Divina Comédia
«Toda a sociedade que não é esclarecida por filósofos é enganada por charlatães.» (Condorcet)
Sexta-feira, 24 de Maio de 2013
VERIFICAÇÕES
Quando era o
último a sair de casa, retrocedia sempre a fim de confirmar se nenhuma luz
ficara acesa. O exercício, em média repetido três vezes, complicou-se mais ao
surgir-lhe uma ideia desconcertante: «para ver se as lâmpadas se encontram apagadas,
sobretudo em compartimentos sombrios, há a necessidade lógica de as acender». Ultrapassou
este contratempo fazendo-se acompanhar de uma lanterna. Após cada
utilização, retirava-lhe as pilhas: não tinha (assim reflectia ele) qualquer
interesse em duplicar o drama.
Quarta-feira, 22 de Maio de 2013
SUPERSTIÇÕES
As
almas supersticiosas não se limitam a subscrever manifestações consagradas de
pensamento mágico: inventam as suas próprias fórmulas, intermináveis.
Fazendo-o, nutrem a cisão interior: de um lado, a entidade que impõe a lei; do
outro, a que lhe provará os alegados frutos. Tal cisão opõe, de modo radical, o
pé direito – teimosamente o primeiro a transpor a porta, em direcção à rua – ao
esquerdo – que, nessa altura, consegue ser o último a deixar o rasto em casa.
Segunda-feira, 20 de Maio de 2013
GAVETAS EXIGENTES
Escrevia para a
gaveta – isto é, para uma das várias lá de casa. Porém, aquela atitude acabaria
por atear nas restantes o ciúme típico dos compartimentos fechados.
Apercebendo-se do mal-estar geral, optou por escrever para todas as gavetas. Nem
assim contentou a maior parte, ressentida com a mediocridade dos textos. Decidiu
então deixar de escrever para as gavetas. Ainda pensou fazê-lo para baús,
frigoríficos, fornos e tulhas. Mas nada disso valia a pena. Já chegava de
aborrecimentos.
Sábado, 18 de Maio de 2013
TRINDADE E FUTEBOL
Baseando-se
em Gregório de Nissa, Karen Armstrong salienta, em Uma História de Deus, que no século IV as pessoas discutiam
questões teológicas, sobretudo as ligadas à Trindade, com um entusiasmo igual
àquele com que hoje se discute futebol. Convém, todavia, sublinhar que a qualidade
do entusiasmo é inseparável da natureza da argumentação: no caso da Trindade,
as discussões, em geral sérias, terminam facilmente no vazio; no caso do
futebol, as discussões, amiúde vazias, culminam facilmente no ridículo.
Quinta-feira, 16 de Maio de 2013
O VENDEDOR DE METÁFORAS
Vendia
metáforas. O pregão esconjurava lugares-comuns: «Metáfora fresquinha!» Cada
caixa encerrava, em papel, um exemplo daquela figura de estilo. Certo dia, já fraco
o negócio, um cliente, poeta medíocre em busca de fama, recebera uma caixa sem
nada dentro. Insatisfeito, voltou-se para o vendedor, erguendo o objecto à
altura dos olhos: «Não vejo aqui metáfora nenhuma!» O outro, que o conhecia
bem, retorquiu: «Isso não me surpreende.» E, após essa data, optou pela venda exclusiva
de ironias.
Terça-feira, 14 de Maio de 2013
O LUGAR DAS DÚVIDAS
Era
acérrimo seguidor do cepticismo de Pírron. De nada estava certo, nem sequer
disso mesmo. Esse esquema intelectual conduzia-o a intoleráveis regressões ao infinito.
As suas dúvidas tinham adquirido vida própria e adejavam em seu redor como
abutres em torno de um cadáver. Dispunha, no entanto, de uma «verdade póstuma»,
que escolheu para epitáfio: «Aqui descansam as minhas dúvidas.» Enganara-se. Após
a morte, elas rumaram aos espaços vazios. Nenhuma dúvida, por natureza,
conhece a plenitude do repouso.
Domingo, 12 de Maio de 2013
GOSTAR DE LER
«Gosta
de ler?» A resposta, se afirmativa, culmina frequentemente na aceitação do estéril
pasquim, da revista paupérrima, do livro que pede clemência pelo simples facto
de existir. Pior é se a isto se junta a obrigação social da leitura. Ora «gostar
de ler» não equivale a «gostar de ler tudo». Se ambas as partes tiverem em
conta este genuíno preceito relativamente ao exemplar em causa, talvez lhe adiem
o ingresso no contentor – ou noutras filiais do esquecimento.
Quinta-feira, 9 de Maio de 2013
DECLÍNIO
Políticas lamentáveis
haviam conduzido aquele país a um generalizado declínio. Em certa rua, outrora exclusivamente
destinada ao comércio, todas as lojas tinham encerrado portas. As montras surgiam
agora forradas a páginas esquecidas de jornal. Tal rua convertera-se num espaço
onde se passaram a criar grupos espontâneos que discutiam assuntos irrelevantes
ou forjavam silêncios duradouros. Psicólogos e sociólogos explicavam estes comportamentos
dizendo que uma das formas de ainda nos sentirmos vivos é mantermo-nos de pé
entre notícias mortas.
Terça-feira, 7 de Maio de 2013
«NO MAN’S LAND» E «NOWHERE MAN»
Garante Bertrand Russell que a filosofia,
zona intermédia relativamente à teologia e à ciência, é uma «Terra de Ninguém».
Poderá ver-se aí o pólo oposto do «Homem de Lugar Nenhum», que os Beatles concederam à posteridade.
Mas «lugar» é sempre mais pessoal que «terra». Por conseguinte, a «Terra de Ninguém»
jamais exclui o «Homem de Lugar Nenhum», antes lhe oferece o espaço necessário à
invenção do seu «lugar» e do «alguém» que nessa «terra» ele procura ser.
Segunda-feira, 6 de Maio de 2013
PARA AUTORES POTENCIAIS DE LIVROS DE AUTO-AJUDA
Quem
tencione escrever um livro de auto-ajuda deve basear-se nos ditames «Pensa
positivo!» e «Agarra o instante!», banir de todo a análise crítica e adoptar um
discurso convencional, onde não faltem «energias» e «visualizações». Para redigir
um segundo livro de auto-ajuda, importa suprimir a tentação de inovar
relativamente ao primeiro. Leitores fiéis de literatura do género chegam
mesmo a temer irrupções inquietantes de originalidade eventual. Em vez de tal coisa,
esperam só que a «ajuda» se repita.
Sábado, 4 de Maio de 2013
A GARGALHADA
Em certa publicidade,
a senhora dona Florinda apresenta o seu testemunho: «No meu tempo era uma tristeza.
Não havia nada. Agora há tudo. Comíamos pouco, trabalhávamos muito.» A estas palavras
segue-se uma gargalhada aparentemente inoportuna. Numa altura em que o Governo anuncia
novas medidas de austeridade, no que se afigura o projecto de uma austeridade sem
medida, aquela gargalhada sugere-nos menos satisfação do que ironia, menos a crença
num cenário próspero que um vaticínio de índole nefasta.
Sexta-feira, 3 de Maio de 2013
RUMO AO SILÊNCIO
Em poucos anos,
aquele país conheceu três acordos ortográficos: no primeiro eliminaram-se as
«consoantes mudas»; no segundo, as «não mudas» (apesar do sentido alternativo
da expressão, a mudança revelou-se pacífica); no terceiro aboliram-se as
vogais. Hoje, comunica-se essencialmente através dos liames do pensamento. Publicam-se
livros que se reduzem a capas, sem indicação visível de autor, título ou
editora, unidas por lombadas de tamanho variável. A leitura, dizem os
especialistas em silêncio, nunca foi tão solene e criativa.
Quinta-feira, 2 de Maio de 2013
TRANQUILIDADE E DIFERENÇA
Se ouvirmos um canalha,
no âmbito de uma óbvia canalhice, afirmar que está de consciência tranquila,
tendemos a supor que ele mente ou, então, não sabe do que fala. Abandonemos a
inocência desta disjunção. Pode suceder que tal canalha saiba exactamente do
que fala e, pior que isso, esteja mesmo tranquilíssimo de consciência. Se adoptamos
o princípio da diferença para respeitar os direitos do outro, adoptemo-lo
igualmente para afastar ilusões quando o outro decide desrespeitar os nossos.
Quarta-feira, 1 de Maio de 2013
A CONCRETUDE DA ABSTRACÇÃO
Procurar saber o momento certo para arralentar milho constitui uma preocupação formalmente diversa da de buscar esclarecer as relações entre «essência» e
«existência». Tolerando alguma inexactidão, daquele problema se diz ser
«concreto»; deste, «abstracto». Convém, todavia, lembrar que os efeitos
corporais – do cérebro ao fígado, do mendinho ao artelho – são, para ambos os
casos, igualmente concretos. Daí se conclui que, em termos simultaneamente biológicos
e estatísticos, ninguém se afasta do «mundo concreto» ao entregar-se à
digressão abstracta.
Terça-feira, 30 de Abril de 2013
REBUÇADOS CAMONIANOS
Um pacote de rebuçados peitorais exibe o semblante de Camões. Que tipo de associação
se fará do produto ao inolvidável poeta? Ela deve ser encontrada em três
expressões ali inscritas. «Sabor original», a primeira, dispensa esclarecimentos.
«Rebuçados peitorais», a segunda, traz à memória o «peito ilustre Lusitano». «Alívio
da rouquidão», a terceira, sugere uma resposta, embora incompleta, ao drama subjacente
a estes versos: «No mais Musa, no mais, que a Lira tenho / Destemperada
e a voz enrouquecida (…).»
Segunda-feira, 29 de Abril de 2013
ACEITAÇÕES
Consta: se o espírito
aceitasse integralmente as coisas tal como elas são, encontraria nessa atitude
remédio para todos os males. Pois... Mas, se as coisas aceitassem o
espírito tal como ele é, não haveria males nem exigências de remédio. De
qualquer modo, considere-se embora a «aceitação» um princípio de sabedoria ante
os irreparáveis desequilíbrios do corpo, dificilmente ela merece idêntico
estatuto se adoptada perante um mundo que teima em albergar vermes com a
aparência de seres humanos.
Domingo, 28 de Abril de 2013
CARTÃO E RAPOSA, PARADOXO E DISSONÂNCIA
Num dos
lados do cartão lê-se que a afirmação escrita no lado oposto é falsa; neste, lê-se
que a afirmação do lado contrário é verdadeira: uma asserção estabelece a
falsidade daquela que a avalia como verdadeira; outra decreta a verdade daquela
que a avalia como falsa. Tal cartão, misturando o falso e o verdadeiro, sintetiza
o conflito da raposa da fábula, dividida entre o verdadeiro apetite por uvas maduras e a falsa convicção de as achar verdes.
Sábado, 27 de Abril de 2013
VIGIAR EXAMES
O
Ministério da Educação confia nos professores, desconfiando dos alunos: nas
salas de exame, os primeiros vigiam os segundos. Mas há limites: os vigilantes devem
ser escolhidos de entre os que não leccionam a disciplina sobre que incide a
prova. Além da suspeição, adivinha-se aqui um grave pressuposto, certamente acompanhado
por um desejo infame: o pressuposto de que os professores são ignorantes em matérias
de disciplinas alheias e o desejo de que nunca deixem de o ser.
Sexta-feira, 26 de Abril de 2013
PENSAR EM NADA
Existirá
o «pensar em coisa nenhuma»? Provavelmente não. Sendo o pensamento, em
princípio, uma estrutura consciente, espera-se que lhe corresponda algum
objecto. Quando muito, poderemos aproximar-nos da ausência de objecto, desde
que reconduzamos este à maior indeterminação possível, dissolvendo imagens
concretas, fintando deambulações abstractas. Se «não há machado que corte a
raiz ao pensamento», não há serra que o separe dos ramos inevitáveis.
Sobram-lhe duas opções gerais: produzir frutos de valor incerto ou tornar a
folhagem indistinta.
Quinta-feira, 25 de Abril de 2013
ACERCA DA DISCIPLINA AUTO-IMPOSTA
A
disciplina auto-imposta constitui uma garantia de que haverá obra. Mas o problema dela
resultante consiste na formação de um eu paralelo, susceptível de assumir o
poder de ditar regras e infligir punições. Evita-se que ele surja – ou
neutraliza-se o surgido entretanto – ao reconhecer-se que a tendência para
ajustar o contexto à disciplina se deve submeter, quando necessário, ao bom
senso de moldar a disciplina ao contexto. Em geral, os tiranos começam por aplaudir a submissão oposta.
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