga. O segundo sugere um futuro que se obscurece. Não longe, equidistante de ambos, indisponível (como se meditasse) para transpor as fronteiras do puro agora, ergue-se um poste de electricidade.  Importa garantir iguais oportunidades no acesso à iluminação.

sábado, 30 de maio de 2020

A outra pergunta

Se, com a interrogação «Em que estás a pensar?», o propósito do Facebook é o de espreitar a mente do utilizador, quiçá penetrando-lhe a alma (se ele ainda a não vendeu no eBay), imaginemos quão frutífero não seria alternar tal pergunta com a seguinte, capaz de produzir associações súbitas e de fazer descer o indivíduo interpelado às profundezas do seu inconsciente: «Em que é que não estás a pensar?» Neste caso, por motivos óbvios, qualquer resposta levaria o espírito a entrar em contradição consigo mesmo. Contornado, porém, esse detalhe, não faltaria peixe para a rede.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Solução líquida para os grandes problemas filosóficos

No essencial, são sete os grandes problemas filosóficos, constituindo meia dúzia de inquietudes, que originam cinco momentos interrogativos, susceptíveis de caber em quatro questões, formuláveis em três perguntas, uma delas puro silêncio. Ei-las: «Será chuva? Será gente?» Era neve, mas já se derreteu.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Desconfinados em ambiente rural

É natural que ocorra, hoje, nos caminhos rurais o que a seguir se descreve. Um indivíduo, desconfi(n)ado, ao reparar que um semelhante, em sentido contrário, dele se aproxima, vai-se encostando à esquerda. O outro, igualmente desconfi(n)ado, imita-o, ou assim parece. Ao cruzarem-se, saem-lhes tímidos os bons-dias. Entre eles abre-se um espaço generoso, aprovado por ambos, através do qual pode transitar livremente, sem que incomode ou seja incomodado, um inimigo comum, invisível, inaudível, imperceptível e de baixo nível. Além disso, nenhum dos dois, toldadas as mentes pelo desconhecido terrível a que dão vida, inclina um pouco a atenção para as canoras aves que, em redor, teimam em sobrepor-se à existência da inominável criatura infame.

domingo, 24 de maio de 2020

As duas tartarugas

Aquiles, não obstante os pés ligeiros, foi incapaz de alcançar a tartaruga que Zenão também convocou para um dos seus famosos paradoxos. Ésquilo, reza uma versão da lenda, terá morrido na sequência da pancada da tartaruga que uma águia (confundindo a calva cabeça do dramaturgo com uma rocha) soltou das alturas, a fim de lhe quebrar a carapaça. Zenão queria provar que o movimento é ilusório. A águia forneceu-lhe um terrível contra-exemplo. Aquiles saiu derrotado. Ésquilo saiu de cena. A primeira tartaruga não teve mérito. A segunda tartaruga não teve culpa. Lentamente, ambas partilham agora a mesma eternidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Desapegos

Há aprendizes do desapego que, logo pela manhã, levantam a seguinte pergunta: «Quais são os dez ficheiros que vou eliminar hoje?» E encontram sempre textos inúteis, informação obsoleta, imagens incómodas, esboços burlescos. A reciclagem tudo acolhe, sem aparente queixume. Um dia, afeiçoado a tais varreduras, num vazio crescente que os escassos documentos entretanto criados não preenchem nem seduzem, é o próprio computador que adquire languidez e promete desistência. Até que, num fim de tarde, a máquina deixa de interagir com o ilusório mundo. E o aprendiz do desapego descobre ser mais ou menos aí que também ele se propôs chegar, mas acha que não é necessária tanta pressa.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Leituras de ponta a ponta

Quando um entrevistado declara (ou parece declarar) que leu Platão de ponta a ponta, Aristóteles de ponta a ponta, Kant de ponta a ponta, Camilo de ponta a ponta, Eça de ponta a ponta, e outros, todos de ponta a ponta, é natural que o cidadão comum aplique em si mesmo beliscões capazes de o certificar de que ainda não ganhou estatuto de fantasma, ou corra ao espelho a fim de verificar se este lhe devolve o legítimo reflexo. Até que se faz luz. O que o entrevistado, na realidade, disse ou quis dizer foi que leu, dos referidos autores, algumas das páginas mais significativas ou avançadas (de ponta), solicitando de imediato ao entrevistador que registe ou aponte. Trata-se do encontro de uma sinédoque feliz com uma pontuação malograda: «Li Aristóteles de ponta. Aponta!»

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Saber e ignorar

O imperativo revela-se frequente em sites de informação: «Seja sempre o primeiro a saber.» Claro que o leitor dificilmente poderá ser «o primeiro a saber», excepto se interveio, como protagonista, no facto que motivou a notícia ou se esta foi escrita por um robot inconsciente. Em todo o caso, naquelas situações em que, seduzido pelo clickbait, o internauta se vê obrigado a absorver conteúdos cuja irrelevância é basicamente injuriosa, tornar-se-ia pedagógico e honesto que o «Seja sempre o primeiro a saber» fosse substituído pelo «Seja sempre o primeiro a ignorar». Obviamente que, num cenário assim, também não estaria garantida a medalha de ouro, nem mesmo um lugar no pódio. Mas existiria uma esperança bem maior de que tal viesse a acontecer.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Perfeições

Diz Jonathan Black, na sua História Secreta do Mundo, que nas ilhas da Atlântida «a vida era tão boa que as pessoas não a conseguiram aguentar e começaram a ficar inquietas, decadentes e corruptas, procurando novidade e poder». A perfeição sempre foi demasiado arriscada. Mas mudemos de assunto, para salientar o seguinte: redigir páginas e páginas de carácter opinante sem nunca exprimir a mais ligeira piada ou dar mostras do mínimo sentido de humor constitui uma virtude que nenhuma divindade sisuda saberá premiar adequadamente. Admirável é haver escribas que, a esse nível, atingiram já os terraços da perfeição – e que, ao invés da malta da Atlântida, insistam em manter-se por lá.

sábado, 16 de maio de 2020

Equívoco luminoso

Logo após a entrada na loja, por meio de um expositor encimado com imagens do novo coronavírus, o cliente é informado de três medidas preventivas, consistindo uma delas em «manter distanciamento intrapessoal». O aparente equívoco, além de compreensível, tem algo de fecundo em termos existenciais. Quem de si mesmo sabiamente se distancia já se encontra num processo redentor. Observar, com neutro afastamento, o lado mais perverso do psiquismo próprio gera instantes de elevada pacificação. Claro que essa voluntária cisão interna – entre uma parte boa e outra longe disso – pode não ser suficiente para evitar o contágio. Mas talvez deixe o vírus confuso – e quiçá o paralise – quando ele estiver a decidir qual das partes deve atacar primeiro.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Recomendação

«Logo ao romper da manhã», aconselhava Marco Aurélio, «começa por dizer a ti mesmo: vou encontrar um indiscreto, um ingrato, um insolente, um patife, um invejoso, um egoísta». Se tivermos baixa expectativa de que isso venha a acontecer (porque eventualmente ainda estamos confinados ou por antropológico optimismo), e se a nossa auto-estima o permitir, acrescentemos apenas o seguinte detalhe: «Hoje ver-me-ei, no mínimo, seis vezes ao espelho.»

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Descarrilamento

Do desastre ferroviário de Ermesinde, ocorrido a 11 de Outubro de 1878, resultaram seis mortos, entre os quais o maquinista, e igual número de feridos, entre os quais Camilo. A carruagem (de primeira classe) em que viajava o autor de Doze Casamentos Felizes galgou outras (uma de segunda e duas de terceira) e atravessou-se sobre a locomotiva. M. Talbot, no dia seguinte, fotografou o sinistrado comboio. «Não foi muito amável», escreveria o romancista a José de Azevedo e Meneses, «o repelão que me deu a cariciosa Fortuna; todavia houve-se comigo mais enternecida que com o maquinista». Acontece, porém, que a Fortuna, se da cega divindade romana do acaso e do destino se trata, nem por costume se enternece nem por hábito acaricia. Os seus carris são tão impessoais como aleatórios.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Letra oculta

No teclado que vai permitindo formar o actual texto, a tecla relativa à letra alfabeticamente colocada entre r e t vem patenteando invulgar caturrice, e é com dificuldade que o indicador da canhota lhe arranca o traçado curvo e o introduz na palavra. Dada ao retiro, apreciadora de quietude, entregue ao ócio, tal tecla parece almejar que a não importunem, que a mantenham em tranquila mudez, que lhe não exijam a invenção do plural. Uma tecla altamente ingular.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Quase

«Um pouco mais de sol – eu era brasa, / Um pouco mais de azul – eu era além». No célebre poema que se inicia com estes versos, Mário de Sá-Carneiro descreve uma experiência de quase-vida, que deve ser o contrário de uma experiência de quase-morte. Nestas últimas, viaja-se por um túnel, vêem-se seres luminosos, nota-se o corpo lá em baixo, flutua-se em inefável paz. Já nas experiências de quase-vida não acontece nada de especial. Mas quase.

domingo, 10 de maio de 2020

Sujar-se

«Valerá a pena alguém sujar-se por tão pouco?» Eis uma questão retórica (de resposta implícita), tanto levantada por aquele que, sabendo-se escroque ou desonesto, necessita de anunciar ao planeta que é a criatura mais incorruptível da galáxia e arredores, como por almas impolutas, embora desatentas quanto à flexibilidade moral dessa pergunta. Já a questão «Valerá a pena alguém sujar-se seja lá pelo que for?» costuma ser menos comum, menos retórica – e também menos propensa a sugerir a lama.

sábado, 9 de maio de 2020

Acaso metódico

Geralmente, quando alguém abre ao acaso, e pela primeira vez, o exemplar de um livro que escreveu, depara-se com um defeito: erro científico, descuido gramatical, inconveniência ética, gralha deplorável, infantilidade estilística. Nas raras situações em que tal não se verificou, os olhos estavam seguramente desatentos. Não se trata de milagre nem de coincidência. Trata-se de um método que a natureza humana descobriu para ir ao encontro de si mesma.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Derrota e vitória

No célebre "Se", Rudyard Kipling caracteriza a desgraça e o triunfo como «esses dois impostores». As expressões «Vae victis!» («Ai dos vencidos!») e «Vae victoribus!» («Ai dos vencedores!»), a primeira mais habitual que a segunda e ambas usadas oportunamente por Trindade Coelho para intitular dois dos seus contos, sugerem tal impostura. Existir acima da derrota e da vitória – abaixo não convém – constitui indiscutível ideal de sabedoria. Mas até lá chegar é preciso sentir-se perdedor um número indefinido de vezes. E mesmo assim não há garantia de sucesso.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Acerca da luz

Um segundo após ter sido feita, evento que ocorreu obviamente às escuras, já a luz viajara quase trezentos mil quilómetros. Não de certeza para se afastar do Criador – que então, como agora, era omnipresente e nada lhe escapava. Quando muito, foi apenas para fugir de si mesma – por não suportar a sua própria claridade.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Misantropia

A palavra «misantropia» significa, na sua origem grega, «ódio ao ser humano». Em acepção menos rancorosa, ela consiste na simples «aversão ao convívio social» (não sendo incompatível com ideais filantrópicos). Focando-nos neste segundo sentido do termo, constataremos que a necessidade de usar máscaras e o imperativo de manter distâncias de carácter sociofísico vêm ao encontro dos direitos do misantropo. Ele tem agora um saudável pretexto para não cumprimentar, não sorrir nem ser alvo da halitose alheia. Pena é que o reconhecimento de tais prerrogativas se tenha de fazer numa conjuntura trágica. Misantropos de todo o mundo, uni-vos!

terça-feira, 5 de maio de 2020

"Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate"

«Deixarás de ter medo quando deixares de ter esperança», escrevia Séneca (citando Hecatão) numa das suas cartas a Lucílio. Aceitemo-lo como premissa. De acordo com Dante, há um letreiro a encimar a porta do Inferno com estes dizeres (e outros), em italiano ou no idioma nativo dos infelizes que dela se abeiram: «Deixai toda a esperança, vós que entrais.» Ora, se a esperança é ali retida por imposição, o medo é ali travado por inerência. Abandonado o medo no baú da esperança, fica por esclarecer de que modo os tormentos infernais mantêm a sua eterna e geralmente indiscutível eficácia.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Twain e o cometa

Em 1897, Mark Twain comentou que a notícia da sua morte (veiculada pela imprensa americana) fora um exagero. Nessa altura, mesmo se lhe faltassem evidências biológicas que lhe permitissem inferir ainda pertencer ao mundo dos vivos, talvez o criador de Tom Sawyer estivesse a pensar no facto de que o Cometa Halley – que visitou a Terra no ano do seu nascimento e voltaria no da sua morte – só iria regressar treze anos depois. Em 1909, o escritor terá declarado que esperava morrer (e a profecia cumpriu-se) no ano seguinte: para o Todo-Poderoso, se esses dois fenómenos incompreensíveis (two unaccountable freaks) tinham vindo juntos, juntos deviam ir embora. Mas não se verificou exactamente isso: Twain chegou duas semanas mais tarde do que o cometa e o cometa partiu um dia mais cedo do que Twain. Ao invés da notícia da morte de alguém, a pontualidade nunca será um exagero.

domingo, 3 de maio de 2020

A sabedoria dos bonecos de matraquilhos

Já não tarda o regresso do futebol. Espera-se que os jogadores, usando ou não máscara, saibam manter, no relvado, a necessária distância social. Como a que existe entre bonecos de matraquilhos. Espera-se igualmente que os golos não mais sejam festejados em clímax efusivo, antes aceites de forma tranquila por ambas as partes, sem insultos ao árbitro, à maneira de eventos inevitáveis, resultantes de forças superiores do destino. Como as que regem bonecos de matraquilhos. Espera-se, por fim, que adeptos, dirigentes, técnicos, comentadores ponham de lado o facciosismo estéril, o ardor fanático, os excessos verbais. E aguardem, de modo cívico, pela sua vez. Como fazem os bonecos de matraquilhos.

sábado, 2 de maio de 2020

Fingimento e inquietação

No poema "Isto", dedicado ao lírico fingimento, Fernando Pessoa compara vivências suas a «um terraço / Sobre outra coisa ainda». E acrescenta: «Essa coisa é que é linda.» No final do poema "Inquietação", José Mário Branco diz que há sempre qualquer coisa «que eu devia resolver». Desconhece o motivo; sabe, no entanto, que «essa coisa é que é linda». Estariam ambos a falar do mesmo? Certamente. Falavam de algo que existe para cá do fingimento e para lá da inquietação. Mas não será possível alcançar tal «coisa» sem primeiro passar pela inquietação e pelo fingimento. É a vida.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Idade de Ouro

«E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano?», perguntava o padre Manuel Bernardes, que a seguir respondia: «São navios, que vão buscar muito longe coisas que piquem a língua para comer mais, coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos (…).» Dezassete séculos antes, nas Metamorfoses, dizia Ovídio que, durante a Idade de Ouro, «ainda o pinheiro, cortado nos seus montes, não descera às líquidas ondas para visitar o mundo estrangeiro». Nessa Idade – a Torre de Babel só surgiu depois –, havia certamente um único idioma, pragmático e objectivo, avesso a figuras de estilo, incapaz de navegar.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Sem título


A orelha direita do animal aponta para o céu nublado; a outra surge paralela ao verde pasto. Fazem lembrar as mãos de Platão e Aristóteles na Escola de Atenas. Enquanto assim permanece, a ovelha solta os seus balidos em jeito de mantra: mééééé, mééééé, mééééé. Ao longe, o rebanho a que talvez pertença envia-lhe vagas respostas. À sua frente, o borrego tenta equilibrar-se nas patinhas e vai explorando o mundo, como se dele só esperasse maravilhas e consolos. Ambos procuram ou fingem ser originais. Ao lado, no entanto, há um carreiro inevitável, desenhado no pascigo.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Vazios

De acordo com os entendidos – e digamo-lo poeticamente, recorrendo a um verso de António Gedeão –, «o Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma». (O Criador só trabalhou seis dias, mas isso não explica tal deserto.) Segundo os desentendidos, um asteróide gigante irá colidir, hoje, com a Terra, exercitando em nós a sua ferocidade. Preocupar-se com isto é como embebedar-se: há quem beba para esquecer o seu vazio particular; há quem tema asteróides furibundos – para esquecer o vazio universal.

terça-feira, 28 de abril de 2020

"A Europíada"

       Já o indivíduo se dispunha a abandonar, sem nada adquirir, aquele espaço de venda de livros antigos e usados, preparando-se para endereçar ao alfarrabista a pergunta (em breve revelaremos o seu teor) que previamente concebera a fim de evitar dar a entender haver-se dirigido ali sem um propósito muito concreto, quando avistou uma lombada na qual, em douradas letras, se lia o seguinte: ARTUR BOTELHO / A EUROPÍADA.
       Ficou incrédulo ante a aparição de um exemplar dessa obra que ninguém lê, raros conhecem e poucos folhearam, poema épico sobre a Grande Guerra, composto de vinte e cinco cantos e quase duas mil e quinhentas oitavas, publicado em fascículos entre 1935 e 1937, imitação insólita de Camões, mas numa dose para lá do dobro. O preço não justificava a permanência do volume na estante. Um saco de plástico escuro serviria para o transportar. 
       Em posse do tesouro, o homem entrou, minutos depois, num estabelecimento idêntico. Ali, sim, impor-se-ia a tal questão:
       – Por acaso não tem a Europíada?
       – A quê? – interrogou uma voz feminina.
       – A Europíada, de Artur Botelho…
       – Ah, não! Deve ser um livro recente, e por isso ainda não chegou aos alfarrabistas.
       O sujeito saiu, a pensar na resposta que acabara de ouvir. O saco escuro, numa das mãos, parecia-lhe conter agora o peso exacto do esquecimento. 

       (Segue-se um excerto, em três fotos, retirado do referido exemplar. Nele se narra a luta entre Rogério e os albatrozes. Fonte: Artur Botelho, A Europíada, Canto III, pp. 80-82.)








segunda-feira, 27 de abril de 2020

"Mas por enquanto não"

Santo Agostinho avaliava-se como «jovem miserável» quando recordava os tempos em que implorava a Deus a castidade nestes termos: «Dá-me a castidade e a continência, mas não ainda.» No original: «Da mihi castitatem et continentiam, sed noli modo.» Certo é que, mediante fórmula tão sintética, o moço dirigia ao Senhor três pedidos simultâneos: que lhe enviasse a pudicícia na idade oportuna; que até lá lhe conservasse a lascívia em grau satisfatório; e, claro, que lhe garantisse um tempo de vida suficiente para apreciar o contraste. Ignorando a malandrice, o Altíssimo acabou por responder favoravelmente à prece. Não sabemos se actualmente a súplica teria a mesma eficácia. Recomenda-se, em todo o caso, pronunciá-la em latim, idioma a que a Divindade se habituou. Importa também que seja firme a intenção de receber, um dia, a castidade. No dia do centésimo aniversário, por exemplo. Escusado será dizer que o endereço de e-mail deve ser válido.

domingo, 26 de abril de 2020

"Ouvir, ver e calar"?

Sabemo-lo, pelo menos, desde que D. João Manuel o escreveu no século XV: «Ouve, vê e cala, e viverás vida folgada.» Mas há denúncias impreteríveis, questionamentos necessários, exortações inadiáveis. Além disso, de pouco vale cerrar os lábios, suster a letra, conter o gesto, se o pensamento persistir indómito, a alma em bolandas, a mente em desalinho. Emudecer, portanto, não basta – e nem sempre se recomenda. Cavar um buraco e dizer lá para dentro que o príncipe tem orelhas de burro pode constituir uma alternativa pacificadora. As consequências, porém, são imprevisíveis. Talvez precisemos de ir mais longe e colher algo de profícuo, por exemplo, neste verso, mesmo se obscuro, de Mário Cesariny: «Entre nós e as palavras há metal fundente.» Ou, no mínimo, um intervalo para decidir o que fazer com elas. Aprender quando calar aquilo que se ouve é tão útil como aprender a silenciar aquilo que se cala.

sábado, 25 de abril de 2020

Os livros maus e a alegria

Trindade Coelho conta, na sua autobiografia, que, depois de ter passado os olhos, com desgosto, por uma página de um livro seu de crítica literária que acabara de sair do prelo, e após ouvir o filho pequeno exclamar que o havia de ler quando fosse grande, resolveu dirigir-se ao editor com uma carroça, meteu nela todos os exemplares e, no mesmo dia, atirou-os ao fogo. Que recebeu em troca? Este aforismo: «Queimar um livro mau vale bem a alegria de escrever três livros bons.» Claro: algumas pessoas duvidarão que se colha regozijo na queima de um livro mau, principalmente se lhes repugna a fúria do bibliocasta. Nesse caso, que fiquem cientes de que deve existir um prazer sem mácula no facto de se ter a possibilidade de redigir um livro mau e não o fazer. Exceptuando o que acontece com génios inevitavelmente inspirados, potenciais criadores somente de obras-primas, a alegria de não escrever um hipotético livro mau pode ser fruída, sem esforço, por qualquer um.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Oportunidade espiritual

Em vez de a encararem, à semelhança do que sucedia antigamente, como um castigo decretado pelo Altíssimo, alguns especialistas – quer no âmbito de religiões instituídas, quer no de movimentos alternativos – afirmam que a actual pandemia constitui uma «oportunidade de crescimento espiritual». A tese, decerto irrefutável, não contradiz a hipótese de a «oportunidade de crescimento espiritual» permanecer rigorosamente intacta em tempos de não-pandemia, com a vantagem de, nessas alturas, não ter de se usar luvas, máscaras, desinfectantes, nem se ser habitado pelo receio de vir a hospedar determinado vírus – que já se mostrou capaz de obrigar um número significativo de contagiados a ir «crescer espiritualmente» para outras dimensões.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A traça e os traços

Há livros assim: furou-os a traça da primeira à última página e da última à primeira, detendo-se em algumas delas para aí gravar os seus indecifráveis hieróglifos, e no exemplar em causa (oh, milagre!) nem uma ideia surge beliscada, nem uma frase fica interrompida, nem um termo se mostra dividido, nem uma letra sai injuriada. Por vezes, a traça homenageia o esquecimento.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Os alegados optimistas

Desde o início da pandemia que alguns supostos optimistas, aparentes epígonos de Leibniz, resolveram entrar em cena: que vamos todos ficar de boa saúde, que vai tudo correr pelo melhor, que jamais pelo mundo deslizou tanta maravilha. E a toada persiste, não obstante o facto de já terem morrido mais de 175 mil pessoas. Comunicamos aos outros o nosso “pensamento positivo” somente para responder à urgência do auto-apaziguamento. O alegado optimismo é apenas um desconfortável pessimismo envolvido em palavras doces. Importa acrescentar: o optimista genuinamente radical – Leibniz esteve longe de o ser – existe mergulhado na harmonia cósmica, em êxtase contínuo. E quem existe dessa maneira nunca sente necessidade de dizer seja lá o que for.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Origem da Atlântida

Platão terá ouvido a história da Atlântida narrada por seu primo Crítias, que a ouvira do avô, o qual a ouvira do pai, o qual a ouvira de Sólon, o qual a ouvira de sacerdotes egípcios, os quais a terão ouvido de mais alguém que até poderia ser surdo. É sabido: quem conta um conto acrescenta dois pontos: um que inseriu no conto ao escutá-lo, outro que introduz no conto enquanto o dá a escutar. A Atlântida deve ter emergido assim. Só depois é que submergiu.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O epicurista inofensivo

O poema intitula-se “Epicurista inofensivo”. Camilo cita-o no segundo volume do Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros. Nalguns versos, o vate em causa parece Ricardo Reis: 

«A mais sólida glória a considero
Em que o ‘spírito meu tenha descanso;
Que, qual dum rio o plácido remanso,
Quase sem eu sentir meus dias corram (…).»

O autor é Francisco Lopes de Azevedo, o Conde de Azevedo (1809-1876). Poucos dias antes da morte, assim escreve Camilo, ele «mandou transferir para junto do leito, onde se estorcia em angústias, duas estantes envidraçadas que continham os livros mais raros. Já não os via; mas apalpava-os, e dizia aos seus amigos consternados: “Eles cá estão.”» E o romancista acrescenta: «Queria dizer que estavam ali os seus mais íntimos e prestantes amigos.» Resta saber se os amigos consternados se sentiram ou não ofendidos com a atitude daquele inofensivo epicurista.

domingo, 19 de abril de 2020

Lombadas criativas

Trata-se de uma sugestão para quem superou o dilema de exibir ou não exibir um cenário com lombadas de livros no momento em que tem de ligar a câmara, a fim de contactar com um auditório mais ou menos alargado, e abraçou a primeira alternativa. A sugestão consiste em envolver livros reais com sobrecapas que ostentem nomes de autores forjados, de editoras fictícias e títulos imaginários. Quais as vantagens? Talvez um cenário de obras hipotéticas engendre, no protagonista, a sensação de liberdade associada aos mundos possíveis. Talvez gere nele, inclusive, a crença de que é igualmente hipotético, insubstancial, leve, subtil, até àquele ponto em que se esfume o insustentável peso de existir.

sábado, 18 de abril de 2020

Dúvida apocalíptica

Uma das dúvidas que nos podem ser suscitadas pelos profetas do apocalipse é a de não sabermos ao certo se, quando anunciam as desgraças finais, eles estão a manifestar uma inquietação visceralmente inútil ou a exprimir um desejo longamente reprimido.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Não-pensamento

Nas linhas finais de The Mysterious Stranger, Mark Twain deixa-nos uma passagem nada recomendável para quem ainda tenha apegos fortes. Ouçamos o autor (no original, para atenuar o impacto): 

 “It is true, that which I have revealed to you; there is no God, no universe, no human race, no earthly life, no heaven, no hell. It is all a dream – a grotesque and foolish dream. Nothing exists but you. And you are but a thought – a vagrant thought, a useless thought, a homeless thought, wandering forlorn among the empty eternities!”

Ante esta expressão de solipsismo niilista ou de niilismo solipsista (ou de outro “ismo” qualquer, acompanhado de qualquer outro “ista”), avancemos mais um pouco, rumo ao abismo definitivo, e onde se lê pensamento ousemos ler não-pensamento. Talvez o resultado nos surpreenda. Talvez um fragmento profundamente perturbador se converta num excerto altamente libertador. Vale a pena pensar nisto. Sobretudo quando se pensa em não pensar.